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Em tradução (artes)

Por Caetano Galindo

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Cy Twombly, “Untitled”, 1968/1971

Na coluna deste mês, Caetano Galindo escreve para a série de textos A primeira vez

* * *

Eu tenho cabeça de músico. As minhas “primeiras vezes” mais encantadoras vieram de música. Asyla ao vivo na sala São Paulo. Os Toy Dolls ao vivo no AeroAnta. Raphael Rabello no Teatro Guaíra. O “adagio” do primeiro Concerto de Brandemburgo no primeiro vinil que eu comprei.

Mas se o espírito geral dessa coluna é falar de tradução, vou ficar com outra arte. Eu, camaradinha cuja sensibilidade visual é míope na mesma medida das faculdades oftálmicas. Mas mesmo os ogros têm seus momentos, e eu, nessa última década-e-quase-meia com a Sandra, fui a mais museus e aprendi mais sobre artes plásticas do que em toda a minha vidinha prévia.

Dessa trajetória, eu tiro alguns nomes. Bernini. Turner. Twombly.

Bernini eu vi pouco ao vivo. Turner, bastantinho. E a exposição Turner and the Sea, em Greenwich (fomos juntos, mas no dia seguinte eu encarei a viagenzinha de novo, sozinho, pra ficar sem mais ninguém diante das marinhas que ele pintou no fim da vida, bem na hora de abrir a exposição) é uma “primeira vez” pra ninguém botar defeito.

Agora o Twombly…

Eu tinha visto uns quadros dele. Lembro especificamente de um, que a bem da verdade é meio que a única coisa de que eu lembro bem de toda a Bienal de São Paulo de 1996, pra onde eu me mandei de busão pra tentar ser um cabra civilizado.

Mas, em tempos pré-Google & -Wikipédia (sim, jovem leitora, jovem leitor…), e se você ainda fatora aquele ogrismo pré-confessado, não pude ir atrás de mais nada. Só guardei a imagem da tela, que parecia uma lousa verde de escola rabiscada de giz, e esse nome meio difícil de esquecer.

Catorze anos depois, já com a Sandra, em Munique, a gente tirou um dia pra ir ver o museu Brandhorst.

Eu fui meio assim…

Arte contemporânea às vezes me deixa meio desinteressado. Mas fui. Diga-se de passagem, só o prédio do museu já vale o ingresso.

Vimos o térreo, vimos o subsolo e tal. Coisas boas. Nomes sólidos. Tudo muito interessante. Mas aí a gente subiu pro último andar, que é todo dedicado a Twombly.

Eu não tenho como te descrever o que aconteceu comigo nessa hora. Na verdade, ainda acontece. Está me deixando de queixola trêmula aqui, agora, enquanto escrevo. Enquanto lembro.

Tudo ali em cima é sublime.

Esculturas, telas isoladas. Mas aí você entra numa sala retangular imensa que tem basicamente rosas. Aquelas rosas inimitáveis que só ele sabia pintar, no limite do figurativismo infantil e barato e do abstracionismo mais “conceitual”. O efeito daquela sala já é uma pancada.

E além de tudo ele rabisca uns textos nas telas, e um deles é o all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well que o velho T.S. Eliot copiou de Juliana de Norwich, uma mística inglesa da virada do século XV, e que de alguma maneira sempre faz vibrar o meu coraçãozinho mirrado.

Acabasse ali, aquela visita já ia ficar marcada aqui na vida das retinas fatigadas deste que vos tecla.

Mas a sala mais recolhida, no extremo daquele andar, como que o último canto do museu, foi originalmente projetada, inteira, pra receber um conjunto de obras. Há ali duas esculturas, também, mas a longa parede branca daquela sala em formato de meia-lua, toda a curva que te encara encantadora no momento em que você pisa ali dentro, é dedicada a um ciclo de 12 telas pintadas para “narrar” a batalha naval de Lepanto, em 1571, entre a “Liga Santa” e o Império Otomano. A batalha onde Miguel de Cervantes acabou ferido.

É isso que eu não sei contar. É isso que eu não sei se consigo tentar dizer.

O efeito daquilo.

O branco total daquele arco, que espelha os arcos negros que iconizam os barcos envolvidos na batalha, o lindo azul do mar, o sol e o sangue. A cada tela mais sangue. Mais violência. E no entanto o conjunto todo transmite um esplendor, uma leveza…

Ver aquilo ali, no que hoje é pra mim talvez o meu lugar preferido no mundo (ainda não voltei… ainda não voltei…), foi a coisa mais próxima de uma experiência religiosa que um fato não-musical gerou em mim. O choque de morte e arte, de beleza e fim, de encanto e pasmo. Awe, como dizem os ingleses.

