andré sant’anna

Semana cento e noventa e nove

Minha luta 2: Um outro amor, de Karl Ove Knausgård (Tradução de Guilherme da Silva Braga)
Com A morte do pai, Karl Ove Knausgård inaugurou o projeto monumental de seis romances autobiográficos que totalizam mais de 6 mil páginas e revelam os detalhes mais íntimos da vida do autor e de seus familiares. Se no primeiro volume da série acompanhamos sua infância e o processo destrutivo que levou seu pai a beber até a morte, na sequência, Um outro amor, Knausgård se debruça sobre o começo turbulento de seu segundo casamento e a descoberta da paternidade, conflituosa com suas ambições literárias. Logo depois de se separar da primeira mulher, Karl Ove deixa Oslo e se muda para Estocolmo, onde começa uma nova vida, experimentando a perspectiva do estrangeiro. Lá, ele cultiva uma amizade profunda e muitas vezes competitiva com Geir e persegue Linda, poeta que o conquistara anos antes durante um encontro de escritores.  Uma conversa com amigos durante o jantar pode se estender por cem páginas; saltos no tempo e flashbacks demonstram o pleno domínio do autor, capaz de conciliar a narrativa de episódios pontuais com longas digressões que acompanham o tempo interno das personagens. Na construção narrativa de Knausgård, as fronteiras entre memória e invenção são diluídas a tal ponto que a sua própria vida é recriada e ressignificada. Entre questões existenciais e reflexões acerca do fazer literário, o que emerge ao fim desse romance honesto e profundo é a conturbada e bela história de amor de um homem por sua mulher e seus filhos. Knausgård parte de sua experiência individual para criar uma obra arrebatadora e universal.

O caminho de ida, de Ricardo Piglia (Tradução de Sergio Molina)
Neste extraordinário romance que transcorre nos Estados Unidos da década de 1990, quando o terrosita conhecido como Unabomber assombrava as consciências do país ao recusar (com enorme violência) os rumos da sociedade capitalista, Ricardo Piglia desempenha com audácia o papel de ficcionista e comentarista cultural. A morte misteriosa de uma estrela do mundo acadêmico conduz Emilio Renzi a uma busca pelo entendimento da violência naquele país. Contudo, não há respostas simples, como se verá. Pois como em outros livros do autor, a conspiração se converte no cerne de toda narrativa. Ela será a própria narrativa.

O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra
Como começa o amor? À primeira vista, num encontro casual, depois de anos de convivência? Qual é a distância entre dizer “eu te amo” e amar alguém? O que resta quando o tempo passa, as pessoas mudam e o amor acaba?
Nina tem vinte e três anos quando ela e o narrador se conhecem na faculdade. Os dois têm um envolvimento amoroso, mas certo dia ela desaparece sem deixar notícias. A partir da reconstrução ficcional dos diários deixados por Nina, o narrador conta a história de seus antepassados e assim vai delineando seus contornos, numa tentativa de recriar a mulher amada. Mas como falar do outro sem falar de si? E como falar de si quando a sua própria vida é marcada pelo abandono, pelo impalpável? Essas são algumas das questões que O inventário das coisas ausentes lança ao leitor e à sua própria estrutura narrativa. Com uma abundância de tramas paralelas que por vezes se entrelaçam e por vezes seguem independentes, o romance de Carola Saavedra investiga o fazer literário, a memória, o amor e as marcas deixadas pela ausência do outro.

O Brasil é bom, de André Sant’anna
Uma pessoa discursa com entusiasmo sobre como o nosso futuro será ótimo. Um homem sem nome, que se autodenomina “cidadão de bem”, entra numa diatribe contra os direitos humanos, que arruínam o país. Mas o Brasil não é ruim, afirma outro narrador sem nome do mais novo livro de contos de André Sant’Anna. Afinal, “os deputados brasileiros não são vagabundos, não ganham quase vinte cinco mil reais por mês” e “a esmagadora maioria dos congressistas brasileiros não é corrupta”. Usando a ironia como principal arma, e adotando o ponto de vista de seres movidos a preconceito, Sant’Anna constrói um verdadeiro libro-bomba. Ao denunciar a pobreza moral da classe média e as tensões taciais e sociais em ebulição no Brasil, estes contos compõem um retrato urgente, atual e necessário do nosso país.

