antonio cicero

Mesa de abertura: Flip, ano 10 + Drummond 110

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Convidados:

Uma sessão dupla abre a décima edição da Flip. Em comemoração aos dez anos do evento, Luis Fernando Verissimo começa a noite falando sobre o valor da literatura, razão de ser da festa. Silviano Santiago e Antonio Cicero fazem em seguida a conferência sobre o autor homenageado da Flip 2012, Carlos Drummond de Andrade, cujo nascimento completa 110 anos em outubro. Do panorama da relação de Drummond com o século XX à leitura detalhada de um de seus poemas, Santiago e Cicero descrevem os traços fundamentais da obra de um dos maiores escritores brasileiros.

Horário de início: 19h

A conferência de abertura começa com Miguel Conde, curador da 10ª Flip, que apresenta o autor Luis Fernando Verissimo: “ele disse que aceitaria qualquer convite da Flip, mesmo que fosse pra trocar uma lâmpada”.

Verissimo: Há 4 anos fui convidado para apresentar o dramaturgo Tom Stoppard. Subi no palco e disse: “é uma honra estar aqui na Clip.” Acho que 4 anos depois, eles resolveram me dar uma chance de me redimir. Depois de pensar por esses anos, resolvi que a melhor defesa é o ataque: digo que troquei o F pelo C de propósito, acreditando que a plateia entenderia.

Verissimo: Há 10 anos Liz Calder conspira para nos deixar mais inteligentes. O meu C errado pode ser do Circo da Flipinha, ou de Conhecimento.

Silviano Santiago e Antonio Cicero sobem ao palco.

Silviano: O século 20 é o irmão mais velho de Drummond. Os dois viram o cometa Halley, a 1ª Guerra. Drummond vai a BH, publica a pedra no meio do caminho, forma-se em Farmácia, flerta com o trabalho público. Chega a 2ª Guerra, ele entra para o partido comunista, passa a viver apenas de sua produção artística. Século e Drummond chegam à década de 60, os novos universitários são cabeludos e ouvem rock and roll. Mas pouco depois o século e o regime se tornam repressivos, e o sistema faz apologia à sociedade de consumo. Drummond e século sobrevivem no futuro do passado.

Na obra de Drummond estão a oposição e contradição entre razão e emoção, Marx e Proust, e o gosto pelos valores tradicionais da sociedade.

Com o pai trabalhando e o irmão se dedicando à música, o pequeno Drummond passou a viver no mundo dos livros, como mostra o poema “Infância” e a citação a Robinson Crusoé. Depois chega a descoberta amorosa e as mamas da lavadeira. Depois a época de revoluções, em que sua família é o alvo. Mas então o poeta tenta se aproximar da classe trabalhadora, como por exemplo no poema “Operário”.

Foi necessário que ele perdesse a família e amadurecesse como poeta para retornar aos valores familiares e aceitasse sua posição, com a série de livros Boitempo.

Existem 2 Drummonds: o 1º compreendeu as pessoas de seu tempo, fez críticas sociais. O 2º assumiu os valores patriarcalistas e passou a ver o mundo pelo espelho retrovisor.

Antonio Cicero vai ler e comentar o poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo.

O livro foi publicado ao fim da 2ª Guerra. A náusea representa a reificação e a coisificação do ser humano.

Na 1ª parte do poema, o personagem que se mudou para a cidade grande e se frustrou tenta se misturar à multidão e flerta com o suicídio.

Mas na parte “A cidade sou eu” passa a haver identificação do personagem com a cidade.

As máquinas permitem a automatização de muitas tarefas. Era de se esperar que isso resultaria em muito tempo livre, mas a verdade é o oposto: nosso tempo está preso ao trabalho. Mesmo as atividades de lazer, que substituem a poesia, viraram linhas de produção.

A 2ª estrofe apresenta o tempo presente como injusto. O sujeito e o relógio se confundem. Tempo e olhos estão cobertos de pobreza e sujeira.
Na 3ª estrofe o sol consola, mas não resolve.

Na 4ª estrofe, o tédio aparece. “Nenhuma carta escrita nem recebida” mostra a solidão.

5ª estrofe: o poeta parece chamar de crime alguns de seus próprios poemas. Como no poema em que diz “o último poeta morreu em 1914”. Depois de guerras e atrocidades, escrever um poema seria um crime.

Na 7ª estrofe, a ênfase não são as barbaridades, mas uma flor. A flor não é revolução nem manifestações sociais. A 8ª estrofe diz: a flor é feia, difícil de perceber.

Na última estrofe, parece que algo extraordinário aconteceu com o nascimento da flor. O poeta se senta no chão para apreciar o fenômeno. A flor é metáfora não de mudanças sociais, mas sim da própria poesia, que fura o asfalto, o ódio, a náusea. A mensagem do poema é: como é maravilhoso o surgimento da poesia em um mundo tão inóspito.

Horário de término: 20h38