caitlin moran

11 livros para ler no Dia do Rock

Biografias, romances, livros que se inspiram em canções ou bandas e que falam sobre grandes nomes da música: escolhemos onze leituras para você aproveitar no Dia do Rock! :)

1. Atravessar o fogo, de Lou Reed

loureed

O primeiro da lista não poderia ser outro. Atravessar o fogo, que faz parte da coleção listrada da Companhia das Letras, reúne traduções de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo para mais de 300 letras de Lou Reed. À frente do Velvet Underground, Reed “trouxe dignidade, poesia e rock and roll a temas como as drogas pesadas, as anfetaminas, a homossexualidade, o sadomasoquismo, o assassinato, a misoginia, a passividade entorpecida e o suicídio”, nas palavras do lendário crítico musical Lester Bangs, com quem mantinha uma notória relação de amor e ódio. Com sua carreira solo não foi diferente. Neste livro, o leitor pode contemplar o gênio de Lou Reed em suas múltiplas facetas: o cronista do submundo nova-iorquino, o narrador de inegável talento para capturar as vozes das ruas, o fetichista depressivo com tendências suicidas e masoquistas, o amante da literatura e das artes de vanguarda.

2. John Lennon, de Philip Norman

johnlennon

Biografias de grandes nomes do rock estão no nosso catálogo, e uma delas é de John Lennon. Escrito após três anos de pesquisa, e longe de contentar-se com curiosidades ou mexericos, Philip Norman fez de John Lennon: a vida o relato biográfico mais completo já escrito sobre uma das personalidades mais fascinantes da segunda metade do século XX. Com acesso a documentos inéditos e testemunhos diretos de Yoko Ono, Sean Lennon e Paul McCartney, entre outros, Norman começa por descrever em detalhes infância e adolescência do ex-Beatle, e logo traz à tona episódios e personagens cruciais para o entendimento de uma figura tão unanimemente admirada quanto controvertida.

3. Linha Mde Patti Smith

linham

Em 1970 Patti Smith lançou Horses, considerado precursor do punk rock e um dos cem melhores álbuns de todos os tempos. Daí para frente, Patti não parou com sua carreira na música, que é marcada pela sua paixão por poesia. Linha M é um livro onde podemos ver seu talento também para a literatura. Num tom que transita entre a desolação e a esperança — e amplamente ilustrado com suas icônicas polaroides -, Linha M é uma reflexão de Patti Smith sobre viagens, séries de detetives, literatura e café. Um livro poderoso e comovente de uma das mais multifacetadas artistas em atividade.

4. Só garotos, de Patti Smith

sogarotos

Não tem como falar de Patti Smith sem lembrar de Só garotos, livro em que fala sobre o início de sua carreira, quando se muda para Nova York no final dos anos 1960, e de seu relacionamento de amor e amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem prometeu escrever a sua história. Só garotos é uma autobiografia cativante e nada convencional. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, o livro é também um retrato apaixonado, lírico e confessional da contracultura americana dos anos 1970.

5. Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg

cidadeemchamas

Não só de música é feito Cidade em chamas, primeiro romance de Garth Risk Hallberg, mas ela é parte importante dessa história que recria a Nova York dos anos 1970. Clássicos álbuns do rock inspiraram o autor na escrita do livro (como The Rolling Stones, Patti Smith e Lou Reed, já citados na lista), e um de seus protagonistas é ex-vocalista de uma lendária banda de punk-rock, a fictícia Ex-Post Facto. Entre shows em bares abafados da cultura underground, os negócios de uma rica família de NY e a investigação de um crime, as personagens de Cidade em chamas se esbarram pela cidade que passa por transformações sociais e culturais.

6. Minha fama de mau, de Erasmo Carlos

erasmo

Com cabeça de homem e coração de menino, o cantor e compositor Erasmo Carlos conta em Minha fama de mau suas divertidas memórias, da infância humilde à consagração como ídolo do rock. Considerado por Rita Lee como “o pai do rock brasileiro”, Erasmo reuniu por dois anos e meio passagens que costuram os detalhes de sua vida e sua carreira para narrar como o menino criado pela mãe numa casa de cômodos superou todas as limitações e o preconceito da Zona Sul carioca, consagrando-se, junto ao amigo Roberto Carlos, como o porta-voz sentimental de milhões de pessoas.

