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Semana duzentos e cinquenta e três

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Correr — O exercício, a cidade e o desafio da maratona, de Drauzio Varella
Drauzio Varella é oncologista, autor de best-sellers, voluntário numa prisão, pesquisador do uso medicinal de espécies amazônicas e ainda celebridade na TV. Mas consegue há mais de vinte anos conciliar esse atribulado dia a dia com a prática regular de exercício físico. Para ele, correr não é só um hobby: é o que lhe dá o equilíbrio para enfrentar os desafios da vida. Em Correr, Drauzio conta como e por que decidiu espantar o sedentarismo; relata o desafio da primeira maratona; nos dá um panorama da história das corridas desde sua suposta origem na Grécia antiga; oferece informações médicas sobre a prática; e, de quebra, nos leva de “carona” num passeio sensível pela alma humana. Leitura indispensável para corredores e futuros corredores.

Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade
Com o subtítulo “Canção de namorados”, esta reunião de poemas amorosos, românticos e deliciosamente apaixonados de Carlos Drummond de Andrade mostra a faceta mais lírica do grande poeta mineiro. Textos já clássicos ou que merecem uma nova leitura, como “Amar”, “Lembrete”, “Ausência”, “Toada do amor”, “Declaração de amor” e “O chão é cama”, foram criteriosamente selecionados por Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, netos do poeta e grandes conhecedores de sua obra. O resultado é uma celebração de beijos, abraços e carinhos – uma festa para o amor, enfim.

Quadrinhos na Cia.

Todo Bob Cuspe, Angeli
Uma das criações máximas de Angeli, Bob Cuspe foi a grande resposta do cartunista aos excessos dos anos 1980, à hipocrisia reinante da elite cultural e financeira, à vida espalhafatosa e deslumbrada dos yuppies que vicejaram no Brasil após o fim da ditadura. Seu brinco era um grampo, suas roupas não passavam de trapos, a porta de sua casa era um bueiro e suas bandas eram os Ramones, os Ratos de Porão, os Sex Pistols e o The Clash. Seus inimigos estavam por toda parte.
Assim como Rê Bordosa, Wood & Stock, Benevides Paixão e Mara Tara, Bob Cuspe fez história na revista Chiclete com Banana, grande marco do quadrinho independente brasileiro. Com tiragens que chegavam a mais de 100 mil exemplares mensais, a Chiclete foi um dos símbolos da redemocratização; se Rê Bordosa apontava mudanças nos costumes e na vida social do paulistano, Bob Cuspe serviu para encapsular a frustração, a raiva, os anseios e a revolta dos desfavorecidos.
Todavia, quem espera encontrar aqui militância e proselitismo veio ao lugar errado. A resposta de Angeli está à altura da pergunta: ácida, cruel, sem concessões, uma cusparada na cara de tudo que está aí.

 

11 HQs para ler no Dia do Quadrinho Nacional

Hoje é o Dia do Quadrinho Nacional! Para comemorar a data, listamos algumas dicas de HQs brasileiras para você ler e conhecer nossos autores. Confira!

1) Cachalotede Daniel Galera e Rafael Coutinho

CACHALOTE

Somando mais de trezentas páginas, as seis tramas de Cachalote são amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas. Entre as histórias, há um escultor que recebe um inusitado convite para protagonizar um filme cujo roteiro parece estranhamente inspirado em sua vida privada, e uma velha senhora grávida e solitária vaga por sua mansão e tem encontros oníricos com uma baleia cachalote na piscina de sua casa.

2) Vida e obra de Terêncio Hortode André Dahmer

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Começando a publicar suas tirinhas na internet, André Dahmer reúne em Vida e obra de Terêncio Horto as histórias de um escritor eternamente frustrado, tão ambicioso quanto amargurado. Terêncio passa os dias em frente a uma máquina de escrever, seja redigindo suas memórias, seja dando vida a personagens cínicos, desiludidos e de um pessimismo assombroso. É a partir desse esqueleto enganosamente simples que Dahmer vai dar vazão a impressões sobre literatura, pintura, música e, por que não?, sobre a vida em geral.

