Sala do editor

O pintassilgo

Por André Conti

Foto: Gijsbert van der Wal

O pintassilgo, romance de Donna Tartt, vem causando alvoroço no mundo inteiro. Para além do gigantesco sucesso comercial — ele está há mais de quarenta semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e foi best-seller em todos os países onde foi publicado —, O pintassilgo é um daqueles casos raros em que tudo que gostamos em literatura se encontra num único livro: numa escrita primorosa, Tartt conjuga arte, amor, suspense, aventura e drama. Não por acaso, O pintassilgo tornou-se também um retumbante sucesso de crítica, tendo arrancado elogios de resenhistas, escritores e leitores. Para coroar esse sucesso, recebeu ainda o prêmio Pulitzer de melhor romance, o mais prestigioso prêmio americano de literatura.

O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino. Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte. Espero que você aproveite a leitura como nós aproveitamos.

Leia um trecho de O pintassilgo (tradução de Sara Grünhagen).

* * *

I

Enquanto ainda estava em Amsterdam, sonhei com minha mãe pela primeira vez depois de anos. Já estava trancado no hotel havia mais de uma semana, com medo de ligar para quem quer que fosse ou de sair; meu coração disparava e vacilava com os ruídos mais inocentes: a campainha do elevador, o arrastar metálico do carrinho de minibar, até os sinos de igreja dando as horas, De Westertoren, Krijtberg, as badaladas um tanto sombrias, uma sensação intrincada de morte saída de um conto de fadas. De dia eu ficava sentado aos pés da cama me esforçando para tirar algum sentido das notícias em holandês na televisão (o que era inútil, já que eu não sabia uma palavra em holandês) e, quando desistia, sentava perto da janela e ficava olhando o canal com meu casaco de pelo de camelo por cima das roupas — pois eu tinha saído às pressas de Nova York e as roupas que levara não eram quentes o suficiente, mesmo num ambiente fechado.

Lá fora, tudo estava agitado e alegre. Era Natal, luzes piscavam nas pontes do canal à noite; dames en heren corados, os cachecóis balançando no vento gelado, desciam sacolejando pelas calçadas de pedras com árvores de Natal presas na traseira das bicicletas. À tarde, uma banda amadora tocava canções natalinas que ficavam suspensas no ar do inverno, metálicas e frágeis.

Bandejas de serviço de quarto caóticas; cigarros demais; vodca morna de free shop. Durante aqueles dias agitados de confinamento, fiquei conhecendo cada centímetro do quarto como um prisioneiro vem a conhecer sua cela. Era minha primeira vez em Amsterdam; não tinha visto quase nada da cidade, mas o quarto em si, com sua beleza sombria, açoitado pelo vento e esbranquiçado pelo sol, dava uma ideia fiel do norte da Europa, um modelo em miniatura dos Países Baixos: probidade caiada e protestante, misturada com um luxo exótico trazido do Oriente por navios mercantes. Passei uma quantidade absurda de tempo examinando cuidadosamente dois minúsculos óleos com molduras douradas pendurados sobre a cômoda, um de camponeses patinando num lago congelado perto de uma igreja, outro de um barco à vela balançando num mar agitado de inverno: cópias decorativas, nada especial, embora eu as tenha estudado como se tivessem, criptografada, alguma chave para o misterioso segredo dos velhos mestres flamengos. Lá fora, chuva e neve batiam contra as vidraças e caíam suavemente sobre o canal; e embora os brocados fossem finos e o carpete fosse macio, ainda assim a luz do inverno tinha um tom frio de 1943, privação e austeridade, chá fraco sem açúcar, ir dormir de estômago vazio.

Cedo pela manhã, enquanto as luzes ainda estavam apagadas, antes que os outros funcionários chegassem para trabalhar e o saguão começasse a encher, eu descia para pegar os jornais. Os funcionários do hotel moviam‑se falando baixinho e com passos silenciosos, os olhares me atravessando friamente como se não estivessem me vendo de fato, o americano no 27 que nunca saía do quarto durante o dia; e eu tentava me tranquilizar pensando que o gerente da noite (terno escuro, cabelo bem curto, óculos de armação de tartaruga) provavelmente faria o possível para evitar problemas ou um escândalo.