Editora Seguinte

A quase honrosa Liga de Piratas – o tesouro da encantadora, de Caroline Carlson (Tradução de Ricardo Gouveia)
Há muitos anos, quando objetos mágicos eram tão comuns quanto panelas nos lares de Augusta, a magia era controlada por uma feiticeira muito poderosa: a Encantadora das Terras do Norte. Certo dia, cansada de sofrer ataques de cidadãos que queriam usar os poderes de maneira ilícita, ela resolveu se vingar: recolheu a maioria dos itens mágicos do reino e desapareceu, deixando os cidadãos sem notícias de seu paradeiro nem desse magnífico tesouro. Anos depois, quando Hilary Westfield decidiu que queria ser pirata, nem imaginava que estava prestes a participar da caça ao maior tesouro de todos os tempos. Afinal, tudo o que a preocupava era fugir da Escola da Senhorita Pimm para Damas Delicadas, onde as jovens da alta sociedade aprendiam a valsar, desmaiar e se comportar à mesa. Hilary não via utilidade nenhuma naquelas lições e queria se juntar à Quase Honrosa Liga de Piratas. Qualificações não lhe faltavam, mas a Liga não admitia garotas em sua equipe de algozes e pilantras.Decidida a partir para alto-mar a qualquer custo, Hilary responde ao anúncio de um pirata autônomo em busca de membros para sua tripulação. De repente, ela se vê no meio de uma aventura marítima em busca do tesouro mais valioso do reino: o tesouro da Encantadora. Para encontrá-lo, ela contará com um mapa sem X e precisará enfrentar o vilão mais traiçoeiro – e surpreendente – de todos os mares.

Entrevista com Sérgio Sant’Anna

Após ter respondido as questões enviadas por Bernardo Carvalho, perguntamos a André Sant’Anna quem ele gostaria de entrevistar. A resposta veio rápido: “meu pai, tenho mesmo umas perguntas pra fazer pra ele”.

Sérgio Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 1941. Iniciou sua carreira de escritor em 1969, com os contos de O sobrevivente, livro que o levou a participar do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Teve obras traduzidas para o alemão e o italiano e adaptadas para o cinema. Recebeu quatro vezes o prêmio Jabuti, a mais recente pelos contos de O voo da madrugada (2003), que recebeu também o prêmio APCA e o segundo lugar no prêmio Portugal Telecom de literatura. Seu livro mais recente é Páginas sem glória, lançado em 2012 pela Companhia das Letras.

Leia abaixo a entrevista feita por André Sant’Anna. A próxima trará a escritora escolhida por Sérgio, Ana Miranda.

AS: O que mudou para melhor e para pior entre o “jovem contista mineiro” e o “escritor consagrado, premiado, autor de XX (quantos são?) livros”?
SS: O que mudou para melhor no escritor atual foi um pouco mais de técnica, sem abdicar da invenção. O que mudou para pior foi sentir que já gastei um bom pedaço do meu estoque literário. E também uma certa irresponsabillidade que perdi, de livros como Confissões de RalfoSimulacros. Já o mais sério e pior dos meus livros foi o primeiro: O sobrevivente.

AS: Se você não fosse escritor, há alguma outra arte a qual você se dedicaria? Por quê?
SS: Eu me dedicaria às artes plásticas se tivesse talento para elas. A razão principal para isso é que as artes plásticas são (ou pelo menos foram) as mais revolucionárias das artes. Mas aí penso em Joyce e vejo que minha colocação foi precipitada. Aliás já falei (não sei se repetindo alguém) na literatura cubista de Joyce.

AS: De tudo o que já publicou, há algo que você hoje eliminaria de sua obra? O que e por quê?
SS: Eu eliminaria alguns contos, como quase todos os de O sobrevivente e, por exemplo, em grande parte, Adeus, incluído em Breve história do espírito.

AS: De onde vêm as opiniões críticas sobre seu trabalho que realmente interessam a você?
SS: As opiniões críticas que me interessaram, desde o princípio, foram do poeta Affonso Ávila. Também fico feliz quando Flora Sussekind escreve alguma coisa boa a meu respeito. E a sua opinião, André, sempre me interessou muito, pelo que existe de novo e corajoso no seu trabalho e suas ideias.

AS: Você gosta de escrever?
SS: Minha relação com a literatura é de amor e ódio.