3) Campo em branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski

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Numa trama sobre família e memória, o escritor Emilio Fraia e o quadrinista DW Ribatski tratam com suspense e humor, doçura e medo, a jornada de dois irmãos que se reencontram numa cidade estrangeira com a ideia de, aparentemente, refazer uma viagem da infância, quando visitaram com um tio uma cidade nas montanhas. A arte vibrante de Ribatski e os temas enigmáticos de Fraia combinam-se num road movie às avessas, onde a viagem só começa quando podemos reconstruí-la, desmontá-la, inventá-la.

4) Có! & Birds, de Gustavo Duarte

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Gustavo Duarte teve passagem por vários jornais e revistas como cartunista, e com Có! & Birds despontou nos quadrinhos. As histórias de Gustavo, construídas inteiramente sem diálogos, são um primor do traço, da energia cinética e do humor torto e deslavado. Có! & Birds reúne pela primeira vez as aventuras do fazendeiro em guerra com os ETs que querem roubar seus porcos e a trágica história dos pássaros que tentaram enganar a morte.

5) Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha

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Nesta HQ, Deus assume a forma que, segundo consta, é a sua preferida: a de uma mulher negra, proprietária de um sex-shop, ligada nos movimentos mais exóticos (e esotéricos) do assim chamado amor carnal. Em Deus, essa gostosa, primeira graphic novel do artista plástico e quadrinista Rafael Campos Rocha, o leitor acompanhará sete dias na vida dessa Criadora incomum, fã de futebol e cerveja, amiga de Karl Marx e do Diabo em pessoa.

6) Diomedesde Lourenço Mutarelli

Diomedes

Esta é uma história policial de Mutarelli. Seu protagonista não é um tipo durão, envolvido com perigosas intrigas e belas mulheres. É um delegado aposentado, gordo e sedentário, em busca de uns trocados para completar o orçamento. Nunca resolveu um caso, e passa a maior parte do tempo bebendo e fumando em seu escritório imundo. No entanto, ao partir no encalço do há muito desaparecido mágico Enigmo, seu cotidiano ordinário fica para trás. Em busca da sorte grande e metido em circunstâncias cada vez mais desfavoráveis em seu caminho repleto de figuras bizarras, Diomedes será obrigado a usar todo o talento que jamais imaginou possuir para desvendar o “Enigma de Enigmo”.

7) Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr

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Às vésperas de completar trinta anos, tudo o que Guadalupe quer é esquecer seu trabalho no sebo de Minerva, seu tio travesti. É ela quem pilota um furgão velho pela Cidade do México, apanhando coleções de livros que Minerva arremata por poucos pesos de famílias enlutadas. Mas um telefonema muda seus planos. No meio do pior engarrafamento do ano, fica sabendo que a avó, Elvira, morreu ao chocar sua scooter com uma banca de tacos sobre duas rodas. Como Guadalupe tem o furgão, ela é a única que pode cumprir o último desejo da avó: um enterro com banda de música em Oaxaca, onde nasceu. Guadalupe embarca com Minerva e sua inseparável poodle, mais o caixão, rumo à cidade. No caminho, contrariando a opinião de Guadalupe, Minerva dá carona a um exótico rapaz, que se diz guatemalteco, e os problemas começam.

8) Muchachade Laerte

Muchacha

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, Muchacha é, nas palavras do autor, o primeiro “graphic-folhetim” de sua carreira. Tendo como mote os bastidores de um programa de tevê, Laerte, ao mesmo tempo que cria uma elaborada e divertida revisão dos seriados de aventura da década de 1950, também faz uma espécie de resgate afetivo de suas memórias de infância.

9) A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti

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A máquina de Goldberg se passa num acampamento de férias onde Getúlio, um garoto punk e asmático, cumpre pena por ser antissocial na escola. Em meio à perversidade dos colegas e à temida hora da ginástica, ele conhece o zelador Leopoldo, um velho melancólico com uma obsessão: construir geringonças. Juntos, arquitetam uma ambiciosa vingança que une as fugas de Bach às variações de Rube Goldberg, numa engenharia absurda que vai se expandindo até derrubar todas as peças do dominó, instaurando o terror no coração da Montanha Feliz.

