carlos drummond de andrade

Semana trezentos e catorze

 

Companhia das Letras

Os fatos – A autobiografia de um romancista, de Philip Roth (tradução de Jorio Dauster)
Os fatos
é a incomum autobiografia de um romancista que remodelou a maneira como encaramos a ficção. Livro de irresistível candura e inventividade, é especialmente instrutivo em sua revelação sobre as conexões entre arte e vida. Philip Roth foca em cinco episódios de sua trajetória: a infância em Nova Jersey; a formação universitária; o envolvimento com a pessoa mais ríspida que conheceu; o embate com a comunidade judaica por conta de seu livro Adeus, Columbus; e a descoberta do lado adormecido de seu talento que o levou a escrever O complexo de Portnoy. Ao final, um ataque do próprio autor a suas habilidades como biógrafo encerra de forma surpreendente o novo livro de um dos principais escritores contemporâneos.

70 historinhas, de Carlos Drummond de Andrade
Lançado em 1978, 70 historinhas reúne a prosa já publicada por Drummond em outros livros. São crônicas e contos — ou “cronicontos” — em que a observação caminha junto com a fabulação, o humor roça cotovelos com o lirismo e a crítica aparece arejada pelo deboche. Treze das histórias deste livro têm crianças e adolescentes como personagens, sem que o autor se preste a infantilizá-las, pela paródia da linguagem ou pelo primarismo das ações. Pelo contrário, elas enfrentam, contestam e vencem, muitas vezes, os detentores da autoridade, com a inteligência e a argúcia a que recorrem para desafiar-lhes o poder. Mais um lance de gênio de um dos mais importantes autores brasileiros de todos os tempos.

Um amor feliz, Wislawa Szymborska (tradução de Regina Przybycien)
Quando, em 2011, a Companhia das Letras lançou Poemas, o primeiro volume com a lírica da poeta polonesa Wislawa Szymborska (Prêmio Nobel de literatura em 1996), começou uma verdadeira “febre Szymborska” no Brasil: ótimas vendas, esplêndidas resenhas e uma enorme repercussão garantiram um novo e amplo público para essa poesia que fala diretamente com o leitor. A obra de Szymborska equilibra-se entre o rigor e a observação dos fatos, sempre num tom levemente informal –- a despeito da cuidadosa construção dos versos. Falando de amores e da vida cotidiana, a escritora ergueu uma obra que toca os leitores e influencia novas gerações. Este segundo volume promete fazer tanto barulho quanto o primeiro.

Penguin-Companhia

Tratado da vida elegante – Ensaios sobre a moda e a mesa, de Honoré de Balzac (tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
Antes de se dedicar ao projeto titânico de A Comedia Humana, monumento literário de noventa títulos e quase 2.500 personagens produzidos em pouco mais de vinte anos, Honoré de Balzac escreveu um sem-número de artigos em jornais e revistas, sobre política, filosofia, livros — e também boas maneiras, moda e culinária. Esta seleção de textos sobre a chamada “vida elegante” traz o olhar do escritor francês sobre temas como a moda, a cozinha, o uso de luvas e gravatas, além de observações sobre charutos e bebidas alcoólicas. Observações e prescrições — deliciosamente antiquadas e reveladoras da vida europeia do século XIX — a cargo de um dos maiores escritores de todos os tempos.

Objetiva

O princípio da caixa-preta, de Matthew Syed (tradução de Paulo Geiger)
Estudos de caso e entrevistas exclusivas mostram que a chave para o sucesso é uma atitude positiva em relação ao fracasso. Um dos fatores determinantes para o sucesso em qualquer área é o reconhecimento do fracasso. No entanto, a maioria das pessoas se relaciona negativamente com ele, e isso as impede de progredir e inovar, além de prejudicar suas carreiras e vidas pessoais. Raramente reconhecemos ou aprendemos com os erros — apesar de dizermos o contrário. Syed utiliza inúmeras fontes para explorar os padrões sutis do erro humano e nossas respostas defensivas a ele. O autor também compartilha histórias fascinantes de indivíduos e organizações que utilizam com sucesso o “princípio da caixa-preta”, como David Beckham, a equipe de Fórmula 1 da Mercedes e a empresa Dropbox.

