Alfaguara

A vida contada

Por José Luiz Passos

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Recebi meu diagnóstico de câncer na mesma semana em que David Bowie morreu. Ao contrário da minha mãe, que havia recebido o mesmo diagnóstico no mês anterior, não postei a notícia no Facebook. A novidade me parecia injusta. Como assim? Tenho 44, um casal de filhos pequenos, corro toda semana, como salada. No telefonema, a médica me disse que eu estava fora da curva, não era um caso óbvio, tinha sido um acidente e eu teria boas chances depois da cirurgia. Desliguei, agradecendo não sei bem o quê, e, quando minha esposa chegou, falei que precisávamos conversar. Ela ficou com os olhos parados, o rosto lívido. Ligamos a tevê para as crianças e fomos até o quintal. Ela sabia que por esses dias deveria vir o resultado da primeira biópsia. Lá fora não achei outra forma de dizer isso, então falei que a minha bolacha tinha caído com a manteiga para baixo. Ela começou a chorar.

Os primeiros dias foram de grande confusão. Pensar nos filhos, como apoio, era pior. Arrumei as contas de casa e a minha mesa de trabalho. Pedi uma licença à universidade, clareei o horizonte. Restava o quê? Comuniquei o resultado à família e a alguns poucos amigos. Era fevereiro, mês de carnaval. Restavam os livros. Estava no meio d’O marechal de costas, um romance sobre Floriano Peixoto e uma cozinheira tocada pelo desmantelo da nossa política atual. Os meses seguintes foram difíceis. Perdi doze quilos. A cada manhã, penteando os cabelos, eles ficavam mais ralos. As minhas unhas, mais doloridas e finas. A urina mudou de cor. O suor ficou ácido. A caminhada para a escola, a dois quarentões de casa, me dava taquicardia. Os dedos das mãos e dos pés ainda hoje ardem, formigam vinte e quatro horas por dia. Há seis meses que não consigo escrever à mão.

Mas a cada semana também chegavam pedidos de mais notícias. Entre eles, os de Marcelo Ferroni me desejavam melhoras e perguntavam como ia o marechal. Essas perguntas me fizeram voltar ao romance, depois de já ter desistido dele várias vezes no ano.

O marechal de costas faz a crônica da vida íntima e política de Floriano Peixoto, no gosto das amizades e antipatias que guardou por décadas, das humilhações de juventude, da imaginação erótica desabrochada na guerra, de sua obsessão por Napoleão Bonaparte e pela meia-irmã com quem se casou. Em paralelo, há a história de uma cozinheira a quem é atribuído um suposto parentesco com Floriano. No curso de uma noite, após o jantar na casa de um advogado, ela participa de uma longa conversa com um professor falastrão, que ouve a história de sua vida enquanto enxerta casos e teorias sobre a relação entre a política e os afetos. A noite leva todos a participarem de uma passeata de protesto. Tentei mostrar como, aos poucos, a relação entre eles revela laços de dependência e ressentimento. Maltratados por traições e pela solidão, suas vidas denunciam, num eco sombrio, o paralelo entre a crise política presente e a era Floriano.

2016 não está fácil para ninguém. A frustração com o fato de não poder mudar minhas próprias circunstâncias se somou ao espanto com a nossa vida política recente. Essa soma foi o motor do romance. Em Nosso grão mais fino (2009) procurei retratar a ligação entre nostalgia e decadência agroindustrial a partir de uma relação amorosa marcada pelo tabu. Em O sonâmbulo amador (2012) figurou a confusão entre as várias formas de amizade diante de um quadro de perdas afetivas e da dignidade do trabalho. Com O marechal de costas busco mostrar o lado privado e perverso de indivíduos e palavras de ordem que se incumbem da promoção do bem comum. O início da República foi marcado por uma profunda polarização na política e nos costumes. O jacobinismo dos florianistas era, curiosamente, mais conservador do que a agenda liberal do Império. Enquanto escrevia o romance, me vinha uma sensação de déjà-vu. Alguém duvida de que, no presente, o ontem se impôs ao hoje?