A estranha sensação de que do meio daquilo tudo saía a notícia de que de fato tudo ficará bem, e tudo ficará bem, e toda sorte de coisas ficará bem.

Não sei se foram escamas. Mas alguma coisa me caiu dos olhos naquele caminho que me levou até Lepanto.

Tente ir ver.

Não acredite em mim.

Eu não consigo te dizer. Nem aqui nem aqui.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Miley Cyrus! Miley Cyrus?… Miley Cyrus…)

Por Caetano Galindo

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Miley Cyrus no clipe de Wrecking Ball.

(Ali Smith, né. Ela apronta, e a gente tem que encarar.)

Quem passou na frente da sala 1010 do Curso de Letras da UFPR, nesta quinta-feira, percebeu um estranho coro de vozes a princípio envergonhadas e progressivamente mais empolgadas. A melodia era Wrecking Ball, de Miley Cyrus. Mas se as pessoas parassem pra ouvir, iam perceber que a letra era bem outra.

A questão é que, nesse Como ser as duas coisas, que deve sair no começo do ano que vem, há um momento em que duas meninas decidem que pra decorar os fatos a respeito do DNA, o melhor que elas fazem (no mais puro espírito professor de cursinho) é encaixar os dados numa nova letra pra uma música conhecida. E elas escolhem a dona Miley.

Mais ainda, um pedaço do nome do livro (que pipoca o tempo todo) aparece na letra delas, espelhando um tema geral da obra.

Mais ainda, uma das meninas meio que deixa um recadinho pra outra ao manter o último verso da letra original, com uma desculpinha fuleira.

E toca traduzir então a paródia (paródia?). Rimas etc… Tudo bem, o normal de traduzir poesia.

Mas aí entra em cena coisa outra. Porque traduzir canção não é a mesma coisa que traduzir poesia. Se é pra manter a “cantabilidade”, os critérios têm que ser bem outros. Por vezes mais estritos (certos choques de consoantes atrapalham, vogais posteriores com notas agudas incomodam…), mas por vezes mais flexíveis, porque sempre dá pra ensalsichar uma sílaba a mais no verso cantado, via anacruse, via quiáltera… essas coisas. Assim como dá pra melismar uma sílaba pra virar três ou quatro.

A gente, aliás, descobriu a validade de tudo isso recentemente, no divertido projeto que foi trabalhar na versão inglesa da cançãozinha d’O Gigante, de Angelo Mundy. Cheguei a gravar uma faixa só de voz e uquelele pra indicar o lugar dos acentos e tal…

Porque eu não conheço outro jeito. Você decora a melodia e tenta ir encaixando novos versos. Cantando mesmo. Em voz alta.

Quando eu traduzi a Ópera do Mendigo, anos atrás, cantei ária atrás de ária pra garantir que elas iam funcionar.

E eu tinha feito isso com a parceria Ali/Miley.

Mas neste semestre eu estou com uma turma de Crítica e Prática de Tradução na UFPR. Terminado o nosso primeiro módulo, que é sempre o mesmo (um exercício de produção de tradução conjunta), e antes de entrar no final (onde eles vão apresentar seus projetos de tradução) a gente tem um tempo que eu uso a cada semestre de um jeito diferente. Como agora eu estou com duas traduções “no prelo”, os alunos curtiram a ideia de mexer e palpitar nesses textos.

Estamos, na verdade, há duas semanas só comentando os problemas da dona Ali Smith.

Às vezes só pra pensar, muitas outras dando palpites mesmo. Vários deles até incorporados, já, à versão que foi pra editora.

Não tem como dar crédito a todos eles no livro, mas pelo menos aqui registro que Paula Melo, Paulo Pacheco, Guilherme Bernardes, Caroline Bigaiski, Maria Claudia Mendonça e Elizabeth Froma (da esquerda pra direita, na sala) ajudaram pacas com os problemas mais cabeludos de uma autora quase hirsuta!

Mas, acima de tudo, que a gente se divertiu demais (como sempre) ao quebrar a cabeça com as coisas mais irresolvíveis que dona Ali nos propunha.

Se quiser uma prova, fica aí com a nossa versão de Wrecking Ball, cantável, rimada, abusada, engraçada, tudo como devia ser, graças ao copidesque dos meninos na minha proposta original.

Isso depois de diálogos em sala de aula como:

— “nove” não tem rima boa

— rola “love”?