A ilíada de Homero adaptada para jovens, de Frederico Loureço
Ao lado da Odisseia, a Ilíada de Homero constitui o berço da literatura ocidental. Apensar de ter sido criado por volta do século VII a.C., este poema épico que narra os eventos da célebre guerra entre gregos e troianos aborda temas atemporais, como o amor, a coragem, a traição. Nesta versão em prosa, pensada especialmente para os jovens, Frederico Lourenço, atentando para a fidelidade ao original, retoma as aventuras vividas por deuses e heróis.

Suma de letras

Minha melodia, de Camila Moreira
Você se apaixonou por Dereck em O amor não tem leis. Chegou a hora de conhecer sua história. Dereck chegou ao fundo do poço. Sem suportar a dor de perder um grande amor, ele se entrega ao sofrimento e mergulha no lado obscuro do rock; com sexo e drogas. Com a carreira em risco, o astro volta ao Brasil um ano depois do casamento de Maria Clara e Alexandre Ferraz, em uma última tentativa de retomar o sucesso e superar o passado. Ao chegar, Dereck reencontra a mulher que nunca esqueceu. A mulher que conheceu no momento mais difícil de sua vida e que conseguiu acalmar seu coração com um sorriso. “Reconheci em sua voz o mesmo sofrimento que o meu, mas também vi em seu olhar a vontade de seguir em frente.”. E não demora para que Dereck perceba que apenas ela poderá tirá-lo do abismo em que se encontra.

O problema dos três corpos, de Cixin Liu (tradução de Leonardo Alves)
Até onde você iria para entrar em contato com seres extraterrestres? China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena a beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Reimpressões

Fora de mim, de Martha Medeiros
Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami
Freud 10 – O caso Schreber e outros textos (1911-1913), de Sigmund Freud
Introdução à história da filosofia – Vol. I, de Marilena Chaui
Um copo de cólera, de Raduan Nassar
O que é isso, companheiro, de Fernando Gabeira
O poder do hábito, de Charles Duhigg
Rápido e devagar, de Daniel Kahneman
Sete breves lições de física, de Carlo Rovelli
Notas sobre Gaza, de Joe Sacco
A herdeira, de Kiera Cass
A maldição da pedra, de Cornelia Funke e Lionel Wigram
A seleção, de Kiera Cass
Coração de tinta, de Cornelia Funke
Mentirosos, de E. Lockhart
Morte de tinta, de Cornelia Funke

Semana trezentos e sete

Companhia das Letras

Farewell, de Carlos Drummond de Andrade
Publicado em 1996, Farewell é um livro póstumo de poemas de Carlos Drummond de Andrade. Mesmo tendo sido lançado nove anos após a morte do autor, esta é uma obra fundamental que toca em temas centrais da poética do escritor mineiro: o tempo, o amor, a brevidade da vida, a família, o encantamento pelos cinco sentidos. A melancolia de mãos dadas com o humor gauche, algo canhestro. A suave metafísica e a ironia delicada. Minas e o vasto mundo. Depuração de uma carreira exemplar e rara em nossas letras, Farewell reafirma, com a sensibilidade característica de seu autor, o percurso formal e ético de Carlos Drummond de Andrade.

Poemas escolhidos, de Mia Couto
O escritor moçambicano Mia Couto tem grande incursão na prosa, com livros de contos, crônicas e romances premiados, mas a poesia sempre fez parte de seu universo criativo e segue como uma de suas formas de expressão favoritas. Para esta antologia poética, o autor selecionou poemas de seus livros Idades cidades divindades, Raiz de orvalho e outros poemas e Tradutor de chuvas.

