alice munro

A Companhia das Letras na divina Companhia Delas

Por Sofia Mariutti

Foto: Ligia Jardim

Foto: Ligia Jardim

 

Sobre Alice Munro, Ali Smith, marcas de gênero e a adaptação teatral de Hotel mundo.

 

Breve — nem tão breve — preâmbulo.
Quando a Alice Munro ganhou o Nobel, o Caetano Galindo provou que era o Super Homem da tradução. Todo mundo queria ler o último livro dela, Vida querida, e nós tivemos que correr para lançá-lo. Muito. O desafio era traduzir no ritmo em que se traduzem os livros de ocasião, mas com o rigor e a qualidade literária de um clássico. Não preciso dizer que o Galindo deu conta.

Depois a Ana Cecilia Agua de Melo se mostrou a Mulher Maravilha da preparação: ela trabalhava o texto à medida que recebia os trechos, mandava de volta, eu fechava e em algumas semanas a produção estava com o texto completo. Às vezes – nem sempre! – o ritmo acelerado pode até ajudar na qualidade final, porque você fica mais dentro do livro e tal, aquela velha história de trabalhar sob pressão.

Mas teve um caso engraçado.

Tinha um conto chamado “Cascalho”.

O Galindo deu voz a uma narradora mulher, e lá pelas tantas, com a frase “Eu tenho uma companheira, Ruthann”, acabava se formando um casal homoerótico, duas mulheres. A Ana Cecilia entendeu que o narrador era homem e aí ficamos com um casal hétero. E lá fui eu atrás do original pra tirar a dúvida do gênero do(a) narrador(a). Nada. Não havia marca de gênero em todo o texto. É muito difícil imaginar isso em português, já que os nossos adjetivos costumam trazer a marca de gênero. Você lê “I’m tired” e tem que fazer uma opção. Estou cansada. Estou cansado. Ou então me bateu um cansaço… Tive que adaptar umas coisas, mudar umas sintaxes, mas no fim deu certo: na versão final, o texto também deixa esse vazio, e cada leitor imagina uma sorte de relação. Se isso foi intencional da autora, não sei, desconfio que sim. A ambivalência foi preservada.

Quando fui contar a trapalhada toda pro Galindo, ele me deu uma desculpa ótima: acho que estou contaminado demais pela voz da Ali Smith. Também já vi ele dizer que sente que a Ali escreve exatamente como ele imagina, é como se ela traduzisse a voz dele, e ele estivesse traduzindo a si mesmo. De fato, a escocesa tem muitas personagens e narradoras femininas, e isso deve ter contaminado a leitura que o Galindo fez da Alice Munro. Mas as duas Alis são bem diferentes.

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Alice é uma monstra da narrativa, comparada a Tchékhov, classuda e clássica. Ali tem uma voz mais experimental, líquida, e por isso mesmo contemporaneíssima. As duas têm uma coisa em comum: são heranças maravilhosas que a Maria Emília Bender deixou pra mim aqui na Companhia das Letras como editora. Essa semana tive a alegria de ir ao teatro com ela, madrinha da Ali Smith no Brasil, ver “Mergulho”, da Companhia Delas, peça livremente inspirada no romance Hotel mundo, o primeiro da autora traduzido pelo Galindo, em 2009. O texto teatral foi adaptado por Cássio Pires em colaboração com as atrizes da companhia.

Ao final, a Maria, que editou e já leu o romance umas quatro vezes, se lembrava de como a Ali Smith sempre dá voz a garotas sabichonas e perguntadoras, como a Clara Wilby (no livro Clare), que encontrou sua mais justa interpretação na atriz Thaís Medeiros.

Como pode uma garota tão petulante e nerd ser tão cativante e graciosa ao mesmo tempo? A Clara da Companhia Delas arranca gargalhadas dos espectadores (e quem conhece a Maria Emília sabe de que gargalhada estou falando); é divina. Depois de rirem muito, esses mesmos espectadores saem da peça com lágrimas nos olhos (como a Maria Emília), porque a história toda é muito triste, a Clara perde a irmã mais velha de uma maneira estúpida e está tentando entender a morte e a vida e seus fenômenos naturais, e tentando se comunicar com o lado de lá e sobretudo sentindo muitas saudades.

