alberto da costa e silva

A trajetória do novo ganhador do Camões

Por Lilia Moritz Schwarcz


Hoje, dia 29, Alberto da Costa e Silva recebe o Prêmio Camões, o maior reconhecimento a um autor da língua portuguesa. Imortal da Academia Brasileira de Letras, Costa e Silva é especialista na cultura e na história da África além de ficcionista. Abaixo, leia a versão original do texto de Lilia Moritz Schwarcz publicado no último domingo, dia 26, no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo.

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“Cuide bem de suas neuroses”. Esse foi um dos inúmeros conselhos que recebi do acadêmico, poeta, ensaísta, memorialista, historiador, africanista, diplomata e o mais recente ganhador do prêmio Camões: Alberto Vasconcellos da Costa e Silva, ou simplesmente Alberto, como gosta de ser chamado. Nessa ocasião, almoçava com ele no restaurante Villarino, localizado bem em frente à Academia Brasileira de Letras, espécie de quartel general de Alberto, a despeito de ele agir e andar por lá como se fosse um mero desconhecido; o que, com certeza, não é. Todos o chamam pelo primeiro nome, o saúdam na entrada e na saída, assim como empurram cadeiras para que ele possa melhor se locomover pelo local, que não é propriamente generoso nos seus espaços internos. O referido diálogo foi motivado por conta da tarefa, nada banal, de selecionar o prato que iríamos degustar no almoço. Alberto, que, como ele bem define, foi criado e mimado por mulheres, e assim ganhou um ar de “senhorzinho” sem casa grande, logo escolheu para nós dois: “Para ela o frango (que é o que há de melhor), para mim um salmão”. Frente a meu espanto, ele foi logo explicando: “Minha filha, não como nada que voe ou ameace voar”, e arrematou com a conclusão que dá início a esse artigo.

Pois Alberto da Costa e Silva é assim: sempre ele mesmo, cuidando bem de suas neuroses, dono de histórias impagáveis retiradas de causos da sua vida, de relatos de família, de episódios envolvendo políticos e personalidades que conheceu, ou colhidos nos inúmeros livros que leu e que, com sua erudição humanista, vem divulgando nas suas obras.

Alberto nasceu em São Paulo, em 12 de maio de 1931, mas ficou pouco na cidade. Filho de Creusa Fontenelle de Vasconcellos da Costa e Silva mulher forte como, aliás, são todas na família –, seria ela a cuidar de boa parte da educação dos filhos. Seu pai, o poeta Da Costa e Silva (Antônio Francisco da Costa e Silva), foi também presença marcante e paradoxal para o filho. Nascido em Amarante, no Piauí, Da Costa e Silva publicou seu primeiro livro, Sangue, em 1908. Ele também foi autor da letra do Hino do Piauí, em comemoração ao centenário da adesão dessa província à independência do país, em 1823. Nas estrofes, o poeta saudava o “Piauí, terra querida, filha do sol do Equador”, lugar presente no imaginário do filho, que aprendeu a apreciar esse “céu de imortal claridade”.

Da Costa e Silva pertenceu à Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 21, mas não conseguiu adentrar a carreira diplomática. Conta a lenda que a falta de sucesso do pai nessa empreitada teve causa, hoje, suspeita. Nos tempos do Barão de Rio Branco não havia concurso para ingressar na carreira, sendo a seleção feita por meio de uma entrevista pessoal. Era o barão quem conversava com os candidatos em geral relacionados a famílias próximas, bonitos e fluentes em idiomas estrangeiros. Já Da Costa e Silva, apesar de exímio poeta, falhou no critério físico. Foi esse o veredito do Barão: “olha, o senhor é um homem inteligente, admiro-o como poeta, contudo não vou nomeá-lo porque o senhor é muito feio e não quero gente feia no Itamaraty”.