10) Memória de elefante, de Caeto

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Tudo parecia ir bem para o quadrinista até que seus projetos caem por terra antes que possam alçar voos mais altos: suas HQs não chegam ao grande público, sua música não é comercial o suficiente para fazer sucesso e seus quadros são vendidos a conta-gotas. Em Memória de elefante, Caeto faz uma reconstrução prodigiosa de sua memória, narrando a agitada vida noturna paulistana, as aventuras sexuais, o calvário familiar, a passividade da mãe, a agonia do pai, vítima do vírus HIV, e a contribuição fundamental de cada uma das pessoas que o acompanharam em sua jornada desesperada rumo à redenção.

11) Toda Rê Bordosa, de Angeli

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Mais de dez anos após o tenebroso assassinato, Angeli, um dos principais nomes do quadrinho brasileiro, ainda é cobrado por fãs por ter, literalmente, apagado Rê Bordosa. Surgida nas páginas da Folha de S.Paulo em 1984, Rê Bordosa extrapolou sua própria tira e tornou-se uma das mais conhecidas personagens da HQ nacional. Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras de Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro.

Semana cento e cinquenta

Os lançamentos desta semana são:

Jerusalém, de Simon Sebag Montefiore (Trad. Berilo Vargas e George Schlesinger)
Ursalim, Hierosolyma, Aelia Capitolina, Al-Quds, Yerushaláyim, Jerusalém: os muitos nomes dessa cidade sagrada para três grandes religiões dão uma medida da atração irresistível que ela tem exercido sobre crentes, profetas e místicos — e, em especial, sobre as sucessivas gerações de reis, guerreiros e políticos que sonharam conquistá-la. Destruída e reconstruída muitas vezes em trinta séculos de existência, palco de incontáveis milagres e atrocidades, Jerusalém também é um verdadeiro museu a céu aberto da história do mundo. A santidade de seus templos e lugares sagrados — que já foram disputados por judeus, árabes, otomanos, gregos, romanos, armênios e britânicos, entre outros povos — se confunde com a crônica dos sangrentos combates travados em nome de Deus ao pé de seus velhos muros. Neste livro monumental, Simon Sebag Montefiore triunfa com seu notável talento narrativo sobre o desafio hercúleo de reconstituir os principais momentos da longa biografia da capital espiritual do mundo.

O lixo da história, de Angeli
Todos conhecem Rê Bordosa, Benevides Paixão e Bob Cuspe. Para muitos leitores, no entanto, os personagens são apenas a cereja do bolo, principalmente quando falamos das charges políticas de Angeli. Ano após ano, não houve escândalo da República ou evento internacional que não tenha passado por seu escrutínio ferino e implacável. Desde 2001, Angeli dedicou incontáveis charges aos conflitos que atravessaram o Oriente Médio após o Onze de Setembro. Sem escolher lados fáceis, passou pelo governo Bush, pelas guerras do Afeganistão e do Iraque, pelo conflito em Israel e Palestina, chegando até os distúrbios recentes no Egito e na Síria. O resultado é um painel abrangente das principais questões que mobilizaram o noticiário político internacional nos últimos dez anos.

A infância de Jesus, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
“Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão que todo mundo está. Nos deram uma chance de viver e nós aceitamos essa chance. É uma grande coisa, viver. É a coisa mais importante de todas.” São essas as palavras que um recém-chegado dirige à criança que o acaso lhe confiou numa estranha terra de exilados onde a mera possibilidade de substituir é acolhida com enorme gratidão. Desligadas de suas histórias e realocadas segundo regras compreendidas como “o jeito como as coisas são”, pessoas comem um pão que alimenta, mas não tem sabor, e estabelecem relações truncadas em que predomina uma generalizada e anódina boa vontade. Aos olhos de um homem que reluta em se adaptar, esse lugar se revela uma fonte de confusão moral. A partir do estranhamento da própria linguagem cotidiana, os fatos mais básicos da vida são tomados em sua face absurda, no embate entre a lógica impecável do sistema e as razões naturais de alguém ainda preso a hábitos antigos.

Cada homem é uma raça, de Mia Couto
Como ficou o cego pescador? Por que Rosa Caramela enlouqueceu? O que aconteceu com o passarinheiro? Uma princesa russa em Moçambique? Neste singular volume de contos, Mia Couto nos brinda com sua prosa repleta de poesia, em que esses e outros personagens surpreendentes povoam histórias delicadas, que encantam pela beleza que transborda mesmo das situações mais trágicas.

