caetano w. galindo

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano W. Galindo


E aí mas então a ideia de fazer essa coluna aqui pro blog é ir falandinho do andamento da tradução do maior romance de David Foster Wallace.

Que se chama Infinite Jest (mais sobre isso nos próximos fascículos).

Que quem está traduzindo sou eu. (Neste momento: 151 páginas vencidas; 830 pela frente. Cinquenta e duas notas encaradas, 336 esperando [de novo, espere os próximos episódios].)

Sei lá eu se tem interesse pra vocês, mas o negócio é que não é um projeto comum, sabe? O livro, afinal, vem conquistando um espaço de ‘culto’ muito semelhante ao de um romance como o Ulysses. E eu estou cansado de saber que esses ‘cultos’ podem ser deletérios, então acaba que ir falando do livro pode ao mesmo tempo mostrar o que ele tem de encantador e diminuir certas auras de intangibilidade.

Ao mesmo tempo mostrar que yes we can e decantar os méritos de uma coisa preciosa.

Sabe, tem uma cena de um dos primeiros filmes do Nanni Moretti (lembro qual, não…? e no fim não é meio mais chique citar assim sem certeza? dá uma aura de erudição relaxada… [e reconhecer agora que eu queria atingir a tal aura não dá uma aura ainda mais sofisticada? {bem-vindos ao mundo de David Foster Wallace}]) em que a mulher do cara dá à luz e toma uma anestesia, e ele fica encantadíssimo com o fato de que se pode anestesiar um parto normal e sai gritando pelo hospital porque, na opinião dele, “o mundo precisa saber!”.

Eu, e uma caterva de leitores, há anos me sinto assim com Infinite Jest. O mundo precisa conhecer.

E agora ter a chance de traduzir o livro, portanto, é uma coisa realmente bacana. Dar o bichinho pra quem quiser ler.

E aí este espaço aqui é pra ser usado pra isso mesmo. Pra ir mantendo um ‘diário de tradução’, pra falar das maravilhas maravilhudas de um livro maravilhante, pra eventualmente pedir socorro aos universitários (e tenistas, e junkies, e engenheiros) em questões abstrusas de vocabulários específicos, pra falar da mega viagem que há de ser traduzir Infinite Jest.

Sob a égide de St. Diana de Passy, padroeira deste blog.

Com a efígie da famiglia de Don Andrea Conti, scefigno di tutti scefonni.

Com a colaboração de Mr. Mojo e d’El Rancho Carne.

Com a proteção da musa degli Stropari e a revisão de Mona Bice.

Prepare-se, portanto, pra ir sabendo de manadas de hamsters selvagens, de uma nova América do Norte fundida numa só nação de curioso nome ONAN, do mais curioso meio de matar baratas, de um travesti que rouba um coração, de um drogado que imola gatos, de um homem que recolhe no corpo imenso os pecados dos outros, da mulher mais linda de todos os tempos (que talvez tenha tido o rosto desfigurado por ácido).

De Hal, Gately, Joelle e do cara-que-nem-usava-o-primeiro-nome.

De TUDO.

O trajeto é calombudo mas a paisagem é bonita.

Dá a mão que eu tento te levar.

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E hoje é 12 de setembro.

Exatos quatro anos da morte de Wallace.

Hora, como sempre, como em todo broomsday (nome de um site-tributo que eu, o André, o Galera e o Pellizzari montamos às pressas em 2009), de desejar que a família dele encontre a paz possível e que nós, leitores, continuemos (subj.!) nos servindo da obra dele pra entender o mundo, as pessoas, e inclusive a pessoa que a escreveu, e o seu fim.

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[Esta quinta-feira transmitiremos ao vivo um bate-papo sobre Jane Austen e tradução entre a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza. Acompanhe e mande suas perguntas aqui pelo blog a partir das 17h.]

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

SLLT

Por André Conti


A geladeira de James Joyce: 1. Ligar para o banco; 2. Lavanderia; 3. Forjar na forja da minha alma a consciência incriada da minha raça; 4. Ligar para a mamãe

Ainda estou me acostumando com a ideia de que o Ulysses finalmente saiu. Pelo que andei conversando com o Galindo, tradutor do bicho, ele também estranhou. Só posso imaginar. Os anos de discussão, ansiedade e trabalho que passamos em cima do livro representam uma fração dos anos de discussão, ansiedade e trabalho que o Galindo passou desde o início da empreitada, mais de uma década atrás.

