bahia de todos os santos

O Guia de Jorge

Por Joselia Aguiar

12345

Os azulejos, a grande porta aberta sem ninguém à vista para me receber, os móveis de madeira da sala onde me sentei, o barulho de conversa que vinha do jardim: tantas vezes contei o meu único encontro com Jorge Amado, enfatizando esse ou aquele ângulo mais humorado ou plástico, que agora o esforço é o de retroceder a um sóbrio relato inicial para recuperar uma espécie de fundamento amadiano talvez escamoteado por entre as versões.

Uso vestido de flores miúdas e uma sandália que mais parecem chinelos, carrego um gravador grande, bloco e caneta.  Sou repórter C num jornal baiano que estreava para fechar pouco depois e, entre minhas atribuições, escrevo para uma seção chamada Cidade da Bahia. Artistas, escritores e intelectuais revelam aí o lugar de que mais gostam, aquele que lhes traz a mais bonita memória ou lhes despertou uma inspiração particular. São essas as três perguntas, é isso que têm de me responder. Para sair foto sua, ao lado da foto do tal lugar, numa página de domingo.

Por inteiro o nome é Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Até a virada para o século 20, abreviava-se Cidade da Bahia. Passou a ser Cidade do Salvador e, depois, apenas Salvador. Por que escolheram uma repórter C para ir entrevistar um dos mais importantes autores da língua portuguesa? Menos simples de esclarecer; creio que porque gostava de literatura.

Os minutos se passam, e não há como Jorge Amado me dar objetivamente o que quero. Viera da conversa no jardim com outro jornalista, já despachado. Vendo sua camisa com um alegre estampado e os chinelos, me sinto em casa. Parece contrariado. Parece, não. Está contrariado. “Todos os lugares da Bahia.” “Mas tem de escolher um só, no máximo três…” Explico outra vez a pauta. Dou exemplos. O seu amigo Calasans Neto me contou do Beco do Mingau. De tão maravilhado, jamais conseguiu reproduzi-lo em tela. João Ubaldo, claro, citou a Ilha de Itaparica. É outro município, mas ninguém exige rigor.

Súbito se levanta. “Fique aí”. Segue casa adentro. A uma senhora que surge pelo corredor, diz: “Dá sorvete à menina, Zélia”. Volta com um exemplar de seu Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios. Assina: “Com um beijo de Jorge”. E se livra de mais um jornalista.

O sorvete era de manga.

A Cidade da Bahia, Jorge Amado conheceu como repórter mal saía da adolescência em fins da década de 1920. Das páginas policiais logo chegou às de política. Estabeleceu-se no Rio. Exilou-se em Estância, depois Buenos Aires e Montevidéu. Quando escreveu o seu guia vivia de novo como jornalista na capital baiana. Não era mais um iniciante.  Co-dirigia a redação de um jornal que deixou de existir pouco depois. Autor de sucesso e militante comunista, estava impedido de circular pelo país – ele e sua obra — por determinação da ditadura de Getúlio Vargas. Recomeçava a publicar romances cujos enredos transcorriam na região cacaueira em décadas anteriores, Terras do Sem Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), ambos fora do contexto da luta política daqueles dias. Para continuar a despistar, preparou um título de aparência turística, gênero que estreava no mercado de livros brasileiros.

“Não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Vem, a Bahia te espera”.  Sim, estão lá topografia, personagens e história, o calendário das festas populares, receitas com dendê, leite de coco e pimenta.  Mas a primeira edição (1945) é turística só na aparência. “Junto com a poesia, te direi da dor.” Entre as extravagâncias, o autor endereça a visitante imaginária a bairros proletários, dá números minuciosos da tuberculose e até recomenda que, se tiver coragem, assista a dois ou três enterros de anjos – os defuntos-bebês–, experiência com que conhecerá de fato a cidade, “múltipla e desigual”. Como adverte: “se és apenas uma turista ávida de novas paisagens, de novidades para um coração gasto de emoções, viajante de pobre aventura rica, então não queiras esse guia.” E faz a lista “mais completa que foi possível organizar” de  terreiros de candomblé a conhecer, época em que ainda sofriam a invasão da polícia.

Reescrito pelo autor para atravessar décadas, o guia foi perdendo em denúncias como essas e ganhando em afetos. Na Bahia dos meus dias de repórter C, uma anedota corrente sugeria que, a cada republicação, o autor precisava fazer novos verbetes para acrescentar mais amigos. Um desses incluídos significou um gesto politicamente ousado: Carlos Marighella, guerrilheiro morto pela ditadura civil-militar em curso à época, em fins da década de 1970. “Retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano.” A graça de comparar edições é também encontrar o que nunca mudou. Como a descrição de Salvador que me parece a mais característica sua, presente já na primeira: “escorre o mistério sobre a cidade como um óleo”. As suas percepções sobre o temperamento do habitante: “o baiano faz da amabilidade uma verdadeira arte, é arguto até não mais poder”, “um pouco derramado e um pouco distraído, um pouco poeta mas também astutamente político”. Constato que o guia serve para conduzir-me por sua obra através do tempo. O fundamento amadiano é evidente na justa soma de suas versões.

Passados tantos anos, ainda me espanta pensar como me deu objetivamente o que ele queria.  Na materialidade de um livro, compreendia sua recusa. “Todos os lugares da Bahia.”

* * * * *

 

Joselia Aguiar é jornalista da área de livros, mestre e doutoranda em história (USP).  A convite da editora Três Estrelas, do grupo Folha de S.Paulo, iniciou em 2011 pesquisas e entrevistas para escrever a biografia do escritor Jorge Amado, projeto que se encontra em sua última fase.