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Ana Maria Machado: livro infantil sem tatibitate

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Foto: Bruno Veiga

Ana Maria Machado ocupa a cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras. Autora de livros para o público infantil e juvenil, romances e ensaios, a escritora construiu uma carreira com números de peso e alcançou milhões de leitores no Brasil e no exterior. São mais de vinte milhões de exemplares vendidos, publicados em vinte idiomas e vinte e seis países. Em 2000, Ana Maria recebeu o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o mais importante para a literatura infantil e juvenil, pelo conjunto de sua obra infantil. Entre as inúmeras premiações, figuram o Iberoamericano SM de Literatura Infantojuvenil (2012), além de três Jabutis, o Machado de Assis, da ABL, o Casa de Las Americas e o Zaffari & Bourbon.

Carioca de Santa Teresa, iniciou a carreira literária ao lado de Ruth Rocha e Joel Rufino na revista Recreio, hoje uma referência da literatura infantil e juvenil, de onde despontaram nomes como os de Sylvia Orthof e Marina Colasanti. No Dia Nacional do Livro Infantil, convidamos a escritora para falar do início de sua carreira, da experiência de ser traduzida em diversos países do mundo e o impacto do Hans Christian Andersen em sua recepção. A autora também selecionou cinco títulos que passam agora a ser publicados pela Companhia das Letrinhas. Confira!

Você iniciou sua carreira como escritora na revista Recreio ao lado de nomes como Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Joel Rufino dos Santos e Marina Colasanti. Quais são a suas recordações sobre esse período? E por que essa iniciativa foi tão determinante para a literatura infantil e juvenil no Brasil nas décadas seguintes?

Na verdade, eu era professora universitária e jornalista quando iniciei a carreira na Recreio ao lado da socióloga Ruth e do historiador Joel, em números zero da revista, feitos em 1969. A revista começou a ser publicada em 1970. Marina e Sylvia vieram depois, numa segunda fase, com formato diferente, já por volta de 1976. A proposta que a editora Sonia Robatto nos apresentou era um desafio. Queria histórias de quem nunca houvesse escrito para crianças, e não apresentasse vícios de didatismo ou linguagem “nhenhenhém” nem “tatibitate”, como explicou. No mais, confiava em nós e nos deu muita liberdade. Só tínhamos os limites físicos: 15 páginas, cada uma com o máximo de 10 linhas com 45 toques. Fiquei fascinada com a possibilidade de criar textos curtos, buscando qualidade literária, em uma linguagem coloquial, familiar, oralizante, como a gente fala todo dia, mas com densidade de significado, possibilidades de explorar uma linha de poesia e humor. Eu dava aula de literatura e teoria literária numa universidade, fazia uma tese sobre Guimarães Rosa. Durante os tempos mais difíceis da ditadura, exilei-me em Paris e fui orientada por Roland Barthes. Tudo era sofisticadíssimo do ponto de vista intelectual e as histórias de Recreio me davam a chance de explorar outros registros de escrita, eram algo muito prazeroso e desafiante. Como a revista vendia cinco vezes acima da média quando as histórias eram minhas ou da Ruth, passamos a ser muito solicitadas. E eu tomei gosto pela brincadeira.

Em 2000, você recebeu o Hans Christian Andersen, o prêmio internacional mais importante para a literatura infantil e juvenil. Qual a repercussão do prêmio para a sua carreira? Premiações como essa ajudam a dar mais visibilidade aos escritores no Brasil?

A principal repercussão do prêmio foi internacional. Passei a ser procurada por editores de outros países que queriam me traduzir e publicar sem mesmo terem lido meus livros. Isso fez muita diferença. Mas não creio que tenha passado a ter mais visibilidade no Brasil, onde o prêmio Andersen não era muito conhecido, mas eu já era muito lida, ganhara alguns prêmios importantes (inclusive dois Jabutis) e tinha publicado vários títulos. Toda premiação sempre ajuda a chamar mais atenção sobre o premiado, é claro. Mas não creio que premiações desse tipo ajudem especialmente na visibilidade interna dos escritores no Brasil.

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Ana Maria Machado com Ruth Rocha.