Entre 1931 e 1945, durante os anos de Getúlio Vargas, o pai serviu junto à Presidência da República e, com o novo cargo, a família passa a viver no Rio de Janeiro. Porém, uma estranha doença contraída por Da Costa e Silva mudaria o destino e faria com que todos fossem morar no Ceará, onde a mãe contava com o amparo familiar e levava consigo a aposentadoria do marido. O poeta praticamente parou de falar, desligou-se do mundo e se deixou ficar, na mesma poltrona, ausente do mundo dos outros. Já o menino, guardou a imagem desse pai, sempre em casa, com um livro nas mãos. Em certos momentos declamava poesias, em outros apenas folheava lentamente os exemplares alheio a tudo e a todos.

No primeiro volume de memórias de nosso autor, Espelho de príncipe (1994), conhecemos um pouco da infância do menino Alberto, em Sobral – cidade cearense em que morou até os 12 anos de idade. O relato chega até a adolescência do garoto, quando, já de volta ao Rio, descreve sua família, o colégio marista onde fez  amigos de vida inteira, registra as repercussões da Segunda Guerra Mundial, o Brasil da Revolução de 30, bem como as características desse mundo mais largo que passava a conhecer e desfrutar, na então capital do país.

Mais de dez anos depois, em 2007, Alberto publica um segundo volume de memórias. O novo título Invenção de desenho — é quase uma brincadeira acerca do gosto por garatujas que herdou do pai. Nunca quis tomar aulas de desenho e sempre disse desconhecer “tal invenção”. Por isso achava que qualquer desenho não passava de uma cópia inspirada por outra mão. Esse é justamente o truque do memorialista, que faz do gênero uma prática dos outros. Por suas páginas desfilam intelectuais — Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Josué Montelo, Jorge de Lima, Lygia Fagundes Telles, Alceu de Amoroso Lima —, personagens e amigos, todos entrevistados pelo “repórter Alberto”.

O memorialista conta, como quem joga conversa fora, acerca de uma série de eventos políticos, todos lembrados com a mesma intimidade: Getúlio Vargas e seu suicídio, Juscelino Kubitschek e a crise da sua eleição; as revelações de Kruchev. Por meio de seus escritos de memória ficamos conhecendo melhor sua formação, as primeiras leituras de Manuel Querino e de Nina Rodrigues, sua guinada para o materialismo histórico, seu amor súbito por Deus; paixão que passadas duas semanas seria substituída por outras: Camus, Sartre, Marx do 18 Brumário, logo Nietzsche e ainda Freud. Isso sem esquecer do cinema, do teatro e dos suplementos literários.

Começava a se delinear, então, essa pena de estilo próprio e facilmente reconhecível. Por meio dela, diferentes personagens da nossa história são descritos a partir de marcas pessoais, perdendo a soberba para aparecerem como gente do seu tempo. O memorialista não os castiga nem os veste de piedade, apresentando diversas personalidades como parece que foram: contraditórias, exuberantes, mesquinhas ou visionárias.

Aliás, Alberto logo experimentaria nova carreira de escritor, como poeta e historiador africanista. Enquanto a faculdade de Direito se revelava uma decepção a ser percorrida como um fardo, a presença ausente do pai, que “morria mansa e serenamente, como mansa e serenamente passara os longos anos de exílio de si mesmo”, surge sempre como sensível melancolia. Diziam que o pai poeta “pusera em palavras uma lagartixa ou um caramujo como ninguém”, assim como descrevia um ipê ou uma queimada sem paralelo. Mas, vítima de uma “enfermidade sem nome”, que lhe tomou quinze longos anos, Da Costa e Silva viraria uma “casca vazia”. Talvez por conta da história do pai, Alberto sempre pareceu ter pressa. Tanto que publica, logo em 1957, uma antologia de lendas indígenas, preparada para o Instituto Nacional do Livro, assim como trata de reunir em livro os poemas do pai.

