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Os melhores livros de 2015

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Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

12 livros premiados em 2015

O final do ano é o momento de lembrar as melhores leituras e, claro, premiar os melhores lançamentos dos últimos meses. Em 2015, o Grupo Companhia das Letras teve vários autores consagrados com diversos prêmios nacionais e internacionais. Confira a seguir a lista de livros premiados em 2015!

Quarenta dias

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“Quarenta dias no deserto, quarenta anos.” É o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de Quarenta dias, romance magistral de Maria Valéria Rezende. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar a Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ela narra seu mergulho gradual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procura de um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Ex-freira, Maria Valéria Rezende sempre se dedicou à educação popular, e em 2015 ganhou com Quarenta dias o Prêmio Jabuti de livro do ano.

A noite do meu bem

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Depois de reconstituir o mundo da bossa nova no já clássico Chega de Saudade, Ruy Castro mergulhou no universo do samba-canção e das boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60 em A noite do meu bemSeu novo livro mostra o nascimento de uma nova boemia do Rio de Janeiro, que saía dos cassinos (após a proibição dos jogos de azar em 1946) e migrava para as boates de Copacabana. Cantores, artistas, dançarinas, barmen e mais profissionais que perderam com o fechamento dos cassinos encontraram nas boates um novo lar, e aí nasceu uma nova cena musical que marcou a cena artística brasileira: o samba-canção. Os grandes nomes do gênero estão em A noite do meu bem, que foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor livro na categoria ensaio/teoria e crítica literária/reportagem.

Mil rosas roubadas

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Autobiografia e ficção se misturam neste romance de Silviano Santiago. No ano de 1952, dois rapazes se encontram em Belo Horizonte à espera do mesmo bonde. O acaso os transforma em amigos íntimos. Passam-se sessenta anos. Numa tarde de 2010, Zeca, então produtor cultural de renome, agoniza no leito do hospital. Ao observá-lo, o professor aposentado de História do Brasil entende que não perde apenas o companheiro de vida, mas seu possível biógrafo. Compete-lhe inverter os papéis e escrever a trajetória do amigo inseparável. Publicado em 2014, Mil rosas roubadas ganhou o primeiro lugar do Prêmio Oceanos (antes conhecido como Portugal Telecom).

Por escrito

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O Prêmio Oceanos teve uma dobradinha da Companhia das Letras. Silviano Santiago ficou com o primeiro, já Elvira Vigna com o segundo lugar pelo livro Por escritoEsta é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas e de muitos erros.

O tronco e os ramos

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Quais as relações entre o pensamento de Freud e o de seus sucessores? Responder a essa pergunta significa escrever uma história da psicanálise, tarefa que pressupõe o domínio dos conceitos da disciplina e o conhecimento de sua cronologia. Eis o desafio a que Renato Mezan tem se dedicado ao longo de mais de trinta anos, e é o que vemos em O tronco e os ramos. No livro, o autor analisa não só textos fundamentais de Freud e cartas trocadas por ele com Ferenczi, Abraham, Jung, Fliess, mas também desdobramentos do tronco freudiano, autores centrais como Winnicott, Melanie Klein, Bion e Lacan — todos apreendidos junto de vasta bibliografia. O tronco e os ramos ganhou o Prêmio Jabuti na categoria psicologia, psicanálise e comportamento.

Antes e depois

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Antes e depois – Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, de Flávio de Souza, ganhou o Prêmio APCA de melhor livro infantil/juvenil. D. Pedro II, Luiz Gama, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Monteiro Lobato, Mário de Andrade e Maria Lenk são os sete personagens deste livro que mostra qual foi o dia mais importante na vida de cada um e por que esse momento acabou mudando a vida de todos nós.

Turismo para cegos

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A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação. Turismo para cegos é o primeiro romance de Tércia Montenegro, e venceu o Prêmio Biblioteca Nacional na categoria romance.

