ana cristina cesar

Perdeu a Flip? Ouça todas as mesas na íntegra

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Foto: Festa Literária Internacional de Paraty/Walter Craveiro

A Festa Literária Internacional de Paraty acabou no último domingo, dia 3 de julho. O Grupo Companhia das Letras marcou presença com vários autores em sua programação principal e paralela, incluindo a Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch e o norueguês Karl Ove Knausgård. Além, é claro, das mesas sobre Ana Cristina Cesar, grande homenageada desta edição.

Se você perdeu alguma mesa ou não pôde ir à Flip, confira neste post alguns trechos de cada encontro com nossos autores e também o áudio completo das mesas divulgados pela equipe da Flip.

Armando Freitas Filho

Autor de Rol, Armando Freitas Filho foi o grande amigo e confidente de Ana Cristina Cesar e organizador de sua obra. Na mesa “Em tecnicolor”, ele conversou com Walter Carvalho sobre sua poesia, a amizade com Ana C. e o filme Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície, que fala sobre sua obra.

“O poeta procura um modo novo de falar e dizer, pelo menos, o inesperado.” — Armando Freitas Filho

Áudio

Trecho da mesa

Ana Cristina Cesar

As poetas Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia, consideradas as herdeiras da poesia de Ana Cristina Cesar, falaram sobre a influência de Ana C. em suas obras.

“Um erro frequente da leitura da Ana Cristina é querer encontrar a autora ali naqueles versos. Você sempre vai fracassar.” – Laura Liuzzi

Áudio

Trecho da mesa

Misha Glenny

Lançando no Brasil O dono do morro, livro em que conta a história do traficante Nem da Rocinha, Misha Glenny esteve na mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos.

“Rocinha, sob o Nem, se tornou uma marca registrada. Todo mundo queria visitar a Rocinha porque era seguro.” — Misha Glenny

Áudio

Trecho da mesa

Álvaro Enrigue e Marcílio França Castro

Na mesa dedicada à literatura latino-americana, Marcílio França Castro e o mexicano Álvaro Enrigue falaram sobre seus livros, processo de escrita e influências. Marcílio acaba de lançar pela Companhia das Letras o livro Histórias naturaisO primeiro livro de Álvaro Enrigue publicado no Brasil, Morte súbita, também acaba de chegar às livrarias.

“Cada romance que se escreve tem uma forma única que não pode ser repetida.” — Álvaro Enrigue

Áudio

Trecho da mesa

Bill Clegg

Na mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo”, Bill Clegg falou com o escritor Irvine Welsh. Lançando no Brasil seu primeiro romance, Você já teve uma família?, Bill Clegg falou sobre o livro, sobre o trabalho como agente literário e também sobre seus livros anteriores, Retrato de um viciado quando jovemNoventa diassobre sua experiência com o crack e sua recuperação.

“Tenha baixas expectativas em termos de dinheiro. Se você realmente quiser ganhar dinheiro, trabalhe no banco ou algo assim.” — Bill Clegg

Áudio

Trecho da mesa: 

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

O Brasil pelos olhos de dois estudiosos estrangeiros: esse foi o tema da mesa “Breviário do Brasil”, com Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, sobre Clarice Lispector (quer será reeditada pela Companhia das Letras), e Kenneth Maxwell, autor de O império derrotado.

“Como intelectuais e como cidadãos, temos a responsabilidade de ver os erros do passado e de corrigi-los.” — Benjamin Moser

Áudio

Trecho da mesa

Valeria Luiselli

Lançando A história dos meus dentes no Brasil pela Alfaguara, a mexicana Valeria Luiselli falou na mesa “A história da minha morte” sobre o processo criativo do livro. Convidada por uma galeria de arte financiada por uma fábrica de sucos a escrever uma fição sobre a coleção da galeria, a autora contou com a ajuda dos próprios operários para criar a história do leiloeiro Gustavo “Estrada” Sánchez Sánchez. A mesa, dividida com João Paulo Cuenca, também falou sobre literatura latino-americana.

“Os livros que eu escrevo sempre funcionam como mapas, procurando unir pontos de uma constelação não antes vista.” — Valeria Luiselli

Áudio

Trecho da mesa

Karl Ove Knausgård

O escritor norueguês era um dos nomes mais aguardados da Flip. Lançando no Brasil o quarto livro da série Minha Luta, Uma temporada no escuroKnausgård conquistou os leitores brasileiros ao falar sobre a exposição de sua vida em seus livros, o início da carreira de escritor e a recepção do público e a reação de sua família após a publicação da série.