Sua obra foi traduzida para diversos idiomas e chegou a ser vertida até mesmo para o chinês. Como seus livros são recebidos pelo público internacional, de uma maneira geral? É uma recepção muito diferente da do público brasileiro, ou não?

No caso do público chinês, já estou com dez títulos em mandarim, em muito pouco tempo, e as reedições se sucedem. Mas não faço ideia de como é a recepção lá. Nunca estive lá, não tenho recortes de críticas na mídia, nada disso. Mas o correio da China lançou dois selos com capas de livros meus. Então deve ser uma recepção boa. Nos países que já visitei, mesmo quando não falo a língua, posso ir a escolas e conversar com crianças por meio de intérpretes. E então posso constatar que existem, sim, diferenças de recepção, embora seja impossível generalizar. Mas noto, por exemplo, que no norte da Europa os leitores pré-adolescentes tendem a se surpreender quando um livro mistura elementos fantásticos com a realidade cotidiana — ou eles reagem achando que é impossível, ou aceitam, mas creem que é uma coisa que acontece de verdade em outro país. Estão mais acostumados a ler livros de gêneros nitidamente divididos: ou são de fantasia, ou tratam de problemas cotidianos. Estranham um pouco no começo, depois adoram e têm debates entusiasmados. Mas o que mais me surpreende não é que as reações variem de um país para outro. É como elas são parecidas. Uma vez, numa só viagem, por coincidência, eu fui de Angola à Suécia em encontros com leitores do mesmo livro. O incrível é que as perguntas e observações deles eram quase as mesmas numa aldeia quente e sem eletricidade em plena savana, muito ao norte de Luanda, e numa escola muito sofisticada tecnologicamente, cercada de neve, em Estocolmo. É comovente ver como os filhotes de seres humanos se parecem tanto em suas reações, vivendo em lugares tão diferentes.

Pode indicar cinco títulos de sua obra voltada para esse público publicada pela Companhia das Letrinhas e dizer brevemente o porquê de sua indicação?

Do outro lado tem segredos
É uma história sobre lembranças de minha infância e de um lugar onde passei grande parte de minha vida, na beira do mar, cheia de heranças africanas poderosas e muito importantes para minha vida afetiva.

A jararaca, a perereca e a tiririca
Um texto em que, para mim, a mágica da literatura está presente com sua pluralidade de sentidos. Parti de três palavras de som engraçado e parecido, e, de repente, me surpreendi discutindo a resistência à violência e formas de lutar contra a opressão. E muitos leitores leem como uma história sobre o meio ambiente.

 A maravilhosa ponte do meu irmão
A partir de uma história acontecida com meus filhos, uma celebração do poder da imaginação infantil num ambiente afetivo.

Enquanto o dia não chega
Um livro que me deu muito trabalho, fiquei quase três anos escrevendo e reescrevendo até chegar no ponto em que eu queria. Mas fiquei satisfeita com o resultado, é um livro de que gosto muito. Por um lado, uma novela juvenil de época. Por outro, uma insistência em alguns de meus temas constantes: celebração da liberdade, da amizade, da justiça, passada em Portugal, na África e no Brasil colonial, quando ainda estávamos em formação.

Ponto a ponto
Um texto em torno a têxteis e bordados, trabalho feminino, histórias tradicionais, literatura oral, memória passada de uma geração para outra.

Semana duzentos e oitenta

Como curar um fanático, Amós Oz (Tradução de Paulo Geiger)
O romancista Amós Oz cresceu na Jerusalém dividida pela guerra, testemunhando em primeira mão as consequências perniciosas do fanatismo. Em dois ensaios concisos e poderosos, o autor oferece uma visão única sobre a natureza do extremismo e propõe uma aproximação respeitosa e ponderada para solucionar o conflito entre Israel e Palestina. Ao final do livro há ainda uma contextualização ampla envolvendo a retirada de Israel da Faixa de Gaza, a morte de Yasser Arafat e a Guerra do Iraque. A brilhante clareza desses ensaios, ao lado do senso de humor único do autor para iluminar questões graves, confere novo fôlego a esse antigo debate. Oz argumenta que o conflito entre Israel e Palestina não é uma guerra entre religiões, culturas ou mesmo tradições, mas, acima de tudo, uma disputa por território  e ela não será resolvida com maior compreensão, apenas com um doloroso compromisso.

