caetano galindo

Em tradução (Os outros e os meus)

Por Caetano Galindo

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Cena de Vício inerente.

Já contei isso aqui?

Se por acaso eu resolvo dar de presente pra alguém (tipo num aniversário, sei lá… desde, claro, que seja o aniversário da pessoa pra quem eu vou dar o livro… não ia fazer tanto sentido ir tipo na festa do aniversário de uma pessoa e levar o livro de presente pra outra…. mas, pô, eu ainda nem tinha usado a palavra LIVRO antes de abrir o parêntese, e agora meio que acabei com todo o suspense da coisa por ter entregado que era, antes mesmo de mencionar, apesar de todo mundo poder imaginar que eu estava falando de um livro, um livro, um livro) um livro que eu mesmo traduzi, eu sapeco lá, óbvio, uma dedicácia.

Primeiro eu passo um risco por cima do nome impresso na folha de rosto. Eu copiei isso acho que do Jonathan Safran Foer. (Eu sou tradutor, ora: eu roubo ideias.) Sei lá eu bem por que o Foer faz isso. Mas me faz um sentido assim caboclisticamente falando. Tipo eu anulo a “assinatura” impessoal e assino ca minha letrinha podra.

Depois (a não ser que eu esteja com muita pressa, ou menos “espirituoso”) eu escrevo alguma coisa meio: Tó, fulano (eu não escrevo “fulano”. Eu escrevo, pasme, o nome da pessoa pra quem eu vou dar o livro. Aquela, normalmente a aniversariante) ou fulana (cf.supra, vade retro), um livro de sicrano (o autor) escrito por mim (eu mesmo).

Ou seja, pra deixar claro: eu NUNCA deixo de usar as vírgulas de vocativo, ok? Antes & depois do nome do fulano ou da fulana. É meio uma questão de princípios comigo, isso.

E, pra deixar ainda mais claro, eu digo mesmo “um livro de XXXX escrito por mim”.

Porque afinal é isso mesmo. Eu que escrevi aquelas palavras, naquela ordem etc…

Eu já falei disso aqui?

Mas hoje isso é só meio que um gancho. Pra meramente mencionar que, retórica à parte, eu, pelo menos, tenho um certo sentimento de “propriedade” em relação aos livros que eu traduzi. Um certo ciúme e, também, uma certa responsabilidade. É como se eles fossem meio “filhos” bibliográficos mesmo.

Eu zelo pelo futuro deles.

Gosto quando são bem resenhados (sim, mesmo que nem mencionem a tradução). Faço propaganda dos autores (só traduzo gente de quem eu gosto, afinal! ê, sortudismo!). E tal…

Isso agora veio bem à baila (“à baila”, uh!) por causa de Vício inerente, o filme. Tudo bem que é a primeira adaptação de um livro do grande Thomas Pynchon, e que TODOS os pynchonianos do mundo (gente mais ciumenta que os fãs de Harry Potter) estão se sentindo algo orgulhosos, algo curiosos, algo ciumentos também.

Eu? Nem se fala.

Por um desses acasos da vida (ê, sortudismo!), fui eu, e não o grande Paulo Henriques Britto, quem traduziu esse livro.

Claro que é um dos trabalhos de que eu mais me orgulho.

Lidar com o texto do mestre é um privilégio a-bês-surdo!

Tremi pra começar. Rolei de rir enquanto fazia. E não me envergonho do resultado.

Vou ficar curioso, claro, pra ver se os legendadores acharam soluções melhores que as minhas pra certas coisas (trata-se em geral de um pessoalzinho pra LÁ de competente). Mas acima de tudo torço pra gostar do resultado, pra ver o livro, literalmente, bem na fita.

Saiba ou não o senhor Paul Thomas Anderson e Cia., além de todos aqueles pynchomaníanos que eles conhecem, pelo menos 11 indivíduos espalhados pelo mundo não só leram, releram e tresleram o livro, mas ESCREVERAM o bicho de novo depois do grande Tommy.

Ele que se cuide com a gente!

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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