alex ross

Semana sessenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores da África, reflete sobre as mazelas e maravilhas do continente nos artigos e ensaios deste livro de “interinvenções”. Da corrupção endêmica de boa parte dos governos africanos à destruição do meio ambiente, da força da tradição oral às complexas relações entre as culturas locais e a modernidade urbana, do entrelaçamento do português com as línguas nativas à herança de séculos de escravismo, tudo passa pelo crivo do autor, que também fala de escritores que lhe são caros, como Jorge Amado e Guimarães Rosa. Nestes textos militantes, em que se atacam os principais entraves ao desenvolvimento dos povos africanos, Mia Couto se serve de sua dupla experiência de biológo e escritor, combinando rigor intelectual e imaginação poética para ler melhor um mundo em permanente mutação.

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli
Comprar barato e vender caro pode ser um processo mental vicioso. Devido à prática, o dono de uma loja de quinquilharias atinge essa condição extrema ao expor a clientela a tal materialismo cínico. Prestes a se casar, dispensa a noiva com frieza e apaixona-se pela bunda de uma garçonete. Lê livros policiais e sua mente adota um ritmo alucinante. No entanto, algo de errado no encanamento dos fundos da loja põe tudo sob a seguinte perspectiva: o mau cheiro vem do ralo ou do protagonista? Surpreendente estreia literária de Lourenço Mutarelli, o livro exploca alguns dos temas prediletos do autor, como a desumanização progressiva, o absurdo e a crueldade, com a linguagem ágil que foi amadurecida em sua carreira nos quadrinhos. Adaptado às telas, resultou em atuação memorável de Selton Mello, além de marcar a história recente do cinema brasileiro.

A importância de ser prudente e outras peças, de Oscar Wilde (Tradução de Sonia Moreira)
Muito da fama de Oscar Wilde se deve ao romance O retrato de Dorian Gray, mas foi como dramaturgo que ele alcançou o maior sucesso em vida, com as comédias de costumes Uma mulher sem importância, Um marido ideal e A importância de ser prudente, reunidas neste volume. Nas peças que em larga medida satirizam a alta sociedade vitoriana que jamais o aceitou de bom grado, Wilde aponta de maneira irônica para si mesmo. Há algo do autor nas observações cínicas de lorde Illingworth em Uma mulher sem importância, assim como no estilo de vida despreocupado de lorde Goring, o bon vivant que é a fonte de sensatez de Um marido ideal, e também no inconsequente dândi Algernon de A importância de ser prudente. Com introdução e notas de Richard Allen Cave, diretor e estudioso do teatro britânico, a edição da Penguin-Companhia situa o leitor sobre o contexto em que as peças foram encenadas e as inovações que Wilde, um intelectual de grande apuro técnico, trouxe para a dramaturgia moderna.

Burocracia e sociedade no Brasil colonial, de Stuart B. Schwartz (Tradução de Berilo Vargas)
Entre o fim do século XV e o começo do século XVI, a monarquia portuguesa passou a contar cada vez mais com a burocracia estatal para centralizar o poder, processo esse quase contemporâneo — e de alguma forma propulsor — da expansão ultramarina. Esse esforço pela construção de uma burocracia régia acabou por legar às colônias a herança de uma estrutura administrativa bem desenvolvida e de uma concepção curiosamente legalista do governo e da vida. Este livro (publicado originalmente nos anos 1970 e reeditado agora com nova tradução, apêndice documental inédito e nova introdução do autor) foi estudo pioneiro da burocracia colonial na América portuguesa, tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abordagem, que privilegiou as teias humanas que formavam a burocracia.

Visões da liberdade, de Sidney Chalhoub
Rio de Janeiro, últimas décadas do século XIX. Adão Africano, Genuíno, Juvêncio, Bonifácio, Francelina, Maria de São Pedro — todos negros, vários escravos: esses são alguns dos personagens que, outrora esquecidos em meio à documentação dos arquivos, protagonizam este livro. Um trabalho de pesquisa minucioso e sensível permite a Sidney Chalhoub analisar os processos criminais e de obtenção de alforria em que esses negros estavam envolvidos, revelar seus desejos e interferências nas operações de compra e venda a que tinham de se submeter e, por fim, desvendar o papel que a cidade do Rio desempenhava em suas vidas. Recuperando aspectos da experiência dos escravos na Corte, seus modos de pensar e atuar sobre o mundo, Chalhoub mostra que as lutas entre diferentes visões de liberdade e cativeiro contribuíram para o processo que culminou com o fim da escravidão no Rio de Janeiro.