Ponto de fuga, Ana Maria Machado
Ponto de fuga, fruto da participação de Ana Maria Machado em eventos literários, reúne treze ensaios que mostram por que a escritora se tornou uma referência na literatura brasileira. No prefácio escrito especialmente para esta edição, a professora Marisa Lajolo, doutora em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo, destaca que “a autora acompanha algumas das vertentes mais sugestivas de estudos contemporâneos de leitura: lê-se hoje como se lia antigamente? Leem-se da mesma maneira diferentes tipos de livros? Qualquer leitura vale a pena? De passagem e perseguindo as questões, Ana Maria registra a multiplicação de situações de leitura em que homens e mulheres, crianças e adultos veem-se, hoje, inevitavelmente envolvidos”.

Objetiva

As irmãs Romanov, Helen Rappaport (Tradução de Cássio de Arantes Leite)
Ao longo dos anos, a história da brutal execução das quatro grã-duquesas Romanov turvou nossa impressão a respeito de quem elas realmente foram. Com frequência, são vistas como um belo mas insignificante detalhe na história dos pais, Nicolau e Alexandra, o último casal imperial da Rússia. A imagem que prevalece é a de que eram jovens adoráveis e donas de uma vida invejável, mas a verdade é bem diferente.

Outros Cantos, Maria Valéria Rezende
Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou a vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.

Seguinte

Coroa cruel, Victoria Aveyard (Tradução de Cristian Clemente)
Duas mulheres – uma vermelha e uma prateada contam sua história e revelam seus segredos. Em “Canção da rainha”, você terá acesso ao diário da nobre prateada Coriane Jacos, que se torna a primeira esposa do rei Tiberias VI e dá à luz o príncipe herdeiro, Cal  tudo isso enquanto luta para sobreviver em meio às intrigas da corte. Já em “Cicatrizes de aço”, você terá uma visão de dentro da Guarda Escarlate a partir da perspectiva de Diana Farley, uma das líderes da rebelião vermelha, que tenta expandir o movimento para Norta – e acaba encontrando Mare Barrow pelo caminho. O livro traz, ainda, um mapa de Norta e um trecho exclusivo de Espada de vidro, o segundo volume da série A Rainha Vermelha que chega às livrarias em fevereiro.

Semana duzentos e setenta e um

A resistência, de Julián Fuks
O leitor se descobre de partida imerso numa memória pessoal que se revela também social e política. Do drama de um país, a Argentina a partir do golpe de 1976, desenvolve-se a história de uma família, num retrato denso e emocionante. Adotado por um casal de intelectuais que logo iriam buscar o exílio no Brasil, o menino cresce, ganha irmãos, e as relações familiares se tornam complexas. Cabe então ao irmão mais novo o exame desse passado e, mais importante, a reescritura do próprio enredo familiar. Um livro em que emoção e inteligência andam de mãos dadas, tocando o coração e a cabeça dos leitores.

Lugar nenhum – Militares e civis na ocultação dos documentos da ditadura, Lucas Figueiredo
Entre os incontáveis mistérios que cercam o período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-85), a ocultação dos arquivos secretos da repressão é um dos mais controversos. Desde a volta da democracia, em 1985, sucessivas tentativas de abrir os arquivos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foram feitas pelo Ministério Público e pela Justiça. Mas a resposta dos militares era sempre a mesma: foram destruídos e não há vestígio deles em nenhum setor das Forças Armadas. Nesta brilhante reportagem investigativa que inaugura a coleção Arquivos da Repressão no Brasil, Lucas Figueiredo mostra que não é bem assim. O jornalista teve acesso a um conjunto de microfilmes do Cenimar – o temido Centro de Informações da Marinha. O material foi examinado por peritos da Biblioteca Nacional, que atestaram sua autenticidade, e analisado por historiadores renomados, que foram unânimes quanto a sua importância. Os documentos não deixam dúvida: os militares sempre souberam mais do que revelaram. Desde o início, tinham registros precisos sobre o destino de presos políticos tidos como “desaparecidos”, mas na realidade mortos pela repressão. Ainda existem registros desconhecidos sobre o período? Por que os militares insistem em ocultar seus arquivos, mesmo passados trinta anos do fim do regime ditatorial? Por que, de Sarney a Dilma, nenhum presidente civil do pós-ditadura obrigou a Marinha, a Aeronáutica e o Exército a abrir seus arquivos secretos? O que esse impasse diz sobre o poder das Forças Armadas e a democracia no Brasil de hoje?