O Herald Tribune não trazia nada sobre minha situação, mas a história estava em todos os jornais holandeses, densas colunas de texto estrangeiro que se mostravam, cruelmente, fora do alcance da minha mente. Onopgeloste moord. Onbekende. Subi e voltei para a cama (totalmente vestido, pois o quarto era gelado demais) e espalhei os jornais sobre a colcha: fotos de viaturas, fitas de isolamento de cena de crime, até as legendas eram impossíveis de decifrar, e, embora não parecessem citar meu nome, não havia como saber se traziam uma descrição minha ou se ocultavam informações do público.

O quarto. O aquecedor. Een Amerikaan met een strafblad. A água verde‑oliva do canal.

Como estava com frio e doente, na maior parte do tempo sem saber o que fazer (eu tinha me esquecido de trazer um livro, assim como roupas quentes), ficava na cama quase o dia todo. A noite parecia chegar no meio da tarde. Com frequência — em meio aos ruídos dos jornais espalhados —, eu ficava oscilando entre dormir e acordar, e meus sonhos, em sua maioria, ficavam turvados por aquela mesma ansiedade indeterminada que escorria para as horas de vigília: processos judiciais, malas abertas na pista com minhas roupas espalhadas por toda a parte e corredores de aeroporto intermináveis por onde passava correndo para pegar aviões que sabia que jamais ia alcançar.

Graças à minha febre, tive um monte de sonhos estranhos e muito intensos, suando e me debatendo sem saber se era dia ou noite, mas na última e pior dessas noites sonhei com minha mãe: um sonho rápido e misterioso que pareceu mais uma visita. Eu estava na loja de Hobie — ou, mais precisamente, em algum espaço onírico e assombrado projetado como uma versão grosseira da loja — quando ela apareceu de repente atrás de mim, de modo que vi seu reflexo num espelho. Ao vê‑la, fiquei paralisado de felicidade; era ela, em cada detalhe, o exato padrão de sardas, e sorria para mim, mais bonita e nem um pouco mais velha, o cabelo preto e o trejeito engraçado da boca, não um sonho, e sim uma presença que enchia completamente o ambiente: uma força toda dela, uma alteridade viva. E, por mais que eu quisesse, sabia que não podia me virar, que olhar diretamente para ela era violar as leis do seu mundo e do meu; tinha vindo até mim da única forma que podia, e nossos olhos se mantiveram fixos um no outro através do espelho por um bom tempo ainda; mas quando ela estava prestes a falar — com o que parecia ser uma combinação de deleite, carinho, exasperação — uma névoa se formou entre nós e eu despertei.

Continue a leitura neste link.

Aula final

Por Lilia Moritz Schwarcz e Luiz Schwarcz

Foto: Stephanie Mitchell/Harvard Staff Photographer

Nicolau Sevcenko era uma pessoa inesquecível. Costumava dizer que havia nascido canhoto: gauche seria uma boa definição para ele. Diferente, na verdadeira e única acepção da palavra, ele pensava e agia de maneira única e pessoal. Fosse por sua aparência — sempre de preto, com seu cabelo amarelado e partido para o lado de uma forma que ninguém entendia —, fosse por sua interpretação pessoal da vida e dos fatos presentes ou passados, Nicolau era sempre Nicolau.

Nicolau era um professor brilhante, que cativava os estudantes e colegas com suas citações eruditas, que iam da literatura aos fatos mais cotidianos e corriqueiros. Por isso, arrastava legiões de fãs aqui, na USP, e mesmo em Harvard, onde lecionava desde 2010.

Nicolau era também um pesquisador incomum, que sempre procurava, e encontrava, um ângulo inesperado, um lado da história que ninguém havia imaginado.

Quando publicou Revolta da vacina (1983) pela Brasiliense, na nova coleção Tudo é História, já chamou atenção por conta da sua visão original; sempre atento e identificado com as questões que assolavam a população e machucavam seu cotidiano.

