capas

60,8 sextilhões de capas

Por Elisa Braga

O lançamento de livro mais bonito que já vi foi em 1988 na Livraria Cultura, no mesmo espaço onde hoje funciona a loja Companhia das Letras por Livraria Cultura. Na ocasião, ao invés do autor, a capa, ou melhor, as capas foram as estrelas da festa. O livro era Os escritores – As históricas entrevistas da Paris Review vol. 1, e cada um dos 3 mil exemplares da primeira edição foi pintado à mão pelos artistas plásticos Marco Mariutti e Clovis França, sobre projeto gráfico de João Baptista da Costa Aguiar. Foram quinze dias de produção, e no final, com o prazo ficando apertado, lembro de o Luiz e eu irmos ajudar os artistas a colocar as capas para secar em estantes de arame na gráfica do avô do Luiz. A Júlia Schwarcz, cronista deste blog, na época tinha 7 anos e também pintou uma capa, que depois foi comprada no lançamento, na frente dela, que ficou vigiando.

O Luiz pediu ao Pedro Herz, da Livraria Cultura, para forrar todas as prateleiras da loja com os livros pintados artesanalmente. Para todos os lados que olhássemos só se encontrava o mesmo título, e assim ficou “menos difícil” de os leitores escolherem o seu exemplar.

Este projeto realça o caráter de unicidade do livro, a ideia de que o livro é formado pela leitura, que é singular a cada leitor.

No ano passado, quando soube que iríamos fazer uma nova edição das entrevistas da Paris Review,  pensei em reeditar a ideia de capas únicas, mas agora utilizando as novas tecnologias gráficas que não param de aparecer. Chamamos a artista gráfica Flavia Castanheira e a gráfica R. R. Donnelley para juntos pensarmos na possibilidade de usar a impressão digital com dados variáveis (método que utiliza impressão digital e um software especial, permitindo personalizar cada parte de um projeto — é a tecnologia utilizada para imprimir o nome e o endereço do destinatário em correspondências, por exemplo). Deu certo: graças ao software que faz as diversas combinações, podemos ter 60,8 sextilhões de capas com variações nas cores das tarjas, na posição dos nomes dos entrevistados e no logo da editora.

Começamos com 3 mil!

[Veja mais fotos da nova edição e da edição original]

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Elisa Braga é diretora de produção e trabalha na Companhia das Letras desde 1987.