Maria Bethânia e Mia Couto

No dia 26 de setembro, o Rio de Janeiro recebeu um grande encontro: Maria Bethânia e Mia Couto encantaram o público com a leitura de trechos de Sombras da água, novo livro do autor moçambicano. O encontro fez parte da comemoração dos 30 anos da Companhia das Letras. Assista abaixo ao vídeo completo do evento.

Escrever sem passar recibo

Por Maria Clara Drummond

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Perguntar o que existe de biográfico num romance é um pouco bobo, afinal, toda ficção tende a ser, ao menos em última medida, uma autobiografia. A pessoa escreve sobre o que sabe, pelo que viveu, leu e sentiu.

Não raro, a gênese de uma criação se encontra num trauma, e às vezes esse trauma é criado a partir de um relacionamento fracassado (amoroso, familiar, afetivo). Neste caso, existem algumas questões a serem consideradas. É ético expor outra pessoa, à sua revelia e sem direito de resposta proporcional, em um romance? E também: quando estamos imbuídos de um sentimento de mágoa, com a visão obnubilada pelo rancor, estamos nas condições literárias ideais para analisar de maneira precisa essas vivências?

No livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, Marco Polo diz que não fala sobre sua cidade natal, Veneza, porque limitar a paisagem de sua infância a palavras seria “cancelar as margens da memória”. Com experiências traumáticas as palavras servem como filtro purificador. Mas a escrita não pode se resumir a catarse com intuitos terapêuticos. Inclusive, acho que não é eficaz o desabafo sem que haja uma preocupação em moldá-lo a uma forma em que ele adquira sentido fora da experiência pessoal. A forma ajuda a ressignificar o sofrimento e transportá-lo para o campo do universal. Aí ele transfere para o leitor, que passa a enxergar sentido em algo inicialmente tão subjetivo.

Digito uma frase num romance e logo vêm dois impulsos distintos: avaliar se está literariamente interessante ou se é apenas para satisfazer instintos de vingança. Nesses momentos, lembro de um documentário produzido pela BBC sobre Sophie Calle, a grande mestre da VigançArt. Repetir como um mantra: “Obras aparentemente íntimas, porém frias e objetivas”. Sou capaz de atingir algo ao menos similar na linguagem do romance? Mais importante: é isso que busco em meu trabalho?

Outro problema é que, ao pincelar o antagonista da vida real com as características ruins que só hoje atribui a ele, é provável que o resultado final denuncie mais os defeitos do próprio autor\narrador que do “vilão”.  Na lindíssima frase de Anaïs Nin: “Não vemos as coisas como são; vemos as coisas como somos”.

“Hoje eu o vejo como um estranho”. Essa frase é comum em rompimentos com pessoas muito íntimas, e carrega nela uma atmosfera que lembra o enredo de O médico e o monstro. O antes e o depois são duas narrativas opostas que convivem na mesma pessoa. Quem se confiou a vida inteira torna-se, da noite para o dia, alguém com toques de perversidade. Como não se perguntar onde estavam essas características cruéis durante os anos de convivência?

Logo após uma discussão com uma amiga, mostrei ao meu analista as cartas que ela me enviou ao longo de mais de dez anos, com declarações de admiração, amor e amizade, criadas em linguagem wannabe Clarice Lispector. Ele sugeriu aproveitá-las no romance que estou escrevendo. Seria um respiro cômico ao livro — ele deu muitas risadas quando mostrei algumas durante a sessão, como a última que recebi, que era um artigo de Luis Felipe Pondé acompanhado da frase: “Para uma terça chuvosa, palavras que fazem a alma sorrir”.

Não à toa, uma das suas palavras de ordem foi: “Esquece as cartas que te escrevi!”. O tom melodramático deu ares de rivalidade anti-feminista anos oitenta, gabando-se de suas conquistas numa performance de ostentação que entendi como um “orgasmo da vaidade”. A vaidade é uma autoestima feita de ar, um falso empoderamento, que precisa de constante confirmação externa de suas qualidades. A rivalidade, então, é o mecanismo perfeito para essa confirmação externa, mesmo que efêmera ou ilusória.

Reflito sobre essas questões ao tentar escrever um romance sobre o tsunami psíquico que durou um ano e meio de minha vida, contrapondo a extensa troca por escrito, as memórias, as análises posteriores. Catarse, perdão, distanciamento emocional; a dor como agente criador e de transformação e não de aprisionamento. A tentativa de usar uma matéria prima crua a serviço de um projeto literário, e não trair esse propósito na tentação de passar um recado barato. Releio estes conselhos que dou a mim mesma até introjetados por completo, o perdão ou o foda-se; o que vier primeiro.