Em Literatura como missão, (1985) Nicolau colocava em diálogo Lima Barreto, Euclides da Cunha e o contexto conturbado da Primeira República. Era a primeira vez, entre nós, que um historiador estabelecia um paralelo fino entre literatura e vida política.

Com Orfeu extático na Metrópole (de 1992) aprendemos a ver um novo modernismo e a refletir sobre as ciladas do novo ideário que se montava na pauliceia do começo dos anos XX.

Para a coleção Virando Séculos, que coordenei com Laura de Mello e Souza, Nicolau escreveu um volume excepcional e que ganhou vida própria: A corrida para o século XXI. Estávamos no começo do século, em 2001, e Nicolau já dava uma de arauto — certeiro — e previa o ritmo alucinado que nos esperava.

Nicolau também participou comigo da coleção História da Vida Privada, coordenada por Fernando Novais e que contava também com a presença de Laura de Mello e Souza e Luiz Felipe de Alencastro. Sempre da sua maneira — ao revés —, Nicolau, que deveria seguir com seu volume até o final do século XX, insistiu em manter-se fiel à sua barreira dos anos 1930. Fez um volume coletivo no verdadeiro sentido da palavra e explorou mais uma vez as falácias do projeto moderno. Trapaceou com o tempo que nós, historiadores, tentamos sempre organizar.

Vi Nicolau pela última vez em Princeton, no começo de 2014, em um seminário internacional organizado por mim, Bruno Carvalho, João Biehl e Pedro Meira Monteiro. Nicolau chegou com seu jeito tímido, atento e sorridente, e simplesmente arrasou. Ele era bom em descrever o tempo, mas não para controlá-lo. Passou rapidamente do limite austero dos vinte minutos e logo chegou aos quarenta. Mas ninguém ligou. Afinal, era Nicolau que estava lá na nossa frente, mostrando imagens malucas de projetos científicos e dizendo coisas que todos queriam ouvir e nunca haviam imaginado. Nem o tempo certeiro dos relógios americanos controlava Nicolau.

Atualmente ele andava ocupado, fazendo um projeto sobre Hélio Oiticica para a coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. Não deu tempo. Com certeza seria um Oiticica totalmente diferente daquele de quem todos nós ouvimos falar. Cheio de panos que giram, de tropicálias que dialogam com a história.

A morte súbita é sempre um pesadelo, e levou Nicolau muito antes do final da sua aula inaugural, da sua grande lição. Essa não teria mesmo data e hora para acabar.

Lilia Moritz Schwarcz

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P.S: A morte de Nicolau Sevcenko num dia já trágico para o Brasil é difícil de assimilar. Conheci Sevcenko no meu primeiro emprego, na editora Brasiliense, tendo encomendado dele, em 1981 ou 1982, um livro para a Tudo é História, a primeira coleção que dirigi integralmente como editor. Na ocasião eu tinha 25 ou 26 anos, e ele, 28 ou 29. Nicolau se preparava para despontar na carreira acadêmica com seu livro Literatura como missão, e eu nem sonhava em ter minha própria editora — para onde ele acabaria transferindo o livro que se originou de sua tese de doutorado e publicando tantos outros. Nicolau também ministrou a meu pedido, no auditório da FGV, um curso de história contemporânea, aberto para o grande público, parte de um projeto que foi uma das últimas realizações no meu antigo emprego. Os cursos da Brasiliense eram oferecidos para mais de trezentos alunos. Lembro bem como Nicolau magnetizava essa vasta plateia, composta por pessoas que hoje podem estar dirigindo empresas, partidos, lecionando para outras centenas de pessoas, criando a melhor arte e literatura produzidas no Brasil.

