bartolomeu campos de queirós

Dulce, a abelha

Por Ninfa Parreiras

dulce_ilu_06 cópia
Ilustração de Mariana Newlands.

Que interesse uma abelha poderia despertar em um leitor? Não estou falando de um livro de biologia, nem de informação sobre colmeias. Aqui, a abelha é a personagem principal — uma metáfora para a figura inquieta de um escritor às voltas com a passagem do tempo, com a vida e com a criação literária. Isso porque a abelha deste conto, escrito pelo mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, tem diabetes e vive com limitações de saúde nos seus últimos anos de vida.

Bartolomeu partiu em 2012. Poucos textos desse consagrado escritor de prosa e de poesia ficaram para ser publicados. Isso porque ele não costumava guardar rascunhos. Escrevia, passava a limpo, lia, segurava até o ponto de seguir para uma editora. Assim aconteceu com seus mais de sessenta livros publicados. Ele gostava de lapidar as palavras, de trabalhar as sonoridades. Brincava com a semântica, com os sons. Ou, então, descartava os apontamentos que não serviam para virar livros publicados.

A história Dulce, a abelha já havia sido incluída na coletânea Cuentos infantiles brasileños, organizada pela bibliotecária e especialista em literatura Gloria Valladares Grangeiro e por mim, para a Embaixada do Brasil da Costa Rica, em 2011. Foi publicada juntamente com contos de Joel Rufino dos Santos, Marina Colasanti, Ana Maria Machado, Ziraldo e outros destacados escritores. Agora chegou a vez de Dulce ser conhecida também em português por leitores brasileiros de todas as idades. Isso porque o conto não é datado. Tem como características principais a atemporalidade e a universalidade de afetos.

Em um encontro com Bartolomeu para selecionar textos para a coleção Para ler na escola, ele me segredou que gostaria de ver Dulce em um livro ilustrado para crianças de todas as idades. Há textos que pedem um livro próprio, outros vão acompanhados. Preferiu não incluir a história da abelha na antologia de contos e poemas e aguardar uma edição separada. Aconteceu como ele desejou: Dulce foi publicado em um exemplar lindamente ilustrado. O poeta gostava de apreciar os livros belamente publicados, o capricho dos editores. Ficava contente quando recebia um exemplar bem editado.

Do interesse do autor pela natureza, pelos bichos e pelo tempo, encontramos em Dulce o olhar minucioso de um poeta antenado com as questões da materialidade, da vaidade. A abelha personagem é singular, não é um inseto comum. Em Dulce percebemos o olhar sobre as relações, a vida contemporânea. Bartolomeu gostava de pensar questões controversas dos humanos em histórias com animais e seres da natureza (Até passarinho passa, O gato, A árvore são alguns exemplos). Essa é uma marca da obra literária do escritor.

Nascido numa pequena cidade do centro-oeste mineiro, Bartolomeu passou a infância na roça, rodeado de bichos e de plantas. E sob os cuidados de uma mãe zelosa, sempre pronta para oferecer pratos bem acabados aos filhos, mesmo que faltasse a carne. Brincadeiras de pés no chão e no quintal não faltaram para enriquecer as fantasias do menino que mostrou, desde cedo, seu interesse pela estética e pela arte das palavras.

Com ilustrações que alternam pinceladas de fundo para os cenários e os pequenos seres desenhados, Mariana Newlands investe um olhar lúdico e, ao mesmo tempo, lírico na obra. Suas cores extravasam as páginas e nos tocam com uma sentimentalidade que conversa com as limitações da vida. E prova que a arte é perene e sobrevive para além dos criadores.

A edição caprichada da Alfaguara Infantil chega para manter o público atento às criações delicadas de Bartolomeu, que nos deixou uma obra de alta qualidade filosófica e sociológica, para todas as idades e públicos. Como nos dizia o escritor argentino Jorge Luis Borges, as pessoas partem, mas suas obras perduram.

* * *

dulceabelha2DULCE, A ABELHA
Sinopse: As abelhas são trabalhadoras incansáveis. Desde pequenas buscam o néctar das flores para então fabricar a cera e o mel. Mas a abelha dessa história nasceu diferente. Ela se chama Dulce e o açúcar lhe dá tonteiras, falta de ar. Com a ajuda das irmãs, Dulce tenta encontrar um jeito de ser como o restante da colmeia. Esta comovente ― e também surpreendente ― história trata de valores universais como perda e aceitação. Mesclando humor e lirismo, Bartolomeu Campos de Queirós convoca cada leitor a extrair desta pequena obra-prima um sabor diferente.

Dulce, a abelha já está nas livrarias.

* * * * *

Ninfa Parreiras é escritora e psicanalista, estudiosa da obra de Bartolomeu Campos de Queirós.