(Penguin Classics)RED

A Penguin fez uma parceria com a Product Red e lançou oito de seus clássicos com capas especiais:

A Product Red é uma iniciativa para combater a AIDS na África. Empresas parceiras criam produtos especiais para a linha Red, e 50% do lucro dessas vendas é destinado à compra de remédios contra o vírus HIV.

A Penguin criou uma página especial para a (Penguin Classics)RED, e também postou em sem blog vídeos de alguns dos designers falando sobre as capas que eles elaboraram para o projeto.

É o amor

Por Júlia Moritz Schwarcz

Outro dia chego em casa e encontro a Filó e a Kelé, duas “filhas” da minha filha Maria Isabel, abraçadas, de nó de braço, num canto. Até aí tudo normal, em se tratando de um quarto de uma menininha de três anos. Preciso que me acompanhem em meus afazeres domésticos para entender o que de realmente novo e notável aconteceu na minha casa.

Enquanto eu preparava o jantar, vejo a Zizi (como é conhecida a Maria Isabel) rodopiando com as duas numa dança romântica — “liri, liri, isso é o amor” —, na saída do banho foi a hora dos beijos e abraços e, um pouco mais tarde, quando as badaladas marcaram o momento de ir dormir, as duas finalmente se casaram e ganharam a sua cama, muito aconchegante, preparada com os panos mais especiais da caixa de panos da minha filha: era a lua de mel. Não é que a Zizi tenha apenas bonecas do “sexo” feminino, estão lá o Palhaço, o André e o Tião para equilibrar a brincadeira, matar os dragões e também dançar balé e fazer comidinha.

Quando chegou a minha hora de tomar banho e jantar, me peguei matutando, feliz com a simplicidade do amor e das relações de gênero na vida da minha filha. Mas, se por um lado tudo pode ser mais simples por enquanto, é claro que, por outro, ela já se depara com as questões da vida real, sempre mais complicadas: por que as tias solteironas não acharam o seu príncipe encantado, por que os pais da minha amiga Clara não moram juntos e por que aquele menino tem dois pais e apenas uma mãe.

Não sou psicóloga nem pedagoga, mas confio no meu bom senso e… trabalho com livros infantis! Maravilha, nada como buscar neles um sinal dessa nova disposição social que vivemos, marcada por agrupamentos familiares que seriam bastante inusitados até pouco tempo. Para a minha sorte, um dia recebi um livro lindo, muito especial, sobre esse tema. E para a sorte de vocês, leitores, ele sai este mês.

Não se trata de fazer propaganda (apesar de parecer!), mas principalmente de falar de um tema que me parece presente tanto no dia a dia da minha filha quanto no mundo dos livros infantis — há bem mais de um título saído do forno sobre crianças e seus pais gays. Olívia tem dois papais narra um dia na vida dessa menina que, além de muito esperta — ligada em palavras, que ela sabe usar muito bem para conseguir o que quer —, vive com seus dois pais, Raul e Luís, que a adotaram pequenininha.

A casa da Olívia é uma casa como a minha, por exemplo, com pais que trabalham, cozinham e brincam com a filha, que por sua vez tem suas bonecas apaixonadas, que se abraçam e rodopiam de amor. Nada mais natural.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Semana um

Toda sexta-feira nós colocaremos no blog os livros lançados durante a semana, assim como os eventos literários e culturais que acontecerão na semana seguinte.

Os lançamentos da semana foram:

2666, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Maior sucesso latino em escala mundial desde Gabriel García Márquez, Roberto Bolaño consolidou-se na direção contrária de seu predecessor, apresentando um realismo cru, de humor sardônico e pessimista. É nessa chave que se desenrola 2666, composto de cinco romances interligados em um de seus livros mais elogiados e premiados.

Para comemorar o lançamento deste livro, que é um dos mais esperados do ano, elaboramos o Concurso Bolañomania, no qual você concorre a uma sacola comemorativa com um exemplar de 2666.

Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow (Tradução de José Geraldo Couto)
O milionário americano Eugene Henderson, veterano de guerra e descendente de homens ilustres, resolve dar uma virada radical em sua vida, e parte para o coração da África em busca de relações humanas mais autênticas e de um sentido para a existência.

Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron
Novo título da Coleção Amores Expressos, este livro conta a história de Wilson e William, gêmeos nascidos em São Paulo nos anos finais da ditadura. Órfãos de mãe e criados pelo pai, ator, os meninos são treinados para atuarem juntos, mas as brincadeiras da infância, porém, revelam que a semelhança dos irmãos é apenas física. William é violento, taciturno e masculino, enquanto Wilson é feminino e dono de inteligência tão sagaz quanto compulsiva.

Assista abaixo ao trailer do livro:

O guardador de segredos, de Davi Arrigucci Jr.
Do autor de O cacto e as ruínas, clássico da interpretação da poesia de Manuel Bandeira, este livro reúne textos recentes sobre poesia, ficção, cinema e crítica, enfatizando nomes fundamentais da literatura brasileira.

Obra completa, de Murilo Rubião
Em formato econômico, os 33 contos de Murilo Rubião, expoente máximo da literatura fantástica brasileira.

Esqueleto na lagoa verde, de Antonio Callado
Em 1925, o oficial britânico Coronel Fawcett tenta localizar um Eldorado no interior do Brasil, mas acaba desaparecendo na selva. Vinte e sete anos depois, o repórter Antonio Callado vai ao Xingu para escrever sobre o sumiço do explorador e produz um dos mais fascinantes relatos jornalísticos já feitos no Brasil.

A humilhação, de Philip Roth (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Em seu trigésimo livro, Roth volta ao tema da velhice, da perda e da morte ao narrar os conflitos de um ator em crise com a profissão. Veja uma entrevista do autor com Tina Brown sobre o livro aqui.

Feliz aniversário, de Reginaldo Prandi (Ilustrações de Rodrigo Rosa)
No terceiro romance sobre as aventuras de Paulo e seus quatro filhos, velhos conhecidos dos leitores de Minha querida assombração e Jogo de escolhas, mais histórias dentro de histórias e clima de mistério no ar.

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O Blog da Companhia indica os seguintes eventos até a semana que vem:

Bienal do livro de Minas
A feira, que contará com a presença dos autores Moacyr Scliar e Carlos de Brito e Mello, entre outros, termina neste domingo. A Companhia das Letras estará presente no evento, visite nosso estande. http://www.bienaldolivrominas.com.br/
Local: Expominas – Avenida Amazonas, 6.030 – Belo Horizonte, MG

Exposição Andy Warhol, Mr. America
A exposição de pinturas, gravuras e vídeos deste que foi um dos artistas mais influentes da Pop Art também termina este domingo. Mais informações aqui.
Local: Estação Pinacoteca – Largo General Osório, 66 – São Paulo, SP

Mesa redonda: As atuais mudanças e transformações dos quadrinhos no Brasil
Sábado, 22 de maio, às 15h.
O editor da Companhia das Letras André Conti participa da mesa redonda junto com os editores das editoras Panini, Devir e Conrad sobre as recentes e significativas mudanças do mercado de quadrinhos, o crescente aumento de investimento no setor, além da produção de quadrinhos nacionais e a nova safra de autores.
A Casa das Rosas também está promovendo muitos outros eventos, como uma palestra com os quadrinistas gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá e uma exposição durante todo o mês de Maio sobre livros adaptados para histórias em quadrinhos. Clique aqui para ver toda a programação do mês.
Local: Casa das Rosas – Av. Paulista, 37 – São Paulo, SP

Contação de histórias e oficina do livro Histórias à Brasileira 4
Sábado, 22 de maio, às 17h30.
Kiara Terra conta histórias do livro Histórias à Brasileira 4, de Ana Maria Machado, ilustrado por Odilon Moraes.
Local: FNAC Morumbi – Avenida Roque Petroni Júnior, 1089 – São Paulo, SP

Contação de histórias e oficina do livro Zoo Zureta
Domingo, 23 de maio, às 15h.
Márcia Brito conta histórias e faz oficina de dedoches baseada no livro Zoo Zureta, de Fabrício Corsaletti, ilustrado por Ionit Zilbermann.
Local: Saraiva Mega Store – Shopping Eldorado – Av. Rebouças, 3.970 – São Paulo, SP

