carlos de brito e mello

Mesa 1: Escritas da finitude

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Convidados:

Mediação: João Cezar de Castro Rocha

Três dos mais elogiados jovens escritores brasileiros se reúnem para conversar sobre uma questão comum a eles (e a todos nós). A morte que atravessa os livros de André de Leones, Altair Martins e Carlos de Brito e Mello não é, no entanto, apenas o fato impessoal e difuso à espreita de qualquer um. Pelo contrário, a consciência do fim é algo que se impõe a cada um, como destino individual e inevitável. Daí que escape a clichês fúnebres para se tornar inesperadamente uma força criativa – razão de questionamento existencial e motivo da própria escrita.

Horário de início: 10h

Mediador: Uma pergunta perpassa os livros dos 3 participantes: Por que os seres humanos necessitam de ficção? Somos todos narrativas em andamento. Nos livros podemos experimentar o nascimento e a morte alheios como se fosse a nossa própria.

André de Leones: Gosto de pensar que “Dentes negros” é um livro impulsionado para o fim, talvez até por isso seja uma narrativa breve. Não há como tergiversar muito à frente de um abismo.

Na cidade do interior em que nasci, há um grande número de suicídios, o que me levou a muitos questionamentos na vida. Eu, ao invés de me matar, resolvi escrever sobre a morte dos outros. A literatura não salva, mas adia a morte inevitável.

Mas mesmo sendo um romance apocalíptico, o final é feliz: tendo contemplado o abismo, olham para cima e conseguem enxergar um ao outro. A consciência da finitude é importante.

Altair Martins: Vivenciamos em termos biográficos a morte. Pra mim foi a morte de meu pai. Mas na literatura há 2 mortes: a morte física e a morte anímica. A vida é a arte de esquecer, não de lembrar. É uma arte de morrer constantemente.

A maioria dos livros fala sobre o que ocorre ao redor da morte, não a morte em si. Meu livro “Parede no escuro” mostra um atropelamento e as várias mortes anímicas que ocorrem a partir disso.

Acho curioso que Ricardo Reis não tenha morrido, ele é eterno. Ele tinha uma dúvida: sou ou não sou um deus? Sou imortal? Afinal, Fernando Pessoa morreu antes dele.

Carlos de Brito e Mello: A morte encerra mas também inaugura algumas possibilidades. Em “A passagem tensa dos corpos”, é a morte quem opera a narrativa. Como num jogo de tabuleiro: Resta Um funciona pela morte. Sem a perda da peça o jogo não continua, mas percebe-se a importância do tabuleiro.

Minha teoria, por assim dizer, era que com a chegada da morte nascia a narrativa. Na minha cidade as mortes eram anunciadas por um carro de som. E ao ouvir isso, na casa da minha avó, iniciava-se a narrativa sobre quem era aquela pessoa, o que ela havia feito, as outras pessoas da cidade que já haviam morrido ou não.

O momento da descoberta de uma morte desafia a linguagem, há gaguejos, surpresa, choros. Mas ao mesmo tempo nós só experimentamos a morte por causa da linguagem.

[Os autores agora leem trechos de seus livros.]

Mediador: No seu romance, a morte além de experiência da finitude, é experiência da origem.

Carlos: A ideia de que a morte poderia ser um elemento fundador está a serviço da ideia de que para quem sobreviveu à morte, ela inaugura uma narrativa. A inspiração veio de uma viagem que fiz com meu pai, eu tinha sido convidado para ser padrinho de crisma. No caminho ele falou sobre a história da cidade, Visconde de Rio Branco. Antes de ela ser fundada, no centro havia um morro da forca, onde se executavam os condenados das redondezas. A cidade se organizou ao redor disso.

Mediador: Gostaria que você falasse da presença dos objetos, a materialidade no seu livro de contos.

Altair: Eu tenho uma paixão pelos objetos. No meu próximo livro o personagem funda um país em seu apartamento para fugir do Brasil. Ele tem um fascínio pelo Veja Multiuso, pelo plástico. Os objetos são a população de seu país. Ele é um poeta e começa a escrever poemas sobre os objetos. Ele conclui que os objetos imitam os humanos, tira lirismo deles: só o objetos suportam serem olhados de perto, os humanos não sobrevivem à 2ª revisão.

Mediador: Como se deu a escolha das fotografias do livro?

André: As fotos foram feitas em Silvânia, num único dia, só dei a instrução de que ela deveria tirar fotos em que não houvessem pessoas nem animais. As imagens deveriam mostrar o mundo na calmaria final, a efetivação do apocalipse. Gosto de narrativas que não terminam, escolho um momento na vida de um personagem e acompanho apenas aquele momento, sem se preocupar com um fechamento.

[Uma pessoa na plateia informa que os carros de som em Visconde de Rio Branco foram proibidos.]

Carlos: Nós ouvimos tantas besteiras em alto-falantes, músicas à nossa revelia… Minha mãe faleceu em janeiro desse ano. Meu sobrinho outro dia estava brincando com um balão e jogando bem alto: “numa dessas, talvez minha avó pegue”. Acho que ele foi muito escritor nesse momento.

Horário de término: 11h16