Entre o mundo e eu

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Prêmios internacionais também entram na nossa lista! O National Book Award de 2015 foi para Entre o mundo e eu, de Ta-Nehisi Coates, lançado no Brasil pela Editora Objetiva. Coates é um jornalista americano que trabalha com a questão racial desde que escolheu sua profissão. Filho de militantes do movimento negro, ele sempre se questionou sobre o lugar que é relegado ao negro na sociedade. Em 2014, quando o racismo voltou a ser debatido com força nos Estados Unidos, Coates escreveu uma carta ao filho adolescente e compartilha, por meio de uma série de experiências reveladoras, seu despertar para a verdade em relação a seu lugar no mundo e uma série de questionamentos sobre o que é ser negro na América.

Vida e destino

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A tradução de Irineu Franco Perpetuo para Vida e destino, de Vassili Grossman, foi escolhida a melhor do ano no Prêmio JabutiVida e destino é um épico moderno e uma análise profunda das forças que mergulharam o mundo na Segunda Guerra Mundial. Vassili Grossman, que esteve no campo de batalha e acompanhou os soldados russos em Stalingrado, compôs uma obra com a dimensão de Tolstói e de Dostoiévski, tocando, ao mesmo tempo, num dos momentos cruciais do século XX.

O livro das semelhanças

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Um dos grandes destaques da poesia em 2015 foi Ana Martins Marques, que ganhou o Prêmio APCA com O livro das semelhanças. Dividido em quatro seções (“Livro”, “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e “O livro das semelhanças”), esta obra desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira. Do amor à percepção de que há um espaço — geográfico, quase — para o lugar-comum, do entendimento da precariedade do nosso tempo no mundo à graça (mineira, matreira) proporcionada pela memória: eis uma poeta que nos fala diretamente.

Jeito de matar lagartas

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Quase seis anos após a publicação de Cine privê, Antonio Carlos Viana, um dos melhores contistas brasileiros da atualidade, lançou Jeito de matar lagartas, também premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria contos/crônicas. Ao narrar histórias do cotidiano aparentemente banais, como uma brincadeira de criança, a venda de um imóvel ou o reencontro de um jovem estudante com a antiga professora, o autor toca em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão.

Luís Carlos Prestes

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Para encerrar, o Jabuti de biografia foi para Luís Carlos Prestes, de Daniel Aarão Reis. Brilhante estrategista militar, comandante da lendária marcha guerrilheira que leva seu nome, alto dirigente comunista e ideólogo da esquerda durante várias décadas, Luís Carlos Prestes é de um protagonismo inquestionável na história política do Brasil entre os anos 1920 e 1980. Amparado em documentos e depoimentos de primeira mão, muitos deles inéditos, Daniel Aarão Reis — professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e respeitado historiador das esquerdas brasileiras — faz uma ambiciosa investigação sobre o homem por trás do mito do “Cavaleiro da Esperança”.

Sobre uma poeta que só conhece o mar pelo rumor que faz um livro

Por Victor da Rosa

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Este livro recente de Ana Martins Marques, O livro das semelhanças, entre outras coisas, poderia ser comparado a um espelho, ou melhor, devemos ler seus poemas como se estivéssemos em uma sala de espelhos, sempre desconfiando das suas pistas e mesmo das imagens que eles nos indicam — e que tanto nos surpreendem. Além disso, o livro também se parece com ele próprio, embora não possamos ter certeza se o livro a que o título se refere é realmente este que temos em mãos… Em suma, toda semelhança é também uma forma de armadilha, já que toda armadilha, por sua vez, deve se parecer com algo diferente daquilo que manifesta, para lembrar do livro anterior da poeta, Da arte das armadilhas.

Conforme escreveu Michel Foucault em As palavras e as coisas, obra que poderia ser considerada o grande tratado do século XX sobre o assunto, uma semelhança é o que há de “mais manifesto e mais oculto na linguagem”. Quer dizer, uma semelhança precisa ser assinalada na linguagem, criando vínculos entre a palavra e o mundo, tornando o mundo assim inteligível, mas a mesma semelhança não será jamais transparente, e sim um ziguezague indefinido e um pouco secreto, ou então um “biombo”, já citando uma das primeiras peças do livro da poeta, “Capa”: “Um biombo/ entre o mundo/ e o livro”. Enfim, semelhança é tudo aquilo que permanece instável entre duas regiões, não justamente nas palavras ou nas coisas, e sim entre elas. O poema anuncia que as palavras e as coisas — o livro e o mundo — vão se separar.