Seminário Internacional Jorge Amado
Organizado por Lilia Moritz Schwarcz e Ilana Seltzer Goldstein, e com a participação de autores como José Agualusa, o evento abordará temas como a cultura afro-baiana, a mestiçagem, questões de gênero e a política, todos de alguma forma envolvidos na obra do escritor baiano. O Seminário ocorrerá em São Paulo e em Salvador. Veja a programação e completa e inscreva-se aqui.
São Paulo: 24 e 25 de maio.
Local: Anfiteatro da História – FFLCH/USP – Av. Professor Lineu Prestes, 338
Salvador: 27 e 28 de maio.
Local: Anfiteatro da Faculdade de Medicina da Bahia – UFBA – Largo Terreiro de Jesus, s/nº

Série Tertúlia – Encontros de literatura
Segunda-feira, 24 de maio, 21h no SescTV.
O programa traz tradutores falando sobre o desafio de traduzir alguns dos mais prestigiados autores. Nesta segunda-feira, José Rubens Siqueira fala sobre seu trabalho com as obras de J.M. Coetzee. Clique aqui para saber mais.

III Festival da Mantiqueira
Acontece, de 28 a 30 de maio, a 3ª edição do Festival da Mantiqueira, evento que reúne escritores renomados para conversas com o público sobre suas obras e literatura em geral. Estarão presentes no evento os autores Arnaldo Bloch, Carola Saavedra, Fernando Gabeira, José Eduardo Agualusa, Lira Neto e Spacca. Os ingressos são gratuitos e é necessário retirar senha para as mesas, atividades infantis e shows, uma hora antes do início das atividades, na bilheteria do evento, na praça principal.
Para mais informações sobre a programação, clique aqui.
Local: Praça Cônego Antonio Manzi, centro de São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos (138 km de São Paulo e 59 km de São José dos Campos)

Mostra “Cineastas e Imagens do Povo”
Até 6 de junho.
A mostra reúne documentários citados no livro homônimo de Jean-Claude Bernardet, a mais abrangente antologia da história do documentário brasileiro moderno. Além de resgatar a história do nosso cinema, o evento exibe algumas cópias novas, confeccionadas especialmente para a ocasião. A programação também conta com a realização de debates com a presença de realizadores e de um curso ministrado por especialistas, organizado com o apoio da Universidade de São Paulo. O público tem a oportunidade de assistir filmes que falam das grandes questões culturais, políticas e sociais vividas no país nas últimas quatro décadas. A maioria deles se encontrava inacessível às novas gerações até esta merecida homenagem ao trabalho de um dos maiores críticos de cinema ainda em atividade no Brasil.
Veja mais informações e a programação completa aqui.
Local: CCBB – R. Álvares Penteado, 112 – São Paulo, SP

Editor de calças curtas

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. A partir de hoje, contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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Editor de calças curtas

O endereço é histórico, rua Barão de Itapetininga, 93. O ano, 1982. Minha vida de editor já começara havia algum tempo, mas foi com a coleção Tudo é História que eu pela primeira vez ganhei autonomia editorial e liberdade de decisão. Não precisava aprovar previamente a escolha dos títulos e dos autores; podia ler sozinho os livros e, se quisesse, gritar da janela do último andar, para que todos ― do centro de São Paulo até o Brás, onde ficava a gráfica dos livros de bolso da editora Brasiliense ― ouvissem: IMPRIMA-SE!

Ao propor ao Caio Graco Prado* uma coleção como a Primeiros Passos, só que voltada exclusivamente para livros de história, ouvi com surpresa: “Boa; só que essa você mesmo vai editar”. Não era a primeira vez que o Caio me surpreendia. Alguns anos antes, depois que reportei a ele que não havia conseguido convencer nenhum crítico literário importante a organizar uma coletânea de contos de Lima Barreto, Caio mandou entregar, na minha sala, as obras completas do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma, em capa dura e encadernação vermelha e preta, com um bilhete ao recém-promovido estagiário: “Luiz, divirta-se, faça a antologia você mesmo”.