Seguinte

Uma canção de ninarde Sarah Dessen (tradução de Flávia Souto Maior)
Remy não acredita no amor. Sempre que um cara com quem está saindo se aproxima demais, ela se afasta, antes que fique sério ou ela se machuque. Tanta desilusão não é para menos: ela cresceu assistindo os fracassos dos relacionamentos de sua mãe, que já vai para o quinto casamento. Então como Dexter consegue fazer a garota quebrar esse padrão, se envolvendo pra valer? Ele é tudo que ela odeia: impulsivo, desajeitado e, o pior de tudo, membro de uma banda, como o pai de Remy — que abandonou a família antes do nascimento da filha, deixando para trás apenas uma música de sucesso sobre ela. Remy queria apenas viver um último namoro de verão antes de partir para a faculdade, mas parece estar começando a entender aquele sentimento irracional de que falam as canções de amor…

Suma de Letras

Guia astrológico para corações partidos, de Silvia Zucca (tradução de Joana Angélica D’Avila Melo)
Quando Alice recebe, na mesma semana, a notícia de que seu ex vai se casar e de que a empresa onde trabalha contratou um consultor chamado David Nardi para avaliar e demitir parte do pessoal, ela tem certeza de que está vivendo um inferno astral. E tem razão. Tito, seu melhor amigo e superentendido de astrologia, jura que é um péssimo momento para ser de Libra, mas que as estrelas também estão lá para nos dizer os dias mais auspiciosos para a esfera profissional ou para encontrarmos nossa alma gêmea. Embora cética, Alice decide apostar nas dicas de seu guia astrológico, mas, estranhamente, a astrologia não a protege de encontros péssimos, decepções terríveis e algumas pequenas surpresas emocionantes. Por exemplo: por que David lhe parece cada vez mais interessante, se seus quadros astrológicos são a combinação para um desastre?

Companhia das Letrinhas

Marco queria dormir, de Gabriela Keselman (ilustrações de Noemí Villamuza e tradução de Mell Brites)
À noite, parece que tudo se transforma: o que é pequeno fica grande, o que é concreto vira abstrato e as coisas são engolidas pela escuridão. Era por isso que Marco não conseguia dormir. Para ajudá-lo, sua mãe tenta de tudo: cria um traje antimosquitos, escreve uma carta à Lua, arranja um bastão de escalada para manter o filho firme na cama… Mas será que Marco precisava mesmo de tudo isso? Às vezes, o que está faltando para uma noite tranquila é algo mais simples, que não tem forma nem cor, mas muda alguma coisa dentro da gente.

Semana duzentos e oitenta e oito

Mais um dia magnífico no mar, Geoff Dyer (Tradução Pedro Maia Soares)
Dyer relata aqui a experiência de passar duas semanas num porta-aviões norte-americano. Em 45 pequenos capítulos, escritos no estilo elegante e divertido que o tornou célebre, Dyer descreve cada aspecto da vida num navio de guerra – os marinheiros encarregados de administrar freezers gigantescos de comida processada, a academia de ginástica repleta de oficiais obcecados por musculação, o bloco prisional ocioso, que transforma os vigias em verdadeiros cativos obrigados a supervisionar celas vazias. É um cotidiano completamente oposto aos hábitos do autor. Alto, magro, incapaz de andar no convés sem se curvar, é também, em suas próprias palavras, um ranzinza cheio de restrições alimentares, com aversão a motores, ruído e combustível, e disposto a infernizar a tripulação até conseguir uma cabine privativa – luxo impensável a bordo de um porta-aviões. Ainda assim, seu relato é leve e generoso, cheio de curiosidade e respeito pelo trabalho incansável dos tripulantes: consertar aviões, lançá-los ao céu e recebê-los quando voltam da missão. Um inglês típico frente a um mundo profundamente americano, com suas constantes incitações ao sucesso e à superação, Dyer registra com brilho o cotidiano no navio. O porta-aviões é a representação de uma sociedade em que disciplina, conformidade, dedicação e otimismo se transmutam em formas de identidade.