Histórias de mistério, de Lygia Fagundes Telles
Esta bela reunião de seus contos apresenta a escritora Lygia Fagundes Telles em alguns de seus aspectos mais importantes. Seus temas, aqui, são a ansiedade e a morte, assim como o desamparo diante da perda do amor. Ao mesmo tempo encontramos a surpresa, o inusitado surgindo sem aviso do cotidiano bem conhecido. É o que acontece, por exemplo, em “As formigas”, em que duas estudantes alugam um quarto no sótão de uma pensão e descobrem, abandonado pelo locatário mais recente, um caixotinho cheio de ossos. Assustadas, elas veem como noite após noite uma fileira maciça de formigas entra na caixa e, aparentemente, não sai. As formigas parecem ter uma missão. Nesse e nos outros contos deste livro, o leitor encontrará os temas e o clima que caracterizam os contos de Lygia Fagundes Telles, escritos na linguagem ao mesmo tempo delicada e incisiva de uma das maiores escritoras brasileiras de nosso tempo.

Escuta só, de Alex Ross (Tradução de Pedro Maia Soares)
Em Escuta só, Alex Ross reúne momentos significativos de sua atuação como crítico musical da prestigiosa revista New Yorker, da qual é colaborador desde 1996. Após o sucesso de O resto é ruído, o livro convida a uma urgente reavaliação dos rótulos e preconceitos que continuam a segregar a chamada “música clássica” do cotidiano da maioria das pessoas. De Kurt Cobain a Bach, de Schubert a Bob Dylan, o repertório selecionado pelo autor propicia uma fascinante viagem pelo mundo da música e de seus compositores. A escrita erudita e refinada de Ross, híbrida entre a reportagem, a crítica e o ensaio, relaciona assuntos tão contrastantes como a estrutura da sonata clássica e a vitalidade anárquica do punk com a sutileza das modulações de um prelúdio de Debussy. Leia o prefácio do livro aqui.

Meu filho pato (Organização de Ilan Brenman e Instituto 4 Estações; Ilustrações de Rafael Anton)
Nem sempre é fácil falar sobre a morte, mas vivemos o sentimento de perda desde a infância. Pensando na dificuldade que muitos adultos têm em falar com seus filhos sobre o tema, o escritor Ilan Brenman, autor de inúmeros livros de sucesso destinados ao público infantil, e a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, resolveram convidar seis escritores de renome (Angela-Lago, Índigo, Lalau, Flávia Lins, César Obeid e Roger Mello) para criar histórias para os pequenos sobre esse assunto. O resultado é um livro tão variado em estilos — há contos de humor, outros mais tristes, um mais psicodélico, cordel e poesia — quanto em conteúdo — muitas possibilidades para que as crianças possam falar sobre a morte e entendê-la como um fenômeno inerente à vida.

Forma e exegese & Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes
Este livro reúne Forma e exegese (1935) e Ariana, a mulher (1936), o segundo e o terceiro livro de Vinicius de Moraes, respectivamente. Forma e exegese foi publicado quando Vinicius tinha apenas 22 anos. Mas se o jovem poeta já chamara a atenção da crítica com seu primeiro livro, O caminho para a distância (1933), o segundo trouxe a consagração ao receber o prestigioso prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira. Ariana, a mulher é um único e longo poema que põe em cena, como num transbordamento, o mundo emotivo e existencial de um sujeito. O texto se inicia com o relógio “batendo soturnamente a Meia Noite” e termina com o mesmo relógio “parado sobre a Meia Noite”. É nesse mundo estagnado, morto, que o poeta clama por Ariana. Mas ela não é apenas uma mulher; como o título sugere, ela é a mulher. E é também a morte, a vida, a natureza.

Escuta só: do clássico ao pop

Por Alex Ross

[O texto abaixo é o prefácio do livro Escuta só, de Alex Ross, com tradução de Pedro Maia Soares. O autor fará uma conferência sobre o 2° capítulo do livro, “Chacona, lamento, walking blues” em São Paulo e Rio de Janeiro na próxima semana.]

iPiano
(Foto por Charis Tsevis)

