anthony bourdain

Semana sessenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Ao ponto, de Anthony Bourdain (Tradução de Celso Nogueira)
Quem gosta de programas de culinária já conhece o crítico ranzinza Anthony Bourdain. Com seu programa de tevê, ele roda o mundo atrás de bons pratos e das histórias de quem os prepara. Seja comendo carne apimentada num bar sujo em Chengdu ou descrevendo o menu quatro estrelas do chef Thomas Keller, o que importa a ele é o material humano que compõe esse rico universo da gastronomia. Claro que Bourdain não se furta a longas e saborosas descrições culinárias, com requintes de crueldade que ele mesmo admite. Mas os textos reunidos neste livro vão muito além de um bom jantar. Bourdain desanca medalhões da crítica gastronômica, examina a indústria de fast-food americana e revela os bastidores do reality-show Top Chef. (Leia o capítulo “Educação básica”)

A forma difícil, de Rodrigo Naves
Publicado originalmente em 1996, este livro tornou-se um clássico da crítica brasileira. Ao analisar a obra de artistas como Debret, Almeida Júnior, Guignard, Volpi, Amilcar de Castro e Mira Schendel, Rodrigo Naves não busca inseri-los em uma determinada linha ou esquema teórico artificial. Pelo contrário, o que ele aponta é a dificuldade de encontrar “nexos esclarecedores” entre essas obras, para depois investigar o que isso diz sobre nossa melhor produção. A forma difícil é um estudo original e indispensável sobre a arte feita no Brasil.

Terramarear — Peripécias de dois turistas culturais, de Ruy Castro e Heloisa Seixas
Ruy Castro e Heloisa Seixas são dois grandes viajantes. Nas últimas décadas, têm rodado o mundo, levados por vários motivos, inclusive profissionais. Mas eles não são meros turistas. Quando viajam, buscam sempre o espírito dos lugares — a cultura das ruas pelas quais passeiam e suas relações com a história, a arquitetura, a música, o cinema, a gastronomia. Com isso, descobrem os roteiros mais surpreendentes, em Nova York, Paris, Roma, Veneza, Madri, Barcelona, Sevilha, Havana, Moscou, Saint-Tropez, Rio — e que, agora, eles nos revelam em Terramarear. (Leia o capítulo “Flanando pelo dédalo de ruelas”)

Branca de neve, de Fabrice Tourrier (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
Quem não conhece a princesa que nasceu com a pele tão clarinha que foi chamada de Branca de Neve? E a madrasta malvada que sempre queria saber quem era a mais bela do reino e por isso não deixava em paz seu espelho mágico? Nesta edição desse célebre conto de fadas, destinada aos pequenos leitores, materiais de diferentes texturas são usados nas ilustrações. Dessa forma, as crianças poderão tocar a palha da cabana dos sete anões, o tecido do manto da bruxa e a maçã envenenada e também se mirar no espelho mágico. No final do livro, uma dobradura ilustra o desfecho da história.

Cachinhos dourados, de Annelore Parot (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
Era uma vez uma mamãe ursa, um papai urso e um filhinho urso, que viviam em uma bela casa na floresta. Um dia, ao voltarem de um passeio, encontraram a casa toda revirada e uma menina de cabelos cacheados e amarelos feito ouro dormindo na cama do ursinho. Pena que, ao acordar, ela ficou assustada e fugiu. O pequeno urso nem pôde convidá-la a conhecer sua casa… Nas ilustrações desta edição, as crianças poderão tocar a pelagem dos ursos, o assento das cadeiras e o tecido dos lençóis. E também, ao puxar as setas, descobrir a Cachinhos Dourados dormindo e vê-la fugir para dentro da floresta.

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Além destes, também foram lançados mais 4 volumes da Coleção Prêmio Nobel. São títulos de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura, em edição limitada de capa dura e revestida de tecido.

Anthony Bourdain vs. Ronald McDonald

Quem gosta de programas de culinária já conhece o crítico ranzinza Anthony Bourdain. Com seu programa de tevê, ele roda o mundo atrás de bons pratos e das histórias de quem os prepara. Seja comendo carne apimentada num bar sujo em Chengdu ou descrevendo o menu quatro estrelas do chef Thomas Keller, o que importa a ele é o material humano que compõe esse rico universo da gastronomia.
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Dez anos depois do best-seller Cozinha confidencial, livro de memórias em que Bourdain narra os bastidores da cozinha de grandes restaurantes, o ex-chef volta com novas histórias em Ao ponto, que lançaremos dia 26. Nele, o autor participa de um banquete com os chefs mais renomados, circula de lambreta por Hanói atrás da sopa pho perfeita, come espetinhos com trabalhadores em Tóquio e bebe todas num carrinho de tacos no México.
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Claro que Bourdain não se furta a longas e saborosas descrições culinárias, com requintes de crueldade que ele mesmo admite. Mas os textos reunidos neste livro vão muito além de um bom jantar. Bourdain desanca medalhões da crítica gastronômica, examina a indústria de fast-food americana e revela os bastidores do reality-show Top Chef. Também revê seu passado com as drogas, agora sob a perspectiva de quem encara a paternidade pela primeira vez. E, como numa espécie de epílogo, narra o que aconteceu com os personagens de Cozinha confidencial uma década depois.
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Leia abaixo um capítulo de Ao ponto (tradução de Celso Nogueira):

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Capítulo 10: Educação básica

Minha mulher e eu estamos falando baixinho, bem na porta do quarto de nossa filha, onde ela finge dormir.