AS: O que a literatura trouxe de melhor em sua vida? E de pior?
SS: O que a literatura trouxe de melhor em minha vida foi o reconhecimento de pessoas cujas ideias e  sensibilidades me interessaram, como, por exemplo, o Osman Lins, logo que comecei a escrever.

AS: Quais são suas principais fontes de ideias para as coisas que escreve?
SS: As ideias vêm de toda parte, mas muito da música, teatro e artes plásticas de vanguarda, mesmo que o meu trabalho vá sair completamente diferente de suas fontes de inspiração. Mas o futebol, por exemplo, tenho certeza que inspirou trabalhos bem inspirados meus.

AS: Dos livros que leu, quais foram os mais importantes em sua vida? E os que mais influenciaram a sua literatura?
SS: Li muitos livros e não me sinto em condições de responder a essas perguntas. Mas leituras recentíssimas foram importantíssimas em minha vida: César Aira e Evando Nascimento. Isso na prosa, pois na poesia a obra dos concretistas me marcou, incluindo aí o neoconcreto Affonso Ávila. O que mais influenciou minha literatura, para não dizer minha própria fruição artística, não foi um livro mas um “retard en verre”: “La marié mise a nu par ses célibataires même.”

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Trecho de “Páginas sem glória”, do livro de mesmo nome:

Beleza pura também tem função? A arte deve ser aplicada? A esfera é a mais perfeita das formas? O gol bonito junta o útil ao agradável? (Já o gol de pênalti costuma ser apenas útil, a não ser quando o cobrador joga o goleiro para um lado e a bola de mansinho no outro canto, às vezes na trave ou para fora.) Mas útil exatamente para quê? Ganhar ou perder faz diferença diante da morte? Quem se recorda de que o time do Fluminense foi campeão em 1951 e 1959, a não ser aqueles coroas de bermudas nas arquibancadas, ou cadeiras, que são capazes de desfiar os times campeões do goleiro ao ponta‑esquerda (Castilho, Jair Marinho, Pinheiro e Altair…) mas não se recordam de onde deixaram estacionado o carro nos arredores do Maracanã? O passado existe? Perguntas são mais sábias do que respostas? Tudo isso a propósito do Zé Augusto, o Conde, com o qual ninguém se daria o trabalho de gastar algumas páginas, a não ser este cronista do supérfluo e passageiro, do arabesco, quase, como um passe lateral rolado com efeito pelo mero efeito, só captado pelas câmeras do jornal cinematográfico, que nem existe mais, assim como o ponta‑esquerda fixo. Mas Garrincha fazia as duas coisas, poderão retrucar: o drible desmoralizador para o prazer da arquibancada e o passe na medida para ganhar o jogo. Garrincha morreu mal, mas entrou na história. Já o Zé Augusto não se sabe nem se morreu.

Adianta alguma coisa “sair da vida para entrar na história”? Ou terá Getúlio Vargas, o autor da frase, só que na primeira pessoa, fruído a eternidade de um momento pleno em seu último lance político perfeito e irretocável? Deu Getúlio sua famosa risadinha diante dos problemas que deixava para os adversários, antes de disparar o tiro no coração, coisa de profissional? Fumou seu inseparável charuto enquanto arquitetava?

Entrevista com André Sant’Anna

Em janeiro publicamos aqui no blog a entrevista que Juan Pablo Villalobos havia feito com Bernardo Carvalho. Para continuar o projeto, Bernardo escolheu conversar com André Sant’Anna.

André Sant’Anna é músico, escritor, roteirista de televisão, cinema e publicidade. Ele nasceu em Belo Horizonte, morou no Rio de Janeiro e hoje vive em São Paulo. Seu primeiro livro, Amor, foi publicado em 1998. Dele, a Companhia das Letras publicou O paraíso é bem bacana e Sexo e amizade.

Leia abaixo a entrevista feita por Bernardo Carvalho. A próxima trará o escritor escolhido pelo André: seu próprio pai, Sérgio Sant’Anna.

BC: Que é que você anda escrevendo?
AS: Textos curtos, quase todos sob encomenda. Neste ano, vou lançar um livro que reúne esses textos.

BC: Você escreve contra ou a favor?
AS: Contra. A minha literatura está se tornando cada vez mais política. Estou, sim, brigando contra “o sistema”. E na minha política, a questão estética é fundamental. Então, a minha briga está no conteúdo do que escrevo e também na linguagem. Travo uma guerra contra o “escrever bem”, ou contra o “vamos todos escrever livros legais e iguais”.

