ana miranda

Semana duzentos e cinquenta

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A ilha da infância, de Karl Ove Knausgård (tradução de Guilherme Braga)
Medo da água, medo da escuridão, medo do pastor-alemão dos vizinhos, medo do pai – a infância é uma época aterrorizante. Nas fantasias do menino Karl Ove, os adultos vivem num mundo à parte e têm o poder de deuses, às vezes benevolentes como sua mãe e às vezes tirânicos como seu pai. Como reconstruir as lembranças desse tempo, anterior a toda lembrança? O que há em comum entre o bebê que nossos pais fotografaram e a pessoa que somos hoje? Depois de A morte do pai e Um outro amor, no terceiro volume da série autobiográfica Minha Luta, Knausgård investiga, com o estilo direto e arrebatador que lhe é característico, a memória, o universo familiar e a construção da identidade.

Companhia das Letrinhas

Menina Japinim, de Ana Miranda
Esta é a história de uma menina que tinha uma vida como a de qualquer outra criança que vive em uma aldeia indígena. Ela gostava de brincar de fazer casinha, de balançar e cair no rio para se banhar, de pescar e de subir em árvores. Mas sua mãe tinha muito medo de que ela se machucasse e por isso sempre dizia que quem sobe muito em árvore ou vai pra longe de casa acaba virando passarinho. Um dia, essa menina resolve desafiar a mãe e não apenas sobe na árvore como, ao avistar o regatão, se esconde e sua canoa acaba sendo levada para a aldeia dele. Quando ela volta pra casa, já não é mais a mesma: virou japinim!

Portfolio – Penguin

Atitudes empreendedoras, de Carlos Hilsdorf
Realizar sonhos e transformar o mundo ao nosso redor são duas das mais fascinantes competências humanas. Muitos pensam que empreendedorismo é um termo apenas ligado a negócios, mas Carlos Hilsdorf propõe que empreender é sonhar com conhecimento e atitude e, por este caminho, imprimir a nossa marca na história da humanidade e das pessoas que nos são caras. O empreendedorismo é tratado aqui de modo absolutamente inovador, com consequências e repercussões transcendentes. Um livro que apresenta as atitudes que lhe permitirão realizar seus desejos e fazer seu projeto de vida acontecer!

Paralela

Curiosidade Mórbida, de Mary Roach (tradução de Donaldson M. Garschagen)
Curiosidade mórbida é uma leitura cativante e divertida que explora a vida após a morte, mas não no sentido sobrenatural: a autora Mary Roach investiga o que acontece com os cadáveres, revelando que eles têm rotinas inesperadas e surpreendentes. Por dois mil anos, eles estiveram envolvidos nas descobertas e pesquisas científicas mais ousadas: foram cobaias nas primeiras guilhotinas da França e, os primeiros a navegarem em foguetes da Nasa e estiveram presentes em todos os novos procedimentos cirúrgicos, fazendo história de forma silenciosa.

 

 

 

Semana cento e noventa e quatro

Soldados, de Harald Welzer e Sönke Neitzel (Tradução de Frederico Figueiredo)
Cerca de um milhão de soldados alemães foram capturados pelas tropas britânicas e norte-americanas ao longo da Segunda Guerra Mundial – desde joverns praças de infantaria até oficiais condecorados da Luftwaffe e da SS. As divisões de espionagem dos Aliados, interessadas no potencial estratégico  das conversas e confidências trocadas entre alguns desses prisioneiros, instalaram microfones ocultos em suas celas a fim de monitorar diálogos relevantes para a inteligência militar. Pistas decisivas sobre as flutuações do moral do inimigo e o desenvolvimento de armas secretas pelo regime nazista apareceram nas dezenas de milhares de páginas transcritas dessas escutas. Setenta anos após o conflito, esses inestimáveis documentos históricos – nunca antes publicados – são a base deste livro assombroso e supreendente. Os autores oferecem uma radiografia extensa dos modos de ser, pensar e combater dos soldados de Hitler, mas também um olhar único e indispensável sobre a mentalidade dos militares em geral, que sempre insistiram no seu comportamento horando durante as guerras. Esse mito é derrubado de uma vez por todas por essas gravações.

