ali smith

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

A Companhia das Letras na divina Companhia Delas

Por Sofia Mariutti

Foto: Ligia Jardim

Foto: Ligia Jardim

 

Sobre Alice Munro, Ali Smith, marcas de gênero e a adaptação teatral de Hotel mundo.

 

Breve — nem tão breve — preâmbulo.
Quando a Alice Munro ganhou o Nobel, o Caetano Galindo provou que era o Super Homem da tradução. Todo mundo queria ler o último livro dela, Vida querida, e nós tivemos que correr para lançá-lo. Muito. O desafio era traduzir no ritmo em que se traduzem os livros de ocasião, mas com o rigor e a qualidade literária de um clássico. Não preciso dizer que o Galindo deu conta.

Depois a Ana Cecilia Agua de Melo se mostrou a Mulher Maravilha da preparação: ela trabalhava o texto à medida que recebia os trechos, mandava de volta, eu fechava e em algumas semanas a produção estava com o texto completo. Às vezes – nem sempre! – o ritmo acelerado pode até ajudar na qualidade final, porque você fica mais dentro do livro e tal, aquela velha história de trabalhar sob pressão.

Mas teve um caso engraçado.

Tinha um conto chamado “Cascalho”.

O Galindo deu voz a uma narradora mulher, e lá pelas tantas, com a frase “Eu tenho uma companheira, Ruthann”, acabava se formando um casal homoerótico, duas mulheres. A Ana Cecilia entendeu que o narrador era homem e aí ficamos com um casal hétero. E lá fui eu atrás do original pra tirar a dúvida do gênero do(a) narrador(a). Nada. Não havia marca de gênero em todo o texto. É muito difícil imaginar isso em português, já que os nossos adjetivos costumam trazer a marca de gênero. Você lê “I’m tired” e tem que fazer uma opção. Estou cansada. Estou cansado. Ou então me bateu um cansaço… Tive que adaptar umas coisas, mudar umas sintaxes, mas no fim deu certo: na versão final, o texto também deixa esse vazio, e cada leitor imagina uma sorte de relação. Se isso foi intencional da autora, não sei, desconfio que sim. A ambivalência foi preservada.

Quando fui contar a trapalhada toda pro Galindo, ele me deu uma desculpa ótima: acho que estou contaminado demais pela voz da Ali Smith. Também já vi ele dizer que sente que a Ali escreve exatamente como ele imagina, é como se ela traduzisse a voz dele, e ele estivesse traduzindo a si mesmo. De fato, a escocesa tem muitas personagens e narradoras femininas, e isso deve ter contaminado a leitura que o Galindo fez da Alice Munro. Mas as duas Alis são bem diferentes.

*

Alice é uma monstra da narrativa, comparada a Tchékhov, classuda e clássica. Ali tem uma voz mais experimental, líquida, e por isso mesmo contemporaneíssima. As duas têm uma coisa em comum: são heranças maravilhosas que a Maria Emília Bender deixou pra mim aqui na Companhia das Letras como editora. Essa semana tive a alegria de ir ao teatro com ela, madrinha da Ali Smith no Brasil, ver “Mergulho”, da Companhia Delas, peça livremente inspirada no romance Hotel mundo, o primeiro da autora traduzido pelo Galindo, em 2009. O texto teatral foi adaptado por Cássio Pires em colaboração com as atrizes da companhia.

Ao final, a Maria, que editou e já leu o romance umas quatro vezes, se lembrava de como a Ali Smith sempre dá voz a garotas sabichonas e perguntadoras, como a Clara Wilby (no livro Clare), que encontrou sua mais justa interpretação na atriz Thaís Medeiros.

Como pode uma garota tão petulante e nerd ser tão cativante e graciosa ao mesmo tempo? A Clara da Companhia Delas arranca gargalhadas dos espectadores (e quem conhece a Maria Emília sabe de que gargalhada estou falando); é divina. Depois de rirem muito, esses mesmos espectadores saem da peça com lágrimas nos olhos (como a Maria Emília), porque a história toda é muito triste, a Clara perde a irmã mais velha de uma maneira estúpida e está tentando entender a morte e a vida e seus fenômenos naturais, e tentando se comunicar com o lado de lá e sobretudo sentindo muitas saudades.

A Silvana Garcia, diretora, encontrou essa justa medida entre o humor e melancolia. A cenografia de Marisa Bentivegna é brilhante: todas as cenas acontecem dentro de uma piscina vazia, que se enche de luz e música nas cenas de transição em que a irmã morta, Sara Wilby, interpretada por Lilian Damasceno, aparece nadando, sua atividade preferida em vida.