Escrever sobre música não é especialmente difícil. Quem cunhou o epigrama “Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura” — a declaração foi atribuída em diferentes momentos a Martin Mull, Steve Martin e Elvis Costello — estava turvando as águas. A crítica musical é certamente uma ciência curiosa e dúbia, e seu jargão varia do inexpressivo (“A Quinta de Beethoven começa com três sóis e um mi bemol”) ao floreado (“A Quinta de Beethoven começa com o destino batendo à porta”). Mas não é mais dúbia do que qualquer outro tipo de crítica. Toda forma de arte luta contra a armadilha de uma descrição verbal. Escrever sobre dança é como cantar sobre arquitetura, escrever sobre literatura é como fazer edifícios sobre balé. Há uma fronteira envolta em névoa que a língua não pode atravessar. Um crítico de arte pode dizer de Laranja e amarelo de Mark Rothko que a tela consiste de uma área de tinta amarela que flutua acima de uma área de tinta cor de laranja, mas de que serve isso para alguém que nunca viu um Rothko? O crítico literário pode copiar algumas linhas da “Esthétique du mal”, de Wallace Stevens —

And out of what sees and hears and out
Of what one feels, who could have thought to make
So many selves, so many sensuous worlds…

— mas quando tenta explicar o significado desses versos, quando tenta expressar sua música silenciosa, outra dança irrealizável se inicia.

Então por que se arraigou a ideia de que há algo de peculiarmente inexprimível na música? A explicação pode não estar na música, mas em nós mesmos. A partir de meados do século XIX, as plateias se acostumaram a adotar a música como uma espécie de religião secular ou política espiritual, investindo-a com mensagens tão urgentes quanto vagas. As sinfonias de Beethoven prometem liberdade política e pessoal; as óperas de Wagner inflamam a imaginação de poetas e demagogos; os balés de Stravínski liberam energias primais; os Beatles incitam uma revolta contra antigos costumes sociais. Em qualquer momento da história, existem alguns compositores e músicos criativos que parecem deter os segredos da época. A música não é capaz de suportar esses encargos com facilidade, e quando falamos de sua inefabilidade, talvez a estejamos protegendo de nossas próprias exigências excessivas, pois mesmo quando adoramos nossos ídolos musicais, também os obrigamos a produzir emoções particulares no momento certo: um adolescente ouve ensurdecedoramente um hip-hop para se estimular, um executivo de meia-idade põe para tocar um CD de Bach para acalmar seus nervos. Os músicos se veem, de uma forma estranha, ao mesmo tempo adorados e escravizados. Ao escrever sobre música, tento até certo ponto desmistificar a arte, desfazer a prestidigitação, ao mesmo tempo que respeito a complexidade humana ilimitada que lhe dá vida.

A partir de 1996, tive a imensa sorte de ser o crítico de música da New Yorker. Eu tinha 28 anos quando obtive o emprego, muito jovem por qualquer medida, mas me esforcei para aproveitar o máximo a minha sorte. Desde o início, meus editores me incentivaram a ter uma visão ampla do mundo musical: não cobrir apenas o desempenho de astros no Carnegie Hall e no Metropolitan Opera, mas também espiar espaços menores e ouvir vozes mais jovens. Na esteira de meus distintos antecessores Andrew Porter e Paul Griffiths, sustentei que os compositores modernos merecem o mesmo tratamento generoso que é dado a mestres canônicos — uma convicção que levou ao meu primeiro livro, O resto é ruído: Escutando o século XX. Também fiz incursões periódicas ao pop e ao rock, embora, tendo sido criado na música clássica, me sinta inseguro ao pôr os pés fora dela. No conjunto, abordo a música não como esfera autossuficiente, mas como forma de conhecer o mundo.

Escuta só reúne vários artigos publicados na New Yorker, muitos deles submetidos a profunda revisão, e um longo texto escrito especialmente para esta ocasião. O livro começa com três ligeiras avaliações da paisagem musical, que abrangem tanto o terreno clássico como o pop. O primeiro capítulo, de onde vem o título, começou como um prefácio para O resto é ruído, embora eu logo tenha percebido que tinha de ser um ensaio autônomo. É uma espécie de memória que virou manifesto, e quando foi publicado, suscitou uma resposta inesperadamente forte dos leitores, com centenas de cartas e e-mails chegando durante vários meses. Muitas dessas mensagens vieram de estudantes de música e recém-egressos de conservatórios que lutavam para conciliar a tradição em que haviam sido educados com a cultura pop em que tinham crescido. A intensa frustração que eles e eu sentimos diante do estereótipo do pincenê da música clássica percorre todo o livro. O segundo capítulo, “Chacona, lamento, walking blues”, é a coisa nova: uma história em redemoinho da música contada através de duas ou três linhas de baixo recorrentes. “Máquinas infernais” reúne vários pensamentos sobre o cruzamento entre música e tecnologia.