“O que você sacrifica não é o que é seu, são os outros. Quando você escreve sobre os outros é como se estivesse roubando algo deles.” — Karl Ove Knausgård

Áudio

Trecho da mesa

 Tati Bernardi

Em uma das mesas mais divertidas da Flip, Tati Bernardi falou sobre o livro Depois a louca sou eu, um relato cheio de humor sobre suas crises de ansiedade e pânico. Também esteve na mesa “Mixórdia de temáticas” o humorista português Ricardo Araújo Pereira, que falou com Tati sobre humor e literatura.

“Acho que virei um pouco um personagem de mim mesma. Tenho um superego cruel que fica torcendo muito pra eu me ferrar porque vai virar texto.” — Tati Bernardi

Áudio

Trecho da mesa

Benjamin Moser e Heloisa Buarque de Hollanda

Benjamin Moser aprofundou sua pesquisa na obra de Clarice Lispector, e Heloisa Buarque de Hollanda, além de amiga, também divulga a poesia de Ana Cristina Cesar. Na mesa “De Clarice a Ana C.” os autores discutiram as obras de duas das principais autoras brasileiras.

“Ana C. e Clarice tinham uma fé inabalável na linguagem como significação, uma aposta na linguagem.” — Heloisa Buarque de Hollanda

Áudio

Trecho da mesa

Svetlana Aleksiévitch

A mesa com a ganhadora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch foi uma das mais cheias da história da Flip, assim como a fila de autógrafos que se formou logo depois. Falando russo, a jornalista contou algumas histórias presentes em seus livros, Vozes de Tchernóbil A guerra não tem rosto de mulherressaltando a importância dos relatos feitos pelas pessoas comuns.

“A única saída para nós é o amor. O amor cura. Acredito que o mundo não vai ser salvo pelo homem racional.” — Svetlana Aleksiévitch

Áudio da mesa

Trecho da mesa

Vilma Arêas

A mesa de encerramento da Flip também foi dedicada a Ana C. Vilma Arêas conversou com Sérgio Alcides na mesa “Luvas de pelica”, dois ensaístas que fizeram um balanço crítico e afetivo sobre a presença de Ana Cristina Cesar no cenário literário atual do país.

“Não se deve ler um livro de poesia como um romance, um poema atrás do outro, como se houvesse um enredo. Não se trata disso. Leia um por semana. Leve um ano lendo um livro de poesia. Vale a pena.” — Vilma Arêas

Áudio

Livro de cabeceira

Arthur Japin, Helen Macdonald, J. P. Cuenca, Karl Ove Knausgård, Kate Tempest, Laura Liuzzi, Marcílio França Castro, Misha Glenny e Ricardo Araújo Pereira leem trechos de seus livros favoritos.

Áudio da mesa

Literatura e mulher: essa palavra de luxo

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Ana Cristina Cesar em 1976. Foto: Cecilia Leal

Em 1979, Ana Cristina Cesar publicou na revista Almanaque 10: cadernos de literatura e ensaio, editada pela Brasiliense, o texto “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”. No ensaio, a poeta carioca analisa livros de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, discutindo o que seria a “poesia feminina”, o lugar que a mulher ocupa no meio literário e qual a percepção de sua obra por críticos e leitores. O texto é publicado agora na nova edição de Crítica e tradução, volume que reúne textos críticos e ensaios de Ana Cristina Cesar sobre cinema, literatura e outros assuntos, além de suas grandes traduções, como a do conto Bliss, de Katherine Mansfield. Como diz Alice Sant’Anna no prefácio desta edição, Ana C. aponta como “a mulher ideal dos poemas, essa mulher antiquada, trata sempre do Belo, etéreo, sublime, com nobreza e uma boa dose de pudor”, enquanto em sua poesia “Ana trata justamente de desconstruir a perspectiva da mulher bem-comportada, elevada, perfeita”.

Leia a seguir um trecho de “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”.

* * *

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire
Isabel Câmara

I.
— Haverá uma poesia feminina distinta, em sua natureza, da poesia masculina? E no caso de existir essa poesia especial, dever-se-á procurar nela caracteres tais como uma sinceridade levada até o exibicionismo, uma sexualidade que nada mais é do que o desejo de se fazer amar pelos leitores? Poder-se-ia dizer que o homem é mais intelectual ou então se aprofunda mais? Será preciso ligar o sentido da experiência interior a um caráter essencialmente feminino? Poder-se-ia dizer que o apegamento ao real seja uma das características do homem em oposição à mulher?