“Psssiiu! Ela vai ouvir tudo”, diz minha mulher, em tom teatral e conspiratório.

“Nada disso, ela já está dormindo”, sussurro em voz um pouco alta, como fazem os atores no palco.

Conversamos sobre Ronald McDonald novamente. Discutimos a possibilidade de seu envolvimento no desaparecimento de mais uma criança pequena.

“Não! Mais uma!”, suspira minha mulher, bancando a incrédula.

“Uma pena”, comento, preocupado. “Ela entrou para comprar batatinha frita e um McLanche Feliz e nunca mais foi vista…”

“Alguém procura por ela?”

“Claro que sim… estão vasculhando tudo que é lugar… foram até no Hamburglar, o esconderijo dos malvados. Mas eles desconfiam de novo do Ronald.”

“Por que desconfiam do Ronald?”

“Sabe… da última vez? Quando finalmente encontraram o menininho? Como era mesmo o nome dele… Timmy? A polícia descobriu várias pistas. O corpo… cheio de… piolhos.”

Era apenas mais um ato de nossa produção dramática — pequena contribuição a uma campanha mais ampla de guerra psicológica. O alvo? Uma menina de dois anos e meio.

Há muita coisa em jogo. Na minha opinião, nada menos que o coração, a mente, a alma e o bem-estar físico de minha adorada filha única. Decidi que o Império do Mal não a dominará, e para tanto estou preparado para usar o que Malcolm X chamou de “todos os meios necessários”.

O McDonald’s tem sido muito habilidoso em manipular criancinhas. Digam o que disserem sobre Ronald e sua turma, eles conhecem o mercado — e quem o controla. Eles não deixaram de visar as mentes jovens — na verdade, o orçamento promocional de zilhões de dólares parece destinar-se principalmente aos pequenos. Eles sabem que uma criança chorando no banco traseiro do carro de dois pais sobrecarregados e estressados determinará, na maioria das vezes, a escolha do restaurante. Eles sabem exatamente quando e como iniciar a campanha de identificação e fidelização à marca, usando palhaços coloridos e brinquedos atraentes. Sabem que o pequeno Timmy, com cuidado, paciência e exposição correta aos objetos coloridos, crescerá para se tornar um consumidor pleno de múltiplos Big Macs. Por isso dizem que Ronald McDonald é mais conhecido pelas crianças que o Mickey Mouse ou Jesus.

Pessoalmente, não me importa se minha filha conhece ou não os dois caras citados — mas o relacionamento dela com Ronald me preocupa muito. Desejo que ela veja a cultura americana de fast-food como eu a vejo: minha inimiga.

Em estratégias como seduzir crianças de escolas carentes da periferia à malandragem de construir brinquedos, o McDonald’s não se envergonha de foder com a cabeça dos pequenos de todas as maneiras possíveis. Eles são espertos. E eu não tiraria deles o direito de fazer propaganda e promoção, ou outras formas de divulgação. Se a Disney pode se insinuar na vida dos jovens de todas as partes, tudo bem que Ronald também faça isso. Não vejo justificativa defensável para levá-los aos tribunais. De todo modo, são poderosos demais.

Onde quer que você vá, o Palhaço, o Rei e o Coronel estão nas ruas. Ou, melhor dizendo, nas mesmas mentes juvenis impressionáveis que eles conseguiram enganar com sucesso por tanto tempo.

Minha intenção é ferrar com eles também.

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De Tony para Tony

Por Tony Bellotto

Sempre me perguntam se meu trabalho como guitarrista atrapalha ou ajuda minha carreira de escritor. A resposta é a mais óbvia, idiota e não esclarecedora possível: as duas coisas. Atrapalha e ajuda. Como diria o Caetano Veloso: ou não. A pergunta pressupõe que para certas pessoas o fato de eu tocar guitarra é, de alguma forma, incompatível com a labuta do escritor. Como se escrever fosse muito diferente de tocar guitarra, dirigir um ônibus, pintar paredes, plantar bananeira ou tirar leite de uma vaca. Não é.

Além do mais, ninguém é só escritor. Todo escritor que conheço, Paulo Coelho incluído, tem outra profissão. No caso do Coelho, do Veríssimo, do Ubaldo e de muitos outros, essa segunda (ou será a primeira?) profissão é o trabalho na imprensa. Isso sem contar os anos que o Paulo Coelho passou escrevendo letras, compondo canções e ralando em gravadoras de discos. Se Tcheckov, assim como Moacyr Scliar e Dráuzio Varella, era médico, se Conrad era marinheiro, se Chico Buarque é compositor e cantor, Jô Soares, humorista, se Rubem Fonseca já foi delegado e executivo, se Bukowski foi carteiro, Nelson Motta, jornalista e compositor, e Anthony Bourdain, chefe de cozinha, por que não posso ser guitarrista?

