ana cristina cesar

Semana trezentos

Diários da Presidência 1997-1998, de Fernando Henrique Cardoso
Os bastidores da emenda da reeleição, crises internacionais e pressões especulativas contra a moeda brasileira, indecisões de fundo quanto à política cambial, a morte de dois fiéis escudeiros, supostos “escândalos” e chantagens. Neste volume de seus diários (1997-1998), Fernando Henrique Cardoso registra alguns dos maiores desafios — tanto políticos quanto macroeconômicos — de seus anos no poder e transmite ao leitor a sensação palpável do áspero cotidiano presidencial. Em meio à tenaz batalha para a implementação de reformas modernizadoras, tendo por aliados setores arcaicos do país ante a impossibilidade de acordo com a esquerda tradicional, o então presidente encontra tempo para reflexões premonitórias sobre o jogo de forças da política brasileira. Leitura indispensável para a compreensão do país hoje.

A memória rota, de Arcadio Díaz-Quiñones (Tradução de Pedro Meira Monteiro)
Em 1993, Arcadio Diaz-Quinones, um dos maiores intelectuais de Porto Rico, publicou La memoria rota, livro de ensaios sobre a polarização do mundo durante a Guerra Fria e a situação porto-riquenha. Mais de duas décadas depois, chega ao Brasil esta edição que reúne reflexões sobre o Caribe e um extenso caderno de fotos. Antologia inédita, traduzida e selecionada pelo professor da Universidade de Princeton Pedro Meira Monteiro, A memória rota reflete sobre as relações entre literatura e história, o poder das palavras e da cultura nas ilhas caribenhas. Um trabalho profundo e contundente sobre a história de um lugar que, embora geográfica, política e culturalmente distinto, dialoga muito com a realidade brasileira.

Histórias Naturais, de Marcílio França Castro
Exibindo um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa, Marcílio França Castro se debruça sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana. Um dublê de mãos em filmes sobre escritores explora a relação entre o ritmo do dedilhado e o estilo de seus escritos. O assistente de um velho ator nota que este já não diferencia sua vida e as peças em que atuou. A partir de situações aparentemente corriqueiras, um mundo de extravagâncias absorve o leitor, fazendo-o desconfiar das armadilhas que construímos para nós mesmos e para os outros. Tudo isso sem que se perca de vista o prazer das melhores histórias.

A teus pés, de Ana Cristina Cesar
A teus pés é o primeiro e único livro de poemas que Ana Cristina Cesar lançou em vida por uma editora, em 1982. Além de material inédito, a obra reunia os três breves volumes que a autora havia publicado entre 1979 e 1980 em edições caseiras: Cenas de abril, Correspondência completa e Luvas de pelica. Desafiando o conceito de “literatura feminina” e dissolvendo as fronteiras entre prosa, poesia e ensaio, o eu lírico e o eu biográfico, Ana logo chamou a atenção de críticos como Heloisa Buarque de Hollanda e Silviano Santiago.

Caprichos & relaxos, de Paulo Leminski
Em 1983 Paulo Leminski lançava um livro que se tornaria best-seller na época e um clássico para as futuras gerações. Ali estavam os principais poemas que o curitibano tinha escrito até então, muitos inéditos e outros publicados em edições independentes ou na revista de arte e vanguarda Invenção, encabeçada pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari. Os pais da poesia concreta no Brasil haviam adotado aquele jovem poeta ilustrado, audacioso e contundente. No mesmo ano, a crítica Leyla Perrone-Moisés cunharia o célebre epíteto “samurai malandro”, reconhecendo no autor o pacto entre a precisão oriental e o jogo de cintura tipicamente tropical.

Me segura qu’eu vou dar um troço, de Waly Salomão
Em 1970, Waly Salomão esteve preso no Carandiru por portar, nas palavras do próprio poeta, “uma bagana de fumo”, e ali começou a escrever seu primeiro livro, Me segura qu’eu vou dar um troço, publicado dois anos mais tarde. Entre a prosa, a poesia e o ensaio, esta obra visceral e revolucionária se tornou determinante para o movimento de contracultura que floresceu no Brasil naquela década, tendo inspirado a apreciação crítica de leitores como Antonio Candido, Heloisa Buarque de Hollanda e Antonio Cicero. Incluído em Poesia total, este clássico contemporâneo capaz de nocautear o leitor por sua densidade e potência volta às livrarias em sua forma avulsa, com cronologia inédita do autor.