* * * * *

Maria Clara Drummond nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, e é jornalista. Em 2013 publicou seu romance de estreia, A festa é minha e eu choro se quiser (Guarda-Chuva) e em 2015 lançou A realidade devia ser proibida pela Companhia das Letras .

Minhas páginas antigas: a balada de Bob e eu

Por Ana Maria Bahiana

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O primeiro disco que comprei com meu dinheiro não foi nem dos Beatles, nem dos Rolling Stones: foi de Bob Dylan.  Chamava-se Os Grandes Sucessos de Bob Dylan e tinha uma capa muito feia, cinza com bordas azul-real, e aquele inesquecível odor da cola fedorenta que mantinha, precariamente, a integridade dos invólucros dos discos da CBS nos anos 1960. O repertório era uma mistura de faixas dos três primeiros álbuns norte-americanos de Dylan o que, para mim, recém-chegada na adolescência, não fazia a menor diferença: tudo o que eu queria ouvir estava ali — “Blowin’ in the wind”, “Don’t think twice, it’s alright”, “The times they are a-changin”, “It ain’t me, babe”, “Mr. Tambourine Man”. E, pouco tempo depois, num compacto (isso existia!) dos Byrds, a canção que sublinhou toda a minha vida até aqui, e que se apresentou para mim como uma quimera, uma esfinge, um quebra cabeças para ser decifrado apenas com o passar do tempo: “My back pages”.

Mas eu me antecipo. Eis o que era importante para mim naquele momento, o que justificou o dinheiro acumulado com esforço, guardado de mesadas, presentes de tios por minha participação na Feira da Providência e aulas extras para colegas: Dylan para mim era como um livro, só que com música. Era algo tão infinitamente prazeroso quanto sorvete de manga do Morais: era manga e era sorvete, suas qualidades intrínsecas de prazer e descoberta mantidas intactas, embora unidas.

De Ray Charles a “Satisfaction”, o rock, até então, tinha me feito dançar, twist and shout. Dylan me fazia pensar, me dava histórias para acompanhar, palavras para descobrir. Meu inglês era razoável (afinal tinha passado três anos numa escola americana) mas a voz fanha, a articulação rápida e a falta de letras impressas me pregava peças. Eu ouvia “crawls” e não “crows” em “Don’t think twice, it’s alright”, e, não sabendo o que era o “rooster”, imaginava o ser como um bicho fofo, crawling para longe at the break of dawn.

E aqui estavam os outros poderes mágicos de Robert Zimmerman: ele me oferecia poesia e prosa, alternadamente, disfarçadas e embutidas em suas paixões por folk, country e blues. Ou melhor: ele usava (e usa) as molduras de folk, country e blues, que por si mesmas já têm, simultaneamente,  tradições narrativas e impressionistas, e as punha em torno dos temas da sua geração, que a minha pegava de rebarba. Folk, country e blues sempre contaram histórias ou captaram sentimentos. Dylan fazia o mesmo enquanto documentava a eclosão, explosão e progressiva maturidade da mais vasta geração do século 20. (Mas ele sabia que ninguém cantava os blues como Blind Willie McTell…).

Ao longo de cada novo álbum (minha aquisição seguinte, muito mais ambiciosa, foi Blonde on Blonde, na versão norte-americana) Dylan ia alimentando minha alma de escritora com detalhes, truques, ossos do ofício. Eu ouvia, ouvia de novo, me detia sobre um verso, sobre outro. Dylan me ensinava como expressar e como omitir, como transformar raiva e desprezo em algo bem mais complicado em “Like a rolling stone”, ou como desenhar amor e paixão com todas as suas ambiguidades, de “Just like a woman” ao  dilaceramento completo que é todo o Time Out of Mind.

Era livro e era também cinema, como aquele súbito plano geral ao final de “All along the watchtower”, onde também se revela que ele estava contando a história toda de trás para frente. Ou “A simple twist of fate”, que vem completo com protagonistas e coadjuvantes, uma trama em três atos e detalhes de cada ambiente.