A orquestra da lua cheia, de Jens Rassmus (Trad. Sofia Mariutti)
Era hora de dormir, mas Ana não estava com sono. E, aliás, por que temos que dormir mesmo quando não estamos com sono? Inquieta, ela resolveu plantar bananeira. E, assim do nada, uma coisa muito estranha aconteceu. Ana caiu no teto…

Fervor das vanguardas, de Jorge Schwartz
Entre as décadas de 1920 e 1930, a América Latina foi varrida por uma onda de irresistível renovação cultural. No rastro da urbanização, suas pequenas mas combativas vanguardas de escritores, arquitetos, músicos e artistas visuais já não se contentavam com os modelos estéticos servilmente copiados da Europa. Esses pioneiros se voltam para o substrato “primitivo” das tradições criollas, indígenas e afro-americanas com o ambicioso projeto de fundar uma arte original, ao mesmo tempo enraizada em valores nacionais e conectada com as recentes tendências estrangeiras. Nesta seleção de textos sobre o período mais irrequieto das vanguardas latino-americanas, Jorge Schwartz aborda com uma penetrante visada interdisciplinar o melhor da produção de artistas-chave como Oswald de Andrade, Xul Solar, Joaquín Torres García, Lasar Segall e Oliverio Girondo. O autor analisa a mútua fertilização entre palavra e imagem, assim como os pontos de contato e afastamento entre os modernistas brasileiros e seus confrades hispano-americanos.

Juventude, de J.M. Coetzee (Trad. José Rubens Siqueira)
John está prestes a se formar em matemática, mas sua grande aspiração na vida é tornar-se poeta. O problema é que a poesia — como as mulheres mais interessantes — não se entrega para qualquer um. Assim, o rapaz aguarda ansiosamente pelas experiências de vida que farão com que ele entre em contato com “o fogo sagrado” da inspiração poética e do verdadeiro amor. É em busca desse ideal que ele abandona a turbulenta África do Sul dos anos 1960 e vai para Londres. Tudo o que arranja na antiga metrópole, porém, é um tedioso emprego de programador de computadores. Além de uma ou outra namorada, que nunca está à altura das paixões que ele imagina necessárias para que um homem seja tocado pela chama da arte e da poesia. Com a mesma força narrativa de seus outros livros, Coetzee desfere frases curtas e certeiras, sem nenhuma afetação, desenhando personagens que vão crescendo e se tornando mais complexos a cada parágrafo.

Editora Paralela

Sobre o Céu e a Terra, de Jorge Bergoglio (papa Francisco) e Abraham Skorka (Trad. Sandra Martha Dolinsky)
O que o papa Francisco pensa intimamente sobre temas espirituais como Deus, a fé, a religião, a morte? E sobre questões essenciais como a política, a pobreza, a educação e a ciência? E quais são suas reflexões mais profundas sobre assuntos polêmicos como o aborto, a eutanásia e o casamento de duas pessoas do mesmo sexo? Em conversas de coração aberto que não evitaram os assuntos mais difíceis — e que estão documentadas neste livro ímpar —, o ainda arcebisto de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio e o rabino Abraham Skorka compartilham a fé na capacidade de suas religiões em fazer pessoas melhores. São diálogos entre dois homens simples e eruditos que acreditam que as igrejas precisam “sujar os pés” para ajudar quem precisa de ajuda. Para um dos mais importantes jornalistas brasileiros, Elio Gaspari, da Folha de S. Paulo e de O Globo, este livro é uma obra “inteligentíssima” e quem desfrutá-lo “viverá umas boas duas horas”.

Semana cento e nove

Os lançamentos desta semana são:

Poemas, Adonis (Trad. Michel Sleiman)
Há muito tempo Adonis é considerado o maior poeta árabe vivo. Não apenas foi o principal renovador daquela poesia, ao introduzir algumas das mais importantes conquistas formais do modernismo ocidental, como continua a ser uma das vozes fundamentais e mais ativas da cultura árabe. Embora consciente de viver em tempos de corrosão, ele não teme exercitar uma poesia de sabedoria, na fronteira da filosofia ou mesmo da religião, chegando a cristalizar novas máximas, nunca dogmáticas, em seus textos. “A poesia”, disse recentemente Adonis, “não pode ser feita para se adequar a uma religião ou a uma ideologia. Ela oferece aquele conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Em tradução inédita do árabe, este livro é a primeira seleta de poemas de Adonis publicada no Brasil.