7. Do que é feita uma garotade Caitlin Moran

doqueefeita

Do que é feita uma garota não é um livro sobre rock, mas ele é constante na vida da narradora, a adolescente Johanna Morrigan. Depois de passar vexame num programa de TV local aos 14 anos, a jovem decide mudar de vez para virar uma “garota legal”: se transforma em Dolly Wilde, uma menina gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Nos anos 1990, ela escreve críticas de shows e álbuns para uma revista de música, se relaciona com rockstars, vê nas letras das canções que escuta aquilo que faltava para a sua vida. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota? Caitlin Moran faz do livro uma história divertida sobre crescer e construir sua própria identidade.

8. Mick Jagger, de Philip Norman

mick

Mick Jagger é o astro da música que melhor encarnou o ideal de sexo, drogas e rock’n’roll. Nesta que é a mais completa biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman refaz os passos da consagração de Mick Jagger e mostra como ele se tornou um showman sedutor, o protótipo do pop star genial, escandaloso e milionário. Passando pela infância e momentos turbulentos de sua carreira, Norman narra como, em sua longa trajetória de mais de cinquenta anos como astro e ícone sexual, Mick Jagger foi assimilado pelo establishment, mas manteve a mística transgressiva e fascinante do rock.

9. Norwegian Wood, de Haruki Murakami

norwegian

Uma música dos Beatles leva o narrador deste livro, Toru Watanabe, a lembrar de sua juventude em Tóquio, onde chegou aos 17 anos para estudar teatro. E é esta música que dá título a Norwegian Wood, romance de Haruki Murakami. Vivendo solitariamente em um alojamento de estudantes, um dia reencontra um rosto de seu passado: Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência antes deste cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório. Ambientado em meio à turbulência política da virada dos anos 1960 para os anos 1970, Norwegian Wood é uma balada de amor e nostalgia cuja rara beleza confirma Murakami como uma das vozes mais talentosas da ficção contemporânea.

10. A maçã envenenada, de Michel Laub

maca

Em 1993, o grupo norte-americano Nirvana fez uma única e célebre apresentação no estádio do Morumbi, em São Paulo. Um estudante de dezoito anos, guitarrista de uma banda de rock e cumprindo o serviço militar em Porto Alegre, precisa decidir se foge do quartel — o que o levaria à prisão — para assistir ao show ao lado da primeira namorada. A escolha ganha ressonâncias inesperadas à luz de fatos das décadas seguintes. Um deles é o suicídio de Kurt Cobain, líder do Nirvana, que chocou o mundo em 1994. Outro é o genocídio de Ruanda, iniciado quase ao mesmo tempo e aqui visto sob o ponto de vista de uma garota, Immaculée Ilibagiza, que escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras sete mulheres. Focado nos anos 1990, A maçã envenenada é o segundo volume da trilogia sobre os efeitos individuais de catástrofes históricas iniciada com Diário da queda, cuja ação central se dá nos anos 1980. Como no volume anterior, Michel Laub aborda o tema da sobrevivência usando os recursos da ficção, do ensaio e da narrativa memorialística, numa linguagem que alterna secura e lirismo, ironia e emoção no limite do confessional.

11. Alta fidelidadede Nick Hornby

altafidelidade

E terminamos nossa lista do Dia do Rock com um livro cheio de listas musicais! Rob é um sujeito perdido. Aos 35 anos, o rompimento com a namorada o leva a repensar todas as esferas da vida: relacionamento amoroso, profissão, amizades. Sua loja de discos está à beira da falência, seus únicos amigos são dois fanáticos por música que fogem de qualquer conversa adulta e, quanto ao amor, bem, Rob está no fundo do poço. Para encarar as dificuldades, ele vai se deixar guiar pelas músicas que deram sentido a sua vida e descobrir que a estagnação não o tornou um homem sem ambições. Seu interesse pela cultura pop é real, sua loja ainda é o trabalho dos sonhos e Laura talvez seja a única ex-namorada pela qual vale a pena lutar. Alta fidelidade é um romance sobre música e relacionamento, sobre as muitas caras que o sucesso pode ter e sobre o que é, afinal, viver nos anos 1990.

