ana cristina cesar

“All that jazz” – Homenagem a Ana C.

Por Julia de Souza
É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma.
– Paul Valéry

 

Quando eu tinha mais ou menos dezessete anos, numa visita a uma exposição sobre alguma vanguarda do século XX, em algum museu de algum lugar da Europa, lembro de ter lido, entre os escritos de algum artista, uma frase mais ou menos assim: “aquele que não consegue pensar em pelo menos duas coisas ao mesmo tempo não pode compreender o jazz”. Mas que cumplicidade juvenil eu senti com o autor de tal aforismo! Fazia todo o sentido e, na minha presunção adolescente, sorri em segredo pelo fato de cumprir tal requisito: sim, o pensamento (e mais: o meu pensamento) é fragmentário! Ele ocorre em camadas que se sobrepõem inadvertidamente!

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No início de agosto deste ano, a Sofia me convidou para fazer a preparação de Poética. Que sorte.

Eu já conhecia a obra Ana C. Ou melhor, tateava-a, um pouco acovardada. De tempos em tempos, detinha-me com mais zelo (e algum risco) em suas páginas. Mas nunca consegui sentir que me aproximava realmente de sua escrita tão fugidia, de sentidos movediços, em que algo sempre nos escapa.

Mas agosto ainda me reservava mais uma surpresa: o curso sobre literatura brasileira contemporânea ministrado neste semestre pelo meu orientador de mestrado Jaime Ginzburg traria, naquele mês, uma aula dedicada a Beijo na boca, de Cacaso e a A teus pés, de Ana Cristina Cesar. (Nunca pensei que o faria, mas digo: obrigada, agosto!).

Tive mesmo muita sorte. Porque logo depois de uma semana debruçada sobre a obra (quase) completa de Ana C. — como preparadora, muito atenta a cada vírgula, acento e quebra de linha, mas sem poder me dar ao luxo (e ao risco) de quem olha “muito tempo o corpo de um poema” — assisti a uma bela apreciação da poética da autora.

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(Mas aviso: ainda não sei se posso dizer que a entendo. Não sei bem que leitora de Ana C. eu sou – se sou Gil, se sou Mary. Se sou profissional.)

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Dêiticos são palavras sem referência fixa, cujo significado depende do contexto de enunciação e diz respeito ao momento da fala/escrita. Para o linguista Benveniste, a dêixis é a inserção do homem na língua, uma marca que evidencia a adesão do discurso à subjetividade.

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Eu não sabia muito bem explicar o meu fascínio pelos poemas da Ana, que se confundia um pouco com um fascínio pela sua vida. Pois há uma armadilha, agora percebo, que é essencial na obra dela. Ana nos envolve numa teia em sua escrita cheia de dêiticos: “eu”, “você”, “aqui”, “agora”, “este poema”. A um só passo, essas palavras têm o poder de deslocar infinitamente o poema para o momento presente; de implicar o leitor no poema, que tantas vezes é, aqui, invocado como interlocutor (“É para você que escrevo, hipócrita”). E, last but not least, de criar a ilusão de uma escrita espontânea, confessional, em que os limites entre literatura e vida são porosos.

Mas veja, trata-se, “meu filho”, de um artifício: “A intimidade era teatro”. Fala-se muito de ilusão de objetividade, da qual se nutriu a estética realista. Mas há, aqui, um jogo em que a quebra da distância realista cria outra ilusão, a ilusão de subjetividade, de uma escrita automática, espontânea. (“Meu pescoço está melhor, obrigada”). Pois em Ana C., como já percebeu Annita Costa Malufe, o subjetivismo atua como um procedimento de linguagem que instaura uma intimidade dessubjetivada: o sujeito aqui é um aberto. E esse é o risco ao ler sua obra. Que a gente esqueça, na sedução desses versos tão velozes, que na escrita de Ana C. há um alto grau de consciência da textualidade, e do caráter de construção da literatura (“Opto pelo olhar estetizante”). Nesse movimento ardiloso dos seus poemas, que ora se apresentam sob vestes tipicamente intimistas (a carta, o diário) e ora se denunciam como linguagem e jogo, Ana C. alça seu voo.

A palavra voo, aliás, insiste nos poemas, e me faz pensar em outro aspecto de sua escrita: a leveza. Seus textos, talvez justamente por tematizarem a volubilidade do desejo — que é sempre flutuante —, se inscrevem numa certa poética da conversação, incorporando, sempre de maneira difusa e elíptica, diversas vozes — que são muitas, mas indistintas. O poema de Ana C. tem “olhos de viva mosca”: vive/vê uma realidade pulverizada. Pensa/sente pelo menos duas coisas ao mesmo tempo. É jazz do coração.

 

P.S.: A edição original de seu livro Correspondência Completa, de 1979, traz na capa a silhueta de um avião em pleno voo. Penso nesse objeto. Um trambolho metálico que viaja, a toda, nas alturas; que encerra peso e leveza; e, como a escrita de Ana, traz em seu cerne a ambiguidade, que lhe é constitutiva.