Tenho grande interesse pelo gênero da biografia, embora não acredite na maioria das que já li. Na biografia de ficção, por outro lado, a vida de um indivíduo pode ser contada como soma de uma experiência coletiva. E o romance é o campo onde a complexa sensação de tempos entrecruzados pode ser pensada por dentro, enquanto acontece e se torna visível. Por isso escrevi essa pequena biografia de Floriano e da sua parente, a cozinheira. Eles me fizeram companhia nos dois anos mais difíceis da minha vida. Ambos reforçam a minha convicção de que os poemas, contos e romances que escrevemos são parte importante de nosso futuro, ainda mais quando ele se encontra verdadeiramente ameaçado.

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marechal_de_costasO MARECHAL DE COSTAS
Sinopse: Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação.

O marechal de costas chega às livrarias no dia 21 de outubro pela Alfaguara.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas(originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Lança em outubro o romance O marechal de costas.

Coincidência é luz

Por João Anzanello Carrascoza

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Já se disse que a vida é sonho ou que vivemos num estado de semi-vigília. Somos seres escuros, sim, de matéria opaca; mas por vezes um fio de luz nos atravessa a consciência: percebemos, não sem espanto, que não estamos sós, fazemos parte de uma rede de dores, sobre a qual numa corda, suspensa às alturas, nossa alegria se equilibra.

Essa luz que, de súbito, se acende — e logo se apaga — pode surgir de várias maneiras. O resultado da fricção entre uma cena impossível e o seu real acontecimento contra todas as probabilidades matemáticas é uma delas: “coincidência” é o nome que lhe damos.

Muitas são as coincidências de superfície, comuns no dia a dia, como os encontros imprevistos, mas há também coincidências subterrâneas, poderosas, capazes de sacudir nossa desatenção, como se estivéssemos na vida às avessas, na condição de forro, quando na verdade somos o lado externo da roupa.

Foram essas luzes, surpreendentes, que me levaram a escrever o Diário das coincidências. Agora que a obra nasceu, senti o desejo de partilhar neste espaço um pouco do mistério que me perpassou ao longo de suas páginas. No livro, eu agrupo relatos de coincidências subterrâneas que se deram comigo, e, quando estava por terminá-lo, o editor Marcelo Ferroni sugeriu que o expandíssemos, buscando a contribuição do público.

Fizemos então um site, convidamos as pessoas a enviarem suas histórias de coincidências e nos comprometemos a selecionar e reescrever as mais expressivas, fazendo sua transfusão para o corpo e o espírito da obra.

Escolhemos seis histórias das dezenas que nos foram enviadas — e quando pensei que integrá-las ao “diário” seria como mover malabares, luzes inesperadas me guiaram à escrita. Um exemplo: sempre sonhei em escrever um texto inspirado na pergunta do poeta Coleridge, evocada por Borges no Livro dos sonhos: “Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão?” Pois a história enviada por Amanda Alves de Souza me deu essa flor, para coincidir com meu sonho. Claro, tenho de evitar spoilers. Quem ler o livro, melhor entenderá.

O mesmo se deu com as demais histórias — além de narrar coincidências subterrâneas, traziam em seu bojo, invisíveis, germes de outras que inexplicavelmente só brotaram quando comecei a recontá-las.

No momento em que me pus a escrever este texto, mais uma coincidência ocorreu, esta de natureza literária, e de superfície, mas a ponto de me dar as palavras exatas para atingir o limite destes quatro mil caracteres: caiu-me na mão, sem querer (sem querer?), o conto Uns braços, de Machado de Assis. Nele, Inácio, um rapaz, “descobre” os lindos braços de dona Severina, esposa de seu patrão, e por ela se apaixona. A mulher, aos poucos e às furtivas, também se interessa pelo jovem. Um dia, adormecido na rede, Inácio sonha que dona Severina vem até ele e o beija. No conto, de fato, ela assim o fez. Pela vida afora, Inácio iria dizer a si mesmo que, apesar de parecer tão real, aquele episódio não passara de um sonho… Jamais desconfiou que estava enganado.