Semana duzentos e cinquenta e seis

blog

O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro (Tradução de Sonia Moreira)
Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.

Tudo que é, James Salter (Tradução de José Rubens Siqueira)
Depois de participar da Segunda Guerra Mundial como soldado no Japão, Philip Bowman retorna aos Estados Unidos para recomeçar a vida.
Pelas décadas seguintes, acompanhamos sua carreira, seu casamento e divórcio. Novas relações amorosas aparecem – a mais significativa delas marcada por uma traição que Bowman vinga de forma particularmente cruel. Este não é um livro de grandes mistérios ou acontecimentos marcantes. É uma história sobre as pequenas coisas da vida – o teste para qualquer grande escritor. Depois de 35 anos sem publicar um romance, Salter mostra por que é considerado um dos maiores nomes da literatura americana atual.

Agora aqui ninguém precisa de si, de Arnaldo Antunes
O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e “prosinhas”, a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo.

Do que é feita uma garotade Caitlin Moran (Tradução de Caroline Chang)
“Wolverhampton, em 1990, parece uma cidade a que algo terrível aconteceu.” Talvez tenha acontecido de fato. Talvez seja Margaret Thatcher, talvez seja a vergonha que Johanna Morrigan passou num programa da TV local aos catorze anos. Nossa protagonista decide então se reinventar como Dolly Wilde — heroína gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Aos 16 anos, ela está fumando, bebendo, trabalhando para um fanzine de música, escrevendo cartas pornográficas para rock-stars, transando com todo tipo de homem e ganhando por cada palavra que escreve para destruir uma banda. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota?

Penguin-Companhia

A estepe, de Anton Tchékhov (Tradução de Rubens Figueiredo)
A estepe foi a primeira tentativa de Anton Tchékhov de produzir uma narrativa mais extensa. Foi uma tarefa desafiadora, mas bem-sucedida. Até porque o autor, que se tornaria um clássico da literatura ocidental, traria um olhar mais delicado e dado a menos arroubos, crises ou atos de heroísmo que outros escritores russos fundamentais, como Tolstói e Dostoiévski. O subtítulo — História de uma viagem — sintetiza o tema central: a viagem de um menino pela vasta estepe russa para estudar em outra cidade. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto: relato de viagem, narrativa ficcional, estudo de tipos humanos, pintura da natureza, além de retrato das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

Portfolio-Penguin

Dinheiro, dinheirode João Sayad
O dinheiro é uma instituição fundamental da sociedade em que vivemos há mais ou menos quatrocentos anos. Sem ele, não há economia capitalista. Como tudo que é habitual, colado ao cotidiano, é difícil de ser compreendido. O tema é controverso e movimentado por um debate infindável entre economistas de vertentes diversas. Neste livro, João Sayad tem como objetivo jogar luz sobre esta discussão que, apesar de singular em cada momento, tem uma tradição comum e conceitos que se repetem. As muitas teorias monetárias são analisadas como se fossem diferentes narrativas sobre o mesmo tema fundamental da economia capitalista.

Companhia das Letrinhas

Um raio de luz, de Jennifer Berne e ilustrações de Vladimir Radunzky (Tradução de Eduardo Brandão)
Enquanto anda de bicicleta numa estrada poeirenta, um garoto se vê viajando a uma velocidade além da imaginação, dentro de um raio de luz. É nessa mesma mente que nascerá, algum tempo depois, uma das mais revolucionárias ideias da ciência: a teoria da relatividade. Albert Einstein era um menino distraído com as maravilhas do mundo e acabou se tornando um dos maiores gênios da humanidade, iluminando profundamente a compreensão do universo que temos hoje. Jennifer Berne e Vladimir Radunsky convidam o leitor a viajar com Einstein numa jornada pela sua vida, desde o seu nascimento, e descobrir com ele o poder que a imaginação pode ter em cada um de nós.