A Silvana Garcia, diretora, encontrou essa justa medida entre o humor e melancolia. A cenografia de Marisa Bentivegna é brilhante: todas as cenas acontecem dentro de uma piscina vazia, que se enche de luz e música nas cenas de transição em que a irmã morta, Sara Wilby, interpretada por Lilian Damasceno, aparece nadando, sua atividade preferida em vida.

Os relógios de pulso, caindo em desuso, são um Leitmotiv que enche a atmosfera de mais nostalgia. Alice (no livro Lise), interpretada por Fernanda Castello Branco, trabalha numa loja que conserta e vende relógios de pulso e teve um breve mas profundo encontro com a falecida jovem Sara, e entre elas se estabeleceu um amor estranho e desajustado, como os relógios quebrados. Nas histórias de Ali Smith, quase sempre há uma tensão ou experiência homoerótica. E quase sempre entre duas mulheres.

Penélope, a jornalista, interpretada com exuberância e vigor por Julia Ianina, fica obcecada pela morte estranha e alguma coisa se quebra na atividade que ela até então desenvolvia: escrever matérias elogiosas sobre hotéis. A defunta nos fala do além, e conversa com cada uma das personagens. As quatro mulheres se sentem fora do prumo, e nesse desajuste nos são reveladas em sua profundidade, complexidade, beleza.

Hotel mundo parece que estava lá numa biblioteca escocesa esperando ser encenado por essa companhia que só cresce a cada trabalho, e que dá voz a mulheres tão múltiplas e estranhas quanto as de Ali Smith. Delas, por elas, entre elas, com elas. Nos próximos meses, a Companhia das Letras estará muito bem acompanhada, nos palcos. Imperdível: http://on.fb.me/1k808M9

 

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.

Em tradução (Vida querida)

Por Caetano Galindo


(Detalhe da capa de Vida, querida. Capista: Elisa von Randow.)

Com o ritmo mensal aqui no blog, e com o ritmo maluco aqui em casa, algumas coisas perdem a hora boa de aparecer aqui.

Mas agora é exatamente a hora de falar de uma delas: Alice Munro.

Ok, agora ela ganhou o Nobel, está em evidência pra todo lado. E tem que estar mesmo. A mulher merece, camaradas.

E já de saída vem essa mesma questão: a mulher. Será que ela não ganhou esse Nobel só pra contrabalançar os anos de ausências femininas nas listas do pessoal de Estocolmo?

Olha, dá uma olhada nesse livro e me conta. Me conta se ela está no nível das escritoras que precisam ser defendidas e que alguns críticos às vezes podem querer exaltar apenas por serem mulheres. Faz favor…

Escritora bom é escritor boa. Seja ele homem, mulher, hermafrodita ou indeciso. Lydia Davis, Cynthia Ozick, Ali Smith, Alice Munro, são escritoras que estão no meu panteão particular. E não precisam de favor de ninguém. Vamos parar com isso, ok? A mulher que há em mim fica de fato ofendidona com essa história!

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Traduzir Munro foi um grande prazer. Especialmente porque, como de regra, fui lendo enquanto traduzia. E é simplesmente genial quando tudo se encaixa assim. A prosa dela me sai bem, os recursos formais vão me encantando e eu quero saber por onde vão aquelas histórias! É uma tensão disgramada!

Mas extremamente recompensante…

Agora, quer saber uma mini-anedota que tem a ver com ela ser mulher? E com tradução?

Então.

No último livro da Ali Smith uma menina, negra, fica pensando por que é que sempre que num livro se disser ‘a menina’, a gente vai pensar numa menina branca, a não ser que se diga ‘a menina negra’.

E o mesmo vale pra mulheres, né?

Sou eu, somos os homens, ou somos todos, tão condicionados por décadas (séculos?) que direto pensamos que um ‘eu’ numa narrativa é homem até prova em contrário?