A realidade me envolveu em muitas histórias como esta de Machado de Assis. Não sei se, narrando-as no Diário das coincidências, fui mais fundo no estado de semi-sonolência em que vivemos ou se acordei. Quem sabe você, leitor, com a sua luz, possa me dizer.

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diario_das_coincidenciasDIÁRIO DAS COINCIDÊNCIAS
Sinopse: Todo mundo tem uma coincidência para contar. Seja uma pequena troca de olhares entre desconhecidos que se reconhecem de passagem ou um nome que teima em aparecer no seu caminho. Este livro é permeado por esses tipos de coincidências. As histórias, vividas por um personagem que, por vezes, confunde-se com o próprio autor, vão sendo contadas em meio a pequenos momentos carregados de significado. Com delicadeza e maestria, Diário das coincidências tece uma trama de pequenas histórias, em que o leitor, ao puxar um fio, vai descobrindo conexões e desvendando a beleza do dia a dia. Este breve diário expõe a leveza do destino e concede uma chave de leitura para o inexplicável cotidiano.

 

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João Anzanello Carrascoza nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Cravinhos, em 1962. Mudou-se para a capital, onde estudou publicidade e propaganda, e começou a publicar seus primeiros escritos em jornais e revistas. Lançou em 2016 o livro Diário das coincidências pela Alfaguara.

Madrastas, peruanas e meninas más

Por Marcelo Ferroni

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Em seu novo romance, Vargas Llosa volta à boa forma, misturando um thriller político — sobre a corrupção governamental e o jornalismo sensacionalista no Peru dos anos 1990 — a uma história com pitadas eróticas. É o 18º romance do escritor peruano. Lançado em março deste ano na Espanha e na América Latina, mês do aniversário de 80 anos do autor, Cinco esquinas se tornou sucesso imediato.

Vargas Llosa recebeu o Prêmio Nobel em 2010. Seus dois romances seguintes, O sonho do celta (2010) e O herói discreto (2013), seguiam com ênfase pelo lado do thriller político. São livros mais sérios, no caso do primeiro baseado em fatos reais, que se concentram muito na corrupção do poder e nas lutas contra o autoritarismo, e pouco mostram desse seu lado mais bem-humorado e leve. Em Cinco esquinas, no entanto, ele conseguiu aliar tudo numa só história. E com uma boa dose de erotismo, que traz à tona dois de seus grandes sucessos, Travessuras da menina má e Elogio da madrasta. É difícil ler o novo romance sem pensar neles.

Travessuras, lançado em outubro de 2006, conta a história de Lily, uma garota ousada e independente, que reencontra o narrador em diferentes momentos da vida. A cada reencontro, ela lhe conta suas novas e picantes histórias. O livro inaugurou o selo Alfaguara no Brasil, há dez anos, e ficou por meses na lista de mais vendidos por aqui.

Depois do êxito de Travessuras, a Alfaguara relançou boa parte da obra de Vargas Llosa no Brasil, incluindo títulos emblemáticos, como A cidade e os cachorros e Pantaleão e as visitadoras. Em 2009, foi a vez de um livro menos conhecido dele, Elogio da madrasta, que havia saído originalmente no Brasil no final dos anos 1980. Em seu relançamento, talvez pelo sucesso de Travessuras, e contra todas as expectativas, o livro entrou na lista de mais vendidos e se tornou um dos grandes sucessos recentes de Vargas Llosa. Ele conta a história de Fonchito, um garoto que se envolve com Lucrecia, sua madrasta, numa linha delicada entre paixão e inocência.

Agora, em Cinco esquinas, um dos fios condutores narra as aventuras de Marisa e Chabela, amigas de longa data, ambas felizes no casamento, cuja amizade se transforma quando, presas tarde da noite na casa de uma delas, e com os maridos viajando, dividem inocentemente a mesma cama. Muito próximas, silenciosas no meio da madrugada, elas lentamente começam a se tocar e, bom, fazem de tudo, menos dormir.

