A questão dos livros: o Google Books de um ponto de vista histórico

Robert Darnton (foto por Justin Ide/Harvard University) e a capa de seu novo livro.

Após ser eleito para assumir a presidência da American Historical Association, Robert Darnton pensou em usar sua posição para ajudar pesquisadores, que tinham dificuldade em encontrar uma editora disposta a publicar suas monografias. O resultado disso foi o Gutenberg-e, um projeto ligado à Columbia University Press que oferecia uma bolsa para que eles não só completassem suas monografias, mas também as publicassem em formato eletrônico com imagens, vídeos e outros materiais multimídia.

Ao se dedicar a esse projeto, o historiador percebeu não só que havia alguns preconceitos contra o formato (principalmente no meio acadêmico), mas também que a publicação de e-books é mais complicada do que ele havia imaginado.

A partir dessa experiência, Darnton, que é apaixonado por livros raros, manuscritos e pergaminhos, encarou o desafio de pensar o livro em suporte eletrônico. Entretanto, ao invés de se basear simplesmente em especulações, ele usa seus conhecimentos sobre a história do livro, lembrando, por exemplo, que na época de Shakespeare não havia copyright, e o quanto isso torna difícil saber sequer qual é a versão original de suas peças, já que elas eram publicadas por diversas pessoas com inúmeras modificações.

Ele defende, acima de tudo, que a história do livro está profundamente ligada à história da sociedade, e que portanto uma proposta como a do Google Books pode trazer muitos benefícios, mas que justamente pelo seu caráter inovador também deve ser analisada com muito cuidado. (Leia mais sobre os efeitos do Google Book Settlement — em inglês.)

Robert Darnton hoje é diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard, e vem ao Brasil em agosto para a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Abaixo você lê um artigo dele sobre o Google Book Settlement, escrito posteriormente aos artigos publicados em A questão dos livros (tradução de Daniel Pellizzari).

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O Google e o novo futuro digital

Por Robert Darnton

Nove de novembro é uma daquelas estranhas datas assombradas pela história. Em 9 de novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim, sinalizando o colapso do império soviético. Os nazistas organizaram a Kristallnacht em 9 de novembro de 1938, dando início à sua campanha aberta contra os judeus. Em 9 de novembro de 1923, o putsch de Hitler foi esmagado em Munique, e em 9 de novembro de 1918 o kaiser Wilhelm II abdicou e a Alemanha foi declarada uma república. Ainda que a data paire especialmente sobre a história da Alemanha, marca também grandes eventos em outros países: a Restauração Meiji no Japão, em 9 de novembro de 1867; o golpe de Bonaparte que encerrou definitivamente a Revolução Francesa, em 9 de novembro de 1799; e a primeira vez que os colonos ingleses avistaram terra americana a bordo do Mayflower, em 9 de novembro de 1620.

Em 9 de novembro de 2009, no Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York, a Authors Guild e a Association of American Publishers estavam programadas para entregar um acordo que resolveria sua ação judicial contra o Google alegando violações de copyright no programa para digitalizar milhões de livros de bibliotecas de pesquisa e disponibilizá-los de graça na internet. Você pode achar que isso não se compara à queda do Muro de Berlim. É verdade, mas por vários meses todos os olhos do mundo dos livros — autores, editores, bibliotecários e muitos leitores — ficaram atentos ao tribunal distrital e seu juiz, Denny Chin, pois essa disputa aparentemente pouco relevante sobre direitos autorais parecia capaz de determinar o futuro digital de todos nós. Continue Lendo

O mundo não está mais tão simples, né?

Por Fabio Uehara

Quando o carteiro trazia cartas. Na época em que lembrar do nome daquela música era um suplício, e a solução dependia daquele amigo que tinha dinheiro para comprar todos os discos e não te gravava uma fita cassete sequer. Se pintasse a dúvida “qual o nome do pintor das Niféias?” ou “como é mesmo o nome da capital da Iugoslávia?” você não tinha outra opção senão consultar a Barsa ou a Mirador. Se eu falasse que encontrei um amigo da escola, as pessoas logo imaginariam que eu esbarrei com ele na videolocadora ou na fila do orelhão.

Hoje essas situações não são mais que lembranças para muita gente. Dos objetos afetados pelas mudanças tecnológicas o livro é o que talvez interesse mais aos leitores deste blog. Então é sobre as mutações dele que eu vou falar. O livro se tornou independente do papel, um arquivo que roda em um software de um determinado hardware. Você pode lê-lo no celular, no computador, no tocador de música, no leitor de livros digitais Kindle, COOL-ER e iPad.

É muito fácil ter os seus livros em um pedaço de plástico. Carregar uma biblioteca ali, no formato de uma lousa mágica, com a tela cinza, onde as letras vão surgindo ao toque de um botão e se desenham quase como um mimeógrafo digital na sua frente. Em alguns casos o livro pode ser ditado para você. Mais alguns cliques e um dicionário também está lá, para que a solução chegue tão logo apareça a dúvida sobre o significado de uma palavra, junto com informações que a princípio não te interessavam, como a etimologia e os antônimos.