E aí a experiência Ali Smithiana me vacinou, e acabou que em ao menos dois casos eu pensei, no automático, que o narrador da Munro era mulher… talvez equivocadamente. Num caso eu me corrigi, e com a ajuda da Ana Cecília, que preparou o livro, retransformamos o personagem em homem. No outro, nós e a Sofia, a editora, ficamos sem conseguir decidir, e optamos pela saída Ali Smith (cirurgicamente empregada pela Sofia): retirar toda e qualquer marca de gênero…

Sexismo meu?

Ao contrário?

A ver…

Mas, agora que o livro está pra sair, fique com o começo de um conto, em vez de aguentar o meu falatório, só pra ver a habilidade da moça pra te envolver já de cara na história.

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[Trecho do conto “Deixando Maverley”, do livro Vida querida — que chega nas livrarias dia 5 de dezembro.]

Nos tempos antigos quando havia um cinema em toda cidade havia um cinema nessa cidade também, em Maverley, e ele se chamava Capital, como era comum se chamarem esses cinemas. Morgan Holly era o proprietário e o projecionista. Ele não gostava de lidar com o público — preferia sentar no seu cubículo lá no alto e cuidar da história na tela — então naturalmente ele ficou contrariado quando a menina que recolhia as entradas lhe disse que teria de pedir demissão, porque ia ter um bebê. Ele podia ter previsto isso — ela estava casada havia meio ano, e naquele tempo era costume sumir dos olhos do público antes de a barriga começar a aparecer — mas ele era tão avesso a mudanças e à ideia de que as pessoas tinham vidas particulares que foi tomado de surpresa.

Felizmente, ela sugeriu alguém que podia ficar no seu lugar. Uma moça que morava na rua dela havia mencionado que ia gostar de ter um emprego noturno. Ela não podia trabalhar durante o dia, porque tinha que ajudar a mãe a cuidar dos irmãos mais novos. Era inteligente o bastante para se virar no emprego, apesar de tímida.

Morgan disse que tudo bem — ele não pagava uma recolhedora de entradas para ficar batendo papo com os frequentadores.

Então a moça veio. O nome dela era Leah, e a primeira e única pergunta de Morgan para ela foi para saber que nome era esse. Ela disse que vinha da Bíblia. Ele percebeu então que ela não estava maquiada e que o cabelo dela estava puxado sem elegância bem junto da cabeça e era mantido no lugar com grampinhos. Por um momento ele se perguntou se ela tinha mesmo dezesseis anos e se podia ser legalmente empregada, mas bem de perto viu que devia ser verdade. Ele lhe disse que ela teria que trabalhar em uma sessão, a partir das oito horas, nos dias de semana, e em duas sessões, a partir das sete, nas noites de sábado. Depois de fechar, ela seria responsável por contar a receita e trancar o caixa.

Só havia um problema. Ela disse que podia ir a pé sozinha para casa durante a semana, mas que não teria permissão para fazer isso nas noites de sábado e que o pai dela não podia vir pegá-la nesse dia porque ele também tinha um emprego noturno na serraria.

Morgan disse que não sabia o que havia a se temer num lugar como aquele, e estava prestes a lhe dizer para dar no pé, quando lembrou do guarda-noturno que vivia interrompendo a ronda para assistir a um pedacinho do filme. Talvez ele pudesse ficar com a incumbência de levar Leah para casa.

Ela disse que ia perguntar ao pai.

O pai dela consentiu, mas tinha que ser atendido quanto a outras questões. Leah não podia olhar para a tela nem ouvir pedaços dos diálogos. A religião a que a família pertencia não permitia. Morgan disse que não pagava suas recolhedoras de entradas para elas ficarem dando espiadelas nos filmes de graça. Quanto aos diálogos, ele mentiu e disse que o cinema tinha isolamento acústico.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 1° semestre de 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

Alice Munro ganha o Prêmio Nobel de Literatura

A escritora canadense Alice Munro foi anunciada hoje como a nova ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura. Aos 82 anos, a contista já havia ganhado prêmios como o Man Booker, o Giller e o Trillium Book Award.

Jonathan Franzen, em ensaio sobre a escritora, disse: “[Munro] não é uma golfista treinando uma tacada. Ela é uma ginasta de collant preto, sozinha no chão liso, superando todos os romancistas com seus trajes chamativos, chicotes, elefantes e tigres.”