Semíramis, de Ana Miranda
Com rara habilidade de trazer até o presente o sentimento vivo do passado, Ana Miranda já recriou algumas passagens decisivas da literatura brasileira. No premiado Boca do Inferno, dedicou-se às aventuras do inquieto Gregório de Matos na Bahia do século XVII. No igualmente elogiadoA última quimera, debruçou-se sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos (1884-1914). Em Semíramis, é a vez de José de Alencar (1829-1877), ícone do Romantismo brasileiro e protótipo do “homem de letras” do século XIX.
Ana Miranda fez-se íntima da obra e do tempo de Alencar. Sua prosa é marcada por uma levíssima tensão poética, na frase essencial, cortante e delicada, como se cada gesto e palavra estivesse prestes a se evaporar ou dissolver. Lastreada por ampla pesquisa histórica, a autora não só dá corpo poético às inquietações metafísicas que consumiam o escritor como traça um quadro impecável dos costumes e principais acontecimentos da época: passam por essas páginas as figuras de Gonçalves Dias, Castro Alves e Machado de Assis, a partir das vidas de Iriana e Semíramis, tocadas, cada qual a seu modo, pela figura central de Alencar. Semíramis possui um vigor poético total, com uma fluência irresistível desde a primeira frase. São páginas que bebem a energia da paisagem física ou psíquica do autor de Iracema, relembradas dentro de uma nova ordem narrativa, na língua original e nas pupilas de Ana Miranda.

Caninos Brancos, de Jack London (Tradução de Sonia Moreira)
Se em O chamado selvagem (1903) Jack London narra a sofrida adaptação de um cão doméstico à vida na natureza inóspita e gelada do Canadá, em Caninos Brancos (1906) o autor percorre o caminho inverso, contando a história de um lobo nascido na floresta que é capturado e obrigado a aprender a viver em um novo ambiente – o da civilização. Submetido aos arroubos de hostilidade dos outros animais e à crueldade recorrente dos seres humanos, Caninos Brancos terá que lutar com todas as forças para encontrar sua redenção e enfim fazer as pazes com o mundo ao seu redor. Com introdução de Daniel Galera, que reflete sobre a relação de poder, submissão e afeto entre homens e cachorros, esta edição traz também um perfil biográfico de Jack London pelo historiador britânico Andrew Sinclair.

Editora Paralela

Procurando Mônica, de José Trajano
Quando José Trajano conheceu Mônica, ele ainda era chamado de Zezinho e mal tinha largado as calças curtas para descobrir as festas e bares de Rio das Flores, cidade no interior do Rio de Janeiro onde costumava passar o verão. O garoto nem desconfiava que aquele encontro daria início a uma obsessão de mais de quarenta anos, a um amor não correspondido que ele nunca iria esquecer. Procurando Mônica é a história dessa paixão impossível, um relato repleto de esperanças, sonhos e frustrações. Puxando pela memória, Trajano recria sua implacável busca por Mônica, contando com humor e uma dose de tragédia grega os inúmeros foras que recebeu de sua musa. Mas os tempos mudaram. Trajano, que seguiu para uma carreira brilhante no jornalismo esportivo, não é mais o garoto inseguro que Mônica tanto desprezou. Com uma nova dose de coragem, ele partirá novamente atrás dela para, quem sabe, escrever o último capítulo deste livro. 

Entrevista com Ana Miranda

Na última entrevista que publicamos aqui no blog, André Sant’Anna conversou com seu pai, Sérgio Sant’Anna. Para continuar o projeto, Sérgio escolheu entrevistar a escritora Ana Miranda.

Ana Miranda nasceu em Fortaleza, em 1951. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje vive no Ceará. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). De lá para cá escreveu diversos romances, entre eles Desmundo (1996), Amrik (1997) e Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras). Foi escritora visitante em universidades como Stanford e Yale, nos Estados Unidos, e representou o Brasil perante a União Latina, em Roma. Sua obra nasce de uma relação pessoal com a história literária brasileira, e trabalha pela preservação do nosso tesouro linguístico.