Em contraponto a essa relação, está a história de Quique e Luciano, os maridos, também amigos de longa data, empresários peruanos de sucesso. Quique recebe em seu escritório a visita de um jornalista do semanário Revelações, com fotos comprometedoras suas. Ele logo se vê enredado num submundo controlado pelas mais altas esferas do poder: o próprio presidente Alberto Fujimori — para quem, aliás, Vargas Llosa perdeu as eleições presidenciais em 1990 — e seu implacável chefe de Segurança de Estado.

A mistura desses elementos torna Cinco esquinas um livro imperdível, com muitas pitadas de outros de seus grandes temas, como o Peru corrupto e a guerra pelo poder; jornalistas que se envolvem com uma trama que não podem compreender; um país rural e violento, mas também surpreendente.

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Marcelo Ferroni é publisher da Alfaguara e autor dos livros Método prático da guerrilha Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam, publicados pela Companhia das Letras.

A descoberta do poeta

Por Inez Cabral

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Cartaz original da peça Morte e vida severina.

O poema “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto, foi publicado pela primeira vez em 1956, em Duas águas. Exatos dez anos depois, o espetáculo de mesmo nome recebia o grand prix do IV Festival Mundial de Teatro Universitário em Nancy, na França. A peça Morte e vida severina estreara no ano anterior no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com direção de Silnei Siqueira e música do jovem Chico Buarque de Holanda.

No texto a seguir, feito especialmente para o blog da Companhia, Inez Cabral conta como João Cabral reagiu ao pedido do grupo de teatro amador para montar e musicar seu poema.

Você encontrará outras histórias de João Cabral na coletânea A literatura como turismo, que será lançada juntamente com a edição especial de Morte e vida severina. Nela, entremeados aos poemas, breves memórias de Inez Cabral sobre sua convivência com o pai revelam a faceta mais íntima de um dos maiores poetas da literatura brasileira.

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Genebra, uma noite qualquer do ano de 1964. O jantar está na mesa. Ao sair do escritório a caminho da sala de jantar, meu pai passa pelo termostato, confere a temperatura da calefação, confirma que as aspirinas estão no seu bolso e senta-se à mesa numa das cabeceiras. Na frente de seu prato, enfileirados em um batalhão, estão todos os comprimidos efervescentes ou não, cápsulas, pílulas e drágeas que costuma consumir, para que escolha quais vai tomar antes da refeição. Minha mãe lhe estende uma carta por cima da mesa. Ele deixa os remédios de lado e examina o envelope: Vem de São Paulo. Abre-o cuidadosamente com a faca e começa a ler a missiva. De repente se indigna:

— Querem botar música em Morte e vida severina!

— Para quê?

— Estão pedindo para montar a peça. É um grupo de teatro amador de São Paulo.

— Que ótimo! Pode deixar que eu redijo a autorização depois do jantar.

— Mas Stella, eles querem por música em meus versos!

— Você vai negar a autorização por causa disso?

— Eu detesto música, você está cansada de saber. Os versos vão mudar de ritmo e perder a força.

— Me deixa ler essa carta. Quem vai musicar é um rapaz novo, Francisco Buarque de Holanda. Será que é parente do Sérgio?

— Já sei! vou autorizar a montagem do texto, mas proibir de mudar a métrica dos versos. Se o rapaz conseguir…

E assim a autorização é enviada a Silney Siqueira, diretor do espetáculo que será montado pelo Tuca, grupo de teatro amador da PUC de São Paulo.

Alguns meses depois, já em 1966, recebo um telefonema de minha mãe no internato onde estudo e ela me diz:

— Já dei a autorização para você sair do colégio ainda hoje, você vai à França com seu pai e comigo.

— Que legal! Vamos fazer o que na França? E na França onde?