Agora, nosso filho criado no porão e alimentado por debaixo da porta resolveu que é gente. Fica de pé sozinho. Não precisa mais de nós.

No sétimo episódio de Ulysses, o sr. Bloom visita a sede do Freeman’s Journal, onde tenta negociar um anúncio. Num determinado momento, ele para diante das máquinas de impressão do jornal:

“Sllt. O cilindro inferior da primeira das máquinas projetou sua bandeja com sllt a primeira fornada de mãos de jornais dobradas. Sllt. Quase humano o jeito que ela fica slltando pra chamar atenção. Fazendo o melhor que pode pra falar. Aquela porta também estava slltando quando rangia, pedindo pra ser fechada. Tudo fala à sua maneira. Sllta.”

É uma das minhas passagens favoritas no livro. É também um dos grandes exemplos da capacidade infinita do sr. Bloom de humanizar as coisas. Máquinas, objetos, pessoas, animais: em Ulysses, tudo fala à sua maneira. Agora esse Ulysses, que foi só do Galindo, depois da Sandra e da Beatriz, aí de alunos e amigos, e então do Paulo Henriques e um tiquinho assim meu, pode falar à sua maneira.

Digo um tiquinho sem sombra de falsa modéstia. O texto final que recebi, fechado pelo Galindo e o Paulo Henriques, havia sido pensado à exaustão. Meus pitacos frequentemente esbarravam na lógica interna do romance, onde uma determinada escolha vinha precedida e sucedida de justificativas no próprio texto. De modo que aprendi um bocado sobre Ulysses tendo minhas sugestões recusadas. Aprendi também um bocado sobre tradução, edição, livros em geral.

O que não quer dizer que algo da minha experiência com o livro não esteja ali, ainda que esse algo seja muito específico. Um dos temas centrais do Ulysses, afinal, é a amizade. E essa tradução nasceu em torno de uma série de amizades. Li o romance pela primeira vez com um amigo, o Alê, em voz alta e todas as quintas. O texto final também foi resolvido por dois amigos, o Paulo e o Galindo. E o Galindo e eu falávamos do livro muito antes de o projeto de edição da Cia. existir.

Um pouco dessa dimensão afetiva não deixaria de transparecer num romance tão preocupado em esmiuçar as muitas maneiras em que as pessoas se ligam umas às outras. Se discutimos o livro constantemente, também jogamos semanas de conversa fora, passeamos de carro por Curitiba, o Galindo tocou “Here comes the sun” no uquelele, a gente foi até Morretes por uma serra toda ensolarada, de estrada de pedra, onde comemos barreado e visitamos uma criação de tartarugas. Um dos méritos do Ulysses é registrar a vida miúda, o pedaço de conversa da mesa ao lado, um instantâneo absolutamente específico que, apoiado no domínio técnico do Joyce sobre a língua, se vale desse humanismo compassivo do autor para expandir a miudeza e a especificidade no que há de mais universal em todos nós. Espero que um pouco da nossa própria miudeza tenha encontrado lugar na tradução.

E agora, como diz o próprio Galindo na apresentação, esse Ulysses é teu. Há literalmente centenas de caminhos a serem tomados — tente seguir a trajetória da batata no bolso de trás do Bloom, por exemplo —, todos irremediavelmente pessoais. Claro que o mesmo pode ser dito de qualquer livro, em graus variados. E todo mundo tem um romance que parece ter sido feito na medida para si, em forma ou conteúdo. Mas, na megalomania do autor (“Hoje sou capaz de fazer o que quiser com a língua inglesa”), Ulysses parece alcançar uma medida mais ampla.

Basta pensar na celebração anual em torno do 16 de junho, dia em que se passa o livro. Acho revelador que, em meio a tantas obras tão ou mais célebres, apenas Ulysses tenha o seu dia. Posso imaginar a festa anual do Hamlet, com um monte de gente sorumbática, vestida de preto, falando mal do tio. Ou da Madame Bovary, com leitura de bestsellers seguida de adultério extremo e insatisfação geral. Ao nivelar a experiência por cima, exigindo atenção e paciência de seus leitores, Joyce possibilitou a qualquer um deles uma entrada igual — democrática — no livro. Por isso a festa. Por isso o carisma da obra.

