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Orgulho e indagação

Por Luiz Schwarcz


Ian McEwan (Foto por Lilia M. Schwarcz)

Acompanhar autores, editores e agentes literários em visita ao Brasil é um dos grandes prazeres da vida de um editor tupiniquim. Pelo menos é o que sinto quando recebo pessoas e me ponho a mostrar não só a mim mesmo, como sobretudo a Companhia das Letras, e meu país. É curioso como nessa hora percebo o quanto me orgulho de ser brasileiro. É um sentimento que não sei explicar, mas, ao frequentar o país com os olhos de quem o visita pela primeira vez, eu sinto uma alegria imensa.

Ao emprestar o olhar do estrangeiro, as vantagens de ter nascido e construído a vida no Brasil me parecem muito maiores do que as dificuldades e vícios.

Pois este ano, depois da Flip, a Lili e eu juntamos um grupo que em parte mal se conhecia e tivemos uma semana de sonho, passando por Tiradentes, Ouro Preto e Inhotim.

Jonathan Galassi, editor da Farrar Straus and Giroux, é um dos meus melhores amigos no mundo editorial. Um dia escreverei um post só sobre ele. Jonathan veio para o Brasil por dois motivos: como acompanhante de Jonathan Franzen, um de seus autores mais importantes, e também para assistir à Flip que homenageava Carlos Drummond de Andrade. Jonathan publicará Drummond em inglês. Já conhecia o poeta mineiro a fundo, pois foi aluno, e depois também editor, de Elizabeth Bishop — tradutora de alguns poemas de Drummond para o inglês.

Deborah Rogers é uma das principais agentes literárias do mundo, e representa vários autores da Companhia das Letras no exterior; graças à amizade que desenvolvemos há mais de duas décadas. Deb, como é conhecida, veio para a Flip com seu marido, o compositor Michael Berkeley, que prepara com Ian McEwan uma ópera baseada em Reparação. Tanto Deborah como Jonathan tinham um plano pós Flip: ir a Ouro Preto, para conhecer a cidade e a casa onde viveu Elizabeth Bishop.

Ian McEwan e Annalena McAfee são dois autores que não têm uma relação estritamente profissional comigo. Ficamos amigos há tempos, antes da Flip existir. Assim, Ian aceitou lançar seu novo livro, Serena, primeiro no Brasil; e vir à Flip para depois realizar um plano antigo: passar uns dias comigo e com a Lili, em nossa casa no interior de São Paulo.

Deborah é a agente literária de Ian e Annalena. Aproveitei a presença dos dois casais, muito amigos entre si, e de Jonathan Galassi, que pouco ou nenhum contato tinha com o resto do grupo, para propor que nos juntássemos e viajássemos juntos.

Deixamos a serra da Mantiqueira para outra ocasião, e fizemos um roteiro exclusivamente mineiro. Unidos pela amizade com a Lili e comigo, pelo interesse em Elizabeth Bishop e pela vontade de conhecer o Brasil, o grupo teve uma convivência mais que prazerosa. A casa de Bishop em Ouro Preto foi aberta para nós por seus atuais e super zelosos proprietários Linda e José Alberto Nemer, que chegaram a cobrir as camas com as mantas indianas que a poeta trouxe consigo dos Estados Unidos. Isso para que tivéssemos a ideia mais completa de como Bishop vivia. Vimos o estúdio onde ela escrevia, a sala de estar, a mesa de jantar e o seu jardim com a majestosa vista da cidade. Passeamos pelas ruelas de Ouro Preto, visitamos algumas igrejas — parte em bom estado de conservação — e tivemos a sorte de assistir, por conta do Festival de Inverno, a um show da Velha Guarda da Portela. Na noite fria da cidade barroca, Monarco cantava os grandes sucessos da escola azul e branco, enquanto Deborah dançava com um senhor desconhecido, os dois deixando a terceira idade de lado, com samba no pé. Ele havia ingerido uma quantidade considerável de álcool, mas apenas sorria e dançava com sua nova amiga. Enquanto isso eu tentava traduzir as letras dos sambas para Ian e Annalena e explicava se tratarem, na sua maioria, de canções sobre desilusões amorosas e corações partidos. Ao fazê-lo me dei conta de que todas estas canções tristíssimas são apresentadas no Brasil com melodias alegres e ritmo pulsante. A felicidade do samba, a serviço das mazelas do coração, é uma grande maneira de entender o país.