Quantos alunos brilhantes Nicolau deixou órfãos ontem? Com certeza ele se alegrava em saber que esses alunos já estão em seus postos, andando com as próprias pernas, incentivados pelo magnetismo das palavras e ensinamentos de um grande professor. A imagem de Nicolau falando para uma plateia jovem e ávida se junta em minha mente, nesse momento de despedida, à do escritor brilhante de tantas obras fundamentais. Nicolau Sevcenko partiu, mas seus livros e alunos ficaram e vão ajudar a mudar o país.

Luiz Schwarcz

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Ódio mortal

Por Júlia Moritz Schwarcz


Mais uma onda de embates entre israelenses e palestinos, que dessa vez assume o tamanho e o nome de guerra. Com o evento chegam as notícias, os artigos, os posts no Facebook, as fotos das crianças machucadas. Olhando pra tudo isso, repito uma frase pra mim mesma quase sem perceber. Por que tanto ódio? Mas por que tanto ódio? Há muitas questões políticas em jogo, mas o que ressoa com mais força é mesmo o aspecto humano. O ódio milenar que move essas pessoas a sequestrarem, matarem e queimarem uns aos outros.

Tenho me lembrado constantemente de um livro que editei há um ano e pouco, chamado Uma garrafa no mar de Gaza, de Valérie Zenatti (tradução de Julia Simões). Nele, uma israelense de 17 anos chamada Tal escuta uma bomba explodindo no café ao lado da sua casa. Em mais um atentado morrem seis pessoas, entre elas uma garota que se casaria em poucos dias. Enquanto a mãe de Tal corre para pegar o celular e ao mesmo tempo ligar a TV e o computador (como faz nos recorrentes atos de terrorismo que se sucedem no dia a dia), Tal toma um copo de vodka com limão e vai dormir, bastante perturbada com toda a situação. No dia seguinte, no meio de uma aula de biologia, ela acaba escrevendo uma carta para um palestino, movida por essa mesma pergunta que fica martelando na minha cabeça. “Cresci com a ideia de que entre os palestinos e nós poderia haver outra coisa além de corpos dilacerados, sangue e ódio”, ela diz a certa altura. Tal quer entender como um palestino se sente frente a essa situação, e como tem um irmão que é enfermeiro militar servindo perto de Gaza, coloca a carta em uma garrafa e pede para que ela seja jogada no mar. Na carta, indica um endereço de e-mail para poder receber uma resposta. Ela vem, assinada por um tal de Gazaman, e dá início a uma longa troca de ideias entre os dois.

Desconfortável, é claro, diante desse conflito sem fim no Oriente Médio, me sentindo bem idiota frente a qualquer posicionamento que eu possa tomar, fui reler o livro e me comovi mais uma vez com muitas coisas que são ditas ali. A primeira carta de Tal é bem sensível e real, por isso pensei em compartilhá-la aqui. Quem sabe ela também ecoe dentro de você.

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Prezado você,

Se um dia ler esta carta, já saberá algumas coisas sobre mim. Você conhecerá meu nome, minha idade, a profissão de meu pai, o nome de minha melhor amiga e até mesmo o sobrenome de meu professor de história.

De minha parte, ignoro tudo sobre você.

Imagino que você tenha longos cabelos escuros, olhos castanhos e — não sei por quê — um ar sonhador.

Imagino que você fique triste com frequência.

Imagino que você tenha a mesma idade que eu, mas não sei se, aos dezessete anos, você se sente muito velha ou muito jovem.

Imagino que as batidas de seu coração às vezes se acelerem, por quem?

Imagino que você se pergunte, como eu, quem você será em dez anos, e que você não consiga ver nada com muita clareza.

Imagino que você tenha irmãos que a incomodem, mas que você, mesmo assim, os ame.

Sabe, comecei a escrever essas páginas logo depois do atentado que ocorreu perto de casa. Ainda hoje ouço o terrível “bum” e não fico nem uma hora sem ver o rosto sorridente e os cabelos lisos da moça que iria casar.

Você com certeza deve saber que, quando há um atentado, todo mundo se pergunta como os palestinos podem fazer isso, matar inocentes. Eu também me fiz essa pergunta várias vezes.