No entanto, talvez inspirado pelos heróis que lia nas suas obras de cabeceira, ou reconhecia em seu pai na poltrona, o jovem autor pareceu não se espantar ao saber que seu rito de passagem para a vida adulta se daria nos sanatórios de Campos do Jordão, onde sua alma conheceria a “sonolência e a preguiça”. Julgou que morreria cedo, como seus mestres românticos ou os personagens de T. Mann da  Montanha Mágica. Entretanto, como nada disso aconteceu, Alberto fez do exílio involuntário, dessa doença dos pulmões, um outro recomeço. Por sinal, foi por lá que conheceu sua musa Verinha, que naquela época também curava-se do mesmo problema de saúde. Vera tinha voz de soprano lírico, mas a doença a afastaria durante algum tempo do canto. Ela seria a companheira de vida toda e inspiraria um livro de poemas premiado, chamado Ao lado de Vera (1997).

Com os pulmões em ordem, Alberto volta ao Rio de Janeiro e se prepara para começar a “vingar o pai”, investindo na carreira diplomática. O aluno se forma pelo Instituto Rio Branco em 1957 e atua como diplomata em Lisboa, Caracas, Washington, Madrid, Roma, isso tudo antes de ser embaixador na Nigéria, no Benim, em Portugal, na Colômbia e no Paraguai. O diplomata ia, assim, construindo seu mapa interno e simbólico; particularmente marcado por sua experiência como embaixador em países africanos. A atuação nesse continente — local, a essas alturas, pouco disputado entre os demais diplomatas — lhe daria gás, experiência, erudição e sensibilidade suficientes para fazer dele um dos nossos grandes especialistas em África, que, sobretudo em sua época, era pouco conhecido e estudado entre nós. O desafio era de monta: “lidar com pessoas que muitas vezes parecem ver, ouvir, sentir e pensar diferentemente de nós”.

Seria esse olhar pousado sobre a “diferença” que formataria esse pensador original e atento a outras faces de uma mesma realidade. O diplomata se faria historiador e escreveria uma série de obras, hoje clássicas: A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses. (1992); As Relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à 1ª Guerra Mundial. (1996); 
A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. (2002); Um Rio Chamado Atlântico. A África no Brasil e o Brasil na África (2003); 
Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. (2004) e Imagens da África (2012). Nesses livros Alberto mostra a importância da diversidade cultural presente nos povos desse continente, as formas complexas de organização familiar e política dos nativos, os elaborados costumes religiosos, as engenhosas produções artísticas. Como demonstra de maneira clara, e não menos entristecida, essa inestimável riqueza humana e cultural seria em parte dizimada pelos horrores do sistema escravocrata, que acabou por marcar e estereotipar os povos africanos.

O fato é que o conjunto dos livros de história de Alberto da Costa e Silva mostra o vigor desse intelectual que explorou a história pregressa da África, reviu costumes, estudou a escravidão aqui e acolá, bem como seus traficantes — caso de Xaxá, talvez o maior de todos —, analisou as relações circulares entre os dois continentes, bem como suas influências recíprocas. Em seu texto “O Brasil, o Atlântico e a África no século XIX”, de 1989, Alberto fecha questão: “O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só a quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e de viver e no sentimento estético do brasileiro. Por sua vez, em toda a costa atlântica, podem-se facilmente reconhecer os brasileirismos. Há comidas brasileiras na África, como há comidas africanas no Brasil. Danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia-a-dia africano. É comum que lá se ignore que certo prato ou determinado costume veio do Brasil. Como, entre nós, esquecemos quanto nossa vida é impregnada de África (…) O escravo ficou dentro de nós, qualquer que seja nossa origem. Afinal, sem a escravidão o Brasil não existiria como hoje é, não teria sequer ocupado os imensos espaços que os portugueses lhe desenharam. Com ou sem remorsos, a escravidão é o processo mais longe e mais importante de nossa história”. Como se pode notar, Alberto agrega competência literária ao texto de história, e escreve matéria acadêmica como poesia.