II.
— Faça uma enquete tipo Globo Repórter. Saia à rua e pergunte aos pedestres: o que é poesia; o que é mulher; e mulher fazendo poesia, fala de quê. As respostas vão configurar o senso comum do poético e do feminino. Surgirão algumas imagens que se convencionou chamar da natureza e considerar belas. O cancioneiro popular. Perfume, pérola, flor, madrugada, mar, estrela, orvalho, pólen, coração. Tépido, macio, sensível. E em aparente contradição: inatingível, inefável, profundo. A velha contradição que os românticos não conseguiram resolver. Mulher é inatingível e sensual ao mesmo tempo. Carne e luz. Poesia também. O poético e o feminino se identificam.

Passemos agora para o campo erudito. Estou escrevendo a propósito de dois livros de mulheres famosas: Flor de poemas, de Cecília Meireles, e Miradouro e outros poemas, de Henriqueta Lisboa. Os dois da Nova Fronteira e, a julgar pelas edições, vendendo bem. São livros de escritoras consagradas; antologias com notas editoriais, prefácios de professores universitários, biografias, bibliografias. O prefácio a Cecília: “Poesia do sensível e do imaginário”. O prefácio a Henriqueta: “Do real ao inefável”.

O título dos prefácios já encaminha a leitura dessas poetisas: imagens estetizantes, puras, líquidas. Tudo aqui é limpo e tênue e etéreo. A dicção e os temas devem ser belos: ovelhas e nuvens. Falando ou de preferência se insinuando sobre o segredo das coisas ocultas. Intimidade, dom mágico, pudor, meios‑tons, surdina, véus, nuance. O ocluso, o velado, o inviolado. A tentativa de “apreensão da essência inapreensível” das coisas. A função tradicional da poesia (de mulher?): “elevação” além do real. Tons fumarentos. Nebulosidades. Reflexos crepusculares. Luz mortiça, penumbra. Belezas mansas, doçura. Formalmente, uma poesia sempre ortodoxa, que passou ao largo do modernismo. Um temário sempre erudito e fino. Cecília é considerada “a única figura universalizante do movimento modernista” ao afastar-se dos “vícios expressivos, do anedótico e do nacionalismo” que subsistiam em quase todos os poetas de então. Henriqueta insiste numa poesia metonímica, de interiorização, aprofundamento, abstração, em que a natureza aparece em flocos, resíduos, gotas de orvalho, voz de luar, chuva triste, espuma entre os dedos, pássaro esquivo, bolhas desvanescentes. Movimento: elidir o visível. Dissolver. Abstrair.

A apreciação erudita da poesia dessas duas mulheres se aproxima curiosamente do senso comum sobre o poético e o feminino. Ninguém pode ter dúvidas de que se trata de poesia, e de poesia de mulheres. Não quero ficar panfletária, mas não lhe parece que há uma certa identidade entre esse universo de apreensão do literário e o ideário tradicional ligado à mulher? O conjunto de imagens e tons obviamente poéticos, femininos portanto? Arrisco mais: não haveria por trás dessa concepção fluídica de poesia um sintomático calar de temas de mulher, ou de uma possível poesia moderna de mulher, violenta, briguenta, cafona onipotente, sei lá?

A crítica constituída se divide em relação às poetisas: uns veem na delicadeza e na nobreza de sua poesia algo de feminino; outros silenciam qualquer referência ao fato de que se trata de mulheres, como se falar nisso fosse irrelevante ante a realidade maior da Poesia. Seria possível superar essas atitudes críticas? Pensar na recepção da poesia consagrada de mulher como instância organizadora de um universo naturalmente feminino. Suave. O natural: onde as imagens estetizantes ecoam o senso comum do poético e do feminino.

* * *

O ensaio completo você encontra em Crítica e tradução, publicado pela Companhia das Letras, que já está nas livrarias.

Viagem em busca de Ana C. — 4º e último dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

3º Dia

* * *

Estou em casa, Ana, cheguei do Rio. Retornei da busca. Trouxe você comigo, mas confesso estar deprimida. De leve. Sai cedíssimo do albergue para a rodoviária. Acordei antes das cinco. Sabe aquele medo básico de perder a hora? Peguei o ônibus às 8h na rodoviária. A viagem até foi boa. Consegui vir metade do caminho sozinha com os dois bancos só para mim. Dormi umas 5h das 6h de viagem. O que também contribuiu para essa sensação de mudança brusca de paisagem. Como se eu tivesse atravessado uma porta: Rio de Janeiro — São Paulo. É de deprimir qualquer um. São Paulo é mais massacrante, nos levamos muito a sério e não temos a beleza da cidade a nosso favor.