Qualquer livro já digitalizado pode estar ao seu alcance em segundos, basta seu cartão de crédito ter o limite necessário. Além dos e-readers, existem os tablets: pequenas maravilhas de vidro e plástico capazes de reproduzir tudo aquilo que antes precisava de uma TV, um videocassete, um videogame, um terminal de videotexto, um fax e, claro, de espaço físico no caso do armazenamento de livros e pilhas de revistas. Ou seja, para ser portátil, só com um caminhão da Granero. E, apesar da praticidade desses meios, não podemos dizer que o livro em papel é ou será um objeto em extinção. O objetivo desse post não é discutir o futuro do livro, e sim mostrar a variedade de meios pelos quais podemos lê-lo, suas vantagens e desvantagens:

  • E-readers (Sony Readers, COOL-ER, Kindle): tela ótima para leitura, diagramação dos livros simplificada (poucas fontes e ilustrações pobres), “apenas” para leitura. Ótimos para uma leitura rápida, aquisição prática de arquivos.
  • Tablets (iPad, Slater, e outros tantos a caminho): tela ótima para imagens e vídeos. Uso muito fácil. Possibilidade dos livros terem interação, áudio e vídeo. A tela emite luz, não dá para ler no escuro (parece que tem uma lanterna na sua cara), nem muito no claro (imagina ver TV na sala, ao meio-dia, com um baita sol batendo na janela sem cortinas). Esqueça a idéia de usar o iPad à beira de uma piscina em um dia ensolarado. Mas também, quem seria louco de deixar o iPad tão perto da água?
  • O livro de papel: não precisa de bateria nem conexão com internet. Dá pra ler  no sol, na penumbra ― minha mulher não reclama mais do abajur e sim do iPad! Se você for ler algo que exija mais que um terço dos seus neurônios, ler no papel é bem melhor.

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Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.

Cachalote: a parte do ator chinês

Depois de anos de trabalho e alguns meses de atraso, a HQ de Rafael Coutinho e Daniel Galera, Cachalote, está finalizada e deve chegar às livrarias do país a partir do dia 24. Para celebrar, publicamos aqui um trecho inédito da história em quadrinhos brasileira mais aguardada do ano:

Leia também no Segundo Caderno do jornal O Globo a matéria sobre a produção de Cachalote e de outros títulos de quadrinhos nacionais da Companhia das Letras.

The Penguin Podcast

Entre agosto de 2007 e março de 2010, a editora Penguin manteve um podcast semanal, que trazia entrevistas com autores sobre seus novos livros. Em seus mais de 200 episódios, os autores falaram sobre as dificuldades de escrever e ser publicado, deram dicas e leram trechos de seus livros.

Apesar de não haver mais novos episódios, os antigos ainda podem ser encontrados no iTunes.

Como devorar um livro

Por Júlia Moritz Schwarcz


Dizem que filhos são bons para pensar; no meu caso, servem, ainda por cima, na hora em que tenho que escrever algum texto sobre literatura infantil para o blog da Companhia. Já estava me sentindo uma jornalista em crise de abstinência de pauta quando, milagre!, chego em casa e encontro a Alice — um ano de idade, minha mais nova — mastigando um livro. Nada que tenha me preocupado: na verdade ela adora comer papel higiênico, sabão nem se fala. Sem fazer alarde, peguei ela no colo e tasquei-lhe um beijo, feliz com a ideia que tive.

Pois um assunto com o qual tenho encasquetado no meu dia a dia como editora é o dos livros-brinquedo, questão inflacionada com a chegada dos e-books. Só este ano, já respondi a umas cinco entrevistas sobre os tais livros-brinquedo — aqueles que vêm com dobraduras que saltam das páginas, puxadores mágicos e botões sonoros —, o que não só me obrigou a formar uma opinião a respeito deles como me fez perceber o seu crescimento no mercado de livros infantis.

Se você tem filhos, sobrinhos, netos, etc. e costuma levá-los à livraria, sabe do que estou falando. Geralmente paramentados com capa dura, enfeites mil e em formato grande, esses volumes são vistosos e bonitos, levando jeito para enfeitar as alas infantis das livrarias, sempre lotadas deles. E claro que têm o seu mérito: talvez a interatividade que oferecem atraia mais diretamente as crianças.

De fato, o livro é um grande brinquedo na mão de um “leitor mirim”. Desde o primeiro ano de vida, as crianças se interessam e se entretêm com ilustrações coloridas, de bichos, pessoas, objetos ou formas, mesmo que a narrativa seja simples e praticamente guiada pelos desenhos. Os livros são por si só um objeto lúdico, seja por conterem os pop-ups e sons acionados por botões, seja por nos levarem para um mundo não-cotidiano, de histórias cheias de surpresas e imprevistos, que divertem, causam medo, emocionam.

Não sou contra essa relação lúdica e prazerosa que pode se estabelecer entre o pequeno leitor e seu livro, tenha ele a forma que for. Minhas filhas adoram os livros-brinquedo, leem, brincam e aprendem muito com eles. Mas uma coisa não me sai da cabeça: aquele velho truque de misturar a verdura no feijão, para que a criança coma sem perceber. Acho que, com a melhor das intenções, alguns pais podem muitas vezes se interessar prioritariamente por livros assim, com cara de brinquedo, e fazer com que as crianças acabem batendo na trave no momento em que estariam mantendo um primeiro contato com a literatura. O que preocupa é o lugar que esses livros estão tomando: o da literatura, dos livros de histórias, que vêm acompanhadas apenas de belas ilustrações e que não só priorizam a narrativa e apresentam a linguagem literária às crianças como, de certa maneira, estimulam mais livremente a imaginação.

Com os livros eletrônicos, então, que tendem a multiplicar as possibilidades de leitura mas podem muito bem transformar livros em joguinhos, fico um pouco encasquetada também. Não quero parecer ranzinza e arcaica — seria uma besteira completa pensar mal da interatividade oferecida pelo iPad, por exemplo — mas nada como o bom e velho papel, com cheiro, mancha e um gosto, para alguns, delicioso.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.