Ciente da nossa ignorância acerca desse continente, da onde veio parte significativa de nossa população nacional, nosso pesquisador atuaria em muitas frentes, recuperando valores comuns inscritos nos lugares mais insuspeitos. Mas também duvidaria das convenções. No seu livro Castro Alves, um Poeta sempre Jovem (2006), Alberto lê os poemas com a sensibilidade de quem entende do ofício, mas com igual desconfiança de quem conhece como ninguém os legados africanos. Tanto que desafia (e prova) que a África do autor de “Navio Negreiro” é antes um continente projetivo, mais próximo da visão romântica de Delacroix e dos orientalismos europeus, do que dos escravizados que o poeta podia encontrar nas ruas da Bahia. Irrequieto, quem sabe mirando o lado oposto e convexo de seu pai, Alberto também ensinaria África para as crianças em dois livros Um Passeio pela África (2006) e 
A África explicada aos meus filhos (2008).

Reconhecido como nosso maior africanista, Alberto tem compromisso com a liberdade, não escrevendo sobre esse continente e acerca da escravidão por mera coincidência. No caso de Castro Alves, constrói um personagem ainda mais comovente quando inserido em seu contexto, que pedia um poeta capaz de denunciar injustiças e desacertos. O tempo do poeta pedia por liberdade., quem sabe aquela mesma que faz parte da pauta interna de Alberto, que defende autonomia como uma agenda pessoal.

Foi um tipo de aposta social semelhante que fez com que nosso autor encarnasse, junto com sua Verinha, o papel de tradutor das línguas e costumes dos locais onde atuou como embaixador. Tamanha coerência e compromisso acabou por incutir na família o prazer de servir ao país em lugares tão diferentes e tão comuns. Seus filhos, de uma maneira ou de outra, tal qual sina familiar, seguiriam-no ou ficariam por perto do Itamaraty. Elza Maria casou-se com João André Pinto Dias Lima, embaixador do Brasil na Nigéria. Antônio Francisco, embaixador na Jamaica, é casado com Sylvia Ruschel de Leoni Ramos, também ela diplomata. Pedro Miguel, o caçula, é casado com Ana Maria de Abreu Ladeira da Costa e Silva e serve como Ministro Conselheiro da Embaixada do Brasil no Canadá. Aliás, outra ocupação de Alberto é a de avô/ pai, com uma penca de netos disputando um lugar no apartamento do Rio de Janeiro; repleto de  máscaras africanas, livros, fotos dos países em que serviu como diplomata e quadros de pintores amigos. Cada canto com sua recordação.

Como cronista, Alberto publicaria O Quadrado Amarelo em 2009. Nesse livro, o africanista se faz intérprete social e recolhe telas, livros, poemas e romances, que vai delicadamente entrelaçando. Talvez a melhor definição desta obra esteja em uma de suas frases: “perseguir um texto no outro, reencontrar nesse autor outros autores”. Aquilo que nosso ensaísta alega encontrar nos “outros” pode ser também vislumbrado nessa sua obra de maturidade. Alberto da Costa e Silva é um colecionador de memórias afetivas, recheadas por romances eleitos, artistas consagrados ou populares, amigos ou desconhecidos. Escreve ele que “o desígnio de todo grande colecionador é formar uma antologia pessoal do mundo […] ou do fragmento de mundo que foi lhe dado viver”.

É possível arriscar que esse é o verdadeiro argumento não só desta coletânea de ensaios, como da obra de Alberto como um todo. Na capa da requintada edição, nota-se um despretensioso quadrado amarelo, disposto no lado esquerdo da imagem; retirado da obra de Waldemar Costa. Mas o amarelo que aparece bem à frente na capa é também o fundo que dá forma ao tocante retrato feito por Antonello da Messina. Conforme narra Alberto: “qualquer que seja o assunto, a extensão e a textura de uma prosa, é preciso nela descobrir o lugar perfeito para um quadrado amarelo”. A princípio desimportantes, título e capa indicam um método; uma forma  de olhar.