Suma de Letras

A guerra dos mundos, de H.G. Wells (Tradução de Thelma Médici Nóbrega)
Publicado pela primeira vez em 1898, A guerra dos mundos aterrorizou e divertiu muitas gerações de leitores. Esta edição especial contém as ilustrações originais criadas em 1906 por Henrique Alvim Corrêa, brasileiro radicado na Bélgica. Conta também com um prefácio escrito por Braulio Tavares, uma introdução de Brian Aldiss, membro da H. G. Wells Society, e uma entrevista com H. G. Wells e o famoso cineasta Orson Welles — responsável pelo sucesso radiofônico de A guerra dos mundos em 1938 —, que fazem desta a edição definitiva para fãs de Wells.

Paralela

52 mitos pop, de Pablo Miyazawa
O cenário pode variar: o recreio da escola, a mesa de um bar, o cafezinho do trabalho. Mas quem nunca se viu numa discussão sobre temas como “Han Solo atirou primeiro” (no “Episódio IV” de Guerra nas estrelas) ou “a máfia matou Bruce Lee” ou “Os Simpsons são capazes de prever o futuro”? Se esse tipo de conversa era comum no passado, a internet, esse terreno fértil para espalhar lendas urbanas, fez que ficasse cada vez mais frequente. Ele mesmo um habitué desse tipo de discussão, Pablo Miyazawa decidiu usar seus conhecimentos como um dos jornalistas de cultura pop mais respeitados do país para tentar separar o que é fato do que é ficção. O resultado é um livro divertido e fácil de ler, repleto de anedotas e histórias de bastidores. Informativo sem nunca ficar restrito somente aos fãs de cada tema. Indispensável para viciados em cultura pop (e não somos todos hoje em dia?) ou simplesmente para quem tem um fraco por teorias da conspiração da internet (de novo, todos nós).

Viagem em busca de Ana C. — 1º dia

Por Mariana Mendes

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“Viagem em busca de Ana C.” é um diário de bordo escrito durante quatro dias para um trabalho de pesquisa da disciplina de ensaio do curso de pós-graduação do Instituto de Ensino Superior do Vera Cruz, comandado pela escritora Noemi Jaffe. No dia em que Ana Cristina Cesar completaria 64 anos, publicamos aqui no blog a primeira parte deste diário. As outras três partes serão publicadas nas semanas seguintes, que marcam o lançamento de A teus péslivro originalmente publicado em 1982, e Crítica e tradução, que reúne os ensaios de Ana C.

* * *

1º dia, quinta-feira

Amanheci no Rio. Saí de São Paulo ontem, de ônibus leito, perto da meia-noite. Vim fazer uma pesquisa. Cheguei e foi como se estivesse contando com o momento certo de cair. Desci do ônibus, sentei à espera de algo, não sabia o quê. Era a queda. Fiquei ao lado do guichê de informações. Só criei coragem uns quinze minutos depois. Vou pra rua Toneleros, em Copacabana, número 171. Fui orientada a pegar o circular, “é sair e seguir à direita, logo ali”. Me estatelei já fora da rodoviária. Foi feio, basicamente machuquei o joelho, mas não me abalei. Ralei a palma da mão direita, examinei se me impediria de escrever ou digitar, mas não, foi só raspão em terreno árido, irregular, cheio de pedrinhas. Perrengue, Ana.

Ônibus circular para a Gávea, destino: Instituto Moreira Salles (IMS). Lá toquei seus papéis pela primeira vez. Sensação de estar diante de parte importante de seu corpo. O papel como matéria, a escrita como continuidade. Passei o dia olhando para tudo o que eu não entendia que era você e ao mesmo tempo eu sabia que era. Vim em busca de seus diários. Me animei a ter você (e seus escritos em forma de diário) como objeto de um trabalho de conclusão de disciplina da pós. Quando ainda estava em São Paulo, imaginei um caminho para o texto. O título e o primeiro parágrafo estavam prontos:

Ana Cristina Cesar, minha mãe e eu

Sou (1974) formada em letras assim como minha mãe (1949) e Ana Cristina Cesar (1952). Nós duas estudamos em São Paulo, na USP; ela no Rio, PUC-Rio. Ana foi professora, tradutora e escritora; minha mãe é professora, tradutora e escritora; e eu trabalho como editora na Companhia das Letras, mas penso que nasci para escrever.”