— a Gaby Amarantos já usou!

ou

(silêncio)

— tá sobrando uma sílaba

— e se a gente usasse “nuclear” em vez de “nucleico”? ganhava uma quase-rima!

— Podia ter uma rima ainda aqui..

— “morre ao léu”?

(silêncio… a discussão vai pra outro lado e, de repente)

— “vai pro céu”!

Impagável. Inagradecível, crianças…

 

Herr Friedrich Miescher viu no pus em Um…
Oito-Meia-Nove
Crick, Watson, Franklin viram fitas lá
Só no maior love.

Duas espirais
Em 53
Raio-X Cinco-Dois.
Franklin vai pro céu
Sem ganhar Nobel
Isso pra você ver.

G-A-T-C: D-N-A!
Desoxirribonu-cleAR!
Guani-Timi-Cito-Adenina
É as duas coisas:
Po-o-sitivo
Yeah e
Ne-e-gativo.

As plantas, fungos e animais compõem
Os eucariontes
As ba-QUI-térias e arqueia são
Os procariontes

É A e é T, pode C e G ou
Não tem como ser
Num códon vão três
Dois cromossomões:
Sempre vou te querer.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Telma, eu não sou gay)

Por Caetano Galindo

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No intervalo pós-Cidade em Chamas (aguardem mais a respeito desse projeto entre hoje março), chegou finalmente a hora de mexer em How to Be Both, último romance da grande Ali Smith. Estou revisando a tradução agora, levando vários problemas até pra discutir com os alunos em sala de aula e tals. Provavelmente ainda volto a falar do livro por aqui.

Hoje, em sala, a gente passou uns vinte minutos sem traduzir nada, sem discutir semântica nenhuma, só em torno das questões levantadas pela página de epígrafes! Sério.

Porque, quer ver, são cinco, as epígrafes. Uma vem de um poema italiano (Montale), outra de um romance italiano (Bassani). Essas duas ela usa em inglês e (num lance que é bem a cara dela) dá os créditos das traduções como co-autoria (tipo Giorgio Bassani/Jamie McKendrick). Uma é Hannah Arendt, que era alemã, mas escreveu aquele texto já em inglês. Ou seja: uma espécie de “auto-tradução”. Uma vem em italiano meio dialetal do século XV. E em italiano se nos apresenta. É um documento que vai ser citado no romance e problematizado. E a quinta vem em francês, sem tradução, por ser de uma canção pop francesa (Le testament), e vem creditada não aos seus autores, mas à intérprete, Sylvie Vartan, curiosamente uma francesa de primeira geração, filha de armênios e húngaros que aqui, de certa forma, usurpa a autoria francesa.

Ou seja: um smorgasbord de traduções, autorias, intérpretes, originais e versões.

Como mini-bônus, ainda fica aquela dúvida quanto a ser um homem ou uma mulher por trás do nome “Jamie”… um tema que é sempre caro a Ali Smith e, neste livro, mais do que nunca.

A tradução brasileira vai engrossar o caldo. Pois os originais ficam como originais, em italiano renascentista e em francês. O texto de Arendt, agora vem em tradução de Denise Bottmann, devidamente creditada, o poema de Montale virá também em tradução, mas inédita, que o grande Mauricio Santana Dias topou fazer só pra nós. E o trecho de Bassani, que não tem tradução pro português, eu mesmo traduzi (não a partir da versão inglesa, claro) e virá SEM crédito de tradução.

UIA!

Mas de saída o que me interessava falar aqui era das músicas. Porque não sei se você já se ligou, mas música pop é O reino do intraduzível.

Já imaginou alguém cantando “mais um beija a lona” (another one bites the dust) num romance americano. Ou citando “morangais eternos” (strawberry fields forever).

A música pop, um dos produtos culturais mais transitáveis, tende a transitar no original, e a só ser reconhecida assim. Se eu traduzo a letra, dificulto até a identificação da música.

Nota de rodapé?

Breeeega…

Comentar no corpo do texto tende a ser a salvação pros momentos em que, mais do que cantar, ou evocar uma música, alguém pensa na letra e deriva coisas a partir dali.

Isso, claro, com Beatles, Bowie, Gershwin, Porter… Mas e no caso do Ulysses, um livro cheio de canções de salão, citadas e meio-lembradas o tempo todo, mas que não são mais familiares?

E o que fazer com o romance de Ali Smith, que meio que se abre com uma discussão, comentário e resenha de Let’s twist again e que, mais ainda, vai usar a palavra twist em todos os seus sentidos outras 31 vezes, todas elas devidamente ligadas de maneira, digamos, temática, a essa primeira ocorrência.