Aliás, você conhece o Tony Bourdain? É claro que Paulo Coelho, Veríssimo, João Ubaldo, Tcheckov, Moacyr Scliar, Dráuzio Varella etc. etc. dispensam apresentações, mas o trabalho literário do Anthony Bourdain merece uma atenção especial. O cara foi, por muitos anos, chefe de cozinha de uma badalada brasserie em Nova York, e apesar disso, ou por causa disso, ou independentemente disso, escreve muito bem. Usando uma técnica que mistura a literatura gonzo do Hunter Thompson, com pitadas de devaneios beats (beatíficos, diria Jack Kerouac), com um cinismo na melhor tradição de um Raymond Chandler, o homem manda muito bem em livros como Cozinha confidencial, Em busca do prato perfeito: um cozinheiro em viagem e outros. Claro, não espere um livro de receitas — embora ele tenha também um livro de receitas do Les Halles, a brasserie onde bateu ponto por décadas —, mas uma radiografia cínica e bem humorada do mundo da gastronomia internacional, com tudo o que tem de saboroso e ridículo. Além disso, o Bourdain é fã dos Ramones — a grande banda punk americana — e todo fã dos Ramones é uma espécie de primo meu.

É isso aí, munidos de frigideiras ou guitarras, os Tonys estão aí para comprovar a velha máxima punk: do it yourself. Quer escrever? Escreva.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

Links da semana

Aqui na Companhia nós estamos às voltas com os últimos preparativos para o lançamento do selo Penguin-Companhia das Letras. Acima você vê as provas finais dos quatro primeiros títulos.

Ontem foi o Dia do Rock e, para comemorar, o Meia Palavra e o Mundo Livro fizeram listas de recomendações só com livros sobre o tema.

Ainda falando sobre música, o autor da série Scott Pilgrim, Bryan Lee O’Malley, comenta em seu blog as músicas que entraram para a trilha sonora da adaptação cinematográfica do quadrinho. Para quem está ansioso pelo filme, um featurette foi lançado, com algumas sequências inéditas e comentários de atores e do diretor. O filme tem lançamento previsto para outubro no Brasil, e a editora lançará o segundo volume em setembro.

O curso Publishing Management – O Negócio do Livro da Fundação Getulio Vargas (FGV), que já está em sua terceira turma no Rio de Janeiro, será oferecido em São Paulo, em parceria com a Associação Academia Internacional de Cinema (AAIC). As matrículas estão abertas para turma que se inicia em 21 de agosto de 2010.

A revista Veja está organizando um concurso de resenhas. Basta enviar uma resenha de um dos seis livros escolhidos pela publicação. Serão quatro premiados, que receberão um e-reader Kindle. Sérgio Rodrigues, do Todoprosa, dá dicas de como escrever uma boa resenha.

Os e-readers, aliás, parecem estar prestes a invadir o mercado brasileiro. Pelo menos duas empresas brasileiras pretendem lançar seus leitores digitais nos próximos meses. E, enquanto se discute a utilidade do iPad no meio acadêmico, os escritores já encontraram nos aparelhos da Apple diversas ferramentas úteis para seu trabalho.

Mas nem todos estão satisfeitos com o crescimento da leitura digital: Ricardo Kotscho, autor de Do golpe ao Planalto, lamenta o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, onde trabalhou por muitos anos.

A Casa do Saber está oferecendo 75% de desconto em seus cursos de quatro aulas, e Eduardo Brandão, tradutor dos livros de Roberto Bolaño, deu uma entrevista à Folha falando sobre seu trabalho.

Ao mesmo tempo que a polêmica sobre uma suposta continuação da Trilogia Millennium se desenrola, fãs de diversos países começam a visitar a Suécia em busca dos locais mencionados nos livros.

O blog iCult Generation resenhou a graphic novel Maus, de Art Spiegelman. A Julianna, do Caleidoscópicas, falou sobre A revolução dos bichos, e o Rafael, do Metempsicose, leu Verão, de J.M. Coetzee.

O grupo Improv Everywhere recriou uma cena de Star Wars dentro de um vagão do metrô de Nova York, um sobrevivente do holocausto dançou I will survive com a filha e os netos em marcos históricos do nazismo para comemorar sua sorte, e o Shakesperean Insulter oferece opções peculiares de xingamentos, inspirados ou retirados diretamente dos textos do bardo inglês.

A Mari, do Todos os livros do mundo, postou uma resenha de Achei que meu pai fosse Deus, o Pedro mantém um blog onde disseca vários aspectos da série As aventuras de Tintim, enquanto um jornalista americano pondera sobre a quantidade de artistas brasileiros trabalhando em gibis americanos.

E, por fim, a Companhia comprou os direitos de publicação de Medium raw: a bloody valentine to the world of food and the people who cook, continuação de Cozinha confidencial, e a revista Slate fez uma entrevista com o autor, o chef e apresentador Anthony Bourdain.