Cheguei na rodoviária, peguei o metrô e, olha, foi um baita de um perrengue que não vem ao caso.

Estou em casa, o Jorge comigo. Fui buscá-lo na avó. Estamos na sala, ele recortando figuras do jornal.

Tive um sábado carioca delicioso com paradas para ler você, lá na Argumento li todinho o A teus pés, lembra? Hoje, no ônibus, li umas 50 páginas do Autobiografia de Alice. Estou adorando, te contei? É fascinante o ponto de vista, a distorção entre o que se lê e o que acontece, o texto e suas camadas de sentido. Muito bom, Ana, excelente recomendação.

Acabo de ver na minha estante um livro da Katherine Mansfield. Uma edição luxuosa, não sei se tem o “Bliss”, seria maravilhoso se tivesse e a tradução fosse a sua, mas não olhei ainda. Vou tentar ler rápido o livro da Gertrude, ele pede essa velocidade, acho. Agora, Ana, me dá licença que vou tentar voltar aqui pra minha realidade. Tem uma boa reportagem na Ilustríssima hoje, da Francesca Angiolillo, amiga do Armando. Ele me falou dela. O olho da matéria cita você:

Na esteira da reedição de Leminski, Ana Cristina Cesar e Waly Salomão, encontro literário de Paraty recebe ex-integrante do coletivo carioca que fazia teatro e música e ‘dizia poesia’ nos anos 1970. Autores, estudiosos e editores analisam como a geração que nasceu à margem do mercado editorial é agora assimilada por ele.

Vou tentar assimilar a vida por aqui, Ana, teu nome lá no jornal e diz que estamos todos a teus pés. Vou ler.

Um grande beijo, Mariana

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Viagem em busca de Ana C. — 3º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. Leia os textos já publicados:

1º Dia

2º Dia

* * *

26-07-2014

Hoje é sábado te escrevo do Leblon, de dentro do café da Livraria Argumento. Você frequentava livrarias, eu sei. Vi os marcadores guardados no seu acervo. Lembro-me de ter visto uns três marcadores, dois eram de livrarias. Uma delas em Buenos Aires, na Corrientes. Coleciono marcadores de livro.

Estou aqui olhando para o seu índice onomástico ao final de A teus pés. Gertrude Stein, Katherine Mansfield. Quem sabe aproveito sua recomendação e compro algum livro delas, são mulheres que ainda não li.

Tem um verso seu, no primeiro poema de A teus pés, que diz assim:

É domingo de manhã (não é útil às três da tarde).

Aqui, agora, é sábado, Ana, já te disse. E são duas da tarde.

Vim te buscar e, acredita Ana, que, sem querer, escolhi um albergue que fica na Rua Toneleros. Não foi de propósito, juro. Hoje é dia de passear — quinta e sexta fiquei concentrada nos seus papéis, lá no Instituto. Hoje sai do albergue e passei em frente ao 261 da Toneleros. O Armando me contou, Ana, que você dizia a ele não saber se o seu prédio, quer dizer, o dos seus pais, se pronunciaria Edifício “Líbera” ou “Libera”. Realmente não vi o acento, mas acho mais charmoso Líbera, não? Olhei pra cima quando cheguei em frente ao prédio. Você se jogou do sétimo.

Estou tomando chá no café Severino, dentro da Argumento, e você me diz:

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.

É o “Sete chaves”, lembra dele? Você é muito mentirosa, Ana, muito fingida e dissimulada. Sou um pouco assim também.

Continuo andando com o meu lindo guarda-chuva. E graças a você ainda não o perdi. Continue me protegendo e protegendo meu guarda-chuva, Ana?

Elisabeth Bishop é outra da sua lista.

Reli todo o A teus pés aqui no café. O Armando me disse que quando saiu a segunda edição você não estava nem aí, ele ficou feliz por você, pelo sucesso imediato que o livro alcançou, imagina como era raro uma edição esgotar assim. Mas você não estava bem. A angústia te consumia. Um livro é como um filho. Você o abandonou. O Armando se entristeceu.