O lugar perfeito e a palavra justa são também desafios de Alberto, que é poeta de mão cheia, a exemplo do pai. São muitos os livros do poeta, mas talvez o mais conhecido, e aquele que ganhou um dos vários Jabutis que o autor recebeu vida afora, seja Poemas reunidos (publicado no ano 2000). Poetava Alberto em A linha da mão: “Respiro e vejo. A noite e cada sol vão rompendo de mim a todo o instante, tarde e manhã que são tecido tempo, chuva e colheita. O céu, repouso e vento …”

O poeta embaixador carrega, assim, uma valise cultural pesada um “tecido do tempo, chuva e colheita”. Nascido em São Paulo quase sem querer, Alberto ganhou o mundo e fez da viagem, da história, da poesia e da memória “mala e passaporte”. Aí está um percurso construído a partir de muitos deslocamentos, não só geográficos como temporais e culturais. Segundo Fernando Pessoa “a memória e os poetas têm seus truques, e muitas vezes eles esquecem para melhor lembrar”. O poeta português tinha por hábito omitir de maneira inconsciente para depois citar, como o próprio Alberto volta sempre a seu pai, mesmo sem se dar conta. Basta dizer que foi eleito para a Academia Brasileira em julho de 2000, e assumiu a cadeira 9, em mais uma boa revanche familiar.

Não há como resumir uma obra de vida toda, como essa, feita de tantos livros, traduções, memórias, coletâneas, antologias, trocas intelectuais, políticas e afetivas. Impressiona que, como revela em seu ensaio chamado “Lembranças de Lagos”, Alberto nunca colecionou diários íntimos guardou tudo na memória; único recurso, segundo ele, para garantir a permanência.

Disse Ortega que “a alma de um autor só é inteligível quando se confrontam suas palavras e obras”. Pensada nesses termos, a obra de Alberto da Costa e Silva mais se parece com uma estrada sem pedágios entre o intelectual e o habitante do mesmo e tradicional edifício no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Quem entra no apartamento de Alberto logo se depara com sua imagem inscrita nos objetos e artefatos acumulados. Visitar a Academia Brasileira ou participar de uma seção no Instituto Histórico e Geográfico é como tomar café na própria morada e intimidade de nosso autor. E é assim por todo lugar. Aliás, ler um livro de Alberto é como tomar um gole de cachaça, roubar do tempo, e degustar de uma boa prosa.

Grandes intérpretes do Brasil permaneceram boa parte de sua vida no exterior. Já Alberto da Costa e Silva viu de longe, mas voltou para se certificar de tudo, bem de perto. No seu retorno ao Brasil, inverteu o lado do binóculo, destacou o detalhe, pinçou o caricatural, deslocou o tempo e conferiu a tudo um sabor igualado com cheiro, textura e sensibilidade de poesia. Com vocês, o vencedor do prêmio Camões de 2014: “Um casulo de tempo, o centro e o sopro da cisma do outro ser que de mim fala e que, sonhando o mundo, em mim se acaba”.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.


Semana cento e vinte e nove

Os lançamentos desta semana são:

Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr
Às vésperas de completar trinta anos, tudo o que Guadalupe quer é esquecer seu trabalho no sebo de Minerva, seu tio travesti. É ela quem pilota um furgão velho pela Cidade do México, apanhando coleções de livros que Minerva arremata por poucos pesos de famílias enlutadas. O símbolo da Minerva Libros é uma coruja, mas bem podia ser um abutre, um abutre com lantejoulas. Em seu aniversário, Guadalupe só quer sair para beber e dançar com amigos. Mas um telefonema muda seus planos. No meio do pior engarrafamento do ano – ela aproveita engarrafamentos para ler os clássicos -, fica sabendo que a avó, Elvira, uma velhinha intrépida, morreu ao chocar sua scooter com uma banca de tacos sobre duas rodas. Como Guadalupe tem o furgão, ela é a única que pode cumprir o último desejo da avó: um enterro com banda de música em Oaxaca, onde nasceu. Guadalupe embarca com Minerva e sua inseparável poodle, mais o caixão, rumo à cidade. No caminho, contrariando a opinião de Guadalupe, Minerva dá carona a um exótico rapaz, que se diz guatemalteco, e os problemas começam. Neste road movie regado a mitologia asteca e cogumelos mágicos, a poeta Angélica Freitas e o quadrinista Odyr narram a divertida – e por vezes assustadora – história dessa viagem. Uma aventura inusitada ao coração do México, onde um embate contra as forças do mal é tudo menos o que parece ser.