E aí voltamos a “My back pages”, a canção-código, feita para ser compreendida apenas quando a experiência substitui a inocência. Dylan tinha 23 anos quando a compôs, e 28 quando a interpretou ao vivo pela primeira vez. Tão jovem ele já tinha perdido o suficiente para compreender que nada é mais fácil do que ser velho — rígido, intransigente, monotemático, dogmático — quando se tem pouco tempo na crosta do planeta. Mais uma vez, Dylan estava usando o texto como uma narrativa ao contrário, em que tudo o que ele descreve — as admoestações, os discursos acalorados, as certezas absolutas — estão no passado, nas back pages, quando ele era muito mais velho do que é hoje.

Ele me propunha, assim, uma meditação para a vida toda. A cada momento em que ouvia “My back pages” Dylan me convidava a refletir sobre quais certezas eu estava pronta para deixar pelo caminho, me desafiava a reverter a flecha do tempo.

E assim ele me dá o contexto para uma de minhas memórias mais antigas. Eu no assento traseiro de um carrão americano deslizando por uma Avenida Vieira Souto deserta, a praia de Ipanema nublada e chuvosa, meus pais no banco da frente ouvindo Tito Madi interpretando “Ternura antiga”, de Dolores Duran. Devo ter, no máximo, a idade que minha neta mais velha tem hoje, 5 anos. A música termina e eu ouso perguntar algo que está na minha cabeça há muito tempo: “Mãe, toda música é sempre sobre amor?” Há um longo silêncio e ela afinal responde: “Você quer dizer os versos?” Eu: “É, os versos. É obrigado ser sempre sobre amor, toda música?” A pausa é ainda maior. Minha mãe responde: “Não. Não é obrigado não. Mas quase sempre é.”

Quase sempre. Mas quase, certo?

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Um soneto para Vinicius de Moraes: Resultado

Vinicius de Moraes

Hoje Vinicius de Moraes completaria 103 anos. Nascido no dia 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro, um dos nossos maiores poetas não era só famoso por conta das letras e músicas que fez em parceria com nomes como Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho. Seus sonetos fazem parte da literatura brasileira e continuam a ser lidos e compartilhados por amantes da poesia. Há algumas semanas, pedimos que nossos leitores fizessem um soneto em homenagem ao poeta utilizando um de seus temas, e hoje trazemos o resultado desse concurso com os cinco poemas escolhidos pela Companhia das Letras. Confira:

 

Raoni Garcia

Soneto da Mulher Ideal

Sonho que feição terá a minha amada…
Será tua beleza negra ou morena?
Terá a pele branca como a açucena,
Os olhos de amêndoa, a tez perfumada?

Terá, talvez, a minha namorada,
O corpo delicado, a voz amena,
A expressão greco-romana — serena?
Terá a forma divina que me agrada?

Mas efêmero será o teu encanto
Se não tiver a graça d’alma pura —
Morada de amor, ternura e virtude,

Que ao poeta inspirou o supremo canto.
Conceda-me ela, anjo da ventura,
E a amarei eternamente em plenitude.

 

Arthur de Siqueira Brahm

Amor e psique

Existem outros momentos e existe o beijo.
No centro dos concêntricos instintos, nua
a rosa do toque desabrocha profunda,
um prazer inarticulado e sem desenho.

O som que vem do mundo é submergido
diante o discurso silencioso das bocas
que em sua pressão macia e escura conta
a verdade imaculada dos sentidos.

Há uma eternidade revelada no espaço
entre o movimento da mente e o contato.
Há cem paraísos perdidos experimentados

no lábio vivo que desenha o desejo
e nos absolve da vida, do querer, do tempo.
E haverá outros momentos, apesar do beijo.

 

Marcos Ferreira

Extrema-unção

Arde em teus graves olhos a tristonha
E muda exposição do amor desfeito
— Esse encanto fugaz que a gente sonha
Conservar toda a vida em nosso peito.

É que o mundo é este antro de peçonha
Que adultera o que é puro e o que é perfeito.
A ventura mais longa e mais risonha
Morre sob os lençóis do próprio leito.

Entretanto prossegue, não desiste;
Fecha logo o caixão dos sonhos mortos
E sepulta isso tudo quanto é triste!

Não te afogues no amor que se desfez
— Ser feliz é seguir por muitos portos
E morrer por amor mais de uma vez.