Note que eu já partia de uma premissa pessoal, particular. Depois do primeiro parágrafo viria uma conversa que tive com a minha mãe, que seria introduzida assim:

“Quando está em Florianópolis (SC), minha mãe mora numa casa que ela planejou e construiu em cima do morro de Sambaqui. O diálogo ocorreu lá, entre os livros dela.”

Eu gostava do texto, tinha uma pegada. Mas mudei radicalmente, escolhi outro sentido e vou seguir por aí. Lembra do seu Master of Arts, em Essex, na Inglaterra? Você viveu algo parecido, guardadas as proporções, claro. Você diz assim na introdução:

Pretendia escrever um ensaio geral sobre a tradução para o português do conto Bliss, de Katherine Mansfield, complementando-o com notas de pé de página, que abarcariam problemas específicos. Mas o processo se subverteu espontaneamente (ou se inverteu) e logo ficou evidente que as notas haviam absorvido toda a substância primordial do ensaio ‘a respeito da tradução’.

Ao ler seus diários, Ana, pensei nos meus. Tenho vários cadernos, guardados desde a época de escola, quando eu tinha uns dezesseis, dezessete anos. Faz um tempo que trabalho nesse material, quero transformar em arquivo eletrônico. É um bom exercício – ler, rever e transcrever da letra à mão para o computador. Nada do que escrevi neles se aproxima do que li nos teus, Ana, e fiquei pensando. Encontrei um ensaio de Maurice Blanchot, “O diário íntimo e a narrativa”. Os meus diários fazem eco à discussão dele sobre o gênero. Reconheço o que escrevo com, por exemplo, esse comentário:

O pacto que o diário assina é com o calendário. Escrever um diário íntimo é colocar-se momentaneamente sob a proteção dos dias comuns, colocar a escrita sob essa proteção, e é também proteger-se da escrita, submetendo-a a regularidade feliz que nos comprometemos a não ameaçar.

Ele continua, é um texto curto, mas muito bom e esclarecedor. Quando resolvi analisar seus diários sob essa ótica, percebi que eles não se encaixavam. Você faz da escrita do diário outra coisa, subverte o Blanchot, ele argumenta do ponto de vista teórico, crítico e formal. Não tem nada de errado no que ele escreve, pelo contrário, a maioria dos diários deve corresponder ao que ele diz, mas não os seus. Foi isso que me trouxe ao Rio.

Em Cenas de abril aparecem as primeiras inserções que simulam um diário formal. A escrita se caracteriza pela informalidade, mas parece cifrada. Dá ao leitor a impressão de que, sem conhecer minimamente sua biografia, o acesso a seu universo literário ficará intransponível. Mas logo na segunda entrada, ao lado da primeira, essa ideia se desfaz. Você faz o que quer dele (e com ele), você o transmuta e se utiliza dele esteticamente. É como te enxergo por trás da sua fala irônica afirmando o poder do diário sobre você, como se fosse um imperativo. Copio as duas entradas pra você se lembrar da brincadeira.

16 de junho

Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem. Ângela nega pelos olhos: a woman left lonely. Finda-se o dia. Vinde meninos, vinde a Jesus. A Bíblia e o Hinário no colinho. Meia branca. Órgão que papai tocava. A bênção final amém. Reviradíssima no beliche de solteiro. Mamãe veio cheirar e percebeu tudo. Mãe vê dentro dos olhos do coração mas estou cansada de ser homem. Ângela me dá trancos com os olhos pintados de lilás ou da outra cor sinistra da caixinha. Os peitos andam empedrados. Disfunções. Frio nos pés. Eu sou o caminho a verdade a vida. Lâmpada para meus pés é a tua palavra. E luz para o meu caminho. Posso ouvir a voz. Amém, mamãe.