Os relógios de pulso, caindo em desuso, são um Leitmotiv que enche a atmosfera de mais nostalgia. Alice (no livro Lise), interpretada por Fernanda Castello Branco, trabalha numa loja que conserta e vende relógios de pulso e teve um breve mas profundo encontro com a falecida jovem Sara, e entre elas se estabeleceu um amor estranho e desajustado, como os relógios quebrados. Nas histórias de Ali Smith, quase sempre há uma tensão ou experiência homoerótica. E quase sempre entre duas mulheres.

Penélope, a jornalista, interpretada com exuberância e vigor por Julia Ianina, fica obcecada pela morte estranha e alguma coisa se quebra na atividade que ela até então desenvolvia: escrever matérias elogiosas sobre hotéis. A defunta nos fala do além, e conversa com cada uma das personagens. As quatro mulheres se sentem fora do prumo, e nesse desajuste nos são reveladas em sua profundidade, complexidade, beleza.

Hotel mundo parece que estava lá numa biblioteca escocesa esperando ser encenado por essa companhia que só cresce a cada trabalho, e que dá voz a mulheres tão múltiplas e estranhas quanto as de Ali Smith. Delas, por elas, entre elas, com elas. Nos próximos meses, a Companhia das Letras estará muito bem acompanhada, nos palcos. Imperdível: http://on.fb.me/1k808M9

 

* * * * *

Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

Semana duzentos e treze

Lançamentos Millôr Fernandes:

The cow went to the swamp
Foi a partir da sugestão de um amigo que Millôr começou a traduzir para o inglês expressões tipicamente brasileiras. As mais de seiscentas frases reunidas neste livro dão uma amostra de por que o autor é reconhecido como uma das mentes mais talentosas que o Brasil já teve.
Nessa “master class” da tradução literária – ou da tradução literal -, Millôr nos ensina como dizer que fulano é “casca grossa” (thick bark), ou que um amigo “meteu os pés pelas mãos” (he stuck his feet through his hands), ou que chegou a hora de “tirar a barriga da miséria” (to take the belly from the wretchedness). Ao criar este antimanual de tradução, Millôr Fernandes capacitou o leitor a “tirar de letra” (to take of letter) as dificuldades de tradução sem “pisar na bola” (step on the ball). Compilação abrangente de expressões que não estão no “pai dos burros” (the father of the asses), A vaca foi pro brejo (The cow went to the swamp) é o livro de referência ideal para quem quer “fazer bonito” (to make beautiful) e ficar “por cima da carne seca” (above the dried meat) na hora de falar inglês.

Tempo e contratempo
Dos anos 1940 a meados da década de 1960, o semanário O Cruzeiro foi a revista mais vendida e influente do Brasil, com tiragens que chegavam a cerca de 700 mil exemplares, e um número de leitores estimado em 4 milhões por edição. Uma das seções mais populares era uma página dupla de humor intitulada “Pif Paf”, assinada por um certo Emmanuel Vão Gôgo, cujo nome verdadeiro era Millôr Fernandes, um jovem precoce de vinte e poucos anos que trabalhava na imprensa desde os quinze. Primeiro livro do autor, publicado em 1949,Tempo e contratempo é uma seleção de poemas, contos, crônicas, sátiras, pastiches e piadas visuais dos onze anos de Millôr em “Pif Paf”, que já na época alternava diferentes estilos com a naturalidade que só um “escritor sem estilo” – como ele costumava se autodenominar – é capaz de ter. A respeito do interesse que o nosso filósofo maior da vida cotidiana tinha sobre os mais variados assuntos, Luis Fernando Verissimo diz, na apresentação deste volume, que Millôr “andava (ou corria, ipanemamente, de sunga) entre as coisas deste mundo, amando tudo e acreditando em nada. Já tinha nos dito que a morte é hereditária, mas isso não era razão para nos resignarmos a ela. Tudo que fez na vida foi em desrespeito à morte”.