O frango ensopado da minha mãe – Crônicas de comida, Nina Horta
O frango ensopado da minha mãe faz uma nova reunião de textos inéditos em livro – também originalmente publicados na Folha de S.Paulo -, selecionados com a colaboração de Rita Lobo, discípula confessa de Nina Horta. Eles consolidam a presença da autora não apenas como referência na bibliografia gastronômica, o que já seria muito, mas também como lídima continuadora do melhor da tradição da crônica literária brasileira. Os textos de Nina pretendem falar sobre comida, mas falam de vida. De uma vida simples, rica em experiências e repetições que levam à sabedoria – do jeito que ela prefere a culinária: sem esnobaria e afetação. Família, amigos, cozinheiros, livros, filmes, lugares, nomes de pratos, modismos gastronômicos, dietas e cuidados alimentares contemporâneos – tudo serve para mobilizar a escrita afetuosa em tom de troca de receitas, a glosa sagaz de quem conhece muita coisa e as escolhas de quem chegou à plena liberdade. Como essa, por exemplo: “Deixem em paz o porco, esse poema”. Uma sábia, essa Nina Horta.

Alfaguara

Um mapa todo seu, Ana Maria Machado
Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Paralela

Gigantes, Pedro Henrique Neschling
Tudo começa numa festa de formatura de ensino médio. Cinco amigos comemoram juntos o tão aguardado fim da vida escolar. Apesar de bem diferentes entre si, têm algo em comum: enxergam o futuro como um mar de possibilidades a ser descoberto e explorado. Sonham em ser gigantes, tão grandes quanto suas ambições. Mas para nenhum deles o futuro será conforme o previsto. À medida que os anos passam, os jovens deparam com as complexidades trazidas pelo chamado da vida adulta. Desilusões amorosas, questões familiares, conflitos na carreira, dúvidas e mais dúvidas… É inevitável: ao chegar perto dos trinta, todos nos tornamos um pouco mais desencantados e – por que não? – sábios. Mas e os sonhos da juventude, onde vão parar?

Suma de Letras

Revival, Stephen King (Tradução de Michel Teixeira)
Em uma cidadezinha na Nova Inglaterra, mais de meio século atrás, uma sombra recai sobre um menino que brinca com seus soldadinhos de plástico no quintal. Jamie Morton olha para o alto e vê a figura impressionante do novo pastor. O reverendo Charles Jacobs, junto com a bela esposa e o filho, chegam para reacender a fé local. Homens e meninos, mulheres e garotas, todos ficam encantados pela família perfeita e os sermões contagiantes. Jamie e o reverendo passam a compartilhar um elo ainda mais forte, baseado em uma obsessão secreta. Até que uma desgraça atinge Jacobs e o faz ser banido da cidade. Décadas depois, Jamie carrega seus próprios demônios. Integrante de uma banda que vive na estrada, ele leva uma vida nômade no mais puro estilo sexo, drogas e rock and roll, fugindo da própria tragédia familiar. Agora, com trinta e poucos anos, viciado em heroína, perdido, desesperado, Jamie reencontra  o antigo pastor. O elo que os unia se transforma em um pacto que assustaria até o diabo, com sérias consequências para os dois, e Jamie percebe que “reviver” pode adquirir vários significados.

Objetiva

As mentiras que as mulheres contam, Luis Fernando Veríssimo
Tudo começa com a mãe, com o “Olha o aviãozinho!” à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que vai se desdobrando em outras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social. Na coletânea de crônicas As mentiras que as mulheres contamaparecem, por exemplo, a senhora que tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente a idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

Seguinte

Felizes para sempre, Kiera Cass (Tradução de Sandra Suy)
Esta coletânea traz os contos A rainha, O príncipe, O guarda e A favorita ilustrados e com introduções de Kiera Cass. Conheça o príncipe Maxon antes de ele se apaixonar por America, e a rainha Amberly antes de ser escolhida por Clarkson. Veja a Seleção através dos olhos de um guarda que perdeu seu primeiro amor e de uma Selecionada que se apaixonou pelo garoto errado. Você encontrará, ainda, cenas inéditas da série narradas pelos pontos de vista de Celeste e Lucy, um texto contando o que aconteceu com as outras Selecionadas depois do fim da competição e um trecho exclusivo de A sereia, o novo romance de Kiera Cass. Este é um livro essencial para os fãs de A Seleção, que poderão mergulhar mais nesse universo tão apaixonante.