Antes ainda de “Capa”, o livro de Ana Martins se inicia com o poema “Ideias para um livro”, que ao todo são seis, entre as quais “Uma antologia de poemas escritos/ por personagens de romance”, sendo a sua última ideia, aí sim, a do livro que temos em mãos: “Este livro/ de poemas”. Mas qual? O procedimento do poema mais uma vez é ambíguo, evasivo: além de ser um modo de anunciar o próprio livro, é também de retardá-lo, ainda mais por se tratar de uma espécie de anti-poema, e esse efeito de retardamento é confirmado com a série de poemas “Livro”, que vem na sequência e lembram a melhor poesia de Joan Brossa — a rigor, aliás, é como se o livro começasse só na última parte, intitulada “O livro de semelhanças”. De resto, quanto à maneira como “Ideias para um livro” termina, de modo abrupto, seco talvez, lançando mão, embora de um jeito meio venenoso, de um recurso que os pré-modernistas chamavam de “chave de ouro”, enfim, a poeta na verdade esconde muito mais do que diz.

Uma das consequências de leitura sugerida por esse modo um pouco evasivo de composição é que, como escreve Foucault a respeito da pintura de Velásquez, o livro de Ana Martins nos lança em “uma rede complexa de incertezas”. Não se trata de incertezas apenas sobre o fazer literário, tão recorrentes nos poemas metalinguísticos, mas também sobre o amor e, como queira, sobre o mundo, ou seja, as coisas, os objetos, as praias, os percursos dos mapas, os lugares-comuns. Na poesia de Ana Martins, em todo caso, todos esses saberes se parecem: são costurados por pequenos fios — firmes, frágeis. Mais do que isso, o livro nasce e se completa somente para que possa se desfazer depois, seja enquanto poeira ou luz, como na imagem sugerida em “Poema de trás pra frente”, o último de todo o livro: “acendo um poema em outro poema/ como quem acende um cigarro no outro/ que vestígio deixamos/ do que não fizemos? (…)”.

É óbvio até que a poesia de Ana Martins, desde o primeiro livro, A vida submarina, testemunha sobre um mundo que não existe fora do poema, e por isso seus textos são repletos de pontos cegos, recomeços, soluções às vezes enigmáticas de tão abruptas, movimentos em torno deles próprios, e por isso também a poeta (por meio, por exemplo, dos títulos) nos lembra a todo momento que estamos lendo poemas: “Primeiro poema”, “Segundo poema”, “Boa ideia para um poema”, “Não sei fazer poemas sobre gatos” etc. O mundo da poesia de Ana Martins é como se fosse dobrado sobre si mesmo, conforme a imagem de um mapa sendo fechado, que a poeta sugere no último poema da série “Cartografias”. Por isso é que, ao tratar da vida, Ana Martins se refere a uma vida submarina. É como se os poemas estancassem as palavras.

Por fim, O livro das semelhanças é também semelhante aos dois livros anteriores da poeta. Afinal, Ana Martins se dedica a um percurso circular, além de traçado lentamente, seja por meio da investigação sobre a aparência das coisas, à maneira de Francis Ponge; de uma tentativa de juntar os cacos da poesia lírica; ou de interrogações sobre a natureza do encontro, ou do tempo. Por outro lado, neste livro, é possível notar uma poeta que, além de experimentar recursos novos — e é notável perceber como já domina a técnica do enjambement, associada aos versos mais longos, outra novidade nos poemas da autora, que sempre tiveram uma métrica tão alinhada —, também parece ainda mais à vontade em seus textos, dona de uma ironia sempre sutil, só que agora mais franca também. Enfim, seguimos acompanhando os passos dessa poeta singular, mesmo que seja para encontrá-la “na esquina das nossas ruas/ que não se cruzam”. Afinal, parafraseando outro de seus poemas, todas as palavras deste livro, mesmo que elas não sejam, parecem escritas para você.