Leia abaixo a entrevista feita por Sérgio Sant’Anna. A próxima trará o autor escolhido por Ana: o poeta Francisco Alvim.

SS: Querida Ana. Você ter ido morar de novo no Ceará tem a ver com seus romances ligados ao Brasil e à terra ou é justamente o contrário: você, morando num lugarejo de praia, acaba escrevendo sobre a grande cidade (rs)?
AM: Sérgio, querido, é uma alegria conversar com você, ainda que de longe. Aqui eu convivo tanto com a aldeia na praia como com a cidade grande — Fortaleza fica bem perto. Mas você tem razão (e sensibilidade), sou mesmo uma alma das distâncias, tanto no espaço como no tempo. Estou sempre distante de minha realidade e buscando distância de mim mesma, se é que isso é possível. Não escrevo sobre mim, como dizia o Guimarães Rosa. No Outro é que encontro inspiração. E mesmo me entranhando de toda uma cultura peculiar à terra, continuo vivendo a distância literária. O que ando escrevendo por aqui tem mais relação com minhas leituras e com minha imaginação do que com a realidade que me cerca, como sempre. É um processo interior. Busco experimentar outras vivências, outras falas, outros comportamentos literários, é o meu jeito de ser. Fiquei muito marcada pela minha primeira experiência no romance, abri uma porta, por ali entrei, e estou vagando nessa espécie de labirinto. No entanto, sinto que a cultura deste estado onde nasci tem me preenchido alguns vazios; e num processo natural, em que se plantam sementes de conhecimento e vida, as coisas vão germinando e florescendo em palavras, temas, modos de se comportar como narrador. Não sou a mesma que escrevia no Rio olhando a paisagem exuberante, verde, montanhosa e úmida, entre emanações africanas, francesas, portuguesas, árabes, nesta atmosfera extrovertida e maliciosa, explosiva, sensual e descompromissada que caracteriza o Rio. Aqui tudo é mais seco, indígena, casto, luminoso, rude e espraiado.

SS: Qual dos seus livros a deixou mais realizada?
AM: Gosto de pensar na minha obra reunindo apenas os romances, e dentre eles, os que exprimem uma experimentação linguística narrada em voz feminina. São o Desmundo, Amrik, Dias & Dias, Yuxin e Semíramis (meu próximo livro). Sei que estou sendo injusta com meus primeiros romances e demais livros, e ingrata para com o meu primeiro romance, o Boca do Inferno, que me deu tudo o que tenho em matéria literária — com ele aprendi tudo o que sei sobre escrever livros, ele existe em cada um dos seus posteriores. Mas é a verdade, sinto o quinteto como expressão mais pura de minha alma. Se pudesse voltar no tempo, publicaria apenas esses, mesmo sabendo que poderia ser uma escritora obscura, talvez até inédita, pois foi Boca do Inferno que me deu notoriedade. Mas faz parte de mim essa movimentação desesperada, essa submissão às ordens interiores, essa versatilidade como uma sentença. Não há como escapar. Sei que o tempo é que depura a obra literária formando o todo, os livros compõem a obra como num bordado feito pelo avesso. Nada disso está em minhas mãos. Com tudo isso, jamais me sinto realizada, mas sempre insatisfeita, em busca de algo, querendo melhorar, ir adiante de mim mesma. Apesar de ser uma pessoa calma, há dentro de mim uma inquietação. Vivo num contínuo processo de mudanças interiores.