Mula sem cabeça, de Ilan Brenman e ilustrações de Marjolaine Leray
Apesar de bem antiga, a lenda da mula sem cabeça ainda é contada em diversas regiões do Brasil. Mas como foi que ela surgiu? E quais seriam as impressões de um estrangeiro ao ouvir essa história tão particular do nosso folclore? Foi pensando nisso que Ilan Brenman resolveu contar, pra todos que quiserem saber, como nasceu a mula sem cabeça e desafiar uma ilustradora que vive bem longe daqui a criar a sua versão da assombração. Dá pra imaginar? O resultado é surpreendente!

Os nada-a-verde Jean-Claude R. Alphen e ilustrações de Juliana Bollini
Era uma vez uma cidade particular. Nela viviam seres especiais, todos diferentes um do outro. Cada um tinha o seu jeito e a sua turma, e não se misturavam com qualquer um. O-que-sorri era parente próximo d’O-que-assobia, que por sua vez era amigo d’O-que-quer-ficar-livre e d’O-que-cata-borboletas. Mas eles não podiam chegar perto de tipos como O-que-olha-o-relógio, O-que-conta-dinheiro, O-que-espera-pelo-pior, O-que-sempre-diz-não etc. (E muitos se identificavam com esse último tipo.) Acontece que um belo dia O-que-olha-o-espelho olhou um pouco mais para o lado e se deu conta de que existia outro tipo de beleza além da sua própria: era O-que-tem-cabelos-lisos. Foi paixão à primeira “olhada”, e também um escândalo, pois os dois não pertenciam ao mesmo grupo, de jei-to ne-nhum! Esse incidente se espalhou como fogo na floresta e logo a cidade estava transformada, e a encrenca, armada – O-que-acha-que-vai-dar-tudo-errado que o diga…

A cozinha encantada dos contos de fadasde Katia Canton e ilustrações de Juliana Vidigal e Carlo Giovani
Cozinhar é uma tarefa mágica. Um punhado de farinha, manteiga e ovos pode se tornar um lindo bolo, assim como um copo de leite gelado com sorvete e morangos vira um delicioso milk-shake. Com um pouco de persistência e criatividade, as coisas se transformam, ganham brilho, vida e graça, como num passe de varinha de condão. Neste livro, Katia Canton reuniu o encanto da culinária com a fantasia dos contos de fadas para apresentar as diversas receitas que aparecem em histórias como Cinderela, Pele de Asno, O Gato de Botas e muitas outras.

Como ser mulher: entrevista com Caitlin Moran

Em Como ser mulher: um divertido manifesto feminino, Caitlin Moran usa suas próprias experiências para falar com humor sobre temas comuns a toda mulher moderna: da adolescência à maternidade, de relacionamentos a modelos de comportamento.

O jornalista João Lourenço teve a oportunidade de conversar com a autora, leia a entrevista abaixo:

1 – Coco Chanel disse que uma mulher sem amor é uma mulher perdida. Você concorda?
Jamais! Você sempre pode se masturbar. Se vivesse no mundo de hoje, ela iria encontrar alternativas bem mais divertidas e prazerosas do que um homem. Eu tive sorte por conhecer meu marido na adolescência. Conheci a pessoa certa, isso me deu mais tempo e energia para me focar em outras áreas da minha vida. Falo isso por conta das minhas amigas solteiras, vejo como é cansativo essa busca incessante pelo senhor perfeito. Eu não acho que os homens se preocupam tanto com isso, por que não podemos fazer o mesmo? Claro que é ótimo ter alguém ao seu lado para compartilhar alegrias e tristezas, mas isso não deve ser uma regra. Uma mulher não pode se sentir menos realizada por não ser mãe e não ter ao lado o marido dos sonhos. Somos consumidas pelo pensamento de precisar de tal sapato, tal bolsa, tal corte de cabelo para ser feliz. Não vejo isso como uma necessidade, não precisamos dessas coisas. Necessidade é diferente de desejo. Você pode desejar algo, mas isso não significa que precisa daquilo para ser feliz. O mesmo deve ser aplicado aos homens. No fim, vamos morrer sozinhas. Coco Chanel morreu triste e sozinha, não é mesmo? Infelizmente, ainda vivemos em um tempo onde grande parte das mulheres coloca o amor na frente de suas vidas. Prefiro ter uma vida do que um amor.