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13989_gO LIVRO DAS SEMELHANÇAS
Sinopse: Esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa — sempre temerária, mas também desafiadora — de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém, a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático — e de igualmente fascinante.

Evento de lançamento:

Belo Horizonte — Sábado, 29 de agosto, às 11h, na Livraria e Editora Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).

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Victor da Rosa é crítico literário e doutor em literatura.

Semana duzento e sessenta e três

blog

O livro das semelhanças, Ana Martins Marques
Esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa — sempre temerária, mas também desafiadora — de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático — e de igualmente fascinante. Dividido em quatro seções (“Livro”, “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e “O livro das semelhanças”), esta obra desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira.

Quadrinhos na Cia.

Mate minha mãe, Jules Feiffer (tradução de Érico Assis)
Somando-se a uma carreira lendária que inclui um Pulitzer, um Oscar, um Obie e outras homenagens da National Cartoonist Society e do Writers Guild of America, Jules Feiffer apresenta agora sua primeira graphic novelMate minha mãe é uma vibrante celebração do cinema noir e dos quadrinhos que embalaram sua juventude. Bebendo de Spirit — HQ em que Will Eisner trabalhou nos anos 1940 —, nas obras de Hammett, Chandler, Cain, John Huston e Billy Wilder, e ainda repleto do humor rápido de Feiffer, o livro conta a história de cinco mulheres formidáveis ligadas fatalmente por um detetive decadente e beberrão. Nesta graphic novel, Feiffer injeta energia e vitalidade no gênero.

Ana Cristina Cesar

Há exatamente trinta anos, Ana Cristina Cesar se suicidou. Ela se jogou da janela do apartamento dos pais aos 31 anos, no Rio de Janeiro.

Ana Cristina Cesar deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino — pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.

Em novembro a Companhia das Letras lançará Poética, que reúne Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, A teus pés, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos: livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, da obra de Ana Cristina, Armando Freitas Filho.

Para celebrar este acontecimento, convidamos diversas pessoas para prestar homenagem a Ana Cristina. Abaixo você lê a primeira delas, de Ana Martins Marques. Fique de olho nas nossas redes sociais para ver as próximas homenagens.

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Comecei a ler Ana Cristina Cesar na adolescência, naquele pequeno volume rosa (vermelho?) da editora Brasiliense que reunia três livros seus, com o título de A teus pés. Saí de cada leitura desse livro com a impressão de ter sido lançada em cheio numa intimidade estranha, que ao mesmo tempo me interpelava e me mantinha à distância. Como quem descobre por acaso as cartas de amor de um desconhecido. Ou chega sem ser convidado a uma festa e, em trânsito pela sala, capta o burburinho das conversas já começadas. Essa sensação era produzida sobretudo pelo flerte com a correspondência (o diário, o bilhete, o lembrete, a anotação pessoal), e pela força ambígua dos dêiticos quando usados fora de uma situação enunciativa particular: é para você que escrevo, você. Sempre saí da leitura dos poemas da Ana me perguntando menos sobre aquela que no texto diz ‘eu’ do que sobre aquele/aquela em que me via transformada pela força dessa interpelação. Aprendia aí alguma coisa sobre a poesia, alguma coisa que tem a ver com destinação, desejo e drama. Ou com cena, segredo e sereias. Ou com texto, tesão e teatro. Ou com corpo, conversa e corte. Foi ainda a essa solicitação ambígua que procurei responder, muitos anos depois, com um poema-carta que publiquei no meu primeiro livro, endereçado simultaneamente a ela e a você, sim, você:

Self safári (Carta para Ana C.)

Ciganas
passeando
com um rosto escolhido
por paisagens cegas de palavras
traduzidas
inconfessas
rabiscos
ao sol.

Cotidianas
vivendo dias de diários
e mentindo descaradamente
nos silêncios das cartas
(selos postais
unhas postiças
versos pós-tudo).

Fulanas
de nomes reversíveis
para ir e voltar
sem sair do lugar:
self safári
por essa paisagem toda
que no fundo

Ana
nada tem a ver conosco.

 

* * * * *

Ana Martins Marques é poeta de Belo Horizonte, autora de A vida submarina (Editora Scriptum, 2009) e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011).

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