Esta é a verdadeira história do paraíso
Em 1963, Millôr Fernandes era um importante colunista de O Cruzeiro, na época a revista mais lida do Brasil. Ateu desde menino, satirizava em seus textos as passagens bíblicas e os dogmas religiosos, posição que arrebatou milhares de fãs, mas também incomodou os mais fanáticos, como atesta a história em torno da primeira publicação desta versão do Gênesis. Pressionada por “alguns carolas do interior”, segundo as palavras do autor, a direção da revista afirmou que Esta é a verdadeira história do Paraíso havia sido publicado sem a sua autorização. A resposta de Millôr foi se desligar da revista, e quando a mentira veio a público o autor ganhou amplo apoio de seus leitores e dos artistas da época. Mais de cinquenta anos depois, superada a polêmica, o livro é considerado uma das obras mais importantes do autor, com questionamentos que só poderiam ter saído da mente do nosso humorista mais brilhante. Logo nas primeiras páginas fica evidente por que esta história do paraíso, recontada com descrença e humor, está mais atual do que nunca. Nesta edição, além do fac-símile publicado em O Cruzeiro, alguns dos principais quadrinistas da atualidade deram a sua versão sobre a origem do mundo.

Essa cara não me é estranha e outros poemas
Millôr Fernandes sempre fez questão de se definir, não sem ironia, como um “escritor sem estilo”. Durante mais de seis décadas de produção intensa, transitou pelos mais diferentes tipos de linguagem, do cartum à dramaturgia, e ao se dedicar à poesia, sua faceta menos conhecida, mantinha a mesma abordagem iconoclasta, sem se preocupar com a busca por uma unidade temática nem se prender a formas fixas. Os poemas reunidos neste livro são exercícios livres de criatividade, que se debruçam com um olhar atento, inteligente e bem-humorado sobre os mais variados assuntos: literatura, tecnologia, convenções sociais, política, pequenos dramas cotidianos, filosofia, cultura e gatos. Em Essa cara não me é estranha e outros poemas, com uma linguagem poética leve e sedutora, Millôr faz em versos aquilo que o notabilizou na imprensa, nas artes visuais e no teatro: expressar através do humor seu pensamento original e surpreendente – ou expressar um pensamento original e surpreendente como quem faz humor.

*

Suíte em quatro movimentos, de Ali Smith (Trad. de Caetano W. Galindo)
Imagine a seguinte situação: você está dando um jantar e um amigo de uma amiga traz à sua casa um conhecido dele que você não conhece. Imagine que depois de comer o prato principal esse estranho suba as escadas, tranque-se no quarto de hóspedes e recuse-se a abrir a porta. Talvez você não consiga tirá-lo de lá por dias, semanas, meses. Talvez ele nunca mais saia da sua casa.
Dividido em quatro surpreendentes movimentos, o romance de Ali Smith se desenrola a partir da noite em que Miles Garth se tranca em um quarto de uma casa de uma família aristocrática de Greenwich, na Inglaterra, e passa a se comunicar com o mundo exterior passando bilhetes por debaixo da porta.
Uma narrativa carregada de ternura e ironia, que explora a linguagem em todas as suas possibilidades e põe em evidência o absurdo da existência humana.

O louco de palestra, de Vanessa Bárbara
A capacidade de observação, a inteligência e o humor de uma das melhores cronistas da nova geração numa seleção de textos irresistíveis. O louco de palestra é um desfile de cenas, personagens e situações tão encantadoras quanto humorísticas. Da vida social no Mandaqui, bairro da zona norte de São Paulo, a observações – atiladas e bem-humoradas – sobre cidades como Londres e Macau, tudo parece ganhar novos contornos na prosa da jovem autora brasileira. Entre um continente e outro, Vanessa muda de ares, mas continua a mesma> observadora perspicaz, curiosa onívora e com o olhar (e a audição) treinado para captar e reproduzir aqueles detalhes sutis de que são feitas as coisas do cotidiano. Os apinhadíssimos ônibus paulistanos, a vida secreta dos vizinhos, pequenas epifanias em meio ao caos da cidade grande: não há nada remotamente humano (ou quelônio) que passe despercebido por Vanessa Bárbara.

O melhor tempo é o presente, de Nadine Gordimer (Trad. de Paulo Henriques Britto)
Amantes clandestinos no passado, devido às leis raciais que proibiam relações entre negros e brancos, hoje Jabulile Gumede e Steve Reed vivem numa África do Sul democrática. Ambos foram ativistas que lutaram com todas as forças pelo fim do apartheid, e seus filhos, felizmente, já nasceram em um tempo e em um lugar de liberdade. Mas à medida que os ideais de uma vida melhor para todos são ameaçados por tensões políticas e raciais, pela ressaca das ambiguidades morais e pelo enorme abismo entre os privilegiados e a grande massa pobre que só aumenta a cada dia, o casal pensa em abandonar o país pelo qual tanto lutou. O assunto de O melhor tempo é o presentenão poderia ser mais contemporâneo, porém a escritora Nadine Gordimer o trata, como é característico em sua tremenda obra, de modo atemporal. Aqui, ela mais uma vez dá mostras da grande romancista que é, ao capturar a essência da nação sul-africana no século XXI por meio da história de um casal em conflito.