As impurezas do branco, Carlos Drummond de Andrade
As impurezas do branco é um livro que aponta novos e múltiplos caminhos na lírica de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em 1973 (década em que a vida política estava sufocada pela Ditadura ao mesmo tempo em que se assistia à explosão da cultura jovem em todos os cantos do mundo), os poemas tratam sem cerimônia alguma de temas maiúsculos como amor e metafísica, e abordam – com agudeza – aspectos da vida cotidiana, como o noticiário e a publicidade. Sem esquecer, é claro, daqueles motivos que consagraram o poeta mineiro como um dos pontos altos do tempo e a brevidade da vida.

Novos poemas e 5 elegias, Vinicius de Moraes
Os dois livros aqui alinhados formam um conjunto de grande força e beleza. Mas não é apenas isso: ambos se animam por um espírito comum. O abrir de olhos para o mundo alcança um momento excepcional em Cinco elegias, de 1943. Se os poemas que compõem o livro são, como os de Novos poemas, representativos de um período de transição, há também um salto: estamos diante de uma experimentação poética e humana que é um marco na poesia brasileira do século XX. O leitor tem em mãos dois livros que, além de vizinhos no tempo, definem uma mudança de rumo e um ponto alto na obra de Vinicius de Moraes.

Antologia poética, Carlos Drummond de Andrade
Com poemas selecionados e arranjados com inaudita perspicácia pelo prórpio autor há 50 anos, esta Antologia poética é ainda hoje a melhor e mais eloquente introdução panorâmica à obra de Carlos Drummond de Andrade. Dividido em nove seções – que dão conta com maestria do vasto escopo dessa lírica fundamental -, este volume traz diversos clássicos drummondianos e outros poemas que, lidos em conjunto, poderão ganhar uma nova luz.

Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade
Sentimento do mundo, publicado em 1940, é a obra em que o poeta mineiro traz um olhar cuidadoso para as temáticas políticas e sociais de seu tempo. Afinal, durante sua elaboração o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Europa observava a assustadora ascensão nazifascista. Esse senso crítico apurado é perceptível em poemas como “Congresso Internacional do Medo” e “O operário no mar”, além do texto que dá título ao livro. O tom desesperançado não impede que Drummond revele também uma faceta delicada e intimista, seja lembrando-se de sua Itabira natal (“apenas uma fotografia na parede”), seja ao homenagear Manuel Bandeira em “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”.

Como ficar sozinho, Jonathan Franzen (Trad. Oscar Pilagallo)
Considerado um dos mais importantes ficionistas norte-americanos de sua geração, Jonathan Franzen retoma, em Como ficar sozinho, o ensaísmo em que também se destacara com A zona do desconforto (2008). O autor desfaz a fronteira entre ficção e não ficção nesta obra permeada pelo universo ficcional de grandes escritores como Kafka, Proust, Goethe, Daniel Defoe e Alice Munro. Uma verdadeira aula de literatura.

José, Carlos Drummond de Andrade
No ensaio de “José e algumas de suas histórias”, escrito especialmente para este volume, o crítico e poeta Júlio Castañon Guimarães analisa a fortuna do livro e do poema que lhe empresta o título. E revela que o próprio Drummond muitas vezes retomou o mote em algumas de suas crônicas publicadas em jornal. O poeta, aliás, reuniu numa pasta os mais diversos recortes em que o verso “E agora, José?” retornava, de forma paródica ou mesmo celebratória. Mais uma demonstração do enorme poder de penetração de um autor que marcaria para sempre o cenário da poesia do século XX.

Toda Rê Bordosa, Angeli
Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Outros personagens de Angeli, como Bibelô, Meia Oito, Wood & Stock, passaram por sua vida (e sua cama). E ela acompanhou, alheia, as mudanças sociais e políticas dos anos 80 e 90. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras desse Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro. Quem conhece apenas o mito terá acesso a todas as tiras, histórias longas, rabiscos e ameaças tramadas por Angeli contra sua criatura. E quem nunca se esqueceu dela pode ir encostando no balcão. A casa é sua, como ela disse tantas vezes.