Que o romance seguinte de Joyce, Finnegans Wake, tenha aparentemente realizado a operação contrária, alienando até defensores ferrenhos do Ulysses, fica para uma próxima tradução do Galindo, quem sabe daqui a dez anos.

Mas não custa deixar um teaserhttp://www.youtube.com/watch?v=q6CHq9mXkJ8

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André Conti é editor da Companhia das Letras.
SiteTwitter

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Bloomsday no Brasil:

SÃO PAULO:

  • 15 e 16 de junho: Giacomo Joyce e Ulysses — Uma celebração italiana do Bloomsday
    25ª edição do Bloomsday paulistano, com uma programação especial que incluirá dois dias de atividades.
    Local: Casa Guilherme de Almeida & Finnegan’s Pub
  • 16 de junho, às 16h: Aula aberta com Caetano Galindo
    Caetano Galindo, tradutor da edição de Ulysses lançada pela Penguin-Companhia, dá aula aberta sobre o clássico de James Joyce. (Lugares limitados. Serão distribuídas senhas a partir das 9h, no mesmo local.)
    Local: Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura – Av. Paulista, 2073

RIO DE JANEIRO:

  • 17 de junho, às 19h: Palestra com Caetano Galindo
    Caetano Galindo, tradutor da edição de Ulysses lançada pela Penguin-Companhia, dá aula aberta sobre o clássico de James Joyce.
    Local: Livraria da Travessa Leblon – Av. Afrânio de Melo Franco, 290

BELO HORIZONTE:

  • 16 de junho, das 15h às 18h: veja a programação
    Local: Memorial Minas Gerais – Praça da Liberdade, s/n

SANTA MARIA:

BRASÍLIA:

  • 12 a 16 de junho: cinco dias de evento com conversas, palestras, filmes e encenação. Veja a programação completa.
    Local: Universidade de Brasília
  • 16 de junho, das 9h às 22h: cardápio irlandês, exposição sobre James Joyce, apresentação da banda celta Tanaman Dùl e leituras dramáticas. Veja a programação.
    Local: Sebinho – 406 Norte – Bl. “C”, Loja 44

PORTO ALEGRE:

  • 16 de junho, às 18h: leituras e comentários sobre Ulysses
    Local:  Palavraria Livros & Café – Rua Vasco da Gama, 165 – Bonfim

[Se alguém souber de outras comemorações do Bloomsday no Brasil, por favor, nos avise e adicionaremos aqui!]

Traduzir o “Ulysses”

Por Caetano W. Galindo


Capa: Raul Loureiro e Claudia Warrak. Ilustração: Chico França.

Traduzir literatura por contrato é uma coisa.

Você nem sempre traduz o que gostaria de ler. Você nem sempre tem o prazo que desejaria ter. Vida, vida.

Mas traduzir é uma experiência tão necessariamente suja (mãos-na-massamente falando), tão enfronhadinha, tão, digamos, íntima, que acaba que esses senões terminam por se dissolver um pouco. E você tem sempre uma relação mais pessoal, direta, com os livros que traduziu. Você, afinal, teve de escrever todos eles. Linha a linha.

Traduzir por escolha é coisa bem outra no entanto.

Quando eu decidi que minha tese de doutorado incluiria uma tradução do Ulysses, quando decidi que dos quatro anos que eu teria para escrever a tese eu usaria dois, inteiros, para essa tarefa, foi unicamente escolha minha, desejo meu. Projeto.

E aí foram dois anos, diários, de leitura, escrita e releitura. (Uma noção simples da intensidade do trabalho de tradução vem do fato de que, na batata, traduzir é ler ao menos três vezes ao mesmo tempo: correr o olho pela frase original, redigir a sua e lê-la com as outras).

O livro foi traduzido quase inteiro na ordem. (Um trecho eu fiz antes, para dar de presente para aquela que viria a ser minha mulher, no dia dos professores.) E o Ulysses é um livro inquieto. Se mexe sem parar. Muda o tempo todo. E traduzir esse livro tinha de ser assim também.