A cordialidade e hospitalidade superlativas do povo mineiro e a surpresa dos estrangeiros com a excessiva intimidade que nos era concedida logo no primeiro contato permitiam mostrar aos convidados o país do “homem cordial”, onde todos se unem na amizade, mas, ao mesmo tempo, com tão frágeis e tardias conquistas formais de cidadania e de igualdade social.

Nosso almoço no restaurante mais popular dos caminhoneiros, entre Congonhas do Campo e Ouro Preto, foi dos pontos altos do roteiro gastronômico, que incluiu também uma leitoa à pururuca em uma fazenda de Tiradentes, e frango ao molho pardo em uma casa de família, transformada em restaurante informal.

Ian comentou no final da estadia que os banheiros dos lugares públicos que visitamos eram extremamente limpos. Essa pequena observação, vinda de um escritor acostumado a viajar aos mais variados lugares, me fez pensar que talvez esse fato não fosse verdade há pouco tempo atrás, e que no banheiro asseado das estradas de Minas há razões para otimismo — quem sabe o país esteja de fato mudando.

A grandiosidade dos jardins e pavilhões de Inhotim, mesmo com os questionamentos que envolvem o projeto deste museu a céu aberto sem igual no Planeta, juntaram-se ao samba triste, em um novo retrato do Brasil. Um país aparentemente tão sedutor, mas difícil de decifrar. Com orgulho e indagações — haveria melhor forma de terminar uma semana de visita ao meu país?

Tiradentes:

Casa de Elizabeth Bishop:

Mariana:

Ouro Preto:

(Fotos por Lilia M. Schwarcz)

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Programação paralela: Conversa sobre mercado editorial

Na Casa da Companhia, Deborah Rogers (agente literária inglesa), Jonathan Galassi (editor da Farrar, Straus and Giroux) e Annalena McAfee (escritora e jornalista, trabalhou como diretora do suplemento literário do The Guardian) discutem o mercado editorial.

Horário de início: 18h

(Como Liz Calder estava na plateia, foi chamada para se juntar aos convidados. Ela é co-fundadora da editora Bloomsbury e uma das idealizadoras da Flip.)

Luiz: Ao invés de discutir o futuro e o fim dos livros, de que todo mundo está cansado de ouvir, prefiro falar sobre os grandes momentos que vivemos. Quero que vocês digam como se tornaram agentes, editores, jornalistas culturais.

Deborah: Foi por acidente. Fui a NY quando jovem e fiz faculdade de datilografia, mas eu era muito ruim. Fiz vários trabalhos depois disso, e um dia respondi um anúncio de uma agente que trabalhava para a Curtis Brown. Ela trabalhava com roteiros, e eu não gostava disso, mas aprendi a gostar do trabalho de agente, de poder trabalhar com texto. Depois disso comecei a trabalhar com o agente de Ian Flemming. E depois de um tempo abri minha própria agência. E tive muita sorte. Era outra época. Todos entregavam seus manuscritos em papel, e você também tinha que ficar esperando novas versões e tudo mais. Era muito diferente. Então vieram as máquinas de xerox, fax e aí por diante.

Luiz: Cite alguns de seus autores.

Deborah: Meus primeiros clientes foram Anthony Burgess, Michael Glenny.

Jonathan: Acho que comecei como editor pelo mesmo motivo que ela começou como agente, eu amava os textos. Aqui na Flip, no meio de tanto amor aos livros, eu sinto que tudo pode ter mudado no mundo literário, mas isso permanece. Elizabeth Bishop era publicada pela FSG e os livros eram obras de arte, eu admirava muito. Eu queria estar envolvido na disseminação desses materiais. Me parecia algo muito sexy. Então eu fui pra NY e comecei a trabalhar justo na FSG. Acho que não só pra nós, mas pra todo o meio literário, tem muito a ver com paixão.

Annalena: Eu escolhi ir pra uma faculdade muito ruim só por causa de um poeta que ensinava lá, mas ele morreu logo antes de eu entrar. Quando me formei, fui trabalhar pra Marvel por um tempo como editora assistente, trabalhava com Homem Aranha e Hulk. Depois de um ano passei a trabalhar para um jornal e passei a cobrir o que eu amava, cultura e literatura.