Imagens da África, de Alberto da Costa e Silva
Um dos mais respeitados intelectuais brasileiros, o historiador, poeta e acadêmico Alberto da Costa e Silva é especialista na história e na cultura da África. Autor e organizador de diversos livros sobre esses temas, em Imagens da África Costa e Silva reúne textos de mais de oitenta autores sobre o continente e suas numerosas civilizações. De Heródoto (séc. V a.C.) aos prepotentes funcionários do Império Britânico (século XIX), o autor de Um rio chamado Atlântico (2003) seleciona passagens marcantes da impressionante bibliografia pesquisada ao longo de mais de sessenta anos de estudos. O volume traz, ainda, preciosas imagens e desenhos das épocas tratadas. Como afirma Costa e Silva na introdução ao volume, os africanos nem sempre foram vítimas dos estereótipos racistas que, desde a expansão imperialista das potências europeias, a partir do século xv, continuam a prejudicar a compreensão de sua imensa diversidade cultural. Apesar da curiosa persistência de elementos lendários, os registros acumulados por chineses e árabes ao longo dos séculos – e mesmo por cronistas ocidentais simpáticos à causa antiescravista – reverenciam as complexas formas de organização familiar e política dos nativos; seus elaborados costumes religiosos; suas engenhosas produções artísticas, além da bravura militar de seus combatentes. Um vislumbre da inestimável riqueza humana dizimada pelos horrores da escravidão transparece nos relatos de mercadores, exploradores e missionários que constituíam as principais fontes das representações da África até o século XIX.

A galinha telepata, de vários autores
Uma Chapeuzinho que vai passear na floresta e encontra um lobo que diz estar perdido, com o pé torcido e garante ser vegetariano; um menino que transforma a irmã mais velha em cavalo; um menino que tem o pato de estimação sequestrado pelo inimigo da escola; uma galinha que diz adivinhar tudo o que se passa no galinheiro e acaba criando uma confusão danada e uma tal “operação patê”…  As dez histórias deste livro foram escritas por autores diversos, mas têm uma característica em comum: ao serem lidas, ou narradas, nos fazem morrer de rir!

Hocus Pocus, de Kiara Terra
Um belo dia, a menina desta história descobriu que com apenas um plic e uma palavra mágica tudo aquilo de que ela gostava poderia de repente aparecer no papel e ficar guardado para sempre. Como? Oras, usando uma máquina fotográfica instantânea. Escrito pela contadora de histórias Kiara Terra, este livro conta um pouco sobre a infância de quem o ilustrou, a Ionit Zilberman, e sobre todas as descobertas importantes que ela fez nessa fase tão especial na vida de todo mundo. Além de conhecer a máquina fotográfica, ela também aprendeu o que significava “instantâneo”, o que era o começo das coisas e, principalmente, como era bom, de uma hora para outra, ganhar um pai de presente.

O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder (Trad. Leonardo pinto Silva)
Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Møller Knag, garota a quem Sofia também não conhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.

Editora Seguinte

Nada é para sempre, de Ali Cronin (Trad. Rita Sussekind)
Em seu grupo de amigos, Sarah sempre foi a “boa menina”. Um pouco careta, talvez, mas aquela com quem todos sabiam que podiam contar. Isso até que ela conhece Joe – um garoto mais velho, lindo e sedutor – durante as férias em Barcelona e acaba perdendo a virgindade com ele.  De volta à Inglaterra e à companhia dos amigos, Sarah tenta manter uma relação à distância com Joe, que está na faculdade. Ele demora para responder suas mensagens de texto, não telefona, parece estar sempre ocupado. Mas quando os dois se encontram Sarah tem certeza de que devem ficar juntos, então faz de tudo para que sua relação seja especial. Seus amigos, por outro lado, não estão certos de que o rapaz a merece. Sarah acha que tudo não passa de inveja, e os atritos começam a surgir.