Insisto sempre com os meus alunos que o próprio Ulysses te ensina a ler o Ulysses, gradativamente. Eu tive de ir aprendendo a escrever o Ulysses, passo a passo, cada vez encontrando dificuldades maiores, mais numerosas, como sabe qualquer leitor. Mas cada vez me divertindo mais.

Quando você acha a linguagem, o registro, aparecem os trocadilhos, as piadas, as referências cifradas (São Gifford, o Anotador, que me valha!); quando deu conta disso, são as canções; mais os poemas; e aí vêm as paródias, pastiches; e depois um longo episódio que narra o desenvolvimento da literatura inglesa (e toca a gente — ela já era minha mulher — sentar e montar uma lista de modelos de textos portugueses e brasileiros, do século XIII ao XIX, cobrindo tudo quanto é gênero: crônica, carta, teatro, prosa, poesia, mais ou menos como os que Joyce usou quando escreveu; e toca ler cada um desses modelos, fazer listas de expressões, palavras, construções saborosinhas e típicas e aí, e só aí, traduzir o fragmento correspondente do episódio).

E quando tudo isso passou, você tem que lidar com a oralidade desmedida e precisa de dona Molly naquele solilóquio.

E quando você acha que acabou, no Bloomsday centenário, 2004, um século exato depois das andanças do Senhor Bloom por Dublin, vêm já seis anos de espera, banho-maria, retoquinhos.

Outros trabalhos. Aulas. Outras traduções.

Eu hoje venho conseguindo juntar as coisas: traduzir por contrato textos de escolha. Melhor ainda, agora contrataram o meu Ulysses.

E toca revisar tudo para você, quem sabe, querer ler daqui a pouco.

Escolha minha.

Terão sido dez anos de convívio com o livro.

Escolha minha, circunstâncias.

Por mim, valeu.

Tomara que você não ache que foi à toa.

[A edição de Ulysses da Penguin-Companhia já está nas livrarias. No vídeo abaixo, o editor André Conti fala um pouco sobre o clássico de James Joyce:]

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Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.

Ulysses e Santuza

Por Caetano Galindo


Paulo Henriques, Santuza e Caetano Galindo

A data do lançamento do Ulysses está chegando.
Pra mim, claro, vai ser um momento dos mais importantes.
Mais relevante, no entanto, é o que o Ulysses pode ser, de importante, pra qualquer leitor. É um livro que pode, de centenas de jeitos diferentes, mudar a vida de uma pessoa. E não só em termos da relação de alguém com a literatura, mas sim fazendo de cada leitor, como gosta de lembrar Harold Bloom, uma pessoa um pouco mais inteligente, uma pessoa, também, um pouco “melhor”.
Grandes livros fazem bem isso.
E o Ulysses é um dos maiores.

A data do lançamento do Ulysses está chegando.
Pra mim, claro, vai ser um momento dos mais importantes.
Mas mesmo antes de disso o Ulysses já me deu muito. E uma das maiores coisas que eu ganhei graças ao livro foi o contato com a sala de estar da casa de Paulo Henriques Britto e Santuza Cambraia Naves. Onde ouvi Schubert acompanhando a partitura. Onde aprendi mais sobre tradução do que em anos de leituras. E, acima de tudo, onde eu fui recebido por dias a fio como um membro da família. Recebido pelos dois com o carinho e a acolhida que só as melhores pessoas podem dar. Que me mudou muito.
Grandes pessoas fazem bem isso.
E esses dois não tinham par…

A Santuza morreu anteontem.
O Brasil perdeu uma das maiores pesquisadoras da relação entre a sua música e a sua história. Os alunos da PUC perderam uma grande professora. O Paulo perdeu um pedaço do seu norte.
Eu perdi um exemplo. Uma pessoa boa. Demais.

Ela, como o Ulysses, fez de mim uma pessoa um tico mais inteligente e, espero, um tantinho assim “melhor”.
O Ulysses me deu essa relação. E agora me ajuda a lidar com essa perda.
A data do lançamento do Ulysses está chegando.
Vai ser pra ela também.

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Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês. Sua tradução de Ulysses, de James Joyce, tem lançamento previsto para maio.

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