100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma

O riso, a sina e o sonho

Por Antonio Arnoni Prado

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Antonio Arnoni Prado, autor de Cenário com retratos.

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“Alice, olha que são horas; o major Quaresma já passou”. Era assim que os vizinhos reagiam numa casa afastada de São Januário, no subúrbio, ao avistar a figura de Policarpo Quaresma passando todos os dias, religiosamente às quatro e quinze da tarde, de volta do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário.

A cena, conquanto singela, nos desvenda, já na abertura do romance, aquela que será uma das marcas indissociáveis do espírito de seu protagonista: a regularidade metódica, quase doentia, e a obsessão incontornável frente ao compromisso do dever cumprido.

Visto por esse ângulo, Quaresma é o antípoda mais exacerbado de Lima Barreto, como sabemos um libertário apátrida avant la lettre, inconformista e revoltado contra as “formalidades do poder” que o acabariam arrastando para as trincheiras da contestação mais radical, seja no plano social e político, seja no das convicções estéticas e ideológicas.

Daí o peso específico de Policarpo Quaresma em meio ao conjunto das personagens de Lima Barreto. Veemente e incansável na defesa dos valores da pátria, podemos dizer que Quaresma é um recorte irônico do sarcasmo barretiano frente ao passadismo dos motivos retóricos do herói neorrealista. Míope e fardado, folclórico e falando tupi, agricultor atropelado pelas formigas, a sua imagem se confunde com a do medíocre incontido e sempre revoltado frente à mediocridade.

Se é legítimo tomar esse desequilíbrio como forma de explicar a revolta, não há como descurar das três faces críticas de Policarpo Quaresma: a cômica, a delirante e a trágica, uma sobreposta a outra, compondo no todo como que um tríptico amoldável e simultâneo, numa espécie de máscara  reversível sempre pronta a rebelar-se.

O Policarpo da face cômica é um tipo de exceção no conjunto da sociedade em que vivia. Apesar de estudioso, lido e cheio de preocupações com a cultura da terra, no fundo não passava de um contraponto risível e fora de eixo diante das limitações de seus vizinhos do subúrbio, gente como Caldas, Albernaz, Bustamante, Genelício (“ele não era formado, por que meter-se em livros?”) e tantos outros. Para eles, aliás, era justamente o livro, enquanto “instrumento de gerar loucura”, a razão para o escárnio e a chacota ao major Quaresma, transformando a face delirante no traço mais incisivo de seu caráter, a ponto de levá-lo a imaginar-se um conselheiro de Floriano Peixoto durante os episódios da Revolta da Armada: “Marechal Floriano, Rio! Peço energia. Sigo já”, eis o que escreveu, com os olhos brilhando de esperança, assim que leu nos jornais que os navios da esquadra se insurgiram contra o presidente, intimando-o a deixar o poder.

Daí o anticlímax da face trágica, em que a morte e o fracasso – incabíveis no coração arrebatado desse anti-herói intransigente – se encarregam de trazê-lo à realidade sob o brilho indiferente das estrelas.

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Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

Lima Barreto suberviso, por Felipe Botelho Correa

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Antonio Arnoni Prado nasceu em São Paulo. Publicou sua tese de doutorado, Itinerário de uma falsa vanguarda, em 1983, ensaio atualmente consagrado. Foi professor visitante em diversas universidades estrangeiras e leciona na Unicamp desde 1979Em 2015, lançou pela Companhia das Letras o livro Cenário com retratos, que reúne ensaios sobre grandes autores brasileiros.

Lima Barreto subversivo

Por Felipe Botelho Correa

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Rio de Janeiro em 1915.

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Felipe Botelho Correa, pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

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“Subversivo” foi a definição de Triste fim de Policarpo Quaresma em uma das poucas resenhas que apareceram nos jornais logo que a edição em livro do folhetim de Lima Barreto foi publicada em dezembro de 1915. Com ares de denúncia, o autor da crítica aponta o escritor carioca como pertencente a uma nova geração de intelectuais antirrepublicanos que ganharam espaço através de “publicações obscuras e desdenhadas que não receberam a tempo o corretivo devido”.

Foi de fato através de edições de baixo custo que Lima Barreto fez seu nome circular nas livrarias da época numa tentativa de dar sobrevida aos textos que publicava em revistas e jornais. Triste fim… é uma das pérolas dessa atuação incansável, combativa e debochada que ele encarnou sobretudo através da sátira. Atuação essa que ele próprio definia como consequência de suas implicâncias com certas ideias, indivíduos e práticas que surgiam nos primeiros anos da República no Brasil. “Não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada: tenho implicâncias”, afirmou ele em 1911.