Não estar no mapa

Por Ana Maria Machado

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Sempre fui fascinada por mapas. Na escola, adorava aulas de geografia, com o caderno de cartografia e os fantásticos mapas-mudos, nos quais vinha impresso o contorno de um continente, país ou estado. Nele os alunos deveriam localizar e desenhar os rios ou as montanhas, capitais, baías e cabos, confrontando com o que nos mostrava o atlas, consultado a cada detalhe, até sabermos dispensar essa consulta e sermos capazes de, na hora da prova, distinguir o São Francisco do Tocantins, ou algo no gênero. Era uma delícia completar cada desenho conforme pedido e, ao final, raspar de leve com a gilete a ponta do lápis de cor, espalhando depois o colorido com um chumaço de algodão, o que ajudava a delimitar cada lugar e reduzia a paisagem terrestre a uma ordenação que fazia sentido.

Na adolescência, adorava livros que traziam mapas ou giravam em torno deles — de A Ilha do Tesouro a fantasias utópicas em terras inexistentes ou policiais que incluíam a planta do castelo onde se guardavam caminhos a explorar e mistérios a descobrir.

Meu avô materno era engenheiro. Construiu a Estrada de Ferro Vitória-Minas, por territórios desconhecidos. Eu adorava as histórias que ele contava sobre esse tempo, e de como aos poucos se ia estabelecendo a ferrovia, dando origem às estações e criando um novo mapa que só então iria para o papel, a partir das medições rigorosas que acompanhavam o trabalho. Quando eu tinha uns dez anos e o avô estava demarcando ruas para um novo bairro — segundo uma planta que existia no projeto antes de ser uma realidade — era um dia de festa quando ele me deixava ir junto acompanhar agrimensores, às voltas com teodolitos. Não é de admirar que, na hora do vestibular, minha primeira escolha tenha sido Geografia, curso que posteriormente abandonei para estudar Letras. Em qualquer viagem de carro, mapa na mão, sempre me orgulhei de ser excelente navegadora, a nos orientar e descobrir estradinhas e desvios.

Já adulta e mãe de família, durante a ditadura militar, quando fui para o exílio e morei em Londres, tive um livrinho precioso como companheiro inseparável, o A to Z, que distribuía por suas páginas plantas da cidade inteira, e que, mais tarde, descobri ter sido criado e desenvolvido por uma mulher, andarilha incansável e autora do cuidadoso levantamento urbano que serviu de base a esse trabalho modelar.  Os britânicos, aliás, foram cartógrafos exemplares e, desde a década de 1840, podiam se orgulhar de ter feito os levantamentos topográficos que permitiram mapear de modo confiável e completo todo o território da Inglaterra e do País de Gales, nos mapas OS ou Ordnance Survey, num trabalho minucioso e admirável.

Pois foi justamente na língua inglesa que encontrei, há anos, uma palavra que me pareceu muito atraente: mapless. A tradução é simples: sem mapa. Mas o que ela exprime, em sua concisão, vai muito além de desnorteado, sem rumo ou no mato sem cachorro. Para mim, é como se trouxesse um desafio implícito: o de se orientar para tentar encontrar saídas, explorar passagens, abrir caminhos e, em seguida, apontá-los a quem vier depois.

De certo modo, meu encontro com Joaquim Nabuco passou por algo desse mecanismo. Eu já lera Minha formação, mas ao mergulhar em Um Estadista do Império, percebi como havia no Segundo Reinado um esforço consciente para dar à nação certo ordenamento — num código civil, por exemplo. Em O abolicionismo e todo o restante de sua obra de ensaísta e jornalista, é comovente ver como Nabuco busca ir fundo em sua análise, não apenas na certeza de que a escravidão é inadmissível e trazia males duradouros e estruturais ao país, mas também se relacionava a outras questões centrais como a posse da terra, o federalismo, as relações entre Igreja e Estado. Ser abolicionista, de certo modo, implicava fazer novos mapas sociais que permitissem percorrer novos territórios.