Liz: Meu primeiro trabalho no meio editorial me foi inspirado por Deborah Rogers. Estava trabalhando numa empresa cinematográfica avaliando livros que poderiam ser adaptados, mas aí todos fomos demitidos. Eu tinha conhecido Deborah e ela sugeriu que eu fosse trabalhar com divulgação numa editora. E isso virou meu trabalho, me sinto honrada por ter passado tanto tempo trabalhando com livros. Depois passei a trabalhar numa editora de livros políticos, e depois acabei eu mesma virando editora quando um dos editores saiu.

Luiz: Uma vez eu discordei de um editor italiano que dizia que edição era uma arte. Eu achava que nós devíamos parar de achar que nosso trabalho é uma arte, porque o artista é o escritor. Como vocês vêem a edição? Há alguma arte nisso?

Deborah: Não, acho que não há arte. Há paixão. Como agente, você não tem que estar no holofote. Se você aparece, está tirando espaço do seu autor. Meu trabalho é fazer que meus autores recebam todo o reconhecimento que merecem. O que faz um bom editor é o comprometimento, buscar autores que eles tenham vontade de defender. Isso não é arte, é integridade.

Jonathan: Você pode dizer que é um pouco como a arte de fazer um arranjo de flores. Os autores são as flores, e há um pouco de arte em juntá-los. Há uma unidade no catálogo de uma editora que é importante.

Annalena: Bom, nós todos amamos a beleza do objeto, o design. E um bom trabalho de edição pode ser arte. Como Raymond Carver tendo seu trabalho polido pelo editor.

Liz: Pode ser, mas acho que o trabalho do editor, quando adquire um livro, é passar seu entusiasmo e sua opinião para seus colegas, e depois para o público. Uma coisa muita boa na minha carreira foi como eu pude me conectar com amigos de outros países. No fim da década de 80 eu havia começado uma editora com uns colegas e um amigo de outro país me falou de um livro que foi crucial pro lançamento da editora. Nosso trabalho é disseminar os livros, é isso.

Luiz: Eu sempre pensei que um editor fosse acima de tudo um bom leitor. Você precisa pensar na tipografia, na divulgação, mas se não for um bom leitor, desista. Queria que vocês falassem de alguns momentos especiais como leitores neste trabalho.

Deborah: Tive dois momentos incríveis. Quando você sente uma conexão com um autor, não há nada como a alegria de quando eles lançam um novo livro… Montanhas de livros chegam pra você e é exasperador, porque você sabe o esforço que foi gasto naquilo, então você tenta ser gentil, porque não quer magoá-los, mas também não quer enganá-los de que aquilo é bom. E você lê tudo aquilo, e de repente chega um livro com uma voz que salta das páginas, e te prende. E você sabe que este é um escritor para quem você quer trabalhar, que você quer ajudar, e você vai pra casa andando nas nuvens.

Jonathan: Eu sempre tive uma ansiedade de estar lendo um livro bom e ficar com medo de ele não corresponder às minhas expectativas. Com o primeiro livro de Jonathan Franzen eu lia um pouco cada noite e ficava com medo que ele desandasse, mas claro que não aconteceu. E quando estava na Houghton Mifflin, me pediram pra ler Dog soldiers, de Robert Stone, logo que havia entrado, e eu era jovem, me impressionou. Havia uma magia naquilo.

Annalena: Jornalistas culturais são os beneficiários do trabalho dos editores e agentes. Dois grandes momentos pra mim foram receber exemplares para avaliação de Dorothy Molloy e Alice Oswald. Foi como se a redação se silenciasse naquele momento. E eu tentei incentivar um crítico de arte, Brian Sewell, receber os textos dele era o ponto alto da minha semana. Agora ele lançou um livro de memórias.

Liz: Concordo com Deborah que achar uma voz que fale com você é importante. Uma das primeiras experiências que tive como editora aconteceu quando vivia num quarto na casa de um casal. E o marido vinha pra casa de noite e ficava conversando conosco, ele era muito culto. O quarto em que eu dormia era antes os escritório dele, e um dia descobri pilhas de papéis lá, rascunhos de romances. Não falei nada porque acreditei que quando estivesse na hora certa, ele me mostraria. Um dia ele me entregou uma versão e era escrito num estilo flamboyant que me cativou desde o começo, a linguagem era muito rica. Eu o publiquei e o livro recebeu resenhas horríveis, nós dois achamos que havíamos arruinado a carreira do outro. Alguns anos depois ele entregou outro livro: Os filhos da meia-noite. Era Salman Rushdie, eu tive sorte de encontrá-lo assim. Outra coisa que aconteceu foi que sempre tive interesse na história do Chile na década de 70. Ouvi numa feira que havia um livro de Allende que era ótimo. Achei que era uma biografia de Salvador Allende e comprei, mas no final era um romance: A casa dos espíritos, da Isabel Allende. Foi um erro de sorte.

Luiz: Na Companhia a gente tenta trabahar clássicos como atuais, e os livros novos como potenciais clássicos. Eu queria saber, é possível nos dias de hoje transformar um livro num clássico? O que mudou no método de divulgar um livro?

Deborah: Depende de como você define um clássico. É uma coisa que supera tempo e barreiras geográficas. Suponho que num clássico você procura uma sensibilidade atemporal. Alguém que descreva um período que você nunca poderia ter imaginado, de um jeito que te eleva. Você pode tentar convencer que o leitor precisa ter aquele livro, pode criar hype, mas é difícil convencer o leitor a lê-lo. Ainda mais agora, quando há cada vez mais títulos sendo publicados. Mas ao mesmo tempo, há aqueles livros que você sabe que vai querer ler de novo, e aqueles que você quer convencer todo mundo a ler.

Jonathan: Acho que há livros que são imediatamente reconhecidos e acabam virando clássicos, mas alguns só foram crescendo com o tempo. Os leitores que decidem com o tempo. Mas eu gosto da ideia de tornar clássicos em livros contemporâneos.

Annalena: Como jornalista, seu trabalho é não levar em conta o que a assessoria diz, ignorar essa tentativa de criar uma aura. Mas sobre divulgação, hoje em dia há livros sendo lançados em todos os lugares, como aqui em Paraty. E isso não é tão diferente de Dickens, que fazia grandes turnês para divulgar seu trabalho.

Liz: Acho que um editor não consegue construir um clássico. Mas você consegue trazer à tona bons livros que estavam esquecidos, e retrabalhá-los. Dar uma nova vida a eles.

Pergunta: Luiz, e qual é o seu exemplo de momento especial como leitor?

Luiz: Eu tenho tantos, vou te falar de um de não-ficção pra não ter que escolher um romancista. Um dia um de nossos autores nos ligou e disse “tenho um amigo médico que tem trabalhado em prisões há muitos anos, ele escreveu um livro e queria te mostrar”. Ele me trouxe esse livro sobre a prisão que era muito forte, mas ele tentava escrever pela voz dos prisioneiros. Achamos que era um ótimo escritor, mas não um bom livro. Ligamos e dissemos que ele ia ser um bom escritor, mas precisava reescrever como um livro de um médico, não de prisioneiros. Precisava contar como chegou à prisão, como se sentiu, não tentar imitar a voz dos presos. E foi assim que Estação Carandiru surgiu e Drauzio virou meio que um herói. O segundo livro da trilogia, sobre carceireiros, vai sair em breve, e depois ele vai lançar um livro sobre as prisões femininas.

Pergunta: Como uma pessoa totalmente desconhecida chega numa editora, quantas pessoas vão ler um original?

Jonathan: O jeito mais tradicional é procurar um agente. Nós sempre lemos os manuscritos que nos enviam, mas normalmente os textos publicados chegaram por agentes. Se parece interessante, várias pessoas da editora lêem. Mas se não parece bom, ele para na primeira pessoa.

Luiz: Pra nós é diferente porque não temos muitos agentes literários no Brasil. Eles funcionariam como filtros. O que acontece então é que nós recebemos pilhas de materiais, e é muita coisa pra ler, e às vezes nós provavelmente não prestamos tanta atenção quanto um livro mereceria. Eu acredito que um livro não deve ser pensado apenas como oportunidade de vendas, mas ele precisa se encaixar no seu catálogo, fazer sentido.

Annalena: Acho que nisso os jornais podem ajudar, porque uma pessoa nova pode ter uma coluna, e a partir dessa exposição conseguir outras oportunidades.

Pergunta: Hoje em dia há tanta tecnologia, e crianças passam tanto tempo na frente do computador. Vocês se preocupam em formar leitores?

Deborah: Acho que é muito importante. Na Inglaterra há muitas pessoas iletradas, principalmente filhos de imigrantes que não sabem inglês. Mas pra mim, ler para as crianças é o mais importante. Instigá-las, promover sua individualidade. Tornar a experiência pessoal.