Em crítica sobre O amor de uma boa mulher, lançado pela Companhia das Letras em maio deste ano, o crítico da Folha Luiz Bras disse: “Alice Munro certamente pertence à linhagem de escritores como Tchekhov e Virginia Woolf, mestres da intimidade doméstica, da elipse e do desenlace indefinido. A única diferença é que em suas histórias o niilismo e o puritanismo jamais triunfam.”

Em junho deste ano, ela disse ao National Post que provavelmente não escreveria mais. Seu livro mais recente, Dear Life, será publicado pela Companhia das Letras em novembro.

Leia abaixo o conto “As crianças ficam”, retirado de O amor de uma boa mulher.

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As crianças ficam

Por Alice Munro

Trinta anos atrás uma família passava as férias na costa leste da ilha de Vancouver. Um casal ainda jovem com suas duas filhas pequenas e um casal mais velho, pais do marido.

O tempo estava perfeito. Todas as manhãs iguais, os primeiros raios puros de sol varando os galhos altos e espantando o nevoeiro sobre as águas paradas do estreito de Georgia. Com a maré baixa, surge uma grande extensão de areia ainda úmida sobre a qual é fácil caminhar, como cimento prestes a secar. Na verdade, a maré ultimamente tem baixado menos; a cada manhã a área de areia encolhe, mas, de todo modo, é ainda bem ampla. As mudanças na maré são matéria de grande interesse para o avô, embora nem tanto para os demais.

Pauline, a jovem mãe, realmente não gosta tanto da praia quanto da estrada que corre atrás dos chalés por um quilômetro e meio, até chegar à margem de um pequeno rio que desemboca no mar.

Não fosse pela maré, seria difícil lembrar que se tratava do mar. Do outro lado das águas se erguem as montanhas que formam o paredão ocidental do continente norte-americano. Esses montes e picos, agora visíveis em meio à névoa enquanto Pauline empurra o carrinho de sua filha ao longo da estrada, também interessam ao avô e a seu filho, Brian, que é o marido de Pauline. Os dois estão sempre tentando decidir o que é o quê. Quais daquelas formas são de fato montanhas continentais e quais são elevações improváveis das ilhas que ficam diante da costa. É difícil dizer com certeza quando o conjunto é tão complicado e a distância de seus componentes se altera com as mudanças da luz ao longo do dia.

Mas, entre os chalés e a praia, há um mapa protegido por uma lâmina de vidro. Pode-se olhar o desenho, depois a paisagem à frente e mais uma vez o desenho até esclarecer tudo. O avô e Brian fazem isso todos os dias, em geral iniciando uma discussão, embora se devesse imaginar que haveria pouca margem para dúvida com o mapa bem ali. Brian alega que o mapa não é exato. Mas seu pai não admite críticas a nenhum aspecto daquele lugar, que foi sua escolha para as férias. O mapa, assim como as acomodações e o tempo, é perfeito.

A mãe de Brian não olha o mapa. Diz que atrapalha sua cabeça. Os homens riem dela, aceitam que sua cabeça é atrapalhada. O marido acredita que isso é porque ela é uma mulher. Brian acredita que é porque ela é sua mãe. A preocupação permanente dela é saber se alguém já está com fome ou com sede, se as crianças estão usando os chapéus de sol e o protetor solar. E o que é essa mordida estranha no braço de Caitlin, que não parece ter sido feita por um mosquito? Ela obriga o marido a pôr na cabeça um chapéu mole de algodão e acha que Brian deveria fazer o mesmo — lembrando como ele passou mal por causa do sol naquele verão em que foram para o Okanagan quando ele era pequeno. Às vezes Brian lhe diz: “Ah, mamãe, fecha o bico”. O tom é na essência carinhoso, mas o pai lhe pergunta se ele acha que agora pode falar desse jeito com a mãe.

“Ela não se importa”, diz Brian.

“Como é que você sabe?”, pergunta o pai.

“Ah, pelo amor de Deus”, diz a mãe.

[Clique aqui para ler o conto na íntegra.]