Portfolio Penguin

Mitos corporativos, de Jorge Duro
Aníbal fora contratado para assumir um cargo de alta responsabilidade no Rio de Janeiro. Vidno do Nordeste, sua prieira impressão na cidade maravilhosa e no novo trabalho era de que nada poderia dar errado. Até descobrir que sua secretária, Neide, uma senhora pra lá de complicada, era também a melhor amiga da esposa do presidente da empresa – e já fora responsável pela demissão de tantos funcionários que tinham passado pelo cargo de Aníbal. Como proceder diante disso? Quando se trata de relações d epoder entre seres humanos, em qualquer contexto, coroprativo ou não, há muito mais variáveis do que supõe a filosofia ensinada nas salas de aula. Um título de MBA é o primeiro passo para o sucesso, mas certamente não será o último. Por meio de um texto acessível e didático, Mitos Corporativos apresenta novas perspectivas para qualquer um que almeja crescer na carreira, sem se deixar levar pelos desafios invisíveis que aparecerão pelo caminho.

Em tradução (Smith)

Por Caetano Galindo


Então. Já falei de Ali Smith aqui. De como eu me orgulho de ser o tradutor dela no Brasil.

Pois bem. Nas férias eu e a Sandra (Stroparo, que também já traduziu aqui pra casa) fomos a Londres. Legal, né? Super.

Eu sou curitibano, que é uma subespécie de barata. Que se esconde pelos cantos e foge da luz. Menos nojento, no entanto, na maioria das opiniões.

Mas mesmo assim, estando lá, me deu uma coceira social. A gente estava com planos de conhecer Cambridge (na outra ida, dez anos atrás, passamos dias bem felizes em Oxford) e eu sabia que a grande Ms. Smith morava lá.

Mandei um e-mail pra Tracy, agente dela (que aliás estava grávida! Benvinda filha, benvindo filho da Tracy! [ela não quis saber qual seria]), e falei que a gente topava dar uma corrida a Cambridge no dia que fosse mais legal pra grande escritora, se ela estivesse a fim de um café. A cuppa. Whatever.

Coisa de uma hora depois recebo um e-mail propondo data, hora e local, porque Ali Smith viria a Londres na semana seguinte. Claro. Oba.

Fomos.

* * *

Nada. Mas nada mesmo teria nos deixado prontos pra ela. Todo mundo que já tinha falado com ela aqui na Flip (aliás, ela morre de vontade de voltar; viu, organizadores…) dizia a mesma coisa. Que a mulher era de uma simpatia, de uma fofura quase surreais.

Saímos de lá encantados. Ela é um amor. Ela é tão simpática e tão proativamente simpática que até minha linda frase de efeito, treinada logo antes, eu esqueci de usar.

Hello, I am you.

E ela é tão simpática que eu me senti imediatamente à vontade pra contar que tinha pensado nessa frase de efeito etc. E ela achou bacana. E deu ainda pra rir junto.

Saí daquela sala dos membros da Tate Modern com a sensação de que a minha missão na vida, como tradutor, é representar bem essa moça. É ser ela do jeito mais eficiente que eu possa. Porque os livros dela, eu já sabia. Merecem. Mas ela agora merece mais ainda.

* * *

Querem uma estória ainda mais fofolete? Pois a gente (eu e a Sofia) estava quebrando a cabeça com o título, totalmente intraduzível, do último romance dela. Estávamos entre o jogo linguístico-estrutural complexo e a tentativa de imprimir na capa algo que chamasse eventualmente mais leitores. Algo mais comercial. Todos os leitores de Ali Smith, vivemos desesperados, afinal, pra fazer mais gente saber o que está perdendo…

Pois não é que (juro, tá? Verdade…) na noite anterior a esse encontro, eu sonhei com um título? Tipo, nada a ver com nenhuma das linhas que a gente estava tentando seguir. Nada. Mas sonhei. E meio que me deu um arrepio, porque era bom… era bacanão…

Contei isso pra Ali (hmmm, first names…). Ela achou legal e me pediu pra saber o título. Quando eu contei, a reação dela merecia um filme em HD.