Mesa Los Amigos: Quadrinhos para maiores

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Convidados:

Mediação: Claudiney Ferreira

Nesse encontro entre dois artistas que mudaram de maneira definitiva a cara dos quadrinhos brasileiros, Laerte e Angeli sobem ao palco da Tenda dos Autores acompanhados por históricos decididamente nada respeitáveis de personagens inesquecíveis, como Rê Bordosa e os Piratas do Tietê. Os dois falam sobre os pontos em comum de suas trajetórias e discutem os principais elementos do caldo de referências culturais e políticas presentes em seus trabalhos, nos quais a crítica de costumes assume um viés anárquico e satírico às vezes próximo do surreal.

Horário de início: 21h30

[Antes da mesa, Carlito Azevedo lê o poema “Alta cirugia”, de Drummond.]

Mediador: Vocês se consideram humoristas?

Angeli: Às vezes. Mas humor não é só piada, há um leque de possibilidades. Eu fico mais perto do humor negro.

Laerte: A palavra sugere uma coisa meio partidária, ou de especialista. A gente produz histórias. Humor é o tipo de veículo em que a gente produz essas histórias.

Mediador: E vale tudo no humor?

Angeli: Acho que vale, mas dependendo do que você faz, tem que responder pelo seu trabalho. Acho que nem tudo que aparece por aí como humor é exatamente. Standup, por exemplo, parece ter uma qualidade baixa.

Laerte: Tem muita gente, com graus de qualidade diferentes. Está sintetizado numa coisa meio Seinfeld, eles tentam confundir o comediante e o personagem. Antes era uma atuação, como com o Costinha. Com o standup, o interessante é a confusão. “Isso foi uma piada ou é o que ele pensa?” É uma técnica respeitável, mas que coloca a pessoa numa saia justa. Talvez ela precise responder por uma questão crítica, mas acho que a saída judicial não é a mais certa, parece censura.

Angeli: O cara tem direito de falar aquelas coisas.

Laerte: É preciso criar um acerto crítico sem que a polícia esteja envolvida.

Mediador: Você já fez algum trabalho em que sente que escorregou?

Angeli: Ah, eu tento ser cuidadoso, não faço piadas rápidas, não solto que nem pipoca. Me preocupo com o que estou falando e com quem. Mas já enfiei o pé na jaca sim.

Laerte: Já mexi com a questão do Alzheimer. Criei um bandoleiro com Alzheimer que entrava na cidade pra matar alguém e tinha que ficar pedindo ajuda dos moradores. Recebi cartas de associações, foi algo que me fez pensar. Eles têm razão, mas eu também. É preciso respeitar mas não podemos sacralizar a doença também.

Mediador: Vocês recebem cartas?

Angeli: Sim, de pesssoas apoiando e criticando. Mas também não posso me guiar pelo leitor. Não vou desviar o modo como vejo as coisas por causa dele. Mas já houve cartas que me fizeram repensar algumas coisas.

Laerte: Hoje em dia é email, comentário… Você posta algo e as pessoas já comentam. E os comentadores dialogam entre si!

Angeli: Eu tenho uma série chamada “Love histórias”. Uma vez fiz uma tira com uma mulher reclamando que há muito tempo o marido não tocava nela. Ele enche ela de porrada e diz “pronto, toquei”. Era uma piada claramente a favor da mulher, mas teve uma jornalista que disse que eu sou machista. Ela não entendeu a piada. Eu sou a favor das mulheres. Mas não vou fazer uma cartilha “Como amar as mulheres”. Meu trabalho é humor, eu me preocupo que as pessoas entendam as piadas. Uma mãe achou que eu devia parar de fazer piada com suicídio porque o filho havia se suicidado. Não posso deixar de usar as coisas que estão à minha volta porque aconteceu uma fatalidade.

Mediador: Todo o trabalho de vocês sai da prancheta, de um trabalho diário. Essa vida agrada voces?

Angeli: Eu gosto, almoço na prancheta, janto na prancheta, é meu lugar preferido da casa. Eu me sinto viciado, preciso de ajuda. Não consigo sair na rua e pensar numa piada.