Jonathan: Livros infantis são importantes, mas eu acredito que com a importância que a internet adquiriu, a pessoa precisa saber ler e escrever pra fazer qualquer coisa.

Liz: Nossa experiência com a Flipinha tem sido cada vez melhor. Há cada vez mais eventos, e as crianças participam, ficam lendo. Você só precisa dar uma oportunidade.

Luiz: O modo de ler pode mudar, mas a leitura continua. Nós somos mediadores entre leitores e escritores. O importante é pensar na permanência da leitura, não dos livros físicos.

Programação paralela: Exclusiva

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Convidados:

  • Annalena McAfee
  • Paulo Roberto Pires

Mediador: Paulo Werneck

Exclusiva, o primeiro romance da inglesa Annalena McAfee, criadora do suplemento literário do Guardian, toma o encontro improvável entre uma jornalista de fofocas e um veterano de guerra como ponto de partida para uma reflexão sobre as transformações ocorridas na indústria jornalística nas últimas décadas. Paulo Werneck mediará a conversa de McAfee com Paulo Roberto Pires, escritor, jornalista e editor da revista Serrote.

Horário de início: 15h

Mediador: Aqui nós vamos falar um pouco das entranhas desse mundo cultural, jornalístico e editorial. Annalena, é possível dizer que seu livro está na tradição dos livros escritos por jornalistas? Você está retratando um momento de mudança no meio editorial.

Annalena: O livro se passa em 1997, uma época crucial porque não se acreditava que a internet tinha vindo pra ficar. Mas logo ficou claro que o modelo dos jornais estava em queda.

Mediador: É bem o conflito do livro, uma repórter jovem desinformada e deslumbrada frente a outra experiente. Paulo, como você imagina um livro assim se passando aqui no Brasil?

Paulo: Aqui temos Lima Barreto, Paulo Francis, mas acho que um livro assim, satírico, poderíamos trocar os nomes e passar para cá, talvez pelos piores motivos.

Mediador: Annalena, você foi uma das especialistas em fazer jornal sobre livros, divulgação cultural. Você vê lugar para crítica de alto nível nos jornais?

Annalena: Gostaria de pensar que sim. Há leitores que gostam desde tipo de coisa, mas os jornais costumam usar um denominador comum mais baixo.

Mediador: E você, Paulo, que saiu do jornal e foi pra Serrote.

Paulo: São coisas complementares, não dá pra tratar de assuntos profundos no jornal diário. É necessário ter uma revista assim, há vários nichos.

Mediador: Você acredita que o jornal tem como papel popularizar o elitismo?

Annalena: Se isso significa levar material de qualidade ao maior número possível de pessoas, sim.

Mediador: Como foi depois de lançar o livro, seus personagens te perseguiram?

Annalena: Eu fiz meu melhor para que ninguém reconhecesse as inspirações. Foi interessante quando aconteceram as investigações dos tabloides, eu pensei “eu inventei isso!”

Mediador: Na Inglaterra, os jornais estão perdendo leitores?

Annalena: Sim, as tiragens estão caindo, os anúncios migraram para a internet. Mas com a internet também há mais acesso, tanto à trivia quanto a material de qualidade.

Mediador: Você, como observador do nosso mercado editorial, foi um garimpador de escritores. Você ajudou a apontar a relevância de Cuenca, Galera. Você continua com esse interesse?

Paulo: É o tipo de coisa que você não consegue parar de fazer. Vem do jornalismo, você quer estar ligado ao que está acontecendo a sua volta.

Mediador: Como editora de caderno cultural, você tentava fazer esse garimpo de talentos?

Annalena: É sempre excitante encontrar alguém novo que é muito bom. Encontrei duas poetisas, uma delas pra mim parecia um milagre, mas havia acabado de morrer, se chamava Dorothy Molloy. A outra é Alice Oswald. Você recebe sacolas enormes de livros e de repente encontra algo assim. É raro, mas é muito bom.

Mediador: Os jornalistas não vão mais à livraria, ficam esperando receber os livros.

Paulo: Sim, ficam refém dos assessores.

Annalena: Vou contar que eu ficava sempre de olho na vitrine de uma livraria independente lá na Inglaterra porque eles tinham muito bom gosto.

Mediador: Você passou anos como jornalista escrevendo ou começou assim que saiu?