Quanto à “minha coleção”, foi só a partir do segundo volume que eu teria toda a liberdade.

O editor, então com 25 anos, resolvera compensar sua falta de experiência, ou melhor, a falta de anos corridos, convidando autores já consagrados, frequentadores assíduos de qualquer tratado de historiografia brasileira que se prezasse. Até que o primeiro original viesse a ser entregue, conversei diariamente com Maria Yeda Linhares e Franciso Iglesias, que, sem saber minha idade, acabaram passando de conselheiros a amigos telefônicos íntimos. Evitei falar com os autores sobre a minha cronologia pessoal. Ninguém perguntou, eu não anunciei. Com Paula Beiguelman, importante cientista política da USP e a primeira a terminar sua encomenda para a coleção, ocorreu algo semelhante. Falava com ela sobre detalhes da obra, sobre os requisitos da coleção, procurando, até exageradamente, demonstrar conhecimento da sua obra sobre o ciclo do café no Brasil. Conversa de intelectual, gente grande. O tom das conversas telefônicas era menos pessoal, mas, mesmo assim, elas eram frequentes.

Certo dia, nova surpresa: muito antes do previsto, Paula anunciou que queria entregar os originais pessoalmente e me conhecer. Já havíamos discutido longamente o teor do livro, em conversas mais profundas do que o necessário, mas ela claramente não tinha ideia de quem eu era. Mesmo que eu deixasse de fazer a barba por alguns dias, o resultado seria pífio. Nada mais patente na minha aparência do que a cara de editor neófito, com jeitão de militante estudantil, tarimbado em inexperiência como ninguém.

Por tudo isto, fiquei nervoso nos dias que antecederam nosso encontro. E o encontro em si, mais do que qualquer outra coisa, provou que, ao menos no quesito nervosismo, eu estava cheio de razão.

A telefonista anunciou: “d. Paula está na recepção”. Com um pigarro respondi: “faça-a entrar”. Tentei desamassar as roupas com as mãos, levantei-me para cumprimentá-la e ouvi: “você é o Schwarcz?”.

Em seguida, vi minha primeira autora dar meia-volta, esbravejando: “Não, não, um moleque não vai avaliar meus originais!”. Hesitei por alguns segundos, não sabia bem o que falar. Resolvi segui-la até o elevador e sem dizer nada apoiei com uma mão o seu braço e com a outra indiquei que retornasse para a minha sala. Paula Beiguelman voltou atrás.

* Publisher da Brasiliense.

Sonhos, reflexos, o tempo

Jorge Luis Borges em 1963 (Foto por Alicia D’Amico)

Esta pequena obra-prima, na verdade um simples prólogo, é a visão de Jorge Luis Borges sobre Alice no país das maravilhas e outros títulos de Lewis Carroll.

Assim como este, outros textos escritos pelo autor para livros como Bartleby, de Melville, e A metamorfose, de Kafka, estão reunidos em Prólogos, com um prólogo de prólogos (tradução de Josely Vianna Baptista).

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Lewis Carroll

Obras completas

No capítulo segundo de Symbolic Logic (1892), C. L. Dodgson, cujo nome perdurável é Lewis Carroll, escreveu que o universo consta de coisas que podem ser ordenadas por classes e que uma destas é a classe das coisas impossíveis. Deu como exemplo a classe das coisas que pesam mais de uma tonelada e que uma criança é capaz de levantar. Se não existissem, se não fossem parte de nossa felicidade, diríamos que os livros de Alice correspondem a essa categoria. De fato, como conceber uma obra que não é menos deleitável e hospitaleira que As mil e uma noites, e que também é uma trama de paradoxos de ordem lógica e metafísica? Alice sonha com o Rei Vermelho, que a está sonhando, e alguém lhe avisa que, se o Rei acordar, ela irá apagar-se como uma vela, porque não passa de um sonho do Rei que ela está sonhando. A propósito desse sonho recíproco, que é bem possível que não tenha fim, Martin Gardner lembra certa obesa, que pinta uma pintora magra, que pinta uma pintora obesa, que pinta uma pintora magra, e assim ao infinito.

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