2 – Você geralmente é associada com a nova fase de libertação das mulheres. Qual é seu conceito de liberdade?
Liberdade não tem muito a ver com coisas gloriosas. A maior libertação vai acontecer quando não formos julgadas logo na primeira falha. Uma hora ou outra, todo mundo acaba falhando. O melhor exemplo pode ser encontrado no ambiente de trabalho. Se você vem de uma minoria — seja gay, negro ou mulher — todos os olhares estarão em cima de você, é como se todos esperassem pelo pior. Mesmo com tantas mulheres no poder, a pressão ainda é muito maior em cima de nós, nossas chances ainda são menores do que as dos homens. Meu ideal de liberdade é viver em um mundo onde somos julgadas pelo erro em si e não pelo simples fato de ser uma mulher.

3 – Como seria o modelo de mulher ideal do século 21?
Seria como a minha filha de 11 anos. Ela é muito confiante, feliz e adora ler. Esses dias, ela chegou em mim e disse que sentia pena pela cantora Rihanna. Fiquei intrigada, pois ela adora música pop. Ela disse que gosta da Rihanna, mas que seria legal se ela não precisasse se apresentar semi-nua. “Um cardigã e uma calça cairiam bem nela, mamãe.”

4 – Você ainda tem dúvidas sobre ‘como ser uma mulher’?
Claro, todo tempo. Eu nunca fui para a faculdade, larguei a escola aos 11 anos, não tive a chance e o interesse de ler grandes livros sobre feminismo. Durante a sessão de fotos para o material de divulgação dos meus livros, eu não aceito ajuda de cabeleireiro e maquiador. Faço tudo do meu jeito. Fico feliz por conseguir mostrar que podemos, sim, ter acne, pele ruim. Eu tento desvendar esses assuntos através das minhas experiências. Ser mulher não é nada glamouroso.

5 – Sua vida seria mais fácil se você fosse um homem?
De forma alguma, eu sinto pena dos homens, pois eu posso ter um orgasmo múltiplo, algo que eles nunca vão poder experimentar. Chega até ser um pouco injusto. Eles ficam com quase todo o trabalho, mas na hora “H” somos nós que desfrutamos da melhor parte.

6 – Qual seu problema com a depilação à brasileira?
Fiquei preocupada quando soube que o livro iria sair no Brasil. Não sabia se era uma atividade comum entre vocês ou se tratava de uma técnica que foi exportada para cá. Eu não quero banir a depilação, seja ela brasileira ou não. Quem quiser se depilar, vá em frente. O que me deixa incomodada é a ideia de que para ser considerada uma mulher “normal” você precisa estar lisa como uma bundinha de neném. Já conheci mulheres que deixavam de sair por conta de alguns pelos. Nenhuma mulher deveria precisar gastar muito do seu tempo e dinheiro para se sentir natural. Veja os homens: eles não precisam passar por uma experiência cara, dolorida e cansativa para se sentirem mais sensuais. Sei que pode soar estranho, mas não me depilo por achar que não combina comigo, não sei explicar, me sinto exposta, estranha, mais gorda.

7 – Como é envelhecer na era digital?
De maneira geral, estamos envelhecendo melhor do que a geração anterior, com mais sabedoria, eu diria. Quando eu era adolescente, lembro de ler entrevistas com mulheres de 30 anos que só sabiam reclamar sobre as dificuldades relacionadas ao envelhecimento. Tinha medo que o mesmo fosse acontecer comigo, que meu corpo ficaria totalmente estranho e pior do que já era. Eu fui uma adolescente gorda, não tinha roupas de grife, nem nada do tipo. Eu mesma dava um jeito de costurar uns trapos, fazia meu cabelo e maquiagem. Tudo melhorou. Sou grata por envelhecer em uma era digital, mais democrática; mas ainda há muito para ser mudado. Nós, mulheres, precisamos fazer e dizer o que bem entendemos. A internet, por exemplo, ajudou muito nesse aspecto.