SS: Você tem sido nômade no Brasil. Qual lugar lhe agradou mais?
AM: A acreditar no que dizem, que a infância é nossa mãe e nossa pátria, os meus lugares são o Ceará, onde vivi até os cinco anos, o Rio, até os sete, e Brasília, até a adolescência. Sou louca pelo Rio, onde vivi uns quarenta anos, não há cidade mais bela e acolhedora no mundo, é verdadeiramente cosmopolita, de uma riqueza cultural fabulosa, gente extraordinária. Tenho paixão por Brasília com toda sua beleza espacial, sua flora e fauna, as pessoas que ali conheci e conheço, os crepúsculos, a arquitetura, a liberdade que eu tinha, a sensação de força construtiva que a cidade proporcionava. E amo o Ceará, a meiguice que transborda, a fraternidade que os cearenses me dedicam, a sensação de pertencer a ele. Aqui moro na casa em que sempre sonhei morar, rústica e ampla, com uma vista de mares, coqueirais, dunas, rio, telhadinhos de barro, o silêncio e a brisa; tenho uma cozinha grande, com cortininhas debaixo da pia, um varandão cheio de plantas, jardins floridos e pomar, tudo que eu mesma fiz. Não fiz a casa para mim, mas para os meus netinhos. Meu escritório é aberto para a paisagem, e ver a lua nascer do mar é uma viagem astronômica pelo universo. Aqui encontro as mesmas paisagens de minha primeira infância. Também não posso deixar de mencionar São Paulo, onde morei poucos anos, e já adulta, mas muito me ensinou. Cada lugar tem seu encanto e fascínio. Também tem seus problemas, mas a pergunta é sobre o lado agradável.

SS: Pretende continuar morando na praia no Ceará, ou não faz projetos, deixa o barco correr para ver onde atraca?
AM: Não é que eu faça projetos, mas inconscientemente eles vão se formando, creio que a partir de necessidades íntimas e literárias. Eu observo os sintomas. Vou me mudando primeiro interiormente, aos poucos a necessidade de me mudar é tão imperiosa que não consigo mais controlá-la. Como se eu precisasse viver muitas vidas, muitas realidades e idades que não são em ordem cronológica. Como se eu precisasse renascer.

SS: Você se sente atraída pela temática feminina, ou não importa o sexo dos personagens?
AM: Não importa o sexo dos personagens, mas a narradora em voz feminina na primeira pessoa me atrai muito mais, embora torne a coisa que já é difícil ainda mais difícil, porque são vozes em outro tempo, às vezes longínquo, é quase um trabalho de psicografia como escrita dos espíritos. Mediunidade literária. Mas não acho que a atração seja causada pela visão feminina de mundo, a primeira pessoa narrando inclui um trabalho de dicção, de criação de uma fala, que me seduz. A cada livro preciso criar uma nova voz, uma nova dicção, isso combina com o meu temperamento. O narrador na terceira pessoa, no meu caso, me parece sempre o mesmo, é a minha voz onisciente. O caso dos personagens é outro. Cada um deles tem uma voz. Mas em todos eles sinto a presença da minha pessoa, que é feminina, contendo, no entanto, a sua versão masculina, ainda que em fantasia. E sobre temática feminina, não acredito nisso plenamente, talvez seja uma forma de manter a mulher falando de uma vida enclausurada, que já não existe mais. Seria o amor uma temática feminina? Ou o ciúme? Mas vemos Goethe e Shakespeare celebrando magistralmente os temas. Seria o casamento um tema feminino? O tricô? A gestação de um filho, o parto? A prostituição? Que bom escritor não seria capaz de abordar o tema? Todas essas rotulações não passam de uma necessidade humana de organizar o mundo para seu estudo, mas o mundo não é feito de compartimentos vedados. Tudo se interpenetra.

SS: Você pode revelar o que está escrevendo agora, ou é daquelas que guardam segredo?
AM: …

SS: Estou curioso para saber se essa longa estadia na praia — com algumas viagens ao exterior — está te influenciando de alguma forma.
AM: Há uma influência direta nas crônicas que escrevo para o jornal daqui de Fortaleza. A crônica tem uma conexão imediata com o cotidiano. O tema que me foi proposto é a memória da cidade, mas há textos que aparecem repletos de passarinhos, jangadas e coqueiros, que vejo da minha mesa de trabalho, carnaúbas das estradas, dunas e ventos, almofadas de bilro, quintais e cajueiros, sons e, mais que tudo, o sentimento do lugar. O contato com a natureza, ainda que inconstante, tem um poder de transformação na nossa atmosfera interior. Creio que é o mesmo que dominava José de Alencar quando escreveu Iracema. Ele passava temporadas na floresta da Tijuca, e recém-casado, apaixonado. Iracema tem uma atmosfera que não existe em O guarani, que se expressa melhor no efeito que cria. Não há em Iracema nenhuma casa. É perpassado pelo sentimento de natureza de que falava Thoureau, em Walden, uma espécie de ilusão contagiada pelo bucolismo mas também pela violência natural, pela hostilidade, o lado pantanoso, ameaçador, escuro da natureza. O livro que acabo de entregar à editora, Semíramis, um perfil de mulher ao modo de Alencar, sente essa influência, não exatamente da natureza, mas da questão do provincianismo, relacionado ao cosmopolitismo. Portanto, a sua primeira pergunta foi no coração da coisa em si.