Dei uma caneta bic pro Armando, na verdade uma mini-bic. Foi assim, ele foi fazer uma dedicatória pra mim, no último livro dele, que eu trazia comigo e chama-se Dever. Eu ofereci essa caneta aqui, com a qual estou escrevendo agora, uma lamy tinteiro, mas ele foi escrever e não se sentiu confortável. Então tirei outra caneta da minha bolsa, a tal da mini-bic preta. Ele ficou tão feliz, disse gostar especialmente de bic e que não tem dessas no Rio. Pior é que se bobear eu comprei essa em Paris. É porque adoro canetas e Paris, Ana.

Saí da livraria, mas trouxe a Gertrude Stein comigo. Você acredita que não tinha nenhum livro, nenhuma edição da Katherine Mansfield? Juro, mas prometo que vou dar um jeito de ler a sua tradução anotada do “Bliss”. Li em um dos seus papéis, lá do acervo, que a sua tese foi muito elogiada e levou aquele título de distinção, uma coisa assim. O Armando falou algo de você que foi muito importante ter ouvido. Você teve muito sucesso durante sua vida. Desde criança você se destacou na escola, na faculdade, no mestrado também, e ainda em outra língua. E você tinha muitas amigas e amigos e foi namoradeira. Tudo de bom! Sucesso é o que todo mundo quer. Outro dia meu filho me perguntou o que significava sucesso e tive dificuldade para explicar, como será que você definiria o sucesso? Eu tentei explicar do meu jeito, tentei pela via do reconhecimento, mas não sei se ficou muito abstrato, se não expliquei direito, sei lá. Percebi então que não gostaria que ele almejasse o sucesso. É algo difícil de obter, para poucos, acho, e quase sempre leva à frustração. Não com você. Você teve êxito, você conseguiu.

É difícil encontrar pessoas tão generosas como o Armando, por exemplo. Cada um está concentrado em seu próprio umbigo. Ele, sem me conhecer, me chamou pra casa dele, jantamos juntos, ele a Cris e eu. Foi ótimo, comemos salada, suflê e frango. De sobremesa, manga e doce de maçã cozida.

Não contei onde estou. Ainda no Leblon, mas agora no Jobi, um bar antigo do Rio, talvez você conheça. Eu gosto de beber, Ana, amo. Sou do tipo boêmia que vai de bar em bar. Sou boa de copo. É claro que fico bêbada de vez em quando, quer dizer, passo do ponto, acontece, mas não tenho, vamos dizer, não me importo tanto com a minha lucidez, quer dizer, tem horas que gosto de não estar perfeitamente no controle das minhas funções, se é que você me entende. É muita pressão, Ana. Viver não é relaxante. E já me conheço suficientemente para saber que sou uma pessoa tensa. Todo mundo diz que não parece mas sou. Como uma pessoa tensa, encontro mecanismos para me aliviar. Por enquanto tudo bem.

Estou sozinha aqui no bar, quer dizer, trouxe você e a Gertrude. Adoro ficar sozinha. É algo raro hoje em dia. Sim, sou deprimida, como todo mundo hoje em dia é (um pouco). Não teria coragem de me jogar. Falei pro Armando que sou uma pessoa corajosa, me vanglorio de ter ouvido isso do meu psiquiatra. Me dou o direito de repetir, mas você era mais corajosa do que eu, Ana, pulou dessa para melhor. Você faz falta, Ana, mesmo pra mim que não te conheci em vida. Apenas pela literatura posso te conhecer agora. É o que ficou e estou na aventura de te resgatar.

Quanto mais leio você, mais sinto sua falta. Não é assim com o Bolaño, ou com o Tchékhov, dois escritores que admiro demais. Eles também estão mortos, mas não sinto a falta presencial deles, não é engraçado? A sua falta é diferente, você se retirou de nós. Não vou descambar pra melancolia, você pra mim é vida, solar, óculos escuros, bicicleta, praia, pulsão, intensidade. O Armando disse que você acordava cedo. E sem ter te conhecido, aposto que você era uma pessoa divertida. Não o tempo todo, senão seria chata. Entendo que você não tenha suportado, é difícil mesmo, quem vai dizer o contrário? Talvez seja pior ainda para quem tem sucesso. Mas que você faz falta, faz…

Sou pisciana, sabe, aliás lá na sua papelada eu vi o seu mapa astral. Você acreditava nessas coisas? Não acredito não, em nada disso, sou agnóstica, mas acho divertido.