Annalena: Eu ainda estava no jornal quando comecei a escrever. Consegui umas férias mais longas e fui viajar com meu marido. E ele sempre me lia o que havia escrito, e nesse ano eu resolvi contar uma história sobre uma jornalista de tabloide.

Mediador: Quais foram alguns dos encontros determinantes na sua carreira?

Annalena: Muitas, mas fiz uma entrevista de 4 horas com Arthur Miller, e conversei com Doris Lessing, e também tive a experiência de trabalhar com as ilhas Falkland.

Mediador: Qual foi a reação dos seus personagens, que existem, ao livro?

Paulo: Todo mundo me perguntava quem era o editor malvado do livro, que eu criei com minhas iniciais. Falei com Vila-Matas e ele perguntou se eu fiquei observando ele em Paraty, porque uma das cenas realmente havia acontecido. Eu disse que não, e ele disse que eu tinha feita um tipo de vingança pelos livros dele.

Mediador: O jornalista tem o pesadelo de ficar eternamente escrevendo as mesmas histórias. Como o jornalista literário pode sair desse ciclo?

Paulo: É cíclico realmente, como a morte do livro etc. O divertido é tenta começar novos caminhos.

Pergunta: Depois de ter trabalhado no jornal, como é se aventurar por outro estilo literário?

Annalena: O maior impacto foi sair do ritmo diário e passar para algo sem fim, em que não havia uma cobrança de ter o jornal na banca no dia seguinte. Foi um bom treino.

Paulo: O jornal te dá uma disciplina. E se você consegue escrever numa redação, consegue escrever em qualquer lugar. Mas há armadilhas, como a falta de deadline e a limitação de espaço.

Pergunta: Como você acha que será o jornalismo daqui a 10 anos na Inglaterra?

Annalena: Se eu soubesse, estaria rica. Eu gosto do jornal, mas também gosto de ler notícias na internet. Acho que vai virar um artigo de luxo, tipo queijo artesanal, e a maioria de nós lera online.

Pergunta: Você sente falta de algo do jornalismo?

Annalena: Foi um desafio, eu tinha o melhor emprego possível no meio. Sinto falta da adrenalina da redação, do trabalho em equipe.

Mediador: O jornalismo continua sendo o foco do seu trabalho?

Annalena: Eu me preocupei que só soubesse escrever sobre isso, mas por sorte eu tenho outro interesse que estou tentando desenvolver.

Annalena: Acho que muitos jovens querem virar escritores mas precisam de um salário, então vão trabalhar nos jornais e são fisgados.

Mediador: Ricardo Piglia disse em seus diários que toda forma que se torna obsoleta vira artística. É necessário que o jornalismo vire uma arte?

Annalena: Certamente eles precisam fazer análises e reportagens de qualidade porque as pessoas hoje em dia conseguem suas notícias em outros lugares.

Paulo: Há a ideia de que as pessoas vão ler notícias na internet e análises no jornal. Acho que não é isso que resolve, depende da qualidade do jornalismo.

Mediador: Que conselhos vocês dão a um jovem editor de caderno cultural? No que é preciso prestar atenção?

Annalena: Não seja condescendente com seus leitores. Mire pra cima, não pra baixo.

Paulo: Não fique tentando adivinhar o que os leitores vão achar.

Horário de término: 16h12

Semana cento e oito

Os lançamentos desta semana são:

A virada, Stephen Greenblatt (Trad. Caetano W. Galindo)
Em A virada, o acadêmico norte-americano Stephen Greenblatt conta a história de Poggio Bracciolini, um homem do século XV que caçava livros antigos, e sua descoberta aparentemente despretensiosa. Ele resgatou um poema esquecido durante séculos, que mais tarde influenciaria o pensamento dos principais responsáveis por nossa concepção de mundo moderno – de Galileu Galilei a Charles Darwin, de Nicolau Maquiavel a Thomas Jefferson, de William Shakespeare a Sigmund Freud.

