agustín fernández mallo

Catálogo de Motivos Para Regressar ao Brasil

Por Agustín Fernández Mallo (Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)


Rain Drops on an Airplane Window

Aterrissei no Rio de Janeiro escutando uma canção do Vacabou; caía um dilúvio.

Nos dias seguintes, curti muito a Flupp, realizada na favela de Vigário Geral; uma autêntica experiência literária e vital, que pude compartilhar com Reinaldo Moraes e Rodrigo Fonseca.

Uma tarde fui passear pelas imediações do hotel e, como me sentia cansado, me sentei na calçada, em frente a uma portaria. Baixei a cabeça, e involuntariamente devo ter adotado uma postura de pedinte, porque uma mulher que passava depositou uma moeda em minha mão, casualmente aberta. Levantei a cabeça e ri.

Também no Rio, não me lembro de ter visto uma só vitrine de loja. Como se as pessoas não comprassem na rua e utilizassem esse espaço público para caminhar ou simplesmente pensar em suas coisas. Entendo que essa é a diferença entre um espaço público organizado pelo Estado — e um espaço comum — usado espontaneamente pelos cidadãos.

Depois viajei para São Paulo com um cartão de embarque equivocado. De fato, no check in cometeram algum erro, e meu cartão trazia o nome de outra pessoa. Concretamente: FERNANDEZ/LUISROBERTO. Procurei-o no Google, mas não existe.

Em São Paulo, desfruto da companhia das editoras da Companhia das Letras. Antes da apresentação de Nocilla Experience, vamos a um restaurante e pedimos um prato gostosíssimo, mas houve um ingrediente que não entendi: a farofa. Tive a impressão de estar comendo areia em pó ou gesso escurecido. Não que tivesse um gosto ruim ou não me agradasse, mas não o entendi. Às vezes você topa com comidas assim, perturbadoras como um sorvete que nunca se derretesse.

Maurício Salles Vasconcellos, professor de Oficinas de Literatura na USP, faz uma apresentação fantástica do livro no Centro Universitário Maria Antônia. Ao ouvi-lo, tenho a sensação de estar diante de alguém que sabe mais de mim do que eu mesmo, e isso é realmente perturbador. Depois, Ciro Lubliner e Hiro Ishikawa, alunos de Maurício, fazem um magnífico spoken word com textos de sua criação inspirados em Nocilla Experience.

Há mais uma coisa, porém, que fiz no Rio e que não contei: já que, no Brasil, mudam meu nome nos aviões e me dão o de alguém que não existe, ou as senhoras me tomam por um mendigo, tracei um plano para me dar consistência. Nas 23 cédulas de diferentes valores que eu tinha, escrevi as 23 primeiras palavras de um capítulo do meu próximo livro, Limbo, que será editado na Espanha em janeiro do próximo ano.

As 23 palavras que formam esta (inacabada) frase são:

Tenía 23 años de edad y corría el año 2008 cuando fui secuestrada em Ciudad de México. Cuatro años después, um amanecer de (…)

Pareceu-me a melhor maneira de dispersar minha inexistência, meu nada, por toda a extensão deste país ao qual espero retornar em breve.

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Agustín Fernández Mallo nasceu em 1967 na Corunha, Espanha. Formado em física, publicou diversos livros de poesia, buscando estabelecer um diálogo entre arte e ciência e cunhando a expressão “Poesia pós-poética”. Nocilla Dream é sua primeira obra de ficção.


Algumas ideias acerca da minha literatura

Por Agustín Fernández Mallo (Tradução de Eduardo Brandão)

A informação é importante. Hoje, a quantidade de informação emitida pela mídia, bem como sua fragmentação, faz com que o tempo para assimilar essa informação tenda ao infinito. Durante séculos, as ciências e as humanidades estudaram as coisas separadamente, agora se trata é de enxergar as relações que há entre elas e, para tanto, nos valemos de modelos de rede. Ciências e humanidades são a mesma coisa. Acaso a ciência não é feita pelos humanos? E acaso nas humanidades também não há pesquisa científica? Os modelos de rede, os Sistemas Complexos, incluem tanto as ciências como as humanidades, misturam-nas, colocam-nas em diálogo.