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Veja Julia de Souza recitando “Este Livro”, de Ana Cristina Cesar:

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Julia de Souza é às vezes Ju S. Nasceu e vive como paulistana convicta. Mas seu primeiro livro, Covil, foi lançado (também em novembro) por uma editora carioca – a 7Letras. Faz mestrado na USP sobre uma narrativa de Hilda Hilst.

 

“10, 20, 31” – Homenagem a Ana C.

Por Mariano Marovatto

Não me aproximava muito de Ana porque achava que ela não era pro meu bico. “O mais alto e longínquo dos planetas”, como escreveu a portuguesa Joana Matos Frias. Aqui da Terra, todos sabem reconhecer o planeta Ana no céu, todos são adoradores do planeta Ana. Todos têm uma versão personalíssima de Ana, uma história intransferível, um testemunho. Alguns certamente reveladores, outros claramente equivocados. Todo poema de Ana é um poema de alguém entre todos. Ana é reproduzida por falsários e se torna péssima companhia. Ana é exposta pelos seus comparsas mais íntimos e se torna assustadora. Ana está em todos os lugares. Portanto, como me aproximar dessa onipresença transbordante sem me contaminar? Impossível. Se deixasse por minha conta, Ana ficaria em Colchester enquanto eu olharia os Dois Irmãos do Arpoador sem ela. Num dia chuvoso talvez, abriria o Luvas de pelica e a visitaria educadamente, da forma mais britânica, em Colchester. Mas Ana também estava no Arpoador. Com minha idade exata ela já havia mergulhado 10 vezes mais no Arpoador do que eu. Colocar os pés para fora de casa impunemente, jamais: Ana também é da Gávea, morou a 20 metros de mim, frequentou a mesma Faculdade de Letras da PUC com muito mais dedicação e conheceu todos os meus mestres e meus amigos 30 anos antes de mim. Colocava todos no bolso. Ana nunca perdeu um jogo, nunca errou de figurino e aprendeu a sorrir somente no momento preciso. Imbatível. Melhor seria nunca sair de casa.

30 anos depois e veio uma oportunidade única de desarmar Ana. Quinze dias, nem mais nem menos, para mergulhar em todos os seus papéis adormecidos, resgatar o que nunca foi lido, examinar como ela construiu os seus livros, selecionou os seus textos, reescreveu, datilografou, jogou fora os excessos e se tornou um planeta. Acesso irrestrito e silencioso. Um único ataque. Estratégia napoleônica. Ninguém poderia me deter. Cronometrado, entre gelados corredores metálicos, descobri Ana. Guardados em caixas brancas reluzentes, todos os seus cadernos adormecidos. Abri um a um. Conheci Ana criança, feroz, cínica, engraçadíssima, metódica, desenhista, orgulhosa de mostrar para seus pais e irmãos suas criações nos papéis. Ana aos 13, 14, 15 anos, debaixo do sol do sítio de Pedra Sonora destravando palavras novas, procurando assonâncias, golpes especiais, aprimorando de versão em versão seus poemas, selecionando, jogando fora. Ana aos 16, 17, entregando poemas para a professora de português na aula de redação, sempre premiada com nota 10. Sempre. Ana aos 18 anos entrando na PUC, desconversando sobre amores e literatura em trechos espalhados pelos cadernos. Anotei todos os movimentos de Ana ao longo do seu período de formação como se fosse um enxadrista. Mesmo assim, invasor e voyeur, sabia que a partida seria ganha por ela. Ana aos 20 e poucos anos: uma avalanche inescapável. Feroz como na infância, dona de seus próprios golpes como na adolescência e mestra como ninguém em prestidigitação. Até os 31 anos, minha mesma idade, nada subiu mais violentamente aos céus como Ana, o mais alto e mais longínquo dos planetas. Me rendi.

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Mariano Marovatto é compositor, poeta e foi responsável pelo estabelecimento do texto e pela pesquisa de inéditos de Poética, de Ana Cristina Cesar.

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Poética, de Ana Cristina Cesar, chega nas livrarias dia 25 de novembro. Encomende o seu exemplar na pré-venda da Livraria Cultura ou da Livraria da Travessa e receba a edição facsimilar de Correspondência completa.

O evento de lançamento acontecerá no dia 30 de novembro, no Instituto Moreira Salles – RJ:

16h – Exibição do filme Bruta aventura em versos (2011), 74 minutos, de Letícia Simões. Seguido de bate-papo com Letícia Simões e Bianca Comparato.

18h30 – Debate com Armando Freiras Filho, Flávio Lenz, Italo Morriconi, Laura Liuzzi, e Mariano Marovatto. Exibição de trechos do filme Ana C., de Claudia Maradei.

20h – Leitura de Correspondência completa, com Louri Santos e Simone Spoladore.

Local: Instituto Moreira Salles – Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea – Rio de Janeiro, RJ
(As senhas serão distribuídas 30 minutos antes de cada evento na recepção. Limite de duas senhas por pessoa. Sujeito à lotação.)

“Minha fantasma de ombreiras” – Homenagem a Ana C.