Vi uma mulher fumando um cigarro agora, peguei ela bem no momento de soltar as baforadas. Foi uma sequência engraçada do olhar dela, a fumaça, os trejeitos com a boca. Poesia, Ana, posso chamar assim? Se bem que não sei nem porque te pergunto. Você me parece tão livre, ou melhor, você é livre, Ana. E é o que quero pra mim também.

Hoje, aqui, estando à sua procura, tendo encontrado a sua poesia, sua prosa, me sinto livre, mas acho que a liberdade é como a felicidade. Completamente circunstancial. No Rio me sinto livre, em Paris também. Em São Paulo, onde vivo, trabalho e estudo, não. Mas eu tento, Ana, e tento não me frustrar com isso o tempo todo. Precisamos nos proteger dos serrotes, ó, tá aqui meu guarda-chuva.

Você gosta de confundir e brincar, explico. Uma das minhas ideias para o meu dia hoje era caminhar bastante, fui de Copacabana até o Leblon. Segundo, queria ir numa livraria e comprar algum livro de algum dos autores do seu índice onomástico. Combinei comigo mesma que escolheria um que não tivesse lido ainda, de preferência uma escritora. A edição de bolso que comprei da Gerturde por R$19,90 foi A autobiografia de Alice B. Toklas. Claro que já tinha ouvido falar dela e do livro. Não foi você, definitivamente, quem me convenceu, mas você deu um baita empurrãozão, afinal, muito do que lemos vai da circunstância também. Sei que comecei a ler aqui no Jobi, esse bar barulhento e apertado, só que o livro, mais do que tudo, me desconcertou. Nunca tinha parado pra pensar que, sendo uma “autobiografia” ele nunca poderia ter sido escrito por outra pessoa, que é o caso deste embuste! E já está dado no título. Entrei de cabeça no texto e me vi, deliciosamente, na cilada da Gertrude, mas pra mim, quem me pregou a peça foi você.

Já entendi que essa é sua brincadeira favorita, Ana, você adora uma invencionice, mistura vida e literatura o tempo todo. É o que pretendo pra minha vida também, mas de pretensão estamos cheias.

Saí do Jobi, vim pro Pavão Azul, o mesmo de ontem, eu teimo em chamá-lo de jacaré, um bar da Vila Madalena em São Paulo, mas que não frequento. Aqui me sinto em casa, no Jacaré não.

Reencontrei o Moreira hoje, Ana, meu garçom de ontem, a quem me afeiçoei. Não preciso saber nada do Moreira pra afirmar que ele é casado e safado, tudo ao mesmo tempo. Não é bonito mas ganha a mulherada com outros truques. Aposto que você era bem apaixonante e apaixonada. Qual seria o equivalente a “mulherengo” para quem é mulher? Eu me encaixaria também, gosto de sexo, quanto menos vinculado ao amor, melhor, por isso me separei. Você era cheia de segredos,  nem vem.

Uma pergunta, você gosta de prata? Será que quando você morava na Toneleros já existia essa loja, a Panna Joias? É passando o 261, loja grande, acho que tem ali, em Copa, na rua dos seus pais, e também em Ipanema, se não me engano. E é tudo de prata 925. Teve uma época que inventei o seguinte, sempre que viajasse, não importa o lugar, desde que correspondesse à ideia de viagem, eu teria como missão comprar um anel. Tipo recordação afetiva. Até hoje quando uso os anéis que comprei em Amsterdã, sempre alguém me pergunta, pegam na minha mão pra examinar, e querem saber de onde vem. Parei de usar os da minha viagem ao Egito. Comprei vários em Luxor e eles estão guardados, mas entrei nessa de só usar prata e eles não são de prata, acho que não, é outro material, ainda descubro.

Acho que não sou de ouro, pérola, muito menos de diamante. Sou de prata. E você, que joia seria?

Somos bem diferentes, mas é bom. Gosto bastante das diferenças, do desigual, do gauche. Gosto da incompreensão e de você, Ana, da incompletude, do vazio da noite e da escuridão.

Não te contei ainda do Pavão Azul, esse bar onde estou. Olhei pra minha direita e na parede vi um quadro. Sabe quando os donos enquadram uma matéria elogiosa sobre o lugar? Então, é exatamente isso que vou ler pra você:

<Título da matéria>: “Ela é o cara

<Olho>: “Mulheres assumem o comando de botecos redutos tradicionalmente masculinos

<Matéria>: “ O pavão azul é um exemplo. Vera Afonso assumiu o balcão quando se separou. Com o pai do fiho Serginho ela chamou a irmã Bete para dar uma força na empreitada. O resultado foi um fenômeno: na mão das duas, o bar virou referência na cidade ganhou cotação máximo no guia ‘Rio Botequim’ e se tornou tricampeão do prêmio ‘Rio Show de Gastronomia’.”