Uma coisa que creio caracterizar minha narrativa — Nocilla dream, Nocila experience, Nocilla lab, El hacedor (de Borges) remake, etc. — e minha poesia é a transversalidade do contemporâneo. Isto é, meus romances e poemas formam uma rede horizontal em que tanto a literatura clássica quanto os quadrinhos, o cinema, a música pop, um teorema científico ou um spot publicitário entram no texto no mesmo nível, sem hierarquias externas. Mas esses ingredientes entram de maneira real, quer dizer, não como simples referências ou pinceladas, mas como nós ativos e constitutivos da obra. Por exemplo, se creio que dentro de um romance é pertinente uma conexão metafórica entre um determinado spot publicitário e uma peça de J.S. Bach, estabeleço essa conexão sem nenhum preconceito acadêmico. Guio-me somente por critérios estéticos, poéticos, não por preconceitos de alta/baixa cultura. Essa maneira de conectar as coisas dentro dos romances corresponde a um modelo de rede, modelo pelo qual se organiza hoje em dia a sociedade. São os Sistemas Complexos. Acreditávamos que só a entropia podia levar à morte térmica do Universo, mas hoje em dia se sabe que ela também é condição indispensável do oposto: para que surja vida em zonas de fronteira, em lugares em que vários componentes distantes entram em contato. E é isso que, espontaneamente, creio que faço com minha literatura: pôr em contato zonas aparentemente muito distantes (ciências, publicidade, literatura, economia, música etc.) para criar uma literatura complexa. Mas isso ocorre de maneira espontânea, não é pensado nem calculado de antemão, simplesmente é a maneira como minha cabeça organiza o mundo. Na verdade, meus romances são complexos mas não complicados, ou seja, não maltratam o leitor. Explico-me: é complexo, por exemplo, um organismo, que é simples depois que você entende; ou uma equação matemática. Ao contrário, são complicados objetos ou romances desnecessariamente arrevesados e cuja leitura atenta não resulta numa maior compreensão da obra. Disso — creia-me — há que fugir como do demônio.

Às vezes dizem que minha literatura, tanto no romance como na poesia, é experimental, mas, em minha opinião, é exatamente o contrário: é realista. O verdadeiramente experimental hoje em dia seria fazer romances à maneira do romance oitocentista, já que ninguém pensa nem vive nem fala, hoje, dessa maneira. Também é verdade que só procurando no passado se pode entender o presente para lançá-lo em direção ao futuro. Reconheço em minhas influências autores como Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Don DeLillo, David Foster Wallace, Giorgio Manganelli, Julio Cortázar e Juan Benet, entre muitos outros. Na literatura de todos eles percebo uma pesquisa poética do mundo ao mesmo tempo que um grande humor.

Quanto ao humor, poderíamos dizer que hoje em dia já descremos de qualquer discurso que não contenha uma paródia ou uma caricatura de si mesmo, porque faz tempo que não cremos em conceitos absolutos.

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Agustín Fernández Mallo nasceu em 1967 na Corunha, Espanha. Formado em física, publicou diversos livros de poesia, buscando estabelecer um diálogo entre arte e ciência e cunhando a expressão “Poesia pós-poética”. Nocilla Dream é sua primeira obra de ficção.

Semana cento e quarenta e sete

Os lançamentos desta semana são:

Bárbaro, de Renato Moriconi
Era uma vez um bravo guerreiro que montou em seu lindo cavalo e saiu em uma perigosíssima expedição. Ele lutou contra serpentes, gigantes de um olho só, sobreviveu a flechadas, enfrentou leões monstruosos, plantas carnívoras até que…

Vou ali e volto já, de Sávia Dumont
Há uma enormidade de segredos e tesouros esperando para serem descobertos por nós. Há aqueles que vêm lá de longe, dos tempos dos nossos avós e bisavós, com suas receitas mágicas e simples. Há outros que estão logo ali, escondidos no campo, entre as brincadeiras e os ramos de alecrim. Vamos juntos descobrir alguns desses mistérios?

A guerra da rua dos Siamipês, de Flavio de Souza
No fim da rua Professor Chiquinho de Souza, dois ipês (um amarelo e outro roxo) tomavam conta do pedaço: o Chris e a Flora ficavam tão perto um do outro que mais pareciam uma árvore só, com uma copa gigantesca e colorida. E é claro que o pessoal da rua estava sempre disputando a sombra deliciosa que eles faziam. Era ali que a turma dos Lobatos e os Hip-Hop tiveram que colocar um ponto final nas brigas para impedirem, juntos, que as árvores fossem arrancadas.