Por Natércia Pontes


Foi o Eduardo Verderame (alô, Edu!) a primeira pessoa a me falar da Ana C. Faz mais ou menos uns dez anos. O Edu gostava de ler meu blog e um dia ele me perguntou se eu conhecia a tal. Respondi que não. Aí ele comentou que meu texto lembrava o dela e que eu ia pirar. Pois que pirei.

Ele me emprestou o A teus pés. E lá fiquei. Lia e relia enfeitiçada. O jeito louco que ela metia as palavras: “Quererá ainda, querida?” As imagens e os olores: “Cheiro eterno de Proderm”. Os mistérios que ela soltava no ar: “As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios”. A maravilhosa mulher adernou meu barco. Daí pra frente, vesti os óculos escuros redondos e parti rumo ao mar escuro de Ana C.

Logo em seguida li os impressionantes e tão bonitos Cenas de abril, Correspondência completa e Luvas de pelica. Lembro que pelejei para achar o Inéditos e dispersos. Lembro também não ler outra coisa senão a misteriosa carioca de olhos de fada triste que classificou os gêneros da poesia como: “lírico, satírico, didático, épico, ligeiro”. Lia seus livros como se fossem edições alternativas do Minutos de Sabedoria.

Acho que passei um ano lendo só Ana C., praticamente. Lendo e copiando, na cara dura. Tinha até uma teoria para explicar a mão leve literária: uma vez uma sensitiva me disse que o espírito de uma mulher de ombreiras me acompanhava sempre e soprava palavras nos meus ouvidos quando eu escrevia. Decidi que era a Ana C. e pronto. Éramos até vizinhas (eu morava bem próximo a seu prédio na Tonelero, em Copacabana); podia ser tão somente uma facilidade geográfica, pensava. Só depois vi o tamanho da bobice e da petulância. Até parece.

Com o tempo, a obsessão dissipou de mansinho. Segui em meu barquinho variando o cardápio de leituras e acreditando em fantasmas de ombreiras. Sinto que nunca mais esbarrei em um poeta que me fisgasse com “garras afiadas, e pernalta”.

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A coletânea Poética chega nas livrarias dia 25 de novembro e já está em pré-venda. Ouça a leitura de “24 de maio de 1976”, de Ana Cristina Cesar, por Natércia:

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Natércia Pontes é cearense e autora de Copacabana dreams (Cosac Naify, 2012).

 

Ana Cristina Cesar

Há exatamente trinta anos, Ana Cristina Cesar se suicidou. Ela se jogou da janela do apartamento dos pais aos 31 anos, no Rio de Janeiro.

Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino — pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.

Em novembro a Companhia das Letras lançará Poética, que reúne Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, da obra de Ana Cristina, Armando Freitas Filho.

Para celebrar este acontecimento, convidamos diversas pessoas para prestar homenagem a Ana Cristina. Abaixo você lê a primeira delas, de Ana Martins Marques. Fique de olho nas nossas redes sociais para ver as próximas homenagens.

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Comecei a ler Ana Cristina Cesar na adolescência, naquele pequeno volume rosa (vermelho?) da editora Brasiliense que reunia três livros seus, com o título de A teus pés. Saí de cada leitura desse livro com a impressão de ter sido lançada em cheio numa intimidade estranha, que ao mesmo tempo me interpelava e me mantinha à distância. Como quem descobre por acaso as cartas de amor de um desconhecido. Ou chega sem ser convidado a uma festa e, em trânsito pela sala, capta o burburinho das conversas já começadas. Essa sensação era produzida sobretudo pelo flerte com a correspondência (o diário, o bilhete, o lembrete, a anotação pessoal), e pela força ambígua dos dêiticos quando usados fora de uma situação enunciativa particular: é para você que escrevo, você. Sempre saí da leitura dos poemas da Ana me perguntando menos sobre aquela que no texto diz ‘eu’ do que sobre aquele/aquela em que me via transformada pela força dessa interpelação. Aprendia aí alguma coisa sobre a poesia, alguma coisa que tem a ver com destinação, desejo e drama. Ou com cena, segredo e sereias. Ou com texto, tesão e teatro. Ou com corpo, conversa e corte. Foi ainda a essa solicitação ambígua que procurei responder, muitos anos depois, com um poema-carta que publiquei no meu primeiro livro, endereçado simultaneamente a ela e a você, sim, você:

Self safári (Carta para Ana C.)

Ciganas
passeando
com um rosto escolhido
por paisagens cegas de palavras
traduzidas
inconfessas
rabiscos
ao sol.

Cotidianas
vivendo dias de diários
e mentindo descaradamente
nos silêncios das cartas
(selos postais
unhas postiças
versos pós-tudo).

Fulanas
de nomes reversíveis
para ir e voltar
sem sair do lugar:
self safári
por essa paisagem toda
que no fundo

Ana
nada tem a ver conosco.

 

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Ana Martins Marques é poeta de Belo Horizonte, autora de A vida submarina (Editora Scriptum, 2009) e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011).

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