18 de fevereiro

Me exercitei muito em escritos burocráticos, cartas de recomendação, anteprojetos, consultas. O irremovível trabalho da redação técnica. Somente a dicção nobre poderia a tais alturas consolar-me. Mas não o ritmo seco dos diários que me exigem!

Como leitora me senti provocada. O passo seguinte foi aceitar a provocação e ir atrás, ler mais, me aprofundar, me retirar de um estado anterior de conhecimento sobre você, sobre sua obra, para poder fazer a passagem. Procurei me deslocar, deixar para trás o que já tinha e ir ao teu encontro. A teus pés.

Leio algo dissimulado em seus diários, você tripudia em cima do gênero, é uma brincadeira feliz. Seu diário é máscara, fingimento, vale muito mais como ficção do que como diário. Você se forja em matéria literária. Assim te escolhi. Quero ser escritora, quero aprender o que você puder me ensinar.

Não é vontade de dissecar, ou simplesmente de entender o modo como você subverte a escrita cotidiana, superficial e a transforma em acaso, quer dizer, literatura. O ponto de partida é a vida, material biográfico, mas desde que ele possa ser fundido. É como penso que você pensava.

Encerro por aqui, Ana, esse nosso primeiro dia. Vou jantar na casa do Armando logo mais. Do Armando e da Cristina, a mulher dele. Você conhece ela, mas acho que eles ainda não eram casados. Não importa. Estou indo lá, adivinha pra quê? De novo estou pensando em te buscar. Te colar em mim.

* * * * *

Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Oito livros para você se preparar para a Flip 2016

A 14ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty acontece entre os dias 29 de junho e 3 de julho, e a programação principal do evento já foi anunciada. O grupo Companhia das Letras está preparando vários lançamentos de seus autores convidados, mas enquanto os novos livros não chegam, você pode conhecer as suas obras com os títulos já lançados aqui no Brasil. Para isso, fizemos esta lista com alguns livros para você ir se preparando para a Flip. Confira!

1. McMáfiade Misha Glenny

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Em junho, Misha Glenny lança O dono do morro, livro em que conta a história do traficante Nem e, por consequência, a história do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Mas abordando o crime em uma escala maior, o jornalista lançou no Brasil em 2008 o livro McMáfia, que aborda o crescimento exponencial do crime organizado em todo o planeta. Para este livro, Misha Glenny realizou três anos de pesquisas e investigações em todos os continentes para mapear a proliferação das redes criminosas mundo afora e apresenta dados estarrecedores sobre ações ilícitas que vão desde o tráfico de mulheres russas para Israel até os crimes eletrônicos perpetrados em países como o Brasil e a Nigéria, das rotas do narcotráfico ao contrabando de petróleo, diamantes ou caviar.

2. Retrato de um viciado quando jovem, de Bill Clegg

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Antes deste livro, Bill Clegg atuava no mercado editorial como agente literário. Sua estreia como autor, Retrato de um viciado quando jovem é um relato comovente — e assustador — de sua vida como usuário de crack, a história de um jovem profissional que abandona a carreira promissora em Nova York e mergulha no mundo de paranoia e desespero do vício. Escrito com uma sinceridade atordoante, que muitas vezes toma o ponto de vista externo do narrador, como se o distanciamento permitisse uma liberdade maior em descrições espantosas e comoventes, o livro acompanha a queda e a redenção final de alguém que se propôs a destruir tudo o que tem e ama. Retrato ganhou uma continuação com o lançamento de Noventa dias, relato da reabilitação do autor. Agora em junho, lançaremos seu primeiro romance, Você já teve uma família?.

3. Vozes de Tchernóbilde Svetlana Aleksiévitch

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Vencedora do Nobel de Literatura de 2015, Svetlana não tinha sua obra publicada no Brasil até abril deste ano, quando lançamos Vozes de Tchernóbil no aniversário de 30 anos da tragédia nuclear. Para este livro, Svetlana entrevistou centenas de pessoas que viveram o desastre, viúvas, bombeiros, cientistas, soldados convocados para conter a destruição causada pela radiação. E são as vozes destas pessoas que a jornalista usa para contar a história de Tchernóbil. Vozes não é um livro que apresenta uma ordem cronológica dos fatos ou que explique o que causou o acidente, mas sim um relato do que aquelas pessoas sofreram e ainda sofrem depois de serem atingidas de alguma forma pela tragédia. O próximo livro de Svetlana Aleksiévitch a ser lançado pela Companhia das Letras é A guerra não tem rosto de mulher, a história das mulheres soviéticas que lutaram na Segunda Guerra Mundial que estará nas livrarias até a Flip.

4. Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

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No México, uma jovem mãe de duas crianças pequenas tenta escrever um romance sobre sua juventude em Nova York e a obsessão que tem por um excêntrico e obscuro poeta mexicano, Gilberto Owen — que viveu na mesma cidade nos anos 1920. A presença quase fantasmagórica do poeta envolve a narradora com frequência. A vida familiar da jovem rui lentamente, assim como a de Owen ruía tantas décadas antes. E assim as vozes da narradora e do poeta se encontram numa história que aproxima suas vidas, apesar de estarem distantes no tempo. A inventiva estrutura de narração de Valeria Luiselli faz de Rostos na multidão, seu primeiro livro publicado no Brasil, um romance multifacetado e emocionante, fruto de uma das vozes mais surpreendentes da nova literatura latino-americana. Seu próximo livro a ser lançado pela Alfaguara é A história dos meus dentes, que chega às livrarias em junho.

5. Minha luta, de Karl Ove Knausgård

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Difícil indicar só um dos três volumes já lançados da série Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård. Dividido em seis livros (o quarto, Uma temporada no escuro, será lançado em junho), a série autobiográfica se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. Com A morte do pai, Knausgård inaugura o projeto, centrando a história nos dias da adolescência e nas memórias sobre a convivência conturbada com o pai. Em Um outro amor, o autor escreve sobre a relação com a segunda esposa, os filhos que começam a nascer e a rotina conflitante de pai e escritor. Já em A ilha da infância ele reconstrói as memórias da infância, os seus medos na época e reflete sobre como aquela criança e o homem que agora escreve são a mesma pessoa. Até o final da série, serão mais de 6 mil páginas que revelam os detalhes mais íntimos da vida do autor e de seus familiares com pleno domínio da atividade narrativa.

6. Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi

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Crises de pânico, de ansiedade, o medo de viajar de avião e os remédios que controlam tudo isso estão em Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi. Um livro que, segundo Otavio Frias Filho, “é como se a tampa da cabeça de Tati Bernardi fosse desatarraxada para que os fãs bisbilhotassem à vontade lá dentro”. No livro, Tati retrata com muito humor, no seu estilo escrachado e ágil, as primeiras crises, a mania de fazer listas e os seus medos, conseguindo falar de um tema delicado que é a ansiedade provocando gargalhadas ao mesmo tempo em que mantém um pacto de seriedade com o leitor.

7. Vento sul, de Vilma Arêas

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Vento sul reúne vinte contos (ou “ficções”, como quer a autora) de leitura fácil, sentido cristalino e efeito impactante. Eles estão organizados em quatro blocos: “Matrizes”, “Contracanto”, “Planos paralelos” e “Garoa, sai dos meus olhos” – este último citando um poema de Mário de Andrade. Neles se articulam histórias fundadoras, lembranças de personagens e vivências, vinhetas poéticas, aqui e ali uma quase parábola para falar de temas de abordagem difícil como a violência solapada que às vezes se pratica nas famílias. Em todas as histórias o leitor encontra a perda – e sua outra face: a persistência da memória.

8. Poética, de Ana Cristina Cesar

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Não podemos falar da Flip 2016 sem falar de Ana Cristina Cesar, autora homenageada desta edição. Publicado em 2013, Poética reúne todos os livros de uma das mais importantes representantes da poesia marginal. Fazem parte de Poética os livros Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés (que ganha nova edição pela coleção Poesia de Bolso agora em maio), Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: títulos fora de catálogo há décadas reunidos em um único volume e enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho, que participa da mesa de abertura da Flip e lança o livro Rol em julho pela Companhia das Letras. É leitura imprescindível para quem quer conhecer Ana C.

 

Conheça mais autores que estarão na Festa Literária Internacional de Paraty.