Porque, né? Mesmo que QUISESSE traduzir let’s twist again, alguém me dá um palpite? Contorçamo-nos uma vez mais?

:)

Dancemos de novo o tuíste?

Hmpff…

É bem verdade que existe era um garoto que como eu…, que quase ninguém nem lembra que originalmente era uma música italiana. Ou, sei lá, Banho de lua… versões de música pop.

Ou (será que alguém lembra d)o Ovelha (?).

[Aviso aos navegantes: o linque acima é apenas para os fortes]

E tem, é verdade, as versões do Gilberto Gil pra Stevie Wonder, Bob Marley etc.

Ou, pra saltar direto pro sublime, a coisa esplendorosa que é essa versão do Arthur Nestrovski pra Ich grolle nicht de Schumann/Heine.

Ou a Nena se auto-versionando com os seus 99 balões…

(Engraçado, agora que eu comecei a parar pra pensar não paro mais…)

Tá certo também que a senhora minha mãe aparentemente sabia versões de tudo que jamais foi inventado em forma de música. Ela sabia uma versão brasileira (Herbert Richers!) pro primeiro Piano-Concerto de Tchaicóvski, cáspita!

E não podemos deixar de lembrar da pérola atemporal que surgiu quando Léo Jaime traduziu a balada Tell me once again por Thelma eu não sou gay. (Que continha joias raras da lírica moderna tais que: o que falam de mim são calúnias, meu bem: eu parei! ou ainda diz que vai dar, meu bem, seu coração pra mim).

Aiaiai…

Mas são calúnias, meu bem! São, como bem diz o nome, versões novas de músicas outras. Nem nesse caso eu falaria de tradução, uma ideia que eu teria que reservar pra coisas bem menos felizes, como esses temas de musicais da Disney…

Eu, enquanto isso, fico aqui só me contorcendo uma vez mais, como fizéramos no estio do ano que passou.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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II. Dois mistérios

Por Cristian Clemente

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O post de hoje é complemento do texto de ontem escrito por Caetano Galindo.

*

No dia 17 de abril de 2012, eu fui surpreendido. Nesse dia, recebi o meu primeiro livro de ficção para traduzir: A Seleção, que saiu em setembro daquele ano para se tornar um dos maiores sucessos da então recém-criada Seguinte, o selo jovem da Companhia. Eu já tinha traduzido um bocado de coisas — eu fiz as contas com o Caetano outro dia, oito livros, entre religião, psicologia e artes marciais (sim) —, mas nada de ficção. Zero.

Como os editores foram escolher um sujeito que jamais tinha traduzido ficção na vida para assinar um dos carros-chefes do novo selo? Eis aí um mistério que, como todo mistério, só posso aceitar. Feliz.

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Depois de A Seleção, vieram os outros títulos da série. Parece que os livros saíram bem (por favor, diga que sim, Nathália). Mas eu sempre ficava com uma porção de dúvidas. Queria saber como os outros tradutores trabalhavam, se faziam as mesmas escolhas do que eu e se tudo bem fazer essas escolhas. É que eu nunca tinha sido formado para traduzir literatura. Fui sempre fazendo as coisas segundo o ditado espanhol: A Dios rogando y con el mazo dando.

Então, no dia 16 de janeiro deste ano fui surpreendido novamente. Escolheram-me para participar do programa de mentoria do British Council. E o meu mentor seria o Caetano Galindo (!). Pouco tempo antes, eu tinha lido a entrevista dele no The Millions sobre o Graça Infinita. Também tinha ganhado de presente um exemplar do Ulysses que ele traduziu. O homem é um monstro. Por que eu fui escolhido para o programa? Eis outro mistério que aceitei feliz.

Foram seis meses de mentoria, seis meses de trabalhos e esforços, em que tive um retorno personalizado sobre o meu desempenho, para fazer andar o projeto com que me inscrevi: uma tradução do romance Helena, do Evelyn Waugh (inédito em português). E como aprendi nesse período.

A primeira coisa que aprendi foi a ter calma. Aliás, foi a mais fundamental. Digo calma por falta de um termo melhor. O que o Caetano me ensinou é trabalhar sem ficar pensando nas bobagens com que eu perdia tempo. Muitas vezes, eu me punha questões que nem o autor quis levantar ou resolver. O melhor é deixar o leitor decidir. E isso dá uma paz de espírito na hora de traduzir. Sério.