Então pensei que não tinha sentido nenhum dizer “os palestinos”. Porque aí, como aqui, necessariamente existem gordos e magros, ricos e pobres, bons e maus.

Sinto muito medo e muita esperança ao escrever para você. Nunca escrevi uma carta para alguém que não conhecesse. Dá uma sensação estranha. Não tenho certeza de estar conseguindo dizer o que quero.

Talvez você rasgue esta carta e as páginas anteriores. Talvez você só sinta ódio ao ouvir o nome Israel. Talvez você zombe de mim. Ou talvez você simplesmente não exista.

Mas, se esta carta tiver a sorte de encontrar você, se você tiver paciência de lê-la até o fim, se você pensar como eu, que precisamos aprender a nos conhecer, por mil bons motivos, a começar por nossas vidas, que queremos construir em meio à paz porque somos jovens, então me responda.

Não sei mais o que dizer, não sei se o que estou fazendo é bom ou ruim, loucura ou simplesmente excentricidade, útil ou inútil.

Vou colocar estas folhas dentro de uma garrafa, a que bebemos no dia 13 de setembro de 1993. Papai e mamãe a guardavam como recordação daquele grande acontecimento, mas azar, direi a eles que a quebrei.

Entregarei a garrafa a Eytan. Confio nele: ele não dirá nada a ninguém. E ele fará o que eu pedir: jogará a garrafa no mar, onde você mora, em Gaza.

Claro que se Efrat soubesse de tudo isso ela me diria que uma garrafa ao mar não é um meio de comunicação no mundo moderno, que estou vivendo num filme. E eu responderia que, justamente: quero fazer cinema. Mas tenho a ideia de que, para fazer filmes, é preciso primeiro conhecer bem a realidade.

Não sei se o correio funciona direito entre os territórios palestinos e nós, se há censura. Então vou passar para você um endereço eletrônico que criei especialmente para você: bakbuk@hotmail.com.

Pronto, espero que você me responda. É um pouco banal isso, mas é a verdade: realmente espero.

Saudações,

Tal

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Júlia Moritz Schwarcz é editora do selo Companhia das Letrinhas e publisher da Editora Seguinte.

O gesto de Andrew Solomon

Por Sofia Mariutti


Quando me consultei pela primeira vez com minha atual psiquiatra, estava resistente a sair de lá com uma receita de antidepressivo, então saí com a receita de ler O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon. Eu já estava trabalhando na edição de Longe da árvore, o livro mais recente do autor, e sabia que a obra anterior também era monumental, mas só com a prescrição médica tomei coragem de enfrentar aquelas muitas páginas.

Passei muito tempo sem aceitar a depressão, cheia de desconfianças em relação à indústria farmacêutica, a essa estranha epidemia de doenças mentais nos nossos dias, aos efeitos obscuros dos psicotrópicos. Quando li o Solomon, não posso dizer que tudo se esclareceu, mas comecei a aceitar a existência da tristeza profunda e a respeitá-la em sua complexidade.

Entendi que há bons motivos para essa epidemia: a vida alienante nas cidades, a ruína das formações familiares tradicionais, o colapso das crenças religiosas, o velho e ancestral medo da morte. Entendi que a depressão sempre pode voltar, e ainda pior, quando não for bem tratada. Que há uma infinidade de pessoas sofrendo, o tempo todo, em todos os lugares do mundo.

Solomon me convenceu a me tratar, com esse gesto humano e terno que é o seu livro. A dor merece sair do armário, assim como a sexualidade, e Solomon tira tudo lá de dentro, não deixa nada pra trás. Seus trabalhos de fôlego, que envolvem pesquisas amplas, passam por questões pessoais, e talvez por isso sejam tão empáticos. Quase sempre, sair do armário acaba sendo um gesto pelo outro.

A boa nova para todos aqueles que sofrem de depressão, conhecem alguém que sofre ou se interessam pela doença é que o livro, lançado no Brasil em 2002 e fora das livrarias há algum tempo, ganha nova edição da Companhia das Letras agora em julho, quando o autor desembarca em Paraty para a 12ª edição da Flip. (Essa é a segunda boa nova, para quem não sabia).