Uma garrafa no mar de Gaza, de Valérie Zenatti (Trad. Julia da Rosa Simões)
Um homem-bomba se explodiu dentro de um café em Jerusalém. Seis corpos foram encontrados. Uma garota, que se casaria naquele dia, morreu junto com o pai “algumas horas antes de vestir seu lindo vestido branco”. E Tal não consegue parar de pensar em tudo isso. Depois de ouvir o estrondo de dentro da própria casa, ela escuta as conversas ao redor, vê as imagens do desastre na TV – o noivo desconsolado, a mãe arrasada, a família em prantos – e se pergunta sobre todas as outras mortes e todas as outras famílias que sofreram com tantos atentados que parecem não ter fim. Cheia de perguntas na cabeça, Tal começa a escrever – ela, que ainda não tinha decidido se seria cineasta ou pediatra, mas nunca tinha cogitado ser escritora… E então, numa aula de biologia qualquer, a menina percebe que aquilo que era só um desabafo na verdade deveria ser uma carta – com suas perguntas, seus anseios e sua história -, escrita especialmente para alguém da faixa de Gaza, de preferência do sexo feminino e que também tivesse dezessete anos. Assim, Tal coloca todos os seus pensamentos em uma garrafa e pede ao irmão, que prestava o serviço militar perto de Gaza, para lançá-la ao mar naquela região. E quem estava do lado de lá para recebê-la era não uma jovem de “longos cabelos escuros”, mas um certo Gazaman, um garoto que teimava em revelar a sua identidade porque, ao contrário dela, já não acreditava numa solução possível em terras em que “uma explosão significa necessariamente um atentado”. Mas aos poucos aquilo que era raiva, amargura e descrença vai se transformando em amizade e alguma remota esperança de que, algum dia, mais cartas e e-mails sejam trocados e conversas francas como a deles possam trazer a paz para mais perto dos palestinos e israelenses.

Editora Paralela

O melhor momento, de Jane Fonda (Trad. Débora Landsberg)
Jane Fonda, atriz vencedora do Oscar e defensora da atividade física, é um ícone para gerações de mulheres. Agora, todos os segredos dela para viver e envelhecer bem estão disponíveis neste livro sincero e inspirador. Com base nas mais recentes pesquisas científicas e em histórias de vida – incluindo a sua -, Fonda trata de questões relativas a sexo, amor, sociabilidade, espiritualidade, alimentação, atividade física e autoconhecimento na maturidade, mostrando como a fase de transição dos 45 aos cinquenta anos e principalmente dos sessenta em diante pode ser aquela em que realmente nos tornamos as pessoas ativas, afetuosas e plenas que sempre deveríamos ter sido.

Quarta-feira entre os clássicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

[Veja em nosso álbum as fotos dos encontros no Rio de Janeiro e em São Paulo]

Quarta-feira à noite, temperatura elevada e em pleno Leblon, não resta nada a fazer senão tomar uma cerveja gelada e conversar com amigos. No entanto, nessa última semana, as coisas andavam meio viradas. O saguão da elegante Livraria da Travessa no shopping local foi invadido por cadeiras e um público saído não se sabe da onde, mas carente de conhecer mais sobre nossos clássicos. À frente do evento (o que já explica a pequena multidão), nada mais, nada menos que dois clássicos nacionais: o africanista, acadêmico, embaixador, poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, e o igualmente embaixador, historiador e polemista de mão cheia, Evaldo Cabral de Mello.

