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Semana cento e nove

Os lançamentos desta semana são:

Poemas, Adonis (Trad. Michel Sleiman)
Há muito tempo Adonis é considerado o maior poeta árabe vivo. Não apenas foi o principal renovador daquela poesia, ao introduzir algumas das mais importantes conquistas formais do modernismo ocidental, como continua a ser uma das vozes fundamentais e mais ativas da cultura árabe. Embora consciente de viver em tempos de corrosão, ele não teme exercitar uma poesia de sabedoria, na fronteira da filosofia ou mesmo da religião, chegando a cristalizar novas máximas, nunca dogmáticas, em seus textos. “A poesia”, disse recentemente Adonis, “não pode ser feita para se adequar a uma religião ou a uma ideologia. Ela oferece aquele conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Em tradução inédita do árabe, este livro é a primeira seleta de poemas de Adonis publicada no Brasil.

As impurezas do branco, Carlos Drummond de Andrade
As impurezas do branco é um livro que aponta novos e múltiplos caminhos na lírica de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em 1973 (década em que a vida política estava sufocada pela Ditadura ao mesmo tempo em que se assistia à explosão da cultura jovem em todos os cantos do mundo), os poemas tratam sem cerimônia alguma de temas maiúsculos como amor e metafísica, e abordam – com agudeza – aspectos da vida cotidiana, como o noticiário e a publicidade. Sem esquecer, é claro, daqueles motivos que consagraram o poeta mineiro como um dos pontos altos do tempo e a brevidade da vida.

Novos poemas e 5 elegias, Vinicius de Moraes
Os dois livros aqui alinhados formam um conjunto de grande força e beleza. Mas não é apenas isso: ambos se animam por um espírito comum. O abrir de olhos para o mundo alcança um momento excepcional em Cinco elegias, de 1943. Se os poemas que compõem o livro são, como os de Novos poemas, representativos de um período de transição, há também um salto: estamos diante de uma experimentação poética e humana que é um marco na poesia brasileira do século XX. O leitor tem em mãos dois livros que, além de vizinhos no tempo, definem uma mudança de rumo e um ponto alto na obra de Vinicius de Moraes.

Antologia poética, Carlos Drummond de Andrade
Com poemas selecionados e arranjados com inaudita perspicácia pelo prórpio autor há 50 anos, esta Antologia poética é ainda hoje a melhor e mais eloquente introdução panorâmica à obra de Carlos Drummond de Andrade. Dividido em nove seções – que dão conta com maestria do vasto escopo dessa lírica fundamental -, este volume traz diversos clássicos drummondianos e outros poemas que, lidos em conjunto, poderão ganhar uma nova luz.

Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade
Sentimento do mundo, publicado em 1940, é a obra em que o poeta mineiro traz um olhar cuidadoso para as temáticas políticas e sociais de seu tempo. Afinal, durante sua elaboração o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Europa observava a assustadora ascensão nazifascista. Esse senso crítico apurado é perceptível em poemas como “Congresso Internacional do Medo” e “O operário no mar”, além do texto que dá título ao livro. O tom desesperançado não impede que Drummond revele também uma faceta delicada e intimista, seja lembrando-se de sua Itabira natal (“apenas uma fotografia na parede”), seja ao homenagear Manuel Bandeira em “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”.

Como ficar sozinho, Jonathan Franzen (Trad. Oscar Pilagallo)
Considerado um dos mais importantes ficionistas norte-americanos de sua geração, Jonathan Franzen retoma, em Como ficar sozinho, o ensaísmo em que também se destacara com A zona do desconforto (2008). O autor desfaz a fronteira entre ficção e não ficção nesta obra permeada pelo universo ficcional de grandes escritores como Kafka, Proust, Goethe, Daniel Defoe e Alice Munro. Uma verdadeira aula de literatura.

José, Carlos Drummond de Andrade
No ensaio de “José e algumas de suas histórias”, escrito especialmente para este volume, o crítico e poeta Júlio Castañon Guimarães analisa a fortuna do livro e do poema que lhe empresta o título. E revela que o próprio Drummond muitas vezes retomou o mote em algumas de suas crônicas publicadas em jornal. O poeta, aliás, reuniu numa pasta os mais diversos recortes em que o verso “E agora, José?” retornava, de forma paródica ou mesmo celebratória. Mais uma demonstração do enorme poder de penetração de um autor que marcaria para sempre o cenário da poesia do século XX.

Toda Rê Bordosa, Angeli
Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Outros personagens de Angeli, como Bibelô, Meia Oito, Wood & Stock, passaram por sua vida (e sua cama). E ela acompanhou, alheia, as mudanças sociais e políticas dos anos 80 e 90. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras desse Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro. Quem conhece apenas o mito terá acesso a todas as tiras, histórias longas, rabiscos e ameaças tramadas por Angeli contra sua criatura. E quem nunca se esqueceu dela pode ir encostando no balcão. A casa é sua, como ela disse tantas vezes.

Mesa 8: Literatura e liberdade

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Convidados:

Mediação: Alexandra Lucas Coelho

Uma perspectiva moderna e humanista caracteriza o trabalho do sírio Adonis e do libanês Amin Maalouf como escritores e intelectuais. Em ensaios, poemas, estudos históricos ou livros de ficção, esses dois grandes escritores constroem o novo a partir de um olhar original sobre a tradição, em oposição direta ao fundamentalismo que, nas últimas décadas, tem marcado a vida política e cultural de muitos países do mundo árabe. Eles conversam sobre os pontos em comum de suas trajetórias, ambas marcadas pelos conflitos da região, e avaliam as promessas e os riscos do momento atual.