Situação engraçada, vou te contar. Sentei aqui no bar, estou sozinha. Uma mesa e duas cadeiras, uma com a minha bunda, outra com a minha bolsa. Estou sozinha, Ana, mas nem triste nem deprimida, te falo quando me sentir assim, pode ser? Vim te buscar, lembra? Só posso estar feliz pois, nessa altura, sabemos eu e você que eu te encontrei. E vou poder te levar comigo. Então retomo, repito, estou feliz, por estar aqui.

Fui o banheiro e voltei e você não sabe o que me aconteceu. Na vida, tudo acontece tão rápido, não é. Foi assim, estava tentando te contar que sentei nessa mesa e, bem de frente, mas do outro lado da calçada, de pé, tem um cara me paquerando. Eu estou dando bola, quer dizer, olho de vez em quando, porque ele me pareceu interessante. E afinal, Ana, quem é que hoje em dia sai sozinho para um lugar qualquer? Pouca gente, compreende?

Usei o “compreende” do Armando, ele fala muito compreende no final das frases. É bonito, sonoro, eu gosto. Encontrei esse mesmo “compreende” em um dos seus papéis, mas foi só uma vez. Tudo era Armando, o Armando era o tal? Nananina, Ana, o Armando é o tal. Ele cuida de você até hoje, com muita dedicação.

Pra encerrar, acho que vou ter que dizer com todas as letras pra você e pra ele, o Carlos, que depois de conversarmos um pouco descobri que ele não tem nada a ver comigo. Eu poderia dizer, amigo, vai, vai lá fazer algo que você acredite ser produtivo (ele usou esse termo na conversa). Vai lá. Comigo é só perdição, amor!

Vou fechar esse caderno, acabar aqui, com essa última linha… O problema sabe qual é? Se eu parar de escrever esse tal Carlos pode se achar no direito de ir e vir novamente. E, por mim, ele poderia ser ejetado do bar, mas não que eu queira ser agressiva, é jeito de falar, Ana.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Viagem em busca de Ana C. — 2º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi JaffeLeia a primeira parte já publicada.

* * *

Ana, hoje passei na sua rua, não na dos seus pais. Na casa da Gávea: Rua das Acácias, 141 casa 2, “Residenciais Leonor”. Tirei uma foto, achei tão bonito o lugar, a fachada azul e branca, mas a foto saiu bem tremida, ninguém vai enxergar claramente, de tão ruim que ficou. Tem uma ladeirona seguindo reto da calçada da sua casa, fizeram até uma escada, bem íngreme. Quantas vezes você subiu aqueles degraus, me pergunto. Não me animei em contar, muito menos em subir.

Mas não é de você que quero falar, muito menos da escada íngreme que sobe da Rua das Acácias até acabar e começar a montanha. Estou escrevendo sobre a sua obra. É por causa dela que estou aqui. Vim atrás de você, porque quero me apropriar da sua escrita. Colá-la em mim. Acho que você não tinha tatuagens, tinha? Eu tenho uma espiral no pé, chama-se koru e representa uma planta, uma espécie de samambaia comum na região onde vivem os povos Maoris, a Polinésia. Como é bonito esse nome: Polinésia. Quero te contar o sentido do koru no meu pé, significa algo como recomeço. E não quero explicar mais nada, pode ser?

Não escrevo tão bem quanto você. Tenho quarenta e dois anos, mas acho que nunca usei um vocabulário rebuscado como o seu, quer dizer, você demonstrava, exibia uma linguagem sofisticada, de quem se letrou muito cedo. Quem sabe, com algum esforço aos quarenta e dois eu consiga usar o mesmo vocabulário que você aos quinze!

Hoje comprei um guarda-chuva, Ana, é lindo. Verde água com serrotes desenhados como se caíssem do céu. O guarda-chuva me protege das serras. Você tinha e perdia seus guarda-chuvas, ou simplesmente escolhia não tê-los? Estou enrolando pra falar da sua obra e é de propósito.

Na verdade, é por que essa é a melhor parte desse meu trabalho em torno de você, quer dizer, aquilo que eu penso e sinto, quando leio você. Sabe quando ficamos guardando o que é bom para o final?