Ao resolver escrever sobre Eufrásia Teixeira Leite e o tumultuado amor entre ela e Nabuco, encontrei algo inesperado: um novo território a mapear. Agora, o da situação da mulher na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Devido a circunstâncias pessoais e raras, ela de repente se viu jovem, órfã, mais informada que a média feminina e sem ter de depender de ninguém economicamente, ainda que sujeita a todo tipo de pressão afetiva, moral, familiar e social. Não tinha modelos prévios de comportamento nem mapa algum que pudesse orientá-la nesse terreno inexplorado e movediço.  Mas intuía a beleza e a enormidade do desafio. O jeito era partir para sua própria cartografia e criar Um mapa todo seu, título que se impôs ao romance em que evoco os dois namorados.

Entre idas e vindas, avanços e recuos, indecisões e coragem, de certo modo esse homem e essa mulher que não estavam no mapa retratam bem o seu tempo, uma época de barreiras aparentemente intransponíveis, onde souberam encontrar frestas e se esgueirar por suas brechas. Nesse percurso, cada um dos dois, a seu modo e em seu território, foi um rebelde disposto a enfrentar o desconhecido e acabou deixando para todos nós um registro do início de sua caminhada: um singelo mapa todo seu.

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ummapaUM MAPA TODO SEU
Sinopse: Um mapa todo seu reconta a história de amor de Eufrásia Teixeira Leite, uma mulher à frente de seu tempo e uma das primeiras grandes investidoras e empresárias do país; e o jornalista, político e diplomata Joaquim Nabuco, figura essencial no processo de abolição da escravatura no Brasil. Eufrásia e Nabuco não estão retratados apenas por meio de documentos históricos, mas aparecem em suas vidas íntimas, recriadas com vivacidade e precisão. São pessoas que aos poucos constroem suas jornadas de amores e frustrações. Ao mesclar ficção com fatos reais, a narrativa se desloca por territórios como a liberdade dos escravos e a autonomia feminina, e se torna o panorama de um momento crucial da história do país.

Um mapa todo seu chega às livrarias em outubro.

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Ana Maria Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. É escritora e tradutora. Escreveu mais de cem livros para crianças, publicados em dezessete países, e também obras para adultos, como Aos quatro ventos (1993), A audácia dessa mulher (1999), publicados pela Alfaguara, e Silenciosa algazarra (2011) e Romântico, sedutor e anarquista (2014), publicados pela Companhia das Letras. Em outubro, lança pela Alfaguara seu novo romance, Um mapa todo seu. 

 

 

13 livros infantis que podem agradar os adultos também

Hoje, dia 2 de abril, é o Dia Internacional do Livro Infantil. Não há literatura mais importante para encantar desde cedo as crianças e trazê-las para o mundo da leitura. Mas só porque o livro é voltado para o público infantil não quer dizer que nós, adultos, não podemos lê-lo. Pensando nisso, organizamos uma lista com livros que vão divertir tanto as crianças como os seus pais, irmãos mais velhos, tios e até avós. Confira!

1) A princesa que escolhia, de Ana Maria Machado (Ilustrações de Mariana Massarani)

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A princesa que escolhia conta a história de uma princesa muito bem comportada, que vivia em um lindo castelo. Mas certo dia, ao dizer “não” para seu pai, o rei, ela sofre as consequências por conta de sua insolência. Ele, que sempre se considerou um grande mandachuva, fica inconformado com a atitude da filha e resolve deixá-la de castigo na torre do palácio por discordar de sua opinião. Mas a princesa não se abala, e enquanto está de castigo lê livros e faz amizades pela internet, aprendendo muitas coisas e ajudando a cidade. Nesta divertida fábula contemporânea, as peripécias da princesa de Ana Maria Machado comovem e fazem refletir sobre a importância de adquirir conhecimento e poder fazer as próprias escolhas.