* * * * *

Trecho de Yuxin:

kene, bordado

A pata da onça e aqui olho de periquito… bordar, bordar… Xumani está demorando tanto, quando ele voltar, amanhã, não vou contar nada, se eu contar, Xumani ciumento vai querer flechar as almas, matar as almas, quem pode as almas matar? bordar bordar… hutu, hutu, hutu, hutu… aprendi o bordado kene em dia de lua nova… bordar… bordar… achei aquele couro de cobra atrás do tear, minha avó me levou mata dentro para eu saudar Yube e aprender o bordado kene, minha avó ensinou as cantigas, aregrate mariasonte, mariasonte bonitito… ela sabia essas cantigas, a avó da avó sabia, a avó da avó da avó, minha mãe sabe… bonitito bonitito yare… titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… vi uma luz, minha avó pingou bawe nos meus olhos para eu enxergar mais claro… tecendo e cantando em dia de lua nova, assim aprendi kene, chamando a força do bawe, a primeira mulher que aprendeu a bordar foi Siriane, no tempo da mãe da mãe da mãe da mãe, foi Siriane quem nos ensinou primeiro o bordado, mas o marido de Siriane a matou titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… será se ele matou Siriane de ciúmes? ela viu as almas? ela saía sozinha? titiri titiri titiri titiri we… bre bre bre bre… foi no tempo da mãe da mãe da mãe da mãe… Xumani vai me matar? por ciúme dos pretendentes espíritos, para que fui ao brejo? mas eu estava com tanta fome… bordar bordar… tem espinho de planta, tem algodoeiro, tem flor de algodoeiro, um para ali, um para acolá, cada um de um lado, assim, puxa, acocha o ponto, todo tipo de bordado kreõ kreõ kreõ kreõ… o que mais? tem as borboletas deitadas de asas abertas, assim, aqui asa de borboleta, aquele bordado ali é borboleta deitada… titiri titiri titiri titiri we… hutu, hutu, hutu, hutu… Xumani há de voltar, ele sempre voltou, sempre foi e sempre voltou, mas desta vez está demorando tanto, e se as almas o mataram? kreõ kreõ kreõ kreõ… bre bre bre bre… tudo são as almas, elas mandam em tudo, fazem tudo o que acontece, as almas mandam em nós, mandam em tudo as almas.
(continue lendo)

Do outro lado da mesa

Por Luiz Schwarcz


Editores e agentes negociam direitos de livros na Feira de Frankfurt. (Acervo Frankfurt Book Fair)

A primeira vez que senti vontade de escrever, foi para escapar da depressão. Na época, estava com trinta e quatro anos, a Companhia das Letras existia havia quatro, e eu conhecera o sabor do sucesso, tanto no Brasil como em Frankfurt.

Em agosto de 89, eu havia publicado o romance de uma jovem escritora, Ana Miranda, chamado Boca do Inferno, indicado para a editora, na ocasião com grande discrição, por Rubem Fonseca, que apenas me enviara o livro dizendo:

— Luiz, acho que você vai gostar. Eu recebo muitos originais de jovens escritores, não te incomodo com eles, mas este vale a pena você ler e ver se interessa para a Companhia das Letras.

