amin maalouf

Mesa 8: Literatura e liberdade

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Convidados:

Mediação: Alexandra Lucas Coelho

Uma perspectiva moderna e humanista caracteriza o trabalho do sírio Adonis e do libanês Amin Maalouf como escritores e intelectuais. Em ensaios, poemas, estudos históricos ou livros de ficção, esses dois grandes escritores constroem o novo a partir de um olhar original sobre a tradição, em oposição direta ao fundamentalismo que, nas últimas décadas, tem marcado a vida política e cultural de muitos países do mundo árabe. Eles conversam sobre os pontos em comum de suas trajetórias, ambas marcadas pelos conflitos da região, e avaliam as promessas e os riscos do momento atual.

Horário de início: 17h15

Mediadora: Para quem acompanha o Oriente Médio, o percurso e a obra desses autores são uma inspiração. Vamos falar de como a cultura pode ser a única saída pra política.

[Michel Sleiman, tradutor dos poemas de Adonis, sobe ao palco para ler 3 deles. Adonis declama um de seus poemas em árabe para mostrar o aspecto da oralidade. Maalouf lê um trecho de sua obra em francês.]

Mediadora: Uma coisa que vocês dois tem em comum é a herança paterna. Maalouf, você disse que seu pai sabia de cor milhares de versos árabes.

Maalouf: Ele dizia que conhecia 100 mil versos. Ele e seus amigos tinham um jogo durante os saraus. Um deles recitava um verso, a outra pessoa tinha que recitar outro verso que começasse com a última letra do verso anterior.

Mediadora: Adonis, foi seu pai que o aproximou da literatura. Como isso acontecia num povoado da Síria?

Adonis: Conheci o pai do Maalouf no fim da década de 60, aprendi muito com ele. A poesia estava no jornal. Eu não tive a sorte de ir pra escola quando novo, só fui com 12 ou 13 anos. Mas meu pai me iniciou na poesia lendo o Corão. Mas quando tive oportunidade de frequentar uma escola, me mudou completamente.

Adonis: Eu tinha uma revolta interior contra tudo o que fosse passado, mesmo contra meu pai e sua cultura. E o que me abriu o caminho para continuar esta revolução foi a leitura da criação que foi marginalizada na tradição árabe, os poetas revolucionários, sobretudo os contra a religião. A cultura árabe se apóia na religião por um lado e na poesia por outro. E esses lados estão sempre em conflito. Por isso talvez que não haja um grande poeta na nossa tradição que tenha sido religioso. Comecei a ler essa poesia marginalizada e os grandes místicos, e talvez o misticismos seja a única revolução do mundo árabe. É muito mais antológico que a filosofia. Eles mudaram a noção de deus e identidade. Eu aprendi com o misticismo que a identidade não é algo pré-fabricado, é algo que você cria quando ceia sua obra. E conheci a noção de outro, uma dimensão constitutiva do eu. Mesmo se me dirijo a mim próprio, preciso passar pelo outro. Isso me possibilitou ver o que chamamos de ocidente por uma nova perspectiva. Percebi que não existe ocidente e oriente na produção, isso são conceitos políticos, não há diferença entre poetas de um hemisfério ou outro. Isso está além de qualquer política.

Maalouf: Concordo, não faço diferenciação em minhas influências ocidentais e orientais.

Adonis: Tenho duas coisas a dizer sobre Beirute: pra mim, a cidade é um projeto, é aberta para o futuro, nunca a vi como fechada e acabada como Damasco. É uma cidade de sonho. Outra coisa: o ocidente político tenta apagar Beirute, transformar em uma cidade monotônica, fechada, sem diversidade alguma. O ocidente político atual não entende nada de como funciona a cidade, e está escrava do óleo e da fabricação de armas. Nosso problema não tem a ver com religião, mas sim com o imperialismo americano.

Maalouf: A família de meu pai vivia num vilarejo próximo de Beirute. Minha avó um dia decidiu levar seus 6 filhos para morar em frente à universidade americana em Beirute, pois seu sonho era que todos estudassem e virassem professores lá. Eu cresci nesse ambiente, e achava que todas as pessoas se davam bem. Me desiludi quando descobri que o mundo não funciona assim, e que o país não era tão forte quanto imaginava. É como Adonis disse: Beirute é um projeto, um laboratório de coexistência.

Adonis: A Primavera Árabe foi a primeira vez que a juventude árabe não imitou o ocidente. Eu escrevi elogiando muito os jovens e principalmente as mulheres que participaram disso. Com o passar do tempo vimos que aqueles que começaram a Primavera foram botados de lado, e os extremistas que estão assumindo tudo. Pra mim não faz sentido uma revolução em que não haja separação da religião e do Estado, e a liberação da mulher.

Maalouf: O importante é manter o hábito de eleição que foi instituído, e jogar o jogo democrático. A luta será longa, mas há um aspecto positivo. Os intelectuais serão importantes para isso, não podemos parar nos problemas imediatos.

Adonis: Não podemos defender nenhum regime árabe. É preciso que todos mudem. E eu repito: se a mudança na Síria não for acompanhada de uma mudança da sociedade, se não houver uma separação da religião e do Estado, a mudança de regime não significará nada. É como substituir um fascista militar por um fascista religioso.

Maalouf: Penso que não só no mundo árabe, mas no geral, muitos dos problemas são culturais. A cultura não é um elemento suplementar. A salvação do mundo só pode vir a partir da cultura. Por isso é importante que se conheça a cultura dos outros, para que se possa coexistir.

Adonis: O problema não é mais político, é cultural. Sobretudo nas sociedades ditas do terceiro mundo. Se não questionarmos nossas religiões, tradições, tudo, não haverá uma grande literatura.

Maalouf: O romance questiona a realidade, e pra isso precisa de liberdade.

Horário de término: 18h34