Laerte: Eu gosto muito da prancheta do Angeli, é de casal. A gente trabalhava na casa do Angeli, na minha casa não era muito legal. Na verdade eu gosto de bolar histórias, não muito de desenhar. Eu gostaria que o desenho se fizesse sozinho. Cada desenho tem sido um problema, tem que buscar soluções gráficas etc. Quando eu tenho uma ideia, quero ela pronta logo. Comecei a usar caneta vermelha pra fazer rascunho e depois filtrar a cor no computador, pra não ter que ficar apagando o lápis. Mas é uma técnica de preguiçoso.

Angeli: Eu gosto, às vezes complico tanto que no meio já esqueci por que estava fazendo aquele desenho.

Laerte: Já houve épocas em que tinha mais gosto. Hoje em dia eu sou capaz de fazer isso, mas precisam pagar muito bem.

Pergunta: Quando você se expõe no desenho, é necessidade de catarse ou argumento?

Angeli: Os dois, às vezes é uma situação que estou vivendo no momento, e às vezes é uma coisa boba, querer fazer piada comigo mesmo. Agora eu estou ficando esquecido, fumei muito orégano na vida. Então várias vezes eu uso o tema do envelhecimento. Fui na padaria com a Carol e sentei num canto e dormi. Acordei quando ela voltou e percebi que tava ficando velho. Aí fiz uma tira com isso. É uma forma de brincar com minha própria deficiência, pra entender.

Pergunta: Vocês pensam em parar de produzir? Como o Quino, que disse que as ideias haviam se esgotado?

Laerte: É uma prática de tantos anos que a gente acaba conseguindo fazer. Essas coisas diárias eu não tenho medo de não conseguir realizar, mas trabalhos mais elaborados às vezes eu acabo avaliando e digo pra pesssoa que não vou conseguir fazer.

Angeli: Eu faço tira desde 83, fazia muito rápido, mas acho que meu critério ficou mais apurado, me recuso a mandar algumas coisas pro jornal. Mas eu criei artifícios… gosto de fazer desenhos sem motivo, tenho usado alguns desenhos de gaveta. Quando não tenho ideia, pego um desenho antigo e crio uma tira como caderno de esboços.

Mediador: E você, Laerte, que artifícios usa pra entregar todo dia?

Laerte: Uma saída gráfica, às vezes… eu não tenho mais trabalhado com a necessidade de entregar uma piada. Posso recorrer a coisas que estive pensando e anotei, a ideias que já trabalhei mas posso reformular. Não é picaretagem, é propor um passeio pro leitor.

Mediador: Vocês já mataram alguns personagens. Que personagens passaram a te perturbar?

Angeli: Eu gosto de criar um personagem, ver ele se desenvolver, ficar gordo, crescer, ver o público acompanhando. Eu vou construindo ele com o tempo. Mas ao mesmo tempo que é bom, pode ser uma armadilha, você vira refém do personagem. Achei que se continuasse trabalhando só com personagens, ia ficar uma coisa meio quadrada. Não queria ser que nem Schulz, 50 anos fazendo a mesma coisa. É legal, mas minha proposta é mudar. Os personagens representam uma época da minha vida, os punks e etc, e isso também não tem mais muita importância pra mim. A Rê Bordosa eu matei mesmo, criei a história da morte dela. Matei o Bob Cuspe e estou elaborando a morte de outro personagem também.

Laerte: A gente não deve acreditar em tudo que acontece nos quadrinhos. Você levou muito a sério a morte da Rê Bordosa. Eu mantive o Hugo porque me ajuda a pensar. Os outros foram um ciclo que se esgotou.

Mediador: A Rê Bordosa é a sua personificação da mulher ideal?

Angeli: Não!

Mediador: O Bob Cuspe você queria ter como amigo?

Angeli: Também não! Os personagens que eu criei normalmente são pessoas que eu não queria ter como amigos.

Mediador: Sobre o Hugo, há uma tira com ele penteando os cabelos e no final diz “às vezes um homem precisa se montar”.

Laerte: Essa foi uma tira que chamou a atenção de grupos de travestis, que perguntaram se eu tinha interesse em experimentar isso também. E eu tinha, acabei me aproximando depois disso.

Mediador: Uma vez você disse que há poucas mulheres quadrinistas. O que você pensa disso agora?