A terceira boa nova é que pedimos um novo texto ao autor, em que ele atualizasse o cenário dos tratamentos contra a depressão e contasse o que aconteceu com ele desde a publicação do livro. Diante da encomenda de 3 mil palavras, Solomon se animou e nos entregou um texto de 20 mil palavras: oitenta páginas inéditas, escritas exclusivamente para a nova edição brasileira. O demônio do meio-dia ganhou um novo capítulo, um epílogo.

Nele, ficamos sabendo, por exemplo, que o botox vem sendo testado como tratamento da depressão (leia mais aqui). Que Solomon se transformou num depressivo profissional, o que veremos de perto na Flip. E que as coisas podem estar melhores desde a época em que ele saiu do armário, quando a doença era mais estigmatizada, mas ainda há grande hostilidade contra quem sofre de doenças mentais, e o estigma desencoraja outras pessoas a procurarem tratamento: daí a importância desse gesto.

Abaixo, em primeiríssima mão, as primeiras páginas do texto inédito.

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Epílogo

para T.R.K.

Vinte anos se passaram desde a minha primeira depressão grave. Tenho uma doença mental, diagnosticada há quase metade da minha vida, e não posso mais me imaginar sem ela. Parece menos alguma coisa que me aconteceu do que uma parte de quem eu sou; certos dias, é a coisa que me define, mas é sempre pelo menos uma coisa que me define. Já não fico pensando sobre quando estarei fora de tratamento, da mesma forma que não fico imaginando quando vou deixar de comer ou dormir. É difícil saber o quanto a depressão me define devido à minha experiência com a própria doença e o quanto ela está gravada na minha identidade em virtude da postura pública que assumi ao falar sobre ela. O fato de ter escrito O demônio do meio-dia me transformou em um depressivo profissional, o que é uma coisa esquisita de ser. Um curso da universidade que frequentei recomenda o livro e consequentemente fui convidado a dar uma palestra. Quando era estudante, eu sonhava em ser um escritor tão talentoso que os alunos daquela universidade estudariam minha obra. Mas, nessa fantasia, não antevia minha obra como um livro de memórias selecionado para um curso de psicologia anormal.

Para mim, qualquer pensamento sobre a depressão tornou-se uma questão dialética. Por um lado, minha vida é tão menos afetada pelo problema do que antes que às vezes a escuridão daqueles episódios originais parece um sonho distante. Por outro lado, sentir-me seguro é quase sempre o prelúdio para uma das minhas recaídas ocasionais, e, quando ela bate, sinto mais uma vez que jamais escaparei da escuridão. Por um lado, estou mais acostumado a esses mergulhos do que costumava estar; posso sentir a depressão incubando do mesmo modo que artríticos sentem a chuva iminente. Por outro lado, é chocante a cada vez que acontece; esqueço como ela é uma sensação física, como é implacável: o aperto no peito, a apatia. Esqueço o arrasamento de meu ego, a luta para não acreditar que cada pensamento distorcido é um insight. Quando não estou deprimido, tiro força e beleza da depressão; quando estou deprimido, não encontro nenhuma dessas coisas. Oculto isso melhor do que costumava; posso funcionar surpreendentemente bem, mesmo quando me sinto como se estivesse morrendo — ou como se quisesse morrer. Mas a ansiedade continua sendo meu pior inimigo, e às vezes acordo sentindo que o dia é mais do que consigo suportar. Uma rotina de terapia e medicação parece um preço pequeno a pagar por uma equanimidade relativa, mas odeio o tempo e o gerenciamento que tudo isso exige. Detesto ter um cérebro frágil e saber que, ao fazer algum plano, devo prever a possibilidade de que minha mente me traia no curto prazo. Não deixei a depressão para trás: apenas a mantenho à distância.