Ana Cristina Cesar será a próxima homenageada da Flip

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Os fãs de poesia podem comemorar: Ana Cristina Cesar será a próxima autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty. Uma das vozes mais proeminentes da poesia marginal dos anos 1970, sua obra influenciou diversos autores da atualidade, como Ana Martins Marques, Bruna Beber e Angélica Freitas. Paulo Werneck, curador da Flip, justificou a escolha dizendo que “a obra de Ana C. é densa, pulsante, e conquista leitores em todas as partes do mundo. A homenagem vai poder iluminar áreas menos conhecidas de sua obra e desfazer alguns lugares-comuns a respeito de sua vida”.

Ana C., que se suicidou aos 31 anos de idade, deixou aos leitores os livros Cenas de abrilCorrespondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos Antigos e soltos, todos reunidos no volume Poéticalançado em 2013 pela Companhia das Letras, que também inclui uma sessão com poemas inéditos.

Na época do lançamento, convidamos vários autores que são também leitores de Ana C. para prestar uma homenagem a poeta. Julia de Souza, autora de Covil, escreveu: “Eu não sabia muito bem explicar o meu fascínio pelos poemas da Ana, que se confundia um pouco com um fascínio pela sua vida. Pois há uma armadilha, agora percebo, que é essencial na obra dela. Ana nos envolve numa teia em sua escrita cheia de dêiticos: ‘eu’, ‘você’, ‘aqui’, ‘agora’, ‘este poema’. A um só passo, essas palavras têm o poder de deslocar infinitamente o poema para o momento presente; de implicar o leitor no poema, que tantas vezes é, aqui, invocado como interlocutor (‘É para você que escrevo, hipócrita’). E, last but not least, de criar a ilusão de uma escrita espontânea, confessional, em que os limites entre literatura e vida são porosos.”

Ana Martins Marques, que acaba de lançar O livro das semelhanças, também deu seu depoimento sobre a relação com a poesia de Ana C.: “Sempre saí da leitura dos poemas da Ana me perguntando menos sobre aquela que no texto diz ‘eu’ do que sobre aquele/aquela em que me via transformada pela força dessa interpelação. Aprendia aí alguma coisa sobre a poesia, alguma coisa que tem a ver com destinação, desejo e drama.”

A Flip 2016 vai acontecer entre 29 de junho e 3 de julho, na cidade de Paraty. Veja a seguir algumas leituras feitas em homenagem a Ana Cristina Cesar.

Homenagem a Ana C. – Por Marília Garcia

Por Marília Garcia

conheci a poesia de ana c. lá no parque lage, em 1998, em um curso de
pintura. conheci a poesia de ana c. em um fim de tarde de
sexta-feira quando alguém citou o poema dos dois quartos vazios
como epígrafe para uma tela, preciso voltar e olhar de novo.
aqueles dois quartos vazios da pintura
são hoje para mim um eco do poema de ana c.
conheci a poesia de ana c. várias outras vezes
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo,
refazer o caminho até as coisas.
_____________________dez anos depois, fiz o poema “a garota de belfast
ordena a teus pés alfabeticamente” para participar da antologia
a nossos pés, publicada nos 25 anos de sua morte, pelas editoras dantes e da casa.
o poema partiu de uma experiência bem material:
peguei todos os versos de a teus pés e os coloquei em ordem alfabética.
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez, de deslocar o
contexto de onde tinham saído esses versos e poder perceber
outras relações a partir dos próprios versos. ou de
confirmar certas relações a partir da repetição. ou de se
surpreender ao ver, por exemplo, que “atravessar”
se repete muitas vezes ou então que “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos. surpresa que se junta com a
curiosidade crescente ao pensar que é possível conhecer
os caminhos tomados pelo
pronome “eu” nos poemas de ana c.
ou pelo “você”.
___________a teus pés em ordem alfabética foi apenas uma brincadeira
para conhecer ana c. outra vez. a partir dele, cheguei
ao poema da antologia que ganha
agora, para esta homenagem, movimento, corpo, voz, quase uma carta
atravessando essas linhas invisíveis e os túneis da cidade.

* * * * *

Veja também o vídeo da autora em homenagem a Ana Cristina Cesar:

 

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Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (1979). É autora dos livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007) e Engano Geográfico (7letras, 2012). Atualmente, mora em São Paulo e trabalha com tradução.

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