2) O príncipe que bocejava, de Ana Maria Machado (Ilustrações de Taline Schubach)

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O príncipe dessa história se preparou toda a vida para ser rei. Ele se tornou um jovem bem educado, com boas maneiras, inteligente e bonito, e a família decide que é hora de encontrar uma noiva para o príncipe. Porém, assim que começa a conversar com a primeira das moças, algo muito desagradável acontece: um belo e grande bocejo sai de sua boca. E toda vez que ele se aproxima de uma princesa, um sono enorme o domina. Entediado pela insistência da família em arranjar uma esposa, o príncipe resolve dar um basta na situação e fazer as coisas do seu jeito. Decide viajar mundo afora e conhecer novas pessoas. Afinal, do que adiantaria tudo o que ele aprendeu se ele não pusesse em prática?

3) A gente é monstro!, de Alan Snow

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“A gente é monstro!” é o primeiro livro da série As Crônicas de Ponterrato, e foi adaptado para o cinema na animação Os Boxtrolls. Tem alguma coisa estranha acontecendo embaixo das ruas de Ponterrato. As tampas de bueiro foram lacradas, impedindo Arthur de voltar para casa. As mais diversas espécies de subterráqueos também estão em apuros, pois parece que os caixatrolls, grupo que deveria cuidar dos encanamentos, estão deixando a água inundar a rede de túneis da Subterra. Tudo isso por causa de um tal de Ladravão, que está armando um tremendo golpe para alcançar o poder. Cabe a Arthur a tarefa de salvar a pátria. Com a ajuda de Vainumar Mordisco (Conselheiro Real aposentado), de um bando de caixatrolls, alguns cabeças-de-repolho, da tripulação do navio-lavanderia-pirata, e de Marjorie, a inventora frustrada, o garoto vai ter de enfrentar poucas e boas para se livrar do enrosco armado por Ladravão e sua trupe truculenta.

4) Joões e Marias, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (Ilustrações de Laurent Cardon)

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A história de João e Maria é uma só. Mas em Joões e Marias são quatro. Ou 1.024, dependendo dos caminhos que você escolher. Ler este livro é mais ou menos como fazer um bolo. E ele pode ser de chocolate, banana, sorvete ou… brócolis. Toda criança já sonhou com a famosa casa de doces e guloseimas do clássico conto infantil de João e Maria. Mas e se ela fosse feita de legumes? Ou de frutas? Ou, quem sabe, de picolés? Neste livro, você encontrará muitos outros modos de contar essa história. Há versões para todos os gostos, e cada uma tem um sabor especial.

5) O piloto e o Pequeno Príncipe, de Peter Sís

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Mundialmente conhecido como o autor de O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry foi piloto de profissão. Ele nasceu na França, em 1900, justamente na época em que foram inventados os aviões, e foi uma das primeiras pessoas no mundo a entregar correspondências via aérea. Nesta biografia escrita e ilustrada por Peter Sís, você vai descobrir como Antoine ajudou a criar novas rotas para lugares distantes, os acidentes que sofreu e as suas reflexões enquanto estava nos céus – que depois o inspiraram a escrever sobre suas experiências -, além de muitas outras histórias dessa figura tão apaixonante.

6) Contos de Grimm para todas as idades, de Philip Pullman

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Se tem um livro que precisava estar nesta lista é o Contos de Grimm para todas as idades. Nele, Philip Pullman recria seus contos de fadas favoritos, adicionando detalhes e fazendo versões muito mais divertidas. Ao longo dos 53 contos reunidos na coletânea, belos príncipes e princesas, velhas feiticeiras, madrastas cruéis e animais falantes transitam entre o estranho e o absurdo. Estão presentes clássicos como Branca de Neve, Cinderela, João e Maria e Chapeuzinho Vermelho, e histórias menos conhecidas, mas não menos surpreendentes, como O junípero, Rumpelstiltskin e Hans Meu Ouriço.

7) Menino Drummond, de Carlos Drummond de Andrade (Ilustrações de Angela-Lago)

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A infância, assim como a memória, o amor e a família, sempre fez parte dos versos de Carlos Drummond de Andrade. Sensíveis, engraçados e irônicos, os poemas reunidos neste livro – ilustrados por Angela-Lago – mostram as diferentes faces do grande autor mineiro. São versos em que Drummond relembra seus tempos de menino, fala do cotidiano, sai em busca do amor e procura entender o vasto mundo à sua volta. Tudo com a sensibilidade e o encantamento de uma voz que há diversas gerações cativa leitores de todas as idades.