 

André Villani

Soneto para o reencontro

De repente, não mais que de repente
De quando em quando, mas não para sempre
Nenhum esforço para que eu me lembre
Da separação, aquela mais valente

Do desencontro, o mais belo espanto
Mesmo aquele de duas mãos espalmadas
Algum dia volta a ter seu próprio encanto
E as bocas que de espuma então embaladas

Voltam a se juntar uma outra vez
Voltam da bruma ao menos um instante
Para um novo lapso de embriaguez

Do espanto faz-se mais um novo amante
Da vida faz-se nova insensatez
De repente, não mais do que o bastante

 

Caio Junqueira Maciel

Vinicius

De repente é sábado: vou cantar
as mulheres nuas de bicicleta
passando nas ruas, junto ao poeta,
enquanto o sol morre de amor no mar.

Paixão infinita enquanto durar,
eis a verdade crua mais completa,
e fez da vida sua a mais repleta:
amadas, amigos, de Bach em bar…

Apaixonadamente a lira inflama,
e sem perder o tom na parceria
sempre um toquinho chique de poesia.

Para quem fez do amor eterna chama,
a vida nunca foi prazer fugaz:
tem a bênção de Deus e dos Orixás.

 

Conheça a obra de Vinicius de Moraes.

O culto à personalidade do editor ou quais são as verdadeiras caras da Companhia das Letras — um post sinceramente feminista

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A relação entre Alfred Knopf e sua mulher, Blanche Knopf, tratada brevemente num texto anterior deste blog, é bastante emblemática. Se estiverem corretos os dados da biógrafa de Blanche, ela teve muito mais responsabilidade na formação e no desenvolvimento de uma das mais importantes editoras americanas do que seu marido, pelo menos mais do que aparece em alguns textos oficiais da Knopf. Blanche teria aguardado durante toda a vida para ter seu nome fazendo parte da marca da editora junto ao do marido, assim como esperou pelo reconhecimento público de seu papel, o que nem sempre obteve.

A imprensa era cruel com Blanche, ignorava-a em muitos textos sobre a Knopf, principalmente por ocasião dos aniversários da editora. Blanche ficava furiosa, com razão, quando um autor editado por ela — e muitos dos mais importantes da Knopf faziam parte desse grupo — era considerado como “do marido”. Segundo Laura Claridge, autora de The Lady with the Borzoi: Blanche Knopf, Literary Tastemaker Extraordinaire, isso aconteceu inúmeras vezes. O casal não poupava os funcionários ou amigos e brigava violentamente, sem recato, expondo uma vida que era tão calcada numa parceria profissional profícua quanto em disputas de ego e profunda separação amorosa.

A vida infeliz do casal não me serve neste post a não ser para exemplificar o culto à personalidade dos editores, muito comum e danoso à prática editorial. Não tenho como julgar se a biografia de Blanche é parcial e acaba sendo injusta com Alfred. Pode ser. Em muitos casos, o biógrafo se aprofunda no sofrimento de sua personagem e termina privilegiando excessivamente o ponto de vista do biografado ou biografada. No entanto, não é incomum ver editores sendo cultuados, incensados como verdadeiros artistas que não são, ou melhor, que não somos. Montar uma editora e tocá-la com propriedade requer algum conhecimento intelectual e, no caso de editoras não literárias, talento para farejar best-sellers. É preciso ter noção comercial e de comunicação aguçadas e, principalmente, saber formar uma equipe coesa, disposta a uma dedicação muito superior à requerida em outros empregos, que não lidam com aspectos autorais a cada novo produto.

Nada disso justifica os editores se transformarem em estrelas ou serem equiparados aos seus autores, glamorizados por jornalistas e colunistas sociais.

O talento na formação de uma equipe que entenda bem a personalidade da editora e a incorpora é, sem dúvida, o grande mérito que pode ser atribuído a um editor. Porém, a não ser pelo fato de que trabalhamos com produtos múltiplos e tão delicadamente individuais, essa me parece ser uma qualidade necessária a todo empresário, afinal, já não vivemos mais na era dos primeiros empreendedores, do capitalismo que dependia mais da inovação individual do que da criação coletiva. Na Companhia das Letras, sinto que a equipe mais do que pensa como eu, pensa por mim e melhor que eu.

Aí está o ponto mais importante. Na biografia de Blanche ou no texto comemorativo dos 100 anos da Knopf, que também citei aqui no mesmo post, pouco aparecem os editores da casa, que tanto devem ter contribuído para o resultado final de cada livro e pela construção de um valiosíssimo catálogo. Assim, não é só Blanche que foi injustiçada e afogada no ego supostamente dilatado do marido. A equipe da Knopf talvez tenha sido a mais injustiçada, como são as equipes de todas as editoras com um culto a um chefe supremo.