Tive um pouco de sorte nos últimos vinte anos. Casei com meu marido, John, a pessoa mais gentil que já conheci, e tive filhos que ao mesmo tempo exigem muito e proporcionam grande felicidade. É possível conquistar sozinho certos aspectos de estabilidade, mas ela também vem de outras pessoas, e John me deu um lastro. Ele é paciente e gentil quando estou deprimido. Mas já não estou sozinho na depressão, e essa é uma mudança fundamental. Posso ter a sensação subjetiva de que a vida é intolerável, mas sei que o que sinto é inconsistente com o que é verdadeiro: tenho uma vida boa. Encontrei uma psicofarmacologista brilhante que montou uma rotina de medicação que na maioria das vezes tem uma eficácia surpreendente, com efeitos colaterais relativamente pequenos. Nós descobrimos como consertar quando o problema aparece. Na psicoterapia, frequento um analista que é sábio e engraçado. Uma vez, quando me mostrei um tanto desdenhoso em relação a alguns sinais de alerta precoces da depressão, ele comentou: “Nesta sala, Andrew, nunca esquecemos que você é totalmente capaz de tomar o caminho mais rápido para o porão de pechinchas da saúde mental”.

Eu controlo minha vida. Não perco um único dia de medicação. Com a ajuda de meus dois médicos, ajusto as doses e tento modificar meu comportamento assim que reconheço o menor indício de uma recaída. O propranolol, um betabloqueador que posso usar quando me sinto especialmente ansioso, diminui o meu ritmo cardíaco e me permite respirar. Ele não tem os efeitos sedativos dos benzodiazepínicos. Algum tempo atrás, aumentei meu Zyprexa, depois diminuí um pouco a dose, e gostaria de cortar totalmente, mas, em bem mais de um ano, nunca encontrei o momento certo para enfrentar a possibilidade de uma escalada da ansiedade. Sou fanático quanto ao sono e disposto a adiar quase tudo para ter certeza de que durmo o suficiente; John é quem se levanta com nossos filhos no meio da noite, se isso for necessário. Faço exercícios regularmente, tanto para o bem-estar físico como mental. Consumo bebidas alcoólicas em pequenas quantidades e ainda menos cafeína (embora tenha um fraco por chocolate amargo, que não posso comer se estou me sentindo ansioso).

Ao mesmo tempo, não estou disposto a fazer algumas concessões. Levo uma vida fascinante e estressante, e não vou abrir mão disso. Vou a todos os lugares e me dedico a pessoas demais; adoro minhas próprias ideias e tenho curiosidade pelas ideias de outras pessoas; sou um malabarista desajeitado, mas entusiasmado entre a família, os amigos e o trabalho. Prefiro tomar meus remédios e viver no mundo do que reduzi-los e me fechar em mim mesmo. Quando estou bem, faço tudo o que posso, e às vezes isso parece bipolar dois. Mas meu comportamento não é hipomaníaco; ao contrário, ele reflete a minha compreensão de que a capacidade de ser funcional pode me abandonar a qualquer momento e que devo explorar meus períodos funcionais ao máximo.

Às vezes, meus filhos são meus antidepressivos. Prometi a mim mesmo jamais pensar em suicídio depois que me tornei pai e não agir de modo deprimido perto deles se puder evitar fazê-lo, e estar com eles fortalece essas obrigações benignas. O som da voz deles tem um efeito milagroso quando estou leve ou moderadamente deprimido. Embora eles também possam me deixar furioso e preocupado, nunca me fazem sentir menos envolvido no mundo. Contudo, tento protegê-los não só da minha depressão, mas também da capacidade deles de mitigá-la, porque não quero que tomem isso como uma obrigação. John é de uma grande ajuda sempre que estou mal; quando estamos juntos em nosso quarto eu me sinto mais seguro do que me sentia em meu quarto sozinho, e não o afasto muito de minha realidade. O amor ajuda quando a depressão está em seus estágios iniciais. Mas, quando ela realmente se agrava, a maior parte dessa energia se esvai. Consigo dizer que as coisas estão ficando sérias quando minha ansiedade não responde ao riso de meus filhos. Nesse momento, meu trabalho é proteger as crianças de meu desligamento, agir do modo como eu gostaria de me sentir. Essa é a empreitada mais desgastante do mundo, embora haja certa satisfação sinistra em levá-la a cabo.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