Totem e tabu, de Sigmund Freud (Trad. Paulo César de Souza)
Totem e tabu é um dos mais famosos e ousados trabalhos de Freud. Seu substituto — “Algumas concordâncias entre a vida dos homens primitivos e dos neuróticos” — não chega a dar ideia da riqueza dos temas que aborda, pois os quatro ensaios que o compõem tratam da origem da religião e da moralidade, ou seja, da própria civilização. Baseando-se em estudos de antropologia, biologia e história, Freud lança a conjectura de que o ato fundador da sociedade humana foi o assassinato do pai da horda primitiva pelos próprios filhos. Totem e tabu foi a primeira aplicação da psicanálise a questões de psicologia social.

Do que a gente fala quando fala de Anne Frank, de Nathan Englander (Trad. Claudio Alves Marcondes)
Com um talento peculiar para captar as risíveis contradições da alma humana que parece evocar os melhores filmes de Woody Allen, e com uma ironia devastadora digna dos romances de Philip Roth, o americano Nathan Englander se impôs — graças em grande parte a este novo volume de contos — como um dos mais agudos e divertidos observadores da cena contemporânea. Neste conjunto de ficções hilárias, o melhor humor judaico norte-americano ganha corpo renovado. Um livro celebrado como um dos mais altos momentos da ficção curta de nossos dias, com uma sequência absolutamente extraordinária de conversas e histórias tragicômicas.

Livro geral, de Alexandre Barbosa de Souza
Este Livro geral percorre vinte anos da poesia de Alexandre Barbosa de Souza com poemas de cada um dos livros que o autor publicou ao longo de sua carreira. Os poemas mais antigos conservam o mesmo frescor peculiar da época em que foram publicados, e em linhas gerais o que o livro apresenta é a juventude craquelada de um poeta que dá voz às experiências vividas.
Como a poesia do pernambucano Carlos Pena Filho, autor de outro Livro geral, de 1958, a de Alexandre não tem afetação nem frivolidade. A adesão ao cotidiano e às lembranças aqui não se dá como registro nem como reflexo, mas como afirmação de que um outro mundo é possível — pelo menos na poesia.

Nocilla dream, de Agustín Fernández Mallo (Trad. Joana Angélica d’Avila Melo)
Nocilla é uma pasta de chocolate com avelãs muito popular na Espanha, uma espécie de Nutella. É também a “musa” do grupo punk galego Siniestro Total, autor da canção “¡Nocilla, qué merendilla!”, que inspirou Agustín Fernández Mallo ao dar o título a seu ousado projeto, a trilogia Nocilla. É, ainda, o nome de uma nova geração de escritores espanhóis, que, tendo Mallo como expoente, investiga a sociedade de consumo, a mistura de gêneros literários e a liberdade narrativa. Nocilla dream, que pode sem agravo aceitar a etiqueta indie, bebe também de referências mais eruditas, sejam da física, da arte conceitual, da arquitetura pragmática ou da literatura. Se por vezes parece ter como maior inspiração O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, tem também um quê de road movie — que fará o leitor se lembrar de Paris, Texas, de Wim Wenders — e de filme B americano. Os vários personagens que povoam estas páginas são todos freaks, outsiders, fracassados, cujas vidas mais se parecem com performances artísticas, carregadas de material poético.

Editora Paralela

Próxima parada: Marte, de Mary Roach (Trad. Donaldson M. Garschagen)
O espaço é um lugar desprovido de absolutamente tudo que precisamos para viver e prosperar: gravidade, oxigênio, banhos quentes, produtos frescos, privacidade… A exploração do espaço é, de certa forma, uma exploração dos limites humanos e do que, de fato, significa ser humano. De que luxos podemos abrir mão? Por quanto tempo? O que acontece com nosso corpo se ficarmos sem andar por um ano? Nem ter relações sexuais? Para responder a essas perguntas, as agências espaciais criam todo tipo de testes e simulações surpreendentemente bizarras. Com seu humor irônico e sua curiosidade insaciável, Mary Roach nos guia em uma viagem investigativa, provando — sem margem para dúvidas — que é possível ir ao espaço sem sair da Terra. Próxima parada: Marte é um livro para adultos que ainda sonham secretamente em ser astronautas. Afinal, quem nunca quis ser um?