Esse foi o mesmo ano em que escreveu a história de Policarpo Quaresma. O herói quixotesco, cujo destino já está marcado no título do romance, é um personagem que cultiva as origens e as características autênticas de sua pátria mítica “no silêncio do seu gabinete” através das leituras de uma seleta biblioteca com obras de ficção e de história exclusivamente sobre o Brasil. A história do triste fim do visionário estudioso do “culto das tradições” brasileiras aparece como subversivo não só por ridicularizar a administração republicana e tratá-la com desdém, como afirma o oficial militar autor da resenha tirânica, mas por expor, como um cronista burlesco que mata pelo riso, o caráter ridículo das ideias que surgiam no contexto político e social da jovem República.

O livro de Lima Barreto é uma resposta contundente e irreverente aos ultranacionalismos que pipocavam em textos como Porque me ufano de meu país (1900), de Afonso Celso, Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, ou mesmo no próprio Hino Nacional, cuja letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 para idolatrar a pátria amada, que é imaginada deitada “em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.”

Triste fim… é subversivo porque ousa pensar o Brasil para além das ideias de nação e pátria, e em busca de uma perspectiva mais complexa em relação aos problemas e tensões de sua época, como fica claro em outros textos de Lima Barreto publicados na imprensa. Em vários desses artigos, muitos deles recentemente descobertos e ainda inéditos em livro, a implicância com o nacionalismo essencialista fica evidente. Para ele, o conceito de humanidade deveria se sobrepor ao de pátria, e a literatura deveria ser a arte que, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, deveria trabalhar pela união da espécie, e não pela construção de conflitos, como a Primeira Guerra Mundial que já estava em curso quando, há cem anos, Lima Barreto bancou do próprio bolso a primeira edição deste livro que se tornou um clássico.

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Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Felipe Botelho Correa é do Rio de Janeiro e transferiu-se para o Reino Unido, onde concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford. Atualmente é pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

Triste fim

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. Lilia Moritz Schwarcz, que está escrevendo a biografia do autor, estreia a série de posts que serão publicados no blog durante todo este mês.

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Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio: de 11 de agosto a 19 de outubro de 1911. Esse era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro e o texto de Lima figurou na seção “Folhetim do Jornal do Comércio”; gênero que se convertera numa coqueluche da cidade. Geralmente escandalosos, os folhetins garantiam o desenrolar de tramas rocambolescas com finais diários sempre emocionante. E Triste fim não fugiria à regra. Dividido em 52 folhetins trazia três diferentes partes com desfechos “tristes”: primeiro, o final da carreira de Policarpo como funcionário público; segundo, quando há a falência do sítio do herói; e terceiro, com o personagem se voluntariando para o exército; preso e desiludido com a República.

A obra só apareceu sob a forma de livro em dezembro de 1915: praticamente 100 anos atrás. Lima pagou pessoalmente para ver a única edição de Triste fim que conheceu em vida. Em março de 1917, no seu Diário anotou: “Devo unicamente ao Lima pela impressão do Policarpo”. No ano de 1916 assim se referia à publicação: “O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco. Tomei dinheiro daqui e dali… Audaces fortuna juvat”. O livro representava uma cartada profissional importante para Lima Barreto, e por isso a audácia não tinha preço. Afinal, o autor queixava-se sempre da pouca evidência como escritor — nessa que era também uma República das Letras — e não se pode dizer que seu livro de estreia tenha ajudado.

Lima Barreto havia publicado Recordações do escrivão Isaías Caminha em 1909, livro que lhe conferira certa notoriedade, mas custara também caro (e em outro sentido): nele, Lima fazia sérias críticas ao racismo vigente e denunciava a “imprensa burguesa” como o “4o poder da República”. A obra desnudava bastidores do jornal Correio da Manhã e práticas de jornalistas colegas, todos com codinomes facilmente identificáveis. Por isso, com grande dose de premonição, escrevera: “Eu não tenho inimigos, mas meu livro os terá”.

Lima Barreto parece ter pago caro demais, em mais outro sentido. Triste fim era livro muito mais bem-acabado do que Recordações. No entanto, era irônico e alusivo, apesar de recuar ao tempo passado. E mais uma vez o livro foi recebido com um grande silêncio. Apesar da pouca repercussão, o jornal A Época do dia 18 de fevereiro de 1916 deu na primeira página uma entrevista acompanhada de resenha favorável à obra. Entre outros, a matéria destacava o lado marginal do autor e sua origem “suburbana”. “No Rio de Janeiro, não há quem não o conhece. Ele vive em todos os bairros, arrabaldes, subúrbios: seu elemento é a rua. Pergunta-se a qualquer pessoa: “Tu viste o Lima?”. Ela responderá: ‘Vi-o hoje, pela manhã, jogando bilhar.’ (…) Estudou engenharia e abandonou o curso. Escapou de ser doutor, diz ele. Fez-se empregado público e, parece, é o desespero dos chefes. Procuramo-lo. Andamos de botequim em botequim, de confeitaria em confeitaria e fomos encontrá-lo em uma brasserie.”