Um outro exemplo está no livro Hothouse, de Boris Kachka, que conta a história da Farrar Straus & Giroux, sem prestar o devido valor a Jonathan Galassi, que, tendo começado como editor há décadas, hoje é o presidente da empresa.

Por isso, no aniversário da Companhia que se aproxima, quero estar onde um editor deve estar, no bastidor, ou animando meus autores a falarem, exibindo-os nos livros e em alguns casos no palco, com orgulho. Quero também ostentar a equipe, e este texto é o primeiro porta-voz dessa vontade. A Companhia das Letras não seria o que é sem todos os nomes que aparecem mencionados abaixo e que trabalham ou um dia trabalharam conosco. Espero que a pesquisa em nossos arquivos esteja aqui exposta sem lacunas ou falhas. Além deles, seria necessário colocar o nome de todos os revisores, designers e prestadores de serviço que não tenho como mencionar. Peço desculpas a eles por isso, mas gostaria que se sentissem igualmente homenageados neste texto.

Começamos Lili e eu a Companhia das Letras com poucas pessoas. Estávamos lá nos primeiros dias com a Gisela Creni e o Zé Lú (José Luís de Souza), além do Ricardo Braga de Andrade. Não havia outros editores nesses primeiros dias da nova casa, porém, sem as editoras Maria Emilia Bender, Marta Garcia e Heloísa Jahn, que chegaram logo depois, que estiveram na Companhia por tantos anos e definiram o modo Companhia de editar, nada teria sido como foi. Sem o Sergio Windholz, que entrou em 1991  e finalmente colocou a casa em ordem — depois de um sucesso inicial inesperado e para o qual não estávamos preparados —, hoje seríamos parte de uma história diferente. Sem a Elisa Braga, que entendeu a alma gráfica e visual da Companhia como ninguém, se transformando de certa forma em um dos grandes corações da editora, o aniversário de 30 anos comemoraria uma editora totalmente diversa da que temos hoje. Sem Matinas Suzuki Jr., com quem hoje compartilho em primeira mão parte significativa dos meus anseios e angústias profissionais, não teríamos como ter dado os passos que demos nos últimos anos. São esses três profissionais que participam comigo e com a Lili Schwarcz da diretoria da Companhia. Em grupo, nós tomamos as principais decisões, que em muitos casos são atribuídas somente a mim. As mais ousadas ou espinhosas passam pelo crivo dos sócios, e nesse caso contamos com o companheirismo e amizade do Fernando Moreira Salles, um entusiasta da editora desde o começo e dos representantes da Penguin Random House, que não interferem, só apoiam.

As decisões editoriais e estratégicas também passam hoje por um grupo de quatro jovens publishers, nome mantido em inglês apenas para diferenciá-los dos editores que com eles trabalham e por falta de equivalente em português. Júlia Moritz Schwarcz, Otávio Marques da Costa, Bruno Porto e Marcelo Ferroni são em muitos casos mais responsáveis por nossos acertos do que eu, embora seja a minha cara que aparece nas fotos. É injusto.

O culto à personalidade dos artistas ou escritores, embora ruim quando exagerado, é devido e correto. Existe como forma de reconhecimento do trabalho criativo e artístico do qual os leitores tanto dependem para viver. São assim os que leem avidamente: pessoas com a mente mais inquieta, que precisam de literatura para estarem felizes. Talvez sempre tenhamos sido menos numerosos do que o ideal, mas nós leitores agradecemos aos escritores transformando-os em nossos guias, gurus ou ídolos, numa atitude mais que compreensível.

No entanto, os leitores, como tenho dito incansavelmente aqui, também fazem a arte e a literatura existir. No caso dos livros, contribuem criando conjuntamente o produto final. Os leitores que cuidam da eternização dos textos, de sua compreensão e encaminhamento social. O culto midiático ao editor ou proprietário de editora é uma deturpação de sentido que só se explica pelo sistema de criação de mitos nas sociedades contemporâneas, pelas nossas fraquezas de ego, e pela necessidade de divulgar os livros e as nossas marcas num mercado que disputa novos títulos e autores furiosamente.