Semana cento e cinquenta e sete

Os lançamentos desta semana são:

13 palavras, de Lemony Snicket (Trad. Érico Assis)
A partir de 13 palavras aparentemente aleatórias, Lemony Snicket e Maira Kalman criaram esta história peculiar e irreverente, sobre uma passarinha melancólica e um cão que tenta alegrá-la a todo custo, oferecendo, por exemplo, bolos e chapéus. As crianças vão se surpreender com este livro extravagante e lindamente ilustrado.

Amanhã para sempre, de Jorge G. Castañeda (Trad. Luiz A. de Araújo)
O intelectual, diplomata e político Jorge G. Castañeda é um dos intérpretes mais respeitados do México. Além de diversos livros sobre o tema, o autor de Amanhã para sempre tem se dedicado a investigar as singularidades do caráter nacional e da formação histórica de seu país, forjados basicamente pela submissão do substrato racial, linguístico e cultural das civilizações indígenas preexistentes à conquista e às contribuições impostas pelo colonizador ibérico. Neste ensaio ambicioso e abrangente, que contém capítulos especiais para a edição brasileira, Castañeda investiga as origens do México moderno nos momentos decisivos dos cinco séculos desde a chegada dos espanhóis, recuando até a era pré-colombiana para rastrear os traços primordiais da nacionalidade. Para Castañeda, o México e os mexicanos conquistarão um futuro radioso se conseguirem superar o isolacionismo e o individualismo engendrados em sua longa história de espoliação colonial, violência política e injustiças sociais.

México, de Erico Verissimo
Na primavera de 1955, esgotado pela rotina burocrática de seu cargo na sede da OEA em Washington, Erico Verissimo sai de férias com a mulher, Mafalda, para viajar pelo México. O autor de O tempo e o vento e sua companheira de viagem, sufocados pelo cotidiano asséptico nos Estados Unidos, ansiavam reencontrar-se com o universo mágico da cultura latino-americana. Seguindo um roteiro que incluiu a capital federal, Oaxaca, Puebla, Taxco e outras cidades da Meseta Central, os Verissimo se surpreenderam com a natureza ao mesmo tempo exótica e familiar da mexicanidad. O bloqueio criativo que afetava o escritor e os vulcões que espreitam a milenar história do país. Permeado de argutas reflexões estéticas e antropológicas, este livro é o saboroso relato de Verissimo na pátria de Diego RIvera, José Vasconcelos e Octavio Paz.

Malcolm X, de Manning Marable (Trad. Berilo Vargas)
“Até agora só os negros sangraram, e isso não é visto pelos brancos como derramamento de sangue. Para que o homem branco considere um conflito sangrento, é preciso que sangue branco seja derramado.” Nada mais distinto da mensagem de paz propagada por Malcolm X (1925-1965) em seus últimos meses de vida que o ódio racial que até o início de 1964 lhe impregnava as palavras como ministro da Nação do Islã. Essa transformação radical foi apenas uma das metamorfoses sofridas pelo inspirador do movimento Black Power ao longo de uma existência curta mas plena e tumultuada como poucas. Da pobreza da infância órfã à conversão ao Islã, dos crimes inconsequentes da juventude à longa pena cumprida por assalto armado, dos períodos como gigolô e traficante de drogas à defesa veemente dos direitos civis dos negros americanos, este ambicioso relato biográfico reconstitui o heterodoxo percurso de um dos ativistas políticos mais influentes do século XX, símbolo trágico de uma época de profundas transformações na sociedade norte-americana.

Pastoral americana, de Philip Roth (Trad. Rubens Figueiredo)
No estilo impetuoso de Philip Roth, Pastoral americana narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta em vão comunicar um legado moral à terceira geração da família. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdidalhe confere um caráter ao mesmo tempo de heroísmo e desatino. Para contar a história, Philip Roth ressuscita seu famoso alter ego, o romancista Nathan Zuckerman, herói e narrador dos romances Casei com um comunista e A marca humana. Na voz de Zuckerman, Seymour Levov assume a dimensão patética de um Adão obediente que um dia, sem entender por quê, se vê expulso do paraíso.