 

Um livro necessário

Por Luiz Schwarcz

Na Flip de 2007 eu estava na plateia da mesa literária “A vida como ela foi”, que reunia os autores Fernando Morais, Paulo Cesar de Araújo e Ruy Castro em torno do tema das biografias não autorizadas. Foi quando ouvi pela primeira vez ao vivo Paulo Cesar de Araújo falar sobre a apreensão de seu livro Roberto Carlos em detalhes, publicado em novembro de 2006. Alguns meses após a Flip, ainda impressionado com o que lhe havia ocorrido, convidei-o para uma conversa e ofereci-me para publicar algum novo trabalho dele. Estava interessado em sua  pesquisa sobre música brasileira, mas também procurava prestar, como editor, solidariedade a um autor injustamente tolhido do resultado de seu trabalho.

Do que me lembro da nossa conversa, Paulo mencionou a possibilidade de publicar as entrevistas que fizera para seus livros anteriores, e uma ideia curiosa: um pequeno livro narrando sua amizade com João Gilberto, que começara com longas conversas por telefone (do orelhão em frente ao prédio do artista). Imaginando ser impossível encontrar o grande inovador da música brasileira no século XX, Paulo Cesar surpreendeu-se ao ser atendido ao telefone pelo pai da Bossa Nova, e ainda mais com a relação que desenvolveu a partir daí  com o cantor — ao lado de Roberto Carlos, talvez seu maior ídolo .

Depois de alguns contatos em que na verdade João mais o entrevistou do que o contrário, perguntando sobre sua infância e vida baianas, Paulo foi convidado a assistir ao show de reinauguração do famoso teatro Castro Alves em Salvador, com direito ainda a um ingresso para seu pai. O inventor da Bossa Nova tentava assim reconciliar Paulo Cesar com o progenitor que abandonara o lar e com quem o autor de Roberto Carlos em detalhes perdera completamente o contato.

Fiquei entusiasmado com a ideia até que, alguns meses depois, Paulo Cesar apresentou outra proposta: gostaria de contar suas memórias dos últimos anos, narrando como começou a pesquisa para a biografia de Roberto Carlos, até chegar à sua proibição. O argumento de Paulo era forte:

— Essa é a minha história, Luiz, ninguém pode tirá-la de mim.

Topei a empreitada. O livro atendia bem às minhas duas intenções iniciais: trazer Paulo Cesar para a Companhia das Letras e marcar posição na luta pela liberdade das biografias.

Paulo atrasou consideravelmente a realização da encomenda. Duas vezes por ano, Marta Garcia — então editora do livro — e eu ligávamos cobrando notícias, mas a obra não ficava pronta.

O livro que chega hoje às livrarias é mais do que o resultado final desse trabalho de cinco anos. Parece que Paulo intuía que o tempo tornaria o livro ainda mais necessário. Muitos passos foram dados em direção à conquista da liberdade para os livros de não ficção no Brasil — uma conquista ainda não consolidada, por sinal —, numa luta liderada por muitos escritores e intelectuais, e da parte dos editores capitaneada por Roberto Feith, da Objetiva, meu futuro companheiro de edições.

O réu e o rei sai por absoluta coincidência com a nova lei de biografias aprovada pela Câmara dos Deputados, a ser votada no Senado (em paralelo, corre no Supremo Tribunal Federal uma ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Associação Nacional dos Editores — ANEL). Com essa publicação, procuramos relembrar um período de injustiças na qual outros escritores e editores — é importante não deixar de citar Ruy Castro, que conosco pelejou na justiça por muitos anos para ter sua biografia de Garrincha circulando livremente — foram cerceados. Serve como testemunho das dificuldades para escrever biografias independentes no Brasil.

Com ele a Companhia das Letras procura contribuir ativamente para a consolidação do direito do cidadão brasileiro ao conhecimento de fatos relevantes da vida das suas figuras públicas.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.