Na cerimônia de comemoração do 25º aniversário da Companhia, agradeci a Lili por ser a verdadeira editora da minha mente. A frase repercutiu até em órgãos que costumeiramente não dão atenção especial à minha pessoa. O agradecimento foi indevido, pela modéstia com que tratou a homenageada, por atribuir a ela apenas o papel de “editora”. A participação dela em minha vida é muito mais autoral que editorial, enquanto a minha em sua vida talvez seja de cunho mais editorial. A Lili sempre foi a autora da minha mente e do meu coração e coautora de todos os meus atos que optaram pelo caminho certo. Nossa relação frutificou em um casamento muito diferente daquele que usei como exemplo no começo deste post. Nada do que fiz e que pode ser digno de avaliação como parte de uma história coletiva de sucesso deixou de ter a marca pessoal destacada da Lili. A ideia que ouvi tantas vezes quando jovem, principalmente do meu avô, de que por trás de grandes empresários e empreendedores há sempre uma “grande mulher” é preconceituosa e machista. Faz parte da mentalidade de outros tempos, por sorte já passados. As mulheres não estão por trás, mas junto, ou na frente, antevendo, preparando o campo e realizando. Assim foi com tudo na Companhia. Mais uma vez a foto deveria ser coletiva, do casal neste caso, e não minha.

Aliás, é interessante aproveitar a ocasião para apontar o papel fundamental das mulheres no mercado de livros. Sabemos que as leitoras são majoritárias com relação aos leitores, e que influenciam mais que estes. A equipe de marketing da Penguin Random House dos Estados Unidos, ao receber como bônus do seu CEO Markus Dohle uma polpuda verba para desenvolvimento de ações promocionais, resolveu investir num site destinado às mães chamado readbrightly.com, atingindo assim várias áreas editoriais com uma tacada só.

Quando entrei no mercado editorial, em 1978, as mulheres já eram parte significativa da força de trabalho internacional das editoras. Concentravam-se, porém, principalmente nos departamentos de direitos estrangeiros. Hoje em dia, muitos dos cargos altos dos diversos departamentos das editoras são ocupados por elas. Dentro do grupo Penguin Random House dos Estados Unidos, os postos de presidente da Penguin, Crown e Random House são ocupados, respectivamente, por Madeline McIntosh, Maya Mavjee e Gina Centrello. As divisões de livros infantis, de marketing, e tantas outras são também de comando feminino. Barbara Marcus na Random House e Jen Loja na Penguin. Sem falar nos direitos estrangeiros, é claro. Talvez a maior concentração masculina ainda esteja no setor comercial, embora com certeza isso também esteja mudando. Curiosamente, muitos dos grandes editores ou proprietários de editoras destinam boa parte do seu trabalho na área comercial. Esse era o caso de Alfred Knopf e de Bennett Cerf, da Random House. Na Companhia, até o setor comercial hoje tem comando feminino, e a proporção de mulheres no campo editorial e de produção é bem maior que a de homens. Do total de funcionários hoje no grupo, praticamente 50% são mulheres. Se levarmos em consideração que na área de expedição e entrega a proporção de homens é de quase 100%, vemos o quanto o trabalho editorial é feminino. É uma alegria ver o espaço profissional dividido igualitariamente — ou majoritariamente — por mulheres, o que talvez nem sempre foi verdade, mesmo no mundo editorial. Seria ainda melhor se tivéssemos mais mulheres começando suas próprias editoras e galgando postos ainda mais altos na hierarquia das grandes corporações. É justo esperar que a força de trabalho das editoras, que avançam com um olhar especial para o público feminino, seja dominada pelas mulheres. Nesse aspecto, o mercado de livros é também diferenciado, privilegiado e especial.

Por fim, eu gostaria hoje de ilustrar este post com a foto de cada colaborador da editora, da família que trabalha diretamente ao meu lado,* dos sócios, dos funcionários, dos autores e artistas a quem tentamos homenagear diariamente com nosso cuidado editorial. Pense você mesmo em alguém que está ou esteve na Companhia, pense em você mesmo leitor, e se coloque na ilustração que abre o post, como meu homenageado. Muito obrigado a vocês todos, que são e formaram a verdadeira cara da Companhia das Letras.

Confira aqui os nomes de todos os funcionários que trabalham e já trabalharam na Companhia das Letras:

*Nota: Deixa-me especialmente feliz o fato de ter também meus filhos nesse time: a Júlia, a mais velha, é publisher de tantos selos fundamentais para a editora hoje, e o caçula, Pedro, tem hoje também papel importante na editora, coordenando as atividades sociais de divulgação da leitura em bairros menos favorecidos, em creches e no presidiário feminino, além dos clubes de leitura em livrarias em geral.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.