8) Branca de Neve e as sete versões, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta (Ilustrações de Bruna Assis Brasil)

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E se Branca de Neve se ela casasse com o caçador? Ou se o espelho mágico mentisse para a Madrasta? Clássicos não deixam de ser clássicos, mesmo quando ganham um final diferente. Em Branca de Neve e as Sete Versões, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta resolveram modificar o rumo da história, e o leitor irá se deparar com sete diferentes desfechos para a heroína de pele alva.

9) Bárbarode Renato Moriconi

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Era uma vez um bravo guerreiro que montou em seu lindo cavalo e saiu em uma perigosíssima jornada. Ele lutou contra serpentes e gigantes de um olho só, sobreviveu a flechadas, enfrentou leões monstruosos e plantas carnívoras, até que… Ué, ele de repente parou no meio do caminho e começou a chorar! Para saber o motivo da tristeza repentina do nobre cavaleiro, você terá de chegar ao final desta história criativa e divertida contada apenas com ilustrações.

10) Quem soltou o pum?de Blandina Franco (Ilustrações de José Carlos Lollo)

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A história é simples, mas a sacada é das boas: imagine um cachorrinho de estimação que se chama Pum! Daí dá para tirar diversos trocadilhos, criando frases e situações realmente hilárias. É um tal de não conseguir segurar o Pum, que é barulhento e atrapalha os adultos, que dizem que o Pum molhado, em dia de chuva, fica mais fedido ainda, o que faz o menino passar muita vergonha. Pobre Pum. E pobre dono do Pum!

11) O único e verdadeiro Rei do Bosque, de Iban Barrenetxea

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Em um lindo bosque de bétulas, os irmãos Jaska, Kaspar e Másia vivem tranquilamente em uma minúscula casa de madeira. Na primeira manhã de inverno, porém, uma série de acontecimentos mudará completamente suas vidas. Isso porque Másia quer porque quer um cachecol de pele de lobo – e ninguém melhor que seus irmãos para caçar no bosque. Jaska, alto e tonto, e Kaspar, baixinho e medroso, acabarão cruzando com um lobo bem diferente, conhecerão um tal de rei Primus I e sua guarda real e assistirão à chegada da primeira neve depois de uma festa pra lá de animada. Mas tudo só vai realmente se transformar quando eles descobrirem quem é o verdadeiro – e único – rei do bosque.

12) Píppi Meialongade Astrid Lindgren (Ilustrações de Michael Chesworth)

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Astrid Lindgren escreveu Píppi Meialonga em 1945, como presente para os dez anos de sua filha. Píppi é uma menina de nove anos incrivelmente forte. Não tem pai nem mãe e mora sozinha, mas feliz da vida. Seus companheiros são um cavalo e um macaquinho. Ela mesma faz suas roupas – bem esquisitas – e sua comida – biscoitos, panquecas e sanduíches. Píppi tem sempre uma resposta na ponta da língua e demonstra grande confiança em si mesma. Nada convencional, causa espanto e confusão por onde passa, seja na escola, no circo ou na casa de seus vizinhos. É, enfim, uma menina que realiza sonhos de liberdade e aventura.

13) 1 drible, 2 dribles, 3 dribles – Manual do pequeno craque cidadão, de Marcelo Rubens Paiva (Ilustrações de Jimmy Leroy)

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Joca era o maior craque da sua cidade, o rei da pelada na praia, o grande armador do time. Mas, quando seu pai é promovido e tem de mudar de cidade com a família, o menino perde seu posto. Para reconquistar a fama, ele vai passar por muitos desafios. E se os leitores, como o Joca, acham que já sabem tudo de futebol, que arrasam nos números e nas curiosidades sobre o esporte, vão precisar dar uma olhada na segunda parte do livro. Será que eles sabem como nasceu o futebol, como ele chegou ao Brasil, quais as principais jogadas, dribles e chutes, as gírias mais comuns, a ética do torcedor e do jogador, e a história de todas as Copas do Mundo?

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