Essa que vos escreve deveria funcionar como moderadora (animadora até) desse encontro feliz, fadado ao sucesso. No entanto, diante de intelectuais desse calibre não é preciso intervir, perguntar ou provocar… tudo isso ocorre normalmente e sem maior esforço. Se comecei lembrando as máximas do escritor Ítalo Calvino — que mostra como clássico é um livro que nunca se lê, só se relê; ou explica que um clássico sempre diz muito sobre aquele que o evoca —, já Alberto reagiu, desfazendo (e com razão) meu discurso tão comportado. Disse ele, em tom debochado, que tudo aquilo era muito bom, mas que clássico é também um livro que ainda não lemos e mais: que não queremos ler.

Evaldo também não deixou por menos. Disse que escritores deveriam começar a produzir tarde e parar cedo, e reservou-se o direito, como historiador, de falar só de livros de não-ficção. Edward Gibbon, por exemplo, converteu-se logo em unanimidade da mesa. Já os autores nacionais não tiveram tempo fácil, ao menos nas mãos do Evaldo, que alegou, por exemplo, que no Brasil todo mundo lê apenas um livro de determinado autor e já se comporta como profundo conhecedor da obra. É claro que pensava em Gilberto Freyre e seu famoso Casa grande & senzala, no que foi logo secundado por Alberto.

O fato é que concordamos, mas, no limite, discordamos de tudo: dos livros que selecionamos, dos nossos clássicos e até dos horários em que lemos ou pensamos. Evaldo disse que só raciocina bem das 10 da manhã às 18 da tarde e Alberto logo discordou. Quando aleguei que já eram quase 8 da noite e ele continuava por lá (e muito bem, aliás), Evaldo respondeu: “eu estou divertido, mas não inteligente”. Eu contei que gostava de A montanha mágica de Thomas Mann, e foi a vez de Alberto acrescentar que José e seus irmãos era infinitamente melhor. Lembrei que Raízes do Brasil era meu clássico nacional, e Evaldo afirmou desconfiar de todos os livros de interpretação do país, os quais, segundo ele, são os que mais sofrem com a ação do tempo.

Enfim, já eram 20h30 e eu tinha que cumprir a minha parte, e encerrar essa sessão, que não tinha hora para acabar já que a conversa corria solta e escorria para todos os lados: lados mais “clássicos” e outros nem tanto. Acho que só concordamos (parcialmente) quando o tema foi literatura infantil. Eu resolvi mencionar a série Babar, do elefante que perde a mãe logo no começo da história e quer ganhar a civilização quando todos, hoje em dia, a estão rifando. Já Evaldo foi obrigado (por conta de minha pergunta impertinente) a recordar de seu personagem mais querido: o carneiro Ferdinando Flores. Em sua opinião, ele (Ferdinando) é infinitamente melhor que seus companheiros. Se os outros são ativos, agressivos até, já Ferdinando é passivo de caráter e, ainda melhor, contemplativo de índole. E completou: “também sou assim; contemplativo”.

É impossível concordar com a ideia de que essas duas grandes personalidades da cultura brasileira sejam apenas contemplativas, que devam evitar falar a partir de determinadas horas, ou que seria bom que encerrassem suas carreiras como escritores, já que atingiram uma bela idade. Em se tratando dos dois, o outro lado desse espelho é o verdadeiro.

Literatura, vida, história, memória, historiografia e muita piada: esse encontro foi mesmo um clássico.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil(vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Encontro “Os clássicos que eu li”


(Foto por ginnerobot)

Em “Por que ler os clássicos”, Italo Calvino afirma que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. E conclui: ler os clássicos continua sendo melhor do que não ler os clássicos.

Pensando na importância desses livros, a Companhia das Letras promove dois encontros onde diversos autores conversam com os leitores sobre a importância dos clássicos da literatura em suas vidas.

No Rio de Janeiro, o encontro “Os clássicos que eu li” acontecerá no dia 25 de agosto, às 19h, na Livraria Travessa do Shopping Leblon, com a presença de Alberto da Costa e Silva, Evaldo Cabral de Mello e Lilia Moritz Schwarcz.

Em São Paulo, Alfredo Bosi, José Miguel Wisnik e Milton Hatoum participarão do evento, que acontece dia 30 de agosto na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h.