— Vamos a Nancy, assistir à montagem de Morte e vida severina por um pessoal de São Paulo. Seu pai quer que você venha conosco porque está preocupado, ele acha que você está europeia demais. Assim, vai entrar em contato com jovens brasileiros, você precisa disso.

— Então vou me arrumar, tem um trem que sai de Fribourg para Berna daqui a uma hora. Até já!

Na maior felicidade (nada melhor do que matar alguns dias de aula), em menos de meia hora estou pronta e na estação.

No dia seguinte, lá vamos nós de carro até Nancy, onde acontece o Festival Mundial de Teatro Universitário.

A peça será encenada daqui a dois dias. Durante esse tempo, assisto os ensaios, ouço falar português sem ser em casa, aprendo algumas gírias novas. O pessoal é absolutamente adorável e o compositor… enfim, o que dizer de Chico Buarque aos vinte e um anos, visto por uma garota de dezoito? Ainda tive a alegria e a honra de ouvi-lo cantar “Olê, Olá” só para mim.

No dia da apresentação, chegamos cedo ao teatro, que está lotado.

A peça começa. Legendas são projetadas no alto do palco. O silêncio na sala é total. Fico siderada, e reparo que meu pai, sentado a meu lado fica também. As músicas inseridas no texto são arrepiantes. Meu pai está pasmo, o rapaz não mexeu numa vírgula sequer, e comenta isso durante os aplausos. A peça é ovacionada em pé, o que não é uma reação muito normal para um público francês. Tudo o que ouço em volta de nós na plateia é:

— Quelle merveille!

— Incroyable!

— C’est d’une beauté!

Eu seria uma mentirosa se não confessasse o orgulho que senti do meu velho naquele momento. Nunca tinha lido o texto, apenas sabia que existia. Esse foi o dia em que descobri o poeta escondido dentro daquele que para mim era apenas o meu pai. O texto de Morte e vida severina precisou ficar dez anos dormindo, até ser despertado por um grupo de estudantes paulistas a quem serei eternamente grata por me apresentarem, há cinquenta anos atrás, o poeta João Cabral de Melo Neto.

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Inez Cabral nasceu em Barcelona, na Espanha. Durante a infância estudou em vários países, acompanhando o pai diplomata. Cineasta, trabalhou na extinta TVE, participou da equipe de diversos filmes e dirigiu curtas-metragens como Romance policial brasileiro. É também tradutora e vive atualmente no Rio de Janeiro.

De volta aos inutensílios de Manoel de Barros

Por Italo Moriconi

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Arranjos para assobio, de 1982, é o livro de Manoel de Barros escolhido pelo selo Alfaguara para abrir a reedição de sua obras completas, junto com o volume que reúne seus dois primeiros títulos editados — Poemas concebidos sem pecado e Face imóvel, originalmente lançados em 1937 e 1942. Neste ano do centenário de Manoel, o projeto da coleção é ir lançando todos os livros, sem observância estrita da sequência cronológica em que originalmente apareceram. Ao final do percurso, o leitor poderá ter em sua estante, aí sim, a trajetória inteira deste excepcional conjunto de obra, cronologicamente organizado na sequência em que cada livro apareceu.

E por que Arranjos para assobio?  Por que 1982?

É que esse livro e esse ano representaram uma espécie de novo começo na carreira do poeta. Depois do silêncio de dez anos, em que precisara dedicar-se à própria sobrevivência e de sua família, Manoel voltava à cena literária com textos que reafirmavam e acentuavam a originalidade de seu movimento criador. Nele aparecia a palavra “inutensílio”, uma das matrizes de seu especialíssimo vocabulário, a especialíssima rede de imagens-conceitos que constituem seu universo imaginário. A partir desse recomeço, a presença da obra de Manoel se fez cada vez mais insistente, de tal modo que a crítica literária contemporânea tende a vê-lo mais como parte do cenário dos anos 1980/90 que de momentos anteriores.