BC: Que é que mudou desde quando você publicou seu primeiro livro?
AS: A principal mudança foi o fato de eu ter me tornado escritor. Quando escrevi Amor, eu não podia imaginar que algum dia sairia uma foto minha no jornal, com a legenda: “André Sant’Anna, escritor”. Na época, escrever era só diversão, só prazer, nenhum tipo de angústia. Agora já sinto um pouco mais de responsabilidade, penso mais nos leitores, na crítica, em como os livros vão ser recebidos pelas pessoas. O lado ruim é que o trabalho fica mais pesado, fica mais trabalho. O lado bom é que a gente procura se esmerar mais, pensar mais antes de escrever cada frase. Aumenta a autocrítica e isso pode trazer bons resultados.

BC: Se ninguém lesse, você parava de escrever?
AS: Acho que não. Desde a adolescência, até a publicação de Amor, sempre escrevi sem saber que um dia algo seria publicado. Mas é claro que eu dedicaria bem menos tempo da minha vida a essa atividade.

BC: Que é que você lê hoje?
AS: Todo ano acabo sendo jurado de alguns concursos literários, além de trabalhar como redator e roteirista. O resultado é que tenho lido muito pouco. Praticamente só leio algo por escolha própria quando viajo ou ando de ônibus. Neste final de ano, de férias, reli Criação, do Gore Vidal. Mas agora mesmo está chegando uma remessa de livros de um concurso, que vai ser minha leitura por um bom tempo.

BC: Você se reconhece em alguma escola/movimento/tradição — ou em algum autor?
AS: Tenho umas 4 ou 5 influências muito fortes: Nelson Rodrigues (pela visão de mundo, a guerra contra os idiotas, contra o desamor); Glauber Rocha (não pela literatura, mas pelos textos políticos, a maneira de usar a “Eztétyka” como “arma revolucionária”); Jorge Mautner e José Agrippino de Paula (pela liberdade com que escrevem); Kurt Vonnegut Jr. (pelo humanismo ácido).

BC: Você também tem uma banda. Que é que você quer com a literatura que a música não te dá?
AS: A literatura me dá independência. Escrevo sozinho, sem precisar dos outros ou de tecnologias. Com a música, sempre fiz parte de grupos, bandas grandes, com atores em cena etc. Trabalho de grupo sempre acaba em desacordos, é difícil as pessoas estarem sempre na mesma sintonia. E foi a literatura que me levou a fazer o trabalho de música que faço hoje, o “Sons e Furyas”. No show, sou mais um performer do que um músico. Leio textos, danço, canto, faço umas caretas etc. No fundo, acho que tudo é a mesma coisa — o teatro, a literatura, a música, a dança, as artes plásticas. Faço tudo isso e não sou especialista em nada disso. Acabei ficando mais conhecido como escritor. Hoje, a legenda sob a foto no jornal é “Escritor”. Não estou reclamando. A literatura mudou minha vida para melhor.

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Trecho de O paraíso é bem bacana:

O Mané podia ter dado uma porrada bem no meio da cara daquele gordinho filho-da-puta.

Mas não.

O Mané ficou rodando em volta do gordinho filho-da-puta, olhando para os lados, esperando que algum filho-da-puta logo apartasse a briga.

Mas não.

Eles eram todos uns filhos-da-puta e queriam ver um filho-da-puta batendo no outro.

O Mané ainda não sabia que eram todos uns filhos-da-puta.

O Mané não tinha motivo para bater no gordinho filho-da-puta.

O Mané não sabia que o gordinho filho-da-puta tinha motivo para bater nele, no Mané.

O Mané queria ser amigo daqueles filhos-da-puta.

Mas não.

Aqueles filhos-da-puta sempre batiam no gordinho filho-da-puta e o gordinho filho-da-puta precisava dar umas porradas num filho-da-puta qualquer.

O Mané ainda não sabia que o filho-da-puta era ele, o Mané.

Depois contaram:

Antes, o gordinho filho-da-puta batia no filho-da-puta do Levi, até que um dia o filho-da-puta do Levi ficou com muita raiva do gordinho filho-da-puta e deu uma porrada bem no meio da cara do gordinho filho-da-puta. Era o que o Mané devia ter feito.
(continue lendo)