Pra você não ficar brava, vou dizer os dois poemas de que mais gosto e que acho os mais cheios de sentimento e entranha, resultado da combinação de cada uma das palavras:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

e

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios.

 

Posso acrescentar um terceiro?

 

Samba-canção

Tantos poemas que perdi.

Tantos que ouvi, de graça,

pelo telefone — taí,

eu fiz tudo pra você gostar,

fui mulher vulgar,

meia-bruxa, meia-fera,

risinho modernista

arranhado na garganta,

malandra, bicha,

bem viada, vândala,

talvez maquiavélica,

e um dia emburrei-me,

vali-me de mesuras

(era uma estratégia),

fiz comércio, avara,

embora um pouco burra,

porque inteligente me punha

logo rubra, ou ao contrário, cara

pálida que desconhece

o próprio cor-de-rosa,

e tantas fiz, talvez

querendo a glória, a outra

cena à luz de spots,

talvez apenas teu carinho,

Mas tantas, tantas fiz…

 

Ana, descobri o que você faz, finge a intimidade pela linguagem, mistura autobiografia, biografias alheias, correspondências para destinatários que não existem, como sua tia Nydia, ou como aquela amiga de infância, Gina, para quem você escreve uma carta e, ao que tudo parece, a tal Regina nunca existiu e é de quem você morre de saudade:

 

Gina,

Será que eu ainda tenho o direito de chamar você assim? Não sei por quê, de repente as recordações do passado começaram a borbulhar dentro de mim. Revi as nossas aventuras no colégio, as tuas idas lá em casa, quando brincávamos com bonecas de papel, simulando mil romances entre o Peter e a Joan; as minhas idas na tua casa, nossas brincadeiras, nossos votos de sempre, permanecermos crianças, Pedro do Rio, o Marcelino e seu rato, morto, a ameixeira Anne Shirley, o Viantarema, o Pentágono, tudo, tudo.

 

Tudo se mistura e resulta em ficção. Quando leio sua poesia, ou a prosa divertida e livre de tudo, ali tenho a certeza de que o processo era o mesmo, não importava o registro formal. Releio:

 

Senhor A

Hoje estou de bata, dando bênção com os olhos

Todo milionésimo de segundos sentidos.

Missionário da cozinha.

Minha mulher foi viajar.

Recebo em casa; velha cúmplice esquenta os pratos,

Sou homem rico,

Também choro.

Fumo com o marido no sofá de couro.

Meus olhos doam a este meu casal

De condenados o calor que posso,

O calor de um negócio travado a altas horas,

Garganta ardendo, Colubiasol a mão, ou então um tanto de chá

Um. Não escondo o uísque.

Também não temo mais meu pânico em flor, regado Regiamente.

Na sala ao lado não há mulheres

Falando de Miguelângelo.

Volto ao meu cachimo.

Não recebo em febre torpedos de perguntas,

Mas sim pedidos de adesão.

Devo impor justiça com um gesto da outra mão:

Alimentá-los. Um e outro jogam verde.

Sou mouco, um bispo,

Double-face de cara lisa,

Connoisseur de vícios.

Sirvo uma dobrada fumegante.

 

O que seria dar benção com os olhos. Poderia ser algo como assentir com o olhar. Noto a profundidade, a falta de conexão aparente, a interrupção. A diversidade toda na mistura de gêneros.

Ana, não me deixe esquecer meu guarda-chuva por aí. Já te falei que ele é lindo? Não é só a cor e os mini-serrotes, não. É o objeto em si. Ele segue um estilo bem clássico com grande cabo de madeira e a ponta também. Será o mais lindo e atual objeto eleito por mim para o dia de hoje. Lembrei-me de um poema teu, mas não consegui localizá-lo agora. É um que você fala da vida dos objetos, sabe qual é?

Costumo dizer ao meu filho, Jorge, que as miniaturas têm vida, ele tem cinco anos. É uma ideia que conforta e ajuda a não me sentir só. O Jorge fixou essa ideia e sempre pergunta: “mãe, isso aqui é uma miniatura?” Pena que eu não consiga reproduzir a entonação quando ele faz essa pergunta, Ana, é a entonação de quem pergunta mais de uma vez por dia, pela simples verificação, sabe? Para ele sou eu quem avalio o que tem ou não tem vida. Será que isso não é um tipo de poesia também? É um jogo entre vida e palavra, uma brincadeira. Quem sabe um dia isso o acabe ajudando a não se sentir tão sozinho?

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

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