Essa calma é também uma espécie de humildade, que marca o trabalho do tradutor que respeita o autor e o leitor. No caso do Caetano, é também uma marca da personalidade dele. Vejam: o homem tem uma cabeça privilegiada, prêmios, cargo de professor numa universidade federal (e uma cachorra fofíssima). Ainda assim, foi a pessoa mais acessível do mundo para mim durante a mentoria, teve uma paciência inesgotável com as minhas neuras e demoras e não negou resposta a qualquer das minhas perguntas (até sobre criação de filhos). Thanks, dude!

*

O historiador da arte Edgar Wind tem uma interpretação conhecida do quadro Primavera, de Botticelli, no seu livro Pagan Mysteries in the Renaissance (também inédito). Em bem poucas palavras — que correm o risco de deturpar uma coisa aqui e ali, pelo que me desculpo de antemão — o quadro representa um ciclo de fertilidade. Vênus, no centro, abençoa a alma juvenil e inexperiente, flechada pelo amor. Esta, guiada por Hermes (o intermediário entre os deuses, ou seja, quase um tradutor), vai atrás dos mistérios do alto, do conhecimento acima das nuvens. Mas esse conhecimento não pode ficar estéril. Deve retornar à terra como o vento fecundo que traz a primavera.

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A minha experiência de mentoria foi mais ou menos assim. Só que mais para menos, em certo sentido. Fui escolhido, aprendi muito e agora estou de volta, a fim de produzir. A diferença é que em vez de conhecer mistérios, desmistifiquei bastante coisa graças ao meu mentor. Thank goodness!

* * * * *

Cristian Clemente tem 31 anos e vive de livros desde os 18. É graduado em Letras (Português/Inglês) pela USP e tem pós-graduação em Edição pela Universidade Complutense de Madri. Traduziu os títulos da série A Seleção (Seguinte) e mais umas coisas por aí.

I. Em tradução (tradutores)

 

 

Amanhã postaremos o texto de Cristian Clemente sobre o programa de mentoria de tradução mencionado por Caetano Galindo no texto abaixo.

*

Já falei aqui da minha atração pelo modelo da guilda, do aprendiz, de um profissional mais velho que põe um mais novo embaixo da asa até o cabra aprender como se faz.

Na ocasião, até mencionei que quem me fez pensar nisso foi o economista/cético/frasista Nassim Nicholas Taleb.

Mais recentemente, o Taleb deu de falar de possíveis campos “uberizáveis”. Ou seja, campos onde a prestação de serviços entre particulares pode ser mais interessante que a mediação de empresas. E a educação, de novo, era um deles.

Durante esse ano, eu tive o grande prazer (grande mesmo) de participar de um programa de mentoria de tradução, organizado pelo British Council e pelo British Centre for Literary Translation. E foi um mega caso de uma uberização patrocinada por uma instituição.

Por meses a fio eu trabalhei com o Cristian Clemente, um tradutor mais jovem que eu, dando palpites no trabalho que ele apresentou como projeto (uma tradução supimpíssima do romance Helena do grande Evelyn Waugh: editoras, fiquem de olho!). Mais do que isso, encontrei com ele em São Paulo, participamos de um evento juntos, levei ele para conhecer o editorial da Companhia das Letras, e ele veio a Curitiba, onde assistiu aulas aqui na UFPR e sentou de novo pra discutir tradutices comigo.

Pela gentileza do Cristian parece que o programa foi de algum proveito pra ele.

Pra mim (e só me cabe falar de mim) foi uma experiência bem de mudar opiniões e vidas mesmo.

Os critérios do pessoal do programa definiam que era eu o mentor, mas o Cristian é muito mais experiente que eu em trocentas áreas do mundo editorial. A hierarquia dizia que era eu quem o “ajudaria” com dicas e palpites, mas quem for ler a minha tradução de Cidade em Chamas no ano que vem vai se beneficiar de pelo menos um momento em que o Cristian, numa conversa informal, me fez ver uma bobagem que a minha falta de cultura pop ia me fazendo cometer.

E teve isso… teve as conversas informais.

Numa pizzaria em SP depois do evento na Casa Guilherme de Almeida.

Andando pelo centro de Curitiba, à toa, e aprendendo horrores sobre história, igrejas, ritos e anedotas do cristianismo, sobre o Sul dos Estados Unidos e o interior de São Paulo.

Eu tenho um amigo que diz que a gente não tem que ficar com vergonha quando constata que a parte mais importante, digamos, de um evento universitário, foi a do cafezinho entre as palestras. Diz ele que é pra ser assim. Que é esse contato que ensina. Que é aí que a gente aprende. E cresce.

Uberização ou não, patrocinada ou não, a experiência de conviver com um colega, que enfrenta as mesmas cismas, me parece uma solução genial pra quem quer aprender a (se) traduzir.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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