8 – Muitos autores defendem que o excesso de tecnologia pode transformar o mundo em um lugar pior, mais frio. Como você se sente em relação a isso?
Pelo contrário, acredito que a internet aproxima as pessoas. Eu vivo conectada. Gasto boa parte do meu dia trocando mensagens e experiências com os leitores do mundo inteiro. Eu também utilizo a rede para benefício da minha vida social. Como sou mãe de duas crianças, não tenho como sair todos os dias para relaxar e conhecer pessoas novas. Antes das redes sociais, eu ficava em casa o dia inteiro entediada, sem ter para onde fugir. Agora, posso ter uma vida social, é como se eu saísse sem  ter que deixar a minha casa. Enquanto cuido das crianças, vou ao Twitter, faço uma piada, troco confidências com leitores. Há 20 anos atrás, isso não seria possível. Sinto que com a internet eu posso produzir mais, sem contar que é ótimo quando estou viajando sozinha. É uma distração necessária. Essa conexão digital facilita no processo de expressão emocional de todos nós, principalmente se você faz parte de uma minoria. Estudos comprovam que pessoas com acesso a internet desenvolvem um raciocínio mais lógico.

9 – Sua vida mudou muito desde o lançamento de seu último livro?
Eu queria que as mulheres se identificassem com a minha estranheza, mas não imaginava que o livro, Como ser mulher, seria um grande sucesso. A maior mudança é que agora, quando estou em um pub, mulheres de todas as idades me abordam para compartilhar suas frustrações sexuais e amorosas. Ouço relatos incríveis, gosto disso. É revigorante perceber que em uma sociedade tão dispersa ainda existe essa aproximação entre autor e leitor. Ah, também não posso deixar de mencionar que não tenho mais problema com aviões. Como sou gordinha, eu lutava contra as poltronas apertadas da classe econômica. Hoje, tenho minha cama e champanhe à vontade na primeira classe. Uma grande mudança, vai.

10 – Quais seus planos para o futuro?
Estou trabalhando em uma série sitcom com a minha irmã. Terminamos de escrever o roteiro, agora está em fase de produção. O enredo gira em torno de três adolescentes pobres, que não pensam em ser sexy o tempo inteiro. É frustrante ligar a TV e deparar-se com a mesma mulher independente, magra, sempre correndo atrás de um homem inacessível e que frequenta festas badaladas com o melhor amigo gay. Essa não é bem a realidade que conheço. Quero provar que as mulheres não podem ser divididas dessa forma tão rasa. Eu era gorda, queria trabalhar com política, passava a maior parte do meu tempo lendo. Não tinha nada de extraordinário.

Ping Pong

Um dia perfeito?
Trabalhar até as 18h e depois sentar no sofá com as minhas crianças para assistir um seriado qualquer.

Maior medo?
Enlouquecer! Já tem muita loucura na minha família, não gostaria de seguir esse caminho.

Característica que mais deplora em si mesmo?
Não conseguir fingir que estou interessada em algo que está me entediando.

Característica que mais deplora nos outros?
Pessoas sem senso de humor.

O que você mais odeia sobre a sua aparência?
De verdade? Nada! Demorou, mas finalmente aprendi a gostar de cada imperfeição do meu corpo. Adoro minha barriga flácida.

Qual é o seu bem mais precioso?
Além das minhas crianças, meu Macbook e uma ótima conexão de internet — minha vida inteira está lá: filmes, fotos, músicas.

Onde você gostaria de viver?
Em Londres, na casa que eu comprei com muito esforço.

Qual é a qualidade que você mais aprecia em um homem?
A habilidade de entrar no quarto, após um ótimo sexo, carregando uma bandeja de doces. Preciso de mais? Sexo e chocolate, a combinação perfeita.

Quais são os seus heróis na vida real?
Meu marido, que me ensinou que a única coisa que importa na vida é ser educada.

E os da ficção?
Scarlett O’ Hara, Jane Eyre, Anna Green Gables.

Escritores favoritos?
Truman Capote, Dorothy Parker e Charles Dickens.

Qual talento você gostaria de ter?
Gostaria de tocar Jazz no piano.

Um sonho?
Dividir um baseado com a Madonna ou Kate Bush.

Qual é o seu lema?
Sempre saia de casa sabendo que você vai encontrar o seu pior inimigo. Esteja preparada para qualquer tipo de batalha.