Rubem era bem amigo de Ana, nada me falou sobre isso, mas o livro era mesmo muito especial e marcava a estréia de um promissor talento da literatura brasileira. No lançamento, vários jornalistas compararam Boca do Inferno com O nome da Rosa de Umberto Eco, Memórias de Adriano de Margerith, entre outros romances históricos, em voga na época. Preparei então algo que não se fazia com autores brasileiros: encomendei tradução de trechos do romance e das resenhas para o inglês, reproduzimos as listas de mais vendidos e enviamos a Ray-Gude Mertin, agente que representava vários autores brasileiros na Europa. Falei a Ray que achava que poderíamos emplacar o livro na Feira de Frankfurt, e foi o que aconteceu.

O estande coletivo brasileiro, tradicionalmente organizado pela Câmara Brasileira do Livro, nunca havia recebido tantos e tão importantes editores estrangeiros como viria a receber naquele ano, todos atrás de um editor com o sobrenome alemão (meu pai era, no entanto, de origem húngara) e um livro escrito numa língua pouquíssimo traduzida.

Todos corriam atrás do thriller envolvendo o poeta barroco Gregório de Matos, em plena Bahia colonial, sobre o qual apenas haviam ouvido falar nos corredores da Feira. Estava em ação a maluca espiral de rumores que informalmente ocorre em Frankfurt, onde milhares de editores se fecham por cinco dias, à cata de novos livros, mas desta vez o romance premiado era nosso. A estratégia dera mais certo do que eu poderia sonhar. Com a agenda lotada de encontros para a compra de direitos de livros estrangeiros, eu tinha que voltar às pressas ao nosso estande, para encontrar bilhetes de editores da Gallimard, da Surkhamp, da Viking, da Mondadori… todos querendo comprar no escuro, apenas a partir da leitura dos pareceres das editoras alemãs, ou do boca a boca que se criara na Feira, o “romance da tal Companhia das Letras”.

Os editores que me encontravam por acaso, debaixo das cafonas samambaias do estande brasileiro, faziam o que chamávamos de blind-offers. Outros deixavam bilhetes sedutores e voltavam n vezes à minha procura. A todos eu dizia que não aceitaria ofertas sem que o livro fosse lido, e que não escolheria a editora apenas pelo critério financeiro. Assegurava que enviaria os originais de Boca do Inferno logo que chegasse ao Brasil, para que fosse avaliado com calma; até porque havia planejado uma viagem à Itália após a Feira, para descansar uns dias com a Lili.

Em Veneza hospedamo-nos num minúsculo hotel, que havia comprado sua primeira máquina de fax naquela semana. Se os donos do local desejavam testar o novo aparelho, eu proporcionei a eles mais do que desejavam. O fax não parou desde que coloquei os pés no hotel. No entanto, quanto mais eu dizia que não aceitava blind offers, mais elas chegavam, e em valor cada vez maior: “ele não aceita, é, então dobramos!”. Era assim que os melhores editores do mundo reagiam, para meu espanto.

Enquanto isso, no Brasil, meu avô materno, então doente, com um mapa na mão, acompanhava o que deveria ser meu percurso pelo Norte da Itália. Fora ele que me fizera manter a viagem a Frankfurt e depois à Itália, apesar do meu receio com sua saúde. Depois de dois dias em Veneza, tive um mau pressentimento ao ouvir a voz de minha mãe ao telefone e resolvi cancelar o resto da viagem, voltando rapidamente ao Brasil, para encontrar meu avô ainda com o mapa da Itália na cabeceira da cama, mas prestes a ser levado ao hospital, onde viria a falecer três dias depois. No primeiro dia das rezas que caracterizam o luto judaico, e que duram uma semana, o telefone tocou. Era um editor inglês que descobrira o número da casa de minha avó, e ligava para aumentar sua oferta.

Alguns meses depois dessa experiência, tive uma séria fratura na perna e precisei ser operado. Em fase de recuperação, resolvi ir à ABA (era assim que se chamava a feira de livros dos livreiros americanos, que na época eu costumava frequentar). Em Nova York fazia um calor infernal. Bastante deprimido por conta da morte do meu avô, com quem tinha uma relação fortíssima, e pelos resquícios da operação, eu andava com dificuldade, com a perna ainda mais inchada devido às altas temperaturas.