Na verdade, a linguagem poética especialíssima de Manoel enraiza-se no que pode haver de mais representativo das vanguardas dos anos 1950 e 1960. Como inventor de linguagem, seus livros dos anos 1960 (Compêndio para uso dos pássaros, Gramática expositiva do chão e Matéria de poesia) encontram parentescos de afinidade, contraste ou desafio implícito às poéticas suas contemporâneas de João Cabral, Guimarães Rosa, Haroldo de Campos leitor de Iauaretê, entre outros autores que ainda estão por ser identificados e explorados pelos estudiosos de letras. Mencione-se, por exemplo, Millôr Fernandes, pelo humor aforismático e inusitado da imaginação, com larga presença de passarinhos. Millôr foi um grande divulgador da poesia de Manoel de Barros, contribuindo para que esta saísse do gueto dos “happy few” (os pretensamente  “poucos e bons”) e conquistasse a popularidade de que desfruta até hoje e que, com a reedição e as celebrações do centenário, só fará crescer.

Ao ser reapresentado ao público leitor dos anos 1980, o projeto poético da escrita de Manoel, já dotado de extrema coerência desde fins da década de 1950, revelou-se perfeitamente ajustado às necessidades das novas gerações, através da mescla entre poema curto e andamento narrativo, da presença do tom conversacional, sobretudo pela ética poética do traste, da gosma, do entulho, do riacho, daquilo que por sua própria natureza escapa e critica, pela imagem, os rituais e tramas discursivas do poder. A alma construtora e arrogante do poder.

A poesia de Manoel de Barros é desconstrução o tempo todo. Há nela uma sobranceria da não arrogância. O poeta calça as sandálias da humildade de Francisco de Assis, que surge como ícone, como se lê no poema “Cisco”: “Pessoa esbarrada em raiz de parede / Qualquer indivíduo adequado a lata / Quem ouve zoadas de brenha. Chamou-se de / O CISCO DE DEUS a São Francisco de Assis / Diz-se também de homem numa sarjeta.” O poeta é, pois, o ser que cisca nos dicionários e nas sarjetas. Já a poesia, na mesma página, é definida como “produto de uma pessoa inclinada a antro”, “espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem”. Religando-se aos preceitos arcônticos dos mestres modernistas que o antecederam e de certa forma o possibilitaram (refiro-me aqui a Manoel Bandeira e Oswald de Andrade), Manoel afirma ainda que a poesia é “armação de objetos lúdicos (…) geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados”.

Assim, em seus textos, Manoel busca projetar por imagens e palavras o ver da criança, em ato. Mas há também a sonoridade, a contiguidade musical de toda poesia. Há o assobio. No universo de Manoel, o assobio é a música produzida intuitivamente pelo menino que percorre as fímbrias do seu mundo, explorando os quintais da Casa. O menino vai ao encontro do bugre, do caboclo de sua região pantaneira. Na fronteira: diálogo, escuta. Em toda a sua obra, Manoel de Barros explora sistematicamente esta matéria-prima: a combinação entre o olhar da criança, a linguagem louca do “bugre” e a erudição que vem como bagagem e referência. A palavra poética é a hora do recreio da erudição, hora da incursão curiosa pelas vísceras do terreno.

Com tudo isso, por tudo isso, penetrar na poesia de Manoel de Barros é adentrar todo um universo intricado, ao mesmo tempo muito nítido, de sensações entrelaçadas: talvez tenhamos nessa obra a realização mais radical da sinestesia poética em toda a poesia brasileira, pari passu com Jorge de Lima. Na precisa expressão de Luiz Ruffato, que prefacia o volume agora lançado pela Alfaguara, a poesia de Manoel é constituída de frases “que se sucedem formando riachos, mais tarde rios”. Navegar por essas águas é uma experiência de leitura de que ninguém sai ileso.

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Italo Moriconi é o organizador dos consagrados Os cem melhores contos brasileiros do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, ambos editados pela Objetiva. É doutor em Letras e professor de literatura brasileira e comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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