Ela travou, tremeu em alta velocidade (juro), abriu uns olhos enormes e começou a falar que se dispunha a escrever uma longa carta pra editora provando que só aquele título caberia.

Eu ri. Mas ao mesmo tempo fiquei comovido pacas.

Ficar excitada desse jeito com palavras. É isso que faz Ali Smith ser quem é. Frisson. Tesão. Invenção.

(Porque o título ainda tinha um minitrocadilho.)

É bem verdade que a conversa foi tão boa que a gente já decidiu até o título em português do romance que ela ainda está escrevendo!, mas, enquanto isso, fiquem curiosos por esse que vai sair, e que, com as bênçãos da autora, de Morfeu e da Sofia (a tal carta nem foi necessária, afinal) há de se chamar Suíte em quatro movimentos.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

Em Tradução (There but for the)

Por Caetano Galindo

Pois bem.
Entre o mês passado e hoje (quanto tempo!), Infinite jest definitivamente saiu da minha mão. Revisado, relido etcterado.
Crendiospai.
Torçamos.

Ainda devo voltar a falar bastante do livro aqui, inclusive pra dar uma situada geral que andaram pedindo (se bem que, pra isso, dá pra olhar aqui também). Mas por hoje, por esse mês, eu queria falar do que foi meio que o meu banho-de-descarrego do projeto Wallace: um outro livro. E a sua autora.

É o terceiro livro da escocesa Ali Smith que eu traduzo. Descontando volume Rock’n’roll e outras peças, de Tom Stoppard, e Todos os poemas, de Paul Auster, que reúnem em volumes únicos várias obras diferentes, ela é a autora que eu mais escrevi na vida.
E, meu, com que gosto.

Hotel mundo foi o meu terceiro livro aqui pra Companhia, primeiro de ficção. Foi meu décimo livro traduzido, mas até hoje pra mim marca o momento em que eu virei gente-grande (ou essa curiosa versão de gente-média que vem dando pro gasto…), em que eu percebi que aquela coisa mais comportada, menos arriscada, que eu tentava fazer antes era ao mesmo tempo menos responsável, no sentido ético mais pleno sabe?
De chamar a responsa.
De bater no peito e gritar xá comigo!
E isso só aconteceu por causa das exigências do livro, do amor da autora por trocadilhos, piadas verbais, sonoridades, invenções, vozes diferentes… foi traduzindo o monólogo interior de uma adolescente adoentada, presa à cama, que eu atravessei o meu Rubicão, que eu vi como era foda isso de ‘escrever’ ficção, de ser um outro. Isso de eu, macho tosco pardo e (na falta de termo melhor) maduro, virar moça branca delicada e verde. E gostei.

Está rolando na internet um vídeo bem bonito em que Dustin Hoffman se emociona ao falar de Tootsie [http://www.youtube.com/watch?v=xPAat-T1uhE]. A transformação de gênero é a mais marcada, a mais marcante de todas, claro. Mas ele, como ator, sabe que no fundo seu emprego é sempre esse. Sabe que Dorothy Michaels é, será sempre, o símbolo melhor do que de mais difícil e mais encantador a profissão dele oferece. Sempre.
Romancistas também vivem disso.
Mas tradutores, como atores, recebem a dádiva, a encomenda, a tarefa, o dever. E precisam lidar com isso.
A gente não escolhe. A gente lida com o que vem.
E muitas vezes o que vem está acima da tua capacidade. Aí ou você cresce ou some…

Eu comecei a crescer com Ali Smith…

Depois disso fiz um livro de contos dela, genial. Li outras coisas. Inclusive tinha lido esse There but for the logo que saiu, bem antes de traduzir.
Em parte porque virei fã mesmo. Em parte, também, porque eu decididamente não queria só traduzir mais livros dela, mas queria me sentir “o” tradutor de Ali Smith.

Porque eu gosto dela.
Porque de algum jeito muito estranho eu sinto que “pego” o estilo dela. Que “entendo” a cabeça dela.
Esses dois, e agora três, livros são dos que eu mais me orgulho…
E olha, os livros dela são bem cabeludos. E no entanto eu dei conta de uma primeira versão desse romance mais recente em duas semanas. Rindo. Literalmente.
Não sei bem se fui eu que aprendi com ela a entrar melhor em outras vozes ou se foi ela que meio que se apropriou de mim pras coisas funcionarem desse jeito, tão facinhas…
Faz diferença?

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

12