Exclusiva, Annalena McAfee (Trad. Angela Pessoa e Luiz Araújo)
De um lado, a correspondente de guerra Honor Tait. Ela cobriu praticamente todos os grandes conflitos do século XX, além de ter levado uma vida amorosa movimentada e cercada de mistério. A “Dietrich da sala de redação” hoje tem oitenta anos, tornou-se desconhecida das novas gerações e vê sua carreira declinar. Do outro, Tamara Sim, colunista de um suplemento de celebridades, repórter freelancer movida a ambição e igualmente desconhecida. Quando a segunda é enviada para escrever sobre a primeira, o espaço que separa esses mundos dá lugar a uma guerra tragicômica repleta de segredos, mentiras e prazos apertados. Exclusiva revela com humor e veneno os bastidores do jornalismo, desde o funcionamento dos grandes jornais às eternas picuinhas de repórteres, colunas e editores.

Grandes esperanças, Charles Dickens (Trad. Paulo Henriques Britto)
Considerado por muitos críticos o principal romance de Charles John Huffman Dickens (1812-1870), Grandes esperanças conta a história de Pip, um órfão de família humilde que ao receber uma herança renega o passado e muda-se para Londres para tentar inserir-se na alta sociedade. Saudado por autores como Bernard Shaw e G.K. Chesterton pela perfeição narrativa, este romance discute, na figura do protagonista, a imoralidade, a culpa, o desejo e a desilusão. Esta edição traz o final considerado definitivo, escolhido por Dickens após ceder às críticas de que o primeiro era triste demais, e também um apêndice com o original, preferido por parte dos leitores. A introdução de David Trotter, especialista em literatura britânica e americana do século XIX, contextualiza o livro em sua época, revelando as ideias de reforma social defendidas pelo autor.

Serena, Ian McEwan (Trad. Caetano W. Galindo)
Serena é um romance sobre espiões. Não apenas porque a protagonista é uma jovem matemática que se vê recrutada pelo Serviço de Segurança britânico, mas também porque a ficção se revela um grande exercício de vigilância. Serena quer entender o comportamento misterioso de seu amante mais velho, e acha que estão escondendo alguma coisa dela. Max Greatorex observa Serena com olhos apaixonados, talvez até demais. Tom Haley não entende o que o destino, personificado pela mesma Serena, lhe deu aparentemente de graça. Mas Haley é um escritor, e seus contos refletem justamente sobre o papel do oservador e do observado. Afinal, um romancista é um ótimo espião. O que, neste romance, o leitor também precisará ser.

Cidade aberta, Teju Cole (Trad. Rubens Figueiredo)
A Nova York pós-Onze de Setembro percebida pelo nigeriano Julius, um psiquiatra que faz residência na cidade, carrega em si uma atmosfera de traumas ocultos e muita solidão. Em longas caminhadas por Manhattan depois do trabalho, o jovem médico traça reflexões e reminiscências pelas quais divisa sua história – a infância na Nigéria, a condição de migrante, seu amor pela música e pela arte – e a história da própria cidade em que vive e seus habitantes. Um romance premiado e memorável sobre identidade nacional, raça, liberdade, perda, deslocamento e renúncia. Escrito numa voz clara e rítmica que permanece, este livro é uma obra madura e profunda de um novo autor que tem muito a dizer sobre o mundo de hoje.

O desatino da rapaziada, Humberto Werneck
Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Murilo Rubião, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Gabeira, Ivan Angelo, Luiz Vilela… O que há em comum entre esses escritores de épocas, gêneros e estilos tão diversos, além do fato de que são mineiros (ainda que nascidos em outra parte, como o capixaba Rubem Braga)? É que todos eles se renderam também à paixão do jornalismo. Rico em informações para a história da imprensa e da literatura, este livro vai além: é sobretudo uma saborosa crônica de meio século de vida num lugar que tem dado ao país tantos bons poetas, prosadores – e jornalistas, naturalmente.


Editora Paralela:

O leitor de almas, Paul Harper (Trad. Renata Guerra)
Lore Cha e Elise Currin – esposas de dois poderosos e influentes empresários de San Francisco – estão tendo casos extraconjugais com o mesmo homem. As regras dos encontros são sempre as mesmas: nomes verdadeiros e detalhes pessoais ficam fora do quarto. Mas quando Vera List, a psicanalista de Lore e Elise, percebe que seus arquivos profissionais estão sendo violados e informações confidenciais , medos e fantasias das mulheres estão sendo utilizados para manipulá-las, o que não passava de uma grande coincidência se torna um perigo fatal. Com um roteiro tenso e uma narrativa eletrizante, O leitor de almas é um thriller que segue a tradição dos grandes romances policiais pelo estilo elegante, pelo gosto por personagens complexos e pela capacidade de surpreender o leitor a todo momento.