 

 

Semana cento e catorze

Os lançamentos desta semana são:

A testemunha silenciosa, de Otto Lara Resende
Este livro reúne duas histórias que a imaginação de um grande escritor, o mineiro Otto Lara Resende, foi colher nas profundezas do tempo e nas entranhas de uma província, para fazer delas indiscutíveis obras-primas da literatura brasileira. Novelas capazes de tocar leitores de qualquer canto e época, não só pela universalidade dos temas de que tratam como pela maestria com que são tecidas. Por detrás delas transparece o esforço sem descanso de um autor que como poucos perseguiu – e tantas vezes alcançou – a perfeição, retocando ou mesmo refazendo interminavelmente seus escritos.

A máquina da lama, de Roberto Saviano (Trad. Joana Angélica d’Avila Melo)
“Compreender o que está acontecendo hoje na Itália parece algo simples, mas, ao contrário, é bastante complexo. É preciso fazer um esforço que redunde na última possibilidade de não sofrermos a barbárie. Porque a máquina da lama cospe contra quem quer que o governo considere inimigo.” As palavras contundentes de Roberto Saviano embalam as histórias sobre a Itália que foram narradas neste volume. Seus temas são os negócios da máfia calabresa no norte do país, o direito à morte digna, o descalabro com o lixo nas ruas de Nápoles, as vítimas de um terremoto que morreram por negligência das autoridades, a compra de votos nas eleições… Citando Tolstói, Saviano convida o leitor a deixar a indiferença de lado: “‘Não se pode enxugar a água com a água e não se pode apagar o fogo com o fogo, portanto não se pode combater o mal com o mal.’ A partir do momento que cada um de nós não faz o mal, está um passo à frente e talvez sonhando com uma Itália diferente”.

Editora Paralela:

Como ser mulher, de Caitlin Moran (Trad. Ana Ban)
Nunca houve época melhor para ser mulher. Nós votamos, temos a pílula, estamos no topo das paradas musicais, somos eleitas presidentes e primeiras-ministras, e não somos acusadas de bruxaria e queimadas desde 1727. Entretanto, algumas perguntinhas incômodas persistem. Os homens no fundo nos odeiam? Como devemos chamar nossos peitos? Por que as calcinhas estão ficando cada vez menores? E por que as pessoas insistem em perguntar quando vamos ter filhos? Em Como ser mulher, a jornalista inglesa Caitlin Moran responde a essas e muitas outras perguntas que mulheres modernas no mundo todo estão se fazendo. A partir de um péssimo aniversário de treze anos, ela fala sobre adolescência, trabalho, machismo, relacionamentos, amor, sexo, peso, maternidade, aborto, moda, compras e modelos de comportamento, sempre com um olhar crítico e muito humor.

A idade dos milagres, de Karen Thompson Walker (Trad. Christian Schwartz)
E se os dias ficassem cada vez mais longos – primeiro em questão de minutos, depois horas, até que o dia virasse noite e a noite virasse dia? Em um sábado aparentemente comum, na Califórnia, Julia e sua família acordam e descobrem, com o resto do mundo, que a velocidade de rotação da Terra está diminuindo. Os dias e as noites vão ficando mais longos, fazendo com que a gravidade seja afetada e o meio ambiente entre em colapso. Ao mesmo tempo que luta para sobreviver em uma paisagem constantemente em transformação e se adaptar à nova “normalidade”, Julia tem que lidar com os problemas típicos da adolescência e os desastres do cotidiano: a crise no casamento de seus pais, a perda de antigos amigos, as amarguras do primeiro amor e o estranho comportamento de seu avô, que acredita tratar-se de uma conspiração do governo e passa o dia catalogando suas posses obsessivamente. Com uma prosa e econômica e prazerosa e a sabedoria emocional de uma contadora de histórias nata, Karen Thompson Walker criou uma narradora singular em Julia, uma garota forte e perspicaz. Entre as tradições do romance de formação e do filme catástrofe, A idade dos milagres é uma obra visionária que discute a capacidade de adaptação do homem, traçando um retrato comovente da vida familiar em um mundo gravemente alterado.