Marquei um almoço com minha amiga Carol Janeway, da editora Knopf, uma das únicas que acabou não ofertando para Boca do Inferno. No caminho para o restaurante, suando em bicas, eu pensava no que havia ocorrido com esse livro, no comportamento dos melhores editores do mundo, que acabaram comprando o título por valores altíssimos, motivados pela competição que se iniciara em Frankfurt.

Durante o almoço, Carol me elogiou, achando que eu recusara as ofertas de propósito para aumentar o valor dos adiantamentos. Disse que achava que o livro não iria vender o suficiente, na Europa e nos Estados Unidos, para pagar os polpudos valores oferecidos, mas que minha estratégia tinha sido ótima.

— Que estratégia, Carol? Eu apenas não quis vender um livro no escuro, o que para mim é inaceitável.

Carol riu como quem não acredita, e eu acrescentei:

— Ok, você não acredita, então façamos o seguinte: no ano que vem, eu e você levamos para Frankfurt um livro inexistente,  preparamos uma capa, orelha, press release, resenhas, lista de mais vendidos, tudo inventado, e aí tentamos vendê-lo juntos para ver no que dá.

Carol deu uma boa gargalhada e mudamos de assunto.

Ao chegar ao Brasil, deprimido, tive minha primeira crise com a profissão de editor. Acho que sublimava a perda do meu querido avô, justamente com dúvidas sobre a profissão que escolhi, em detrimento da que o velho Giuseppe desejava para mim, como herdeiro da gráfica que ele criara.

Foi nessa ocasião que resolvi escrever o que deveria ser o meu primeiro livro de ficção, uma história que tinha como narrador um editor desiludido, que inventava um romance inexistente e o levava a Frankfurt para ser apresentado aos melhores editores do mundo. O tema do falso romance era a busca por um manuscrito perdido de uma sinfonia de Berlioz, baseada (sic) numa obra também inédita de Shakespeare, o teatrólogo que o compositor francês de fato idolatrava. O livro fajuto estourava na Feira da Alemanha, e o editor em apuros voltava ao Brasil, largava sua pequena editora, de uma hora para outra, nas mãos da sua pobre namorada, e se refugiava em Atibaia, a fim de escrever a obra que vendera para mais de uma dezena países. O enredo do tal romance tinha mais umas tantas besteiras que me envergonho até de lembrar. É claro que nunca o escrevi.

Depois de alguns anos, mais uma vez voltando de Frankfurt, parei por Budapeste, cidade onde meu pai passou sua infância durante a Segunda Guerra. Fui visitar o prédio onde sua família viveu. Só pude ver a sacada do pequeno apartamento do meu outro avô, o tapeceiro, em que se realizavam durante a guerra cultos religiosos clandestinos, e de onde ele e meu pai foram levados para o campo de concentração — lá meu avô paterno veio a falecer. Chorei por quase uma hora, no pequeno quintal do prédio, sem saber o porquê, e resolvi, pela segunda vez, que escreveria um livro.

Seria sobre um menino que não conhecia bem o passado do pai, e ficava (nos capítulos ímpares) imaginando-o na pele de vários super heróis, personagens de ópera, quadrinhos, filmes, enquanto nos capítulos pares era narrada a sua história, centrada principalmente na sobrevivência heróica durante a guerra.

De fato, eu pouco sabia sobre o passado do meu pai, sobre o qual ele falara apenas uma vez, quando eu tinha dezessete anos, e nunca mais.

Esse livro também nunca passou para o papel, ou melhor, acabou se transformando em Minha vida de goleiro, um livro para crianças ou jovens e sem nenhum conteúdo ficcional.

Às vésperas de lançar mais um livro, lembro-me desses dois que nunca escrevi, desta vez para sublimar a ansiedade que acomete a maioria dos autores antes da publicação. Como editor experiente, eu não imaginava vivenciar este tipo de sentimento. No entanto, tenho que confessar que, pelo contrário, eu talvez sinta tudo isso de maneira ainda mais acentuada do que os demais autores que conheci do outro lado da mesa.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiroDiscurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.