O amor de uma boa mulher, de Alice Munro (Trad. Jorio Dauster)
Vencedor no National Book Critis Circle Award (1998), O amor de uma boa mulher reúne oito contos da canadense Alice Munro, uma das mais prestigiadas escritoras de língua inglesa da atualidade. Suas histórias – que podem ser lidas como pequenos romances – revelam a complexidade de personagens à deriva, cujos turbilhões se formam sob a aparente normalidade dos eventos cotidianos.

O império de Hitler, de Mark Mazower (Trad. Claudio Carina e Lucia Boldrini)
O império de Hitler foi a maior, mais brutal e ambiciosa tentativa de reformulação das fronteiras europeias na era moderna. Inspirado no legado de potências imperiais como Roma ou a Grã-Bretanha, o Terceiro Reich impôs sua sombra maldita das ilhas do Canal (a poucos quilômetros por mar da grande nêmesis da Alemanha na Segunda Guerra, a Inglaterra) ao Cáucaso, reunindo milhões de súditos das mais diversas etnias, culturas e religiões. Neste trabalho de fôlego – que apresenta uma tese inovadora e surpreendente sobre a derrocada alemã -, o historiador Mark Mazower mostra, no entanto, que os domínios do Reich tinham por base um castelo de cartas. Uma aliança nefasta entre incompetência administrativa e ausência de racionalidade tática levou não só ao colapso da ordem nazista como à decadência de todo um continente.

Histórias do pai da História, de Ilan Brenman
Muita gente acha que a “História”, aquela disciplina que aprendemos na escola, cheia de nomes e datas, não tem nada a ver com as histórias inventadas que lemos nos livros. Mas você sabia que, quando a matéria da História surgiu, ela era uma mistura de fatos reais com um tanto de imaginação? Quando voltavam para casa, os viajantes contavam aos outros tudo o que tinham visto – e um pouquinho do que não tinham visto -, e essa era a única forma de saber o que acontecia pelo mundo. Isso até Heródoto, um historiador e geógrafo grego nascido em 484 A.C., reunir aquilo que presenciou e ouviu falar em suas andanças num grande livro chamado Histórias. E é por isso que ele ficou conhecido como “O pai da História”: criou um documento que permitiu que todos tivessem acesso às mais vaiadas informações sobre o resto do mundo sempre que quisessem, e se tornou o inventor da ciência mais antiga do mundo ocidental. Neste livro, outro grande narrador apresenta alguns dos escritos mais interessantes que Heródoto nos deixou. Depois de lê-los, você verá que a realidade também pode ser uma bela história!

Semana dezessete

Os lançamentos da semana foram:

Felicidade demais, de Alice Munro (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Nessa coletânea de contos da ganhadora do Man Booker Prize, personagens femininas protagonizam histórias arrebatadoras sobre sedução, os mistérios do passado, a finitude e promessas de felicidade intensa. São mulheres de idades e ocupações diversas, mas todas elas, a certa altura da vida, deparam com acontecimentos que mudam o rumo de suas vidas.

Eu vos abraço, milhões, de Moacyr Scliar
A primeira paixão de Valdo foi a leitura. A leitura o aproximou de Geninho. E Geninho o apresentou ao comunismo. A ideia de que a desigualdade fosse uma injustiça e de que houvesse pessoas lutando pelo fim da opressão social mudou a vida do garoto. Decidido a entrar para o Partido Comunista, Valdo abre as porteiras da estância e parte para a cidade grande em busca de um sentido para a vida.

A valsa dos adeuses, de Milan Kundera (Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca)
Em um pequeno balneário decadente, oito personagens se encontram e desencontram como se rodopiassem ao som de uma valsa. Esterilidade, amor não correspondido, adultério, depressão, aborto: Kundera reúne neste romance todos os elementos que podem perturbar o amor.

Nome, sobrenome, apelido, de Renata Bueno e Mariana Zanetti
Logo que as crianças aprendem o seu próprio nome, gostam de mostrar que o decoraram inteirinho. Não que alguém entenda a resposta ao “Qual o seu nome”, mas daí percebemos como essa é uma questão importante e presente na vida delas, que vivem dando nomes, sobrenomes e apelidos às suas bonecas, bichos, brinquedos, amigos, desenhos… Neste livro, quinze histórias curtas, escritas em prosa, falam sobre cachorros, gatos, homens e mulheres e suas várias alcunhas.