Horário de início: 17h15

Mediadora: Para quem acompanha o Oriente Médio, o percurso e a obra desses autores são uma inspiração. Vamos falar de como a cultura pode ser a única saída pra política.

[Michel Sleiman, tradutor dos poemas de Adonis, sobe ao palco para ler 3 deles. Adonis declama um de seus poemas em árabe para mostrar o aspecto da oralidade. Maalouf lê um trecho de sua obra em francês.]

Mediadora: Uma coisa que vocês dois tem em comum é a herança paterna. Maalouf, você disse que seu pai sabia de cor milhares de versos árabes.

Maalouf: Ele dizia que conhecia 100 mil versos. Ele e seus amigos tinham um jogo durante os saraus. Um deles recitava um verso, a outra pessoa tinha que recitar outro verso que começasse com a última letra do verso anterior.

Mediadora: Adonis, foi seu pai que o aproximou da literatura. Como isso acontecia num povoado da Síria?

Adonis: Conheci o pai do Maalouf no fim da década de 60, aprendi muito com ele. A poesia estava no jornal. Eu não tive a sorte de ir pra escola quando novo, só fui com 12 ou 13 anos. Mas meu pai me iniciou na poesia lendo o Corão. Mas quando tive oportunidade de frequentar uma escola, me mudou completamente.

Adonis: Eu tinha uma revolta interior contra tudo o que fosse passado, mesmo contra meu pai e sua cultura. E o que me abriu o caminho para continuar esta revolução foi a leitura da criação que foi marginalizada na tradição árabe, os poetas revolucionários, sobretudo os contra a religião. A cultura árabe se apóia na religião por um lado e na poesia por outro. E esses lados estão sempre em conflito. Por isso talvez que não haja um grande poeta na nossa tradição que tenha sido religioso. Comecei a ler essa poesia marginalizada e os grandes místicos, e talvez o misticismos seja a única revolução do mundo árabe. É muito mais antológico que a filosofia. Eles mudaram a noção de deus e identidade. Eu aprendi com o misticismo que a identidade não é algo pré-fabricado, é algo que você cria quando ceia sua obra. E conheci a noção de outro, uma dimensão constitutiva do eu. Mesmo se me dirijo a mim próprio, preciso passar pelo outro. Isso me possibilitou ver o que chamamos de ocidente por uma nova perspectiva. Percebi que não existe ocidente e oriente na produção, isso são conceitos políticos, não há diferença entre poetas de um hemisfério ou outro. Isso está além de qualquer política.

Maalouf: Concordo, não faço diferenciação em minhas influências ocidentais e orientais.

Adonis: Tenho duas coisas a dizer sobre Beirute: pra mim, a cidade é um projeto, é aberta para o futuro, nunca a vi como fechada e acabada como Damasco. É uma cidade de sonho. Outra coisa: o ocidente político tenta apagar Beirute, transformar em uma cidade monotônica, fechada, sem diversidade alguma. O ocidente político atual não entende nada de como funciona a cidade, e está escrava do óleo e da fabricação de armas. Nosso problema não tem a ver com religião, mas sim com o imperialismo americano.

Maalouf: A família de meu pai vivia num vilarejo próximo de Beirute. Minha avó um dia decidiu levar seus 6 filhos para morar em frente à universidade americana em Beirute, pois seu sonho era que todos estudassem e virassem professores lá. Eu cresci nesse ambiente, e achava que todas as pessoas se davam bem. Me desiludi quando descobri que o mundo não funciona assim, e que o país não era tão forte quanto imaginava. É como Adonis disse: Beirute é um projeto, um laboratório de coexistência.

Adonis: A Primavera Árabe foi a primeira vez que a juventude árabe não imitou o ocidente. Eu escrevi elogiando muito os jovens e principalmente as mulheres que participaram disso. Com o passar do tempo vimos que aqueles que começaram a Primavera foram botados de lado, e os extremistas que estão assumindo tudo. Pra mim não faz sentido uma revolução em que não haja separação da religião e do Estado, e a liberação da mulher.

Maalouf: O importante é manter o hábito de eleição que foi instituído, e jogar o jogo democrático. A luta será longa, mas há um aspecto positivo. Os intelectuais serão importantes para isso, não podemos parar nos problemas imediatos.

Adonis: Não podemos defender nenhum regime árabe. É preciso que todos mudem. E eu repito: se a mudança na Síria não for acompanhada de uma mudança da sociedade, se não houver uma separação da religião e do Estado, a mudança de regime não significará nada. É como substituir um fascista militar por um fascista religioso.

Maalouf: Penso que não só no mundo árabe, mas no geral, muitos dos problemas são culturais. A cultura não é um elemento suplementar. A salvação do mundo só pode vir a partir da cultura. Por isso é importante que se conheça a cultura dos outros, para que se possa coexistir.

Adonis: O problema não é mais político, é cultural. Sobretudo nas sociedades ditas do terceiro mundo. Se não questionarmos nossas religiões, tradições, tudo, não haverá uma grande literatura.

Maalouf: O romance questiona a realidade, e pra isso precisa de liberdade.

Horário de término: 18h34