Estabelecido um mapa rudimentar, sigo as pegadas de cerca de uma dezena de músicos vivos e mortos: compositores, regentes, pianistas, quartetos de cordas, bandas de rock, cantores-compositores, professores de banda escolares. Na seção final, tento descrever de forma mais pessoal três figuras radicalmente diferentes — Bob Dylan, Lorraine Hunt Lieberson e Johannes Brahms — que tocam em coisas quase profundas demais para serem expressas em palavras. Meu último livro se transformou numa grande tela histórica, em que as forças políticas a toda hora ameaçavam esmagar a voz solitária; este livro é mais íntimo, mais localizado, e retorna várias vezes à questão permanente do significado da música para seus criadores e seus ouvintes, no nível mais elementar. Acima de tudo, eu quero saber como uma poderosa personalidade pode imprimir-se em um meio de natureza inerentemente abstrata — como uma breve sequência de notas ou acordes pode assumir as peculiaridades reconhecíveis de uma pessoa próxima.

A única característica que esses homens e mulheres dotados musicalmente talvez tenham em comum é que são diferentes uns dos outros ou de qualquer outra pessoa. Muitos são exilados, andarilhos, pesquisadores inquietos. Um tímido finlandês de vanguarda se transforma numa celebridade em Los Angeles. Uma cantora islandesa dança pelas ruas de Salvador, Brasil. Uma pianista japonesa interpreta o repertório alemão no sopé de uma montanha de Vermont. Um veterano do rock and roll serpenteia pelo país, desconstruindo seus sucessos. Um grande compositor alemão atravessa uma paisagem interior devastada pela tristeza. De uma forma ou de outra, eles abalam o gênero que habitam, tornando estranho o familiar.

A Grande enciclopédia soviética, em um de seus momentos mais sensatos, definiu a música como “uma variante específica do som feito por pessoas”. No fim das contas, a parte difícil de escrever sobre música não é descrever um som, mas descrever um ser humano. É um trabalho delicado, pretensioso no caso dos vivos e especulativo no caso dos mortos. Ainda assim, espero oferecer alguns vislumbres prolongados de todas essas naturezas sensíveis.

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Alex Ross nasceu em 1968 em Washington. Iniciou-se na crítica musical ainda nos tempos de faculdade. Em 1992, mudou-se para Nova York, onde trabalhou para o New York Times até ser contratado pela revista New Yorker, da qual hoje é crítico de música. Seu primeiro livro, O resto é ruído — Escutando o século XX (Companhia das Letras, 2009), foi finalista do prêmio Pulitzer.

Vencedores do 52º Prêmio Jabuti


(Foto por Danilo Máximo)

O Prêmio Jabuti, organizado pela Câmara Brasileira do Livro, divulgou hoje de manhã os vencedores da edição de 2010. Abaixo você vê os livros premiados da Companhia das Letras; a lista completa está no site do Jabuti. Estamos muito felizes porque, além de tudo, a Companhia foi a editora com mais obras premiadas este ano! Parabéns a todos os autores e colaboradores!

Romance:
2º – Leite derramado – Chico Buarque

Juvenil:
1º – AvóDezanove e o segredo do soviético – Ondjaki

Infantil:
2º – Carvoeirinhos – Roger Mello
3º – A visita dos 10 monstrinhos – Angela-Lago

Ciências humanas:
3º – Um enigma chamado Brasil – André Botelho, Lilia Moritz Schwarcz

Poesia:
3º – Lar, – Armando Freitas Filho

Biografia:
2º – Padre Cícero – Poder, fé e guerra no Sertão – Lira Neto

Reportagem:
1º – O leitor apaixonado – Prazeres à luz do abajur – Ruy Castro

Teoria e crítica literária
1º – A clave do poético – Benedito Nunes
2º – O controle do imaginário & a afirmação do romance – Luiz Costa Lima

Capa:
1º – O resto é ruído – Alex Ross (capa por Retina_78)

Tradução de obra literária do espanhol para o português:
1º – Purgatório – Tomás Eloy Martínez (tradução por Bernardo Ajzenberg)

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O Jabuti agora abriu a votação para o melhor livro de ficção e de não-ficção escolhido por Júri Popular : basta ir na página do prêmio e votar no seu favorito de cada categoria. Para facilitar a sua decisão, clique nas capas abaixo e leia um trecho de cada livro: