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Brigadeiros e obrigadas

Por Renata Moritz

ANNA TODD 4 livro

Anna Todd, em um dos lançamentos de seu 4º livro, no Brasil, em setembro de 2015.

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No começo do mês passado, tivemos a alegria de receber a escritora americana Anna Todd, autora da série After, um sucesso mundial publicado no Brasil pela Paralela.

Com apenas 26 anos, Anna é um expoente de uma nova leva de jovens escritores que começam sua carreira de forma espontânea, através da internet, e que interagem diretamente com os leitores por meio das redes sociais.

Anna começou a escrever em 2013, sem grandes pretensões. Postava capítulos diariamente, no formato de uma novela, e em poucos meses havia conquistado um extraordinário número de leitores online. Mesmo sem saber que rumo suas histórias tomariam, a massa de seguidores a impulsionava a continuar. Passados apenas dois anos, seus livros já foram traduzidos para mais de trinta idiomas, com milhões de cópias vendidas no mundo inteiro.

Durante sua visita, Anna encantou a mim e a todos da Companhia das Letras desde o primeiro hello na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, até o último goodbye, dez dias depois, no aeroporto de Guarulhos.  A agenda no Brasil foi intensa: cinco capitais, muitas noites de autógrafos, mais de 8 mil exemplares assinados – sempre com coraçõezinhos e dedicatórias. Mesmo com pouquíssimo tempo de descanso, Anna deu um show de animação e profissionalismo em cada um de seus compromissos, do começo ao fim. Quando perguntei como ela conseguia manter a simpatia e o interesse em conversar com cada leitor, a resposta foi categórica: “eu mesma sou uma frequentadora de filas de autógrafos e me considero antes uma leitora entusiasmada que propriamente uma escritora”. Afinal, como ela sempre explica, um tanto sem graça, “Nunca sonhei que faria sucesso”.

Vale contar uma história rápida, que parece piada, mas que ilustra bem o astral dessa leitora-escritora que se esforçou em agradecer em português a todos que lhe ajudavam. Anna confundia duas palavras que aprendeu durante sua visita: brigadeiro e obrigada. Antes que eu pudesse corrigi-la, lá ia ela, toda sorridente e gentil, agradecendo aos funcionários dos hotéis pelos quais passamos: “brigadeiro! brigadeiro! ”.

selfie anna carro

Ainda mais comovente que a doçura da autora foi perceber o engajamento dos fãs brasileiros com a série After. Segundo a própria Anna, “meus leitores no Brasil são os mais criativos e organizados: fazem filmes, montam playlists e me influenciaram muito enquanto eu escrevia a história”. Sabendo disso, nós da editora esperávamos uma recepção calorosa à escritora, mas nada poderia ter nos preparado para a emoção que foi entrar em cada livraria que fez parte do booktour. Sob uma chuva de aplausos, gritos, pulos e banners, ela era aguardada por centenas e às vezes até milhares de jovens, como uma verdadeira popstar. Foram tantos os presentes que recebeu (cartas, bichos de pelúcia, havaianas, brigadeiros, chaveiros, fotos), que novas malas tiveram que ser providenciadas.

O contato direto com leitores que curtem, se emocionam e vibram, é mais do que gratificante e, para mim, serviu para ampliar a consciência do papel de uma editora. Nossa função não é apenas a de possibilitar o livro, enquanto objeto, mas sim, acima de tudo, a de fazer a mediação entre autor e leitor: duas partes ligadas pela paixão por uma história, ainda que, muitas vezes, façam parte de realidades sociais diferentes, faixas etárias variadas e países distantes.

A recepção calorosa de Anna Todd e o crescimento da série After no Brasil deixa claro que há muitos jovens no país que gostam sim de ler. O desafio, cada vez mais, é chegar nesse público, que não necessariamente frequenta as livrarias e muitas vezes não lê os cadernos de cultura dos principais jornais, mas que está antenado com as redes sociais e outras formas de mídia não tradicional.

A própria Anna costuma dizer que a internet não afasta os jovens dos livros, muito pelo contrário, ela pode ser uma grande aliada. Contando uma história de amor poderosa, que transpassa as barreiras do tempo e dos grandes traumas, a autora aborda um aspecto universal da vida, e não simplesmente emula uma formula fácil de sucesso.

Para a Anna, e, acima de tudo, para os seus leitores, fica aqui o nosso brigadeiro, ou melhor, obrigada.

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Renata Moritz é editora da Paralela.