Mas Triste fim não era apenas mais um retrato “triste” de seu autor. Ele traduziria um pouco de tudo: o lugar marginal de Lima, a situação declinante de sua família, mas também o ambiente conturbado e a fragilidade do nosso nacionalismo. Lima recua, porém, aos idos de 1893, período em que começava a Revolta da Armada; que sacudiu o país. A circunstância não lhe poderia ser mais significativa. Foi em 1890 que seu pai, João Henrique é demitido da imprensa nacional, sob alegação de conivência com a monarquia. Por ingerências de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto, poderoso político do Império, João Henrique aceita emprego como escriturário das Colônias de Alienados na Ilha do Governador. Nesse meio tempo, Lima Barreto é matriculado como aluno interno no Liceu Popular Niteroiense e entra na Politécnica. Mas a calmaria duraria pouco. No ano seguinte, o presidente Deodoro da Fonseca fecha o Congresso; frente à pressão política pede demissão, sendo sucedido num contragolpe por seu vice, Floriano Peixoto.

O próprio pai de Lima seria diagnosticado como neurastênico, uma doença mental que o obrigaria a ficar recolhido pelo resto da vida. Por isso, loucura é metáfora pessoal e social para pensar o público e o privado, e a sina do país. Ajuda a pensar também no escritor, sua falta de sorte, e a pouca fortuna do nosso Estado.

Na vida pessoal, a história de Lima daria, então, uma guinada — ele abandona a Politécnica, atua como arrimo de família na condição de Amanuense do Ministério da Guerra, e muda-se para o subúrbio de Todos os Santos. Já nosso Triste fim ficaria imortalizado por conta da sua galeria de tipos impagáveis, que não se prendem à experiência íntima de seu autor. De um lado há Policarpo, “um visionário” e defensor das “coisas do Brasil”, tão pontual que servia de “relógio da vizinhança”. De outro, Floriano com seu “bigode caído; traços grosseiros, pobre de expressões, a não ser a da tristeza que não lhe era individual, mas nativa”. É também forte o contraste entre Ismênia a Olga: a primeira frágil como o pai de Lima, logo sucumbe à loucura; já Olga, afilhada de Policarpo, é a ética do major inscrita no corpo de mulher. Há também a contraposição entre o bondoso artista, Ricardo Coração dos Outros, e Genelício, empregado do tesouro que não passava de um “artista na bajulação”. Mas não existem heróis ou vilões no livro; eles são todos uns talvezes, na feliz expressão de Oliveira Lima. O general Albernaz e o contra-almirante Caldas ostentavam seus títulos com galhardia, mas nunca haviam participado de qualquer batalha. Doutor Florêncio “era mais guarda de encanamentos do que engenheiro”. E assim por diante, com cada figurante expressando seus dilemas. Ceticismo e otimismo; honestidade e contravenção; sanidade e loucura; progresso e decadência são dilemas desse momento que oscilava entre a profunda crença no futuro, o olhar saudoso para o passado, a descrença diante do porvir.

Obras como essa acabam por merecer várias redescobertas, muitas vezes relidas por questões do presente. Pensar nas ciladas do patriotismo, olhar com ceticismo para os projetos de nacionalidade, denunciar desigualdades fazem parte das muitas inspirações dessa obra, que se lê com facilidade, mas que permite várias esquinas de interpretação. Além do mais, sua crítica fina e bem-humorada não permite que o texto se torne datado. Há ironia até no nome do personagem central da narrativa. Policarpo significa aquele “que tem e produz muitos frutos”, a despeito da vida do herói não resultar em qualquer “produto”. Quaresma é também palavra de vários sentidos: significa o período de quarenta dias de jejum, que se segue ao sacrifício de Cristo; sacrifício entendido como ato de consagração, cujo desenlace pode ser triste mas igualmente fundar um pacto com a sociedade. O verbo “carpo” (que vem de carpir, chorar, lamentar) remete à ideia de tristeza, presente no título da obra. Por fim, Quaresma é também um tipo de coqueiro; essa árvore presente já nos nossos primeiros mapas seiscentistas. Policarpo Quaresma seria assim um pouco de tudo: uma espécie de Cristo ressabiado dessa nacionalidade tropical; um líder melancólico de um novo e eterno porvir. Pois livros bons são assim mesmo: não se deixam apanhar e desfazem das pistas que eles próprios deixam. Triste fim de Policarpo Quaresma faz 100 anos, cada vez mais jovem.

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O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.