Angeli: Acho que essa questão já passou, tem muita gente boa surgindo por aí, graphic novels feitas por mulheres.

Mediador: Você se vestir de mulher tem influência no seu trabalho?

Laerte: Eu acabei fazendo uma questão meio simbiótica. Eu uso o trabalho pra pensar. Nesse caso foi necessário o trabalho e a intervenção de um grupo de pessoas. Me levou a um grupo de pessoas com um novo tipo de questões, que lutam por outras coisas.

Mediador: Você não acha machista a insistência por se livrar dos pelos?

Laerte: É subjetivo, a feminilidade é um modelo criado mesmo. Conheço homens que tentam reproduzir imagens prontas, de capas de revistas. E as mulheres também. Não é machista, é um gosto. É preciso coragem pra ser um genderfucker, sair com barba e vestido de mulher, não refletir nenhum dos modelos reproduzidos por aí.

Mediador: Quarenta anos atrás quando vocês de conheceram, quem eram Laerte e Angeli? Qual foi o desejo que os uniu?

Laerte: A resposta pra isso é uma conferência. Nos éramos jovens, tínhamos 20 anos. Quando você desenha, percebe que tem um poder, e era a época da ditadura. O que uniu a gente foi não ter onde publicar, foram nossos fanzines, porque era pouca gente fazendo isso. O salão de humor de Piracicaba andou a selar isso.

Angeli: Eu desenho desde menino, tinha prazer em desenhar. Me lembro da mesa enorme, família italiana, meu avô tirava uma parte da toalha e pedia pra eu ficar desenhando. Eu era péssimo aluno, fui expulso de todas as escolas, não sei por quê. Do nada eu estava no meio de uma situação, e não sabia como tinha ido parar lá. Tive uma vida escolar péssima, e morava perto do rio Tietê. Ia andando, e no caminho eu parava e esquecia que tinha que ir pra escola. O surgimento do Pasquim foi um marco pra mim. Me encantou. Antes eu sabia que seria um desenhista, mas não sabia do quê. O Pasquim me deu uma direção. Falei “vou ser cartunista” e fui, virei cartunista. E aí fui pro Salão de Piracicaba.

Laerte: Você ganhou o segundo, eu ganhei o primeiro.

Angeli: Uma pessoa da Folha viu um desenho meu e ligou pro Cláudio Abramo, que estava atrás de um chargista. Aí entrei lá na Folha e nunca mais saí. Sou um cara que anda em linha reta. Eu penso como cartunista.

Laerte: Eu penso como geminiano. Penso em como uma história pode evoluir. Acho que talvez eu seja mais quadrinista, estou interessado mais na história que no cartum.

Mediador: Como foi sua saída do partido comunista?

Laerte: Foi meio por instinto. Eu tinha sido aliciado pra entrar. Nunca fui muito bom de argumentação. Sentia que queria sair do partidão, da Gazeta Mercantil e do meu casamento. E fui saindo sem muitas explicações. Nunca consegui deixar muito claro quais eram minhas objeções.

Mediador: Você tem algum personagem que alimenta suas charges políticas?

Angeli: O Maluf alimentou bastante quando tinha mais lastro, agora não tanto mais. Gosto de mexer com ele porque representa, junto com outros, a política de baixa qualidade. Ele é mentiroso cara de pau, repete uma mentira até virar verdade. Chega a ser uma comédia.

Mediador: Pra fechar, vamos falar um pouco do Glauco. Como era trabalhar com ele, a anarquia em pessoa?

Angeli: Ele foi premiado num dos Salões e de cara simpatizei com ele e seu trabalho. Ele tinha uma piada simples que ao mesmo tempo não deixava buracos. Era muito bem construído. Convidei ele pra Folha e era muito hipongo, era uma coisa absurda. Ele foi mostrar o trabalho na Folha mas acendeu um baseado no banheiro antes, os seguranças pularam em cima. Pensei “legal, quero ser amigo dele”.

Laerte: Ele era capaz de reconhecer a fraqueza de uma pessoa muito rápido. E chegava nas reuniões com ideias matadoras.

Mediador: Pra terminar, onde você comprou esse vestido lindo?

Laerte: Na Collins.

Horário de término: 22h49