Penguin

O homem dos lobos, Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza)
No início do século XX, Sigmund Freud revolucionou o estudo das ciências humanas ao publicar ensaios sobre o inconsciente e a sexualidade. Embora suas teorias tenham sofrido grande resistência da sociedade e em especial da classe médica, foram muito disseminadas, alterando radicalmente a percepção do indivíduo sobre o mundo e sobre si mesmo. O homem dos lobos, como ficou conhecido um dos mais instigantes casos clínicos de Freud, conta a história de um garoto amável que se torna, sem razão aparente, irritadiço e amedrontado. E dá ao leitor o privilégio de ver o pai da psicanálise destrinchar as memórias mais remotas de seu paciente, repletas de nuances e contradições, até chegar a um diagnóstico.

Objetiva

Quando os fatos mudam, Tony Judt (Tradução de Claudio Figueiredo)
Editado e apresentado pela viúva de Tony Judt, a historiadora Jennifer Homans, Quando os fatos mudam reúne importantes ensaios escritos ao longo da carreira de Judt de modo a compor uma crônica tanto da evolução de seu pensamento como da notável coerência de seu intenso engajamento e entusiasmo intelectual. Seja ao abordar a pobreza acadêmica da nova história social, a obstinada cegueira da memória coletiva francesa sobre o que aconteceu aos judeus do país na Segunda Guerra Mundial ou o desafio moral enfrentado por Israel em face à questão palestina, a grandeza da obra de Tony Judt reside na combinação de franqueza, brilho intelectual e clareza ética.

Companhia das Letrinhas

Vou crescer assim mesmo, Carlos Drummond de Andrade
Todo mundo foi criança um dia. Mas nem todo mundo fez desse tempo poesia, como Carlos Drummond de Andrade. Nos poemas reunidos neste livro, Drummond fala sobre a infância de um jeito que só os artistas sabem fazer – e é impossível não se identificar. Quem é que nunca levou uma bronca do pai, comeu jabuticabas do pé, ouviu a pergunta “o que você vai ser quando crescer”? Este livro faz parte da coleção Lembrete, que procura despertar o gosto pela leitura com o melhor da literatura brasileira, em seleções pensadas para o público entre 9 e 13 anos.

Suma de Letras

Mr. Mercedes, Stephen King (Tradução de Regiane Winarski)
Ainda é madrugada e, em uma falida cidade do Meio-Oeste, centenas de pessoas fazem fila em uma feira de empregos, desesperadas para conseguir trabalho. De repente, um único carro surge, avançando para a multidão. O Mercedes atropela vários inocentes, antes de recuar e fazer outra investida. Oito pessoas são mortas e várias ficam feridas. O assassino escapa. Meses depois, o detetive Bill Hodges ainda é atormentado pelo fracasso na resolução do caso, e passa os dias em frente à TV, contemplando a ideia de se matar. Ao receber uma carta de alguém que se autodenomina o Assassino do Mercedes, Hodges desperta da aposentadoria deprimida, decidido a encontrar o culpado.

Paralela

A cadeia da sereia, Sue Monk Kidd (Tradução de Thereza Christina Rocque Motta)
Na abadia de santa Senara, batizada com o nome de uma santa celta que fora sereia antes de ser convertida, existe uma cadeira encantada. Reza a lenda que quem tomar assento e fizer um pedido a santa Senara será ouvido. Quando Jessie Sullivan precisa retornar à ilha para cuidar de sua mãe, deixando o marido, Hugh, para trás, é forçada a encarar uma série de dúvidas sobre o seu casamento. Apesar do amor cordial que sente pelo companheiro, ela se vê atraída por um monge, o irmão Thomas, que está prestes a fazer seus votos solenes. Em meio ao mistério que envolve os poderes da “santa pecadora”, Jessie luta contra os desejos que parecem tomar conta de sua vida. Ao ser tocada pela liberdade que a Ilha inspira, seria Jessie capaz de deixar de lado a responsabilidade e o conforto do lar que criou ao lado de Hugh? Uma história comovente sobre espiritualidade e as escolhas que precisamos fazer.

 

 

 

Semana duzentos e setenta e sete

A noite do meu bem, Ruy Castro
Os cassinos fecharam para sempre, mas os indestrutíveis profissionais da noite, sem falar nos boêmios de plantão, logo encontraram um novo habitat: as boates de Copacabana.Eram casas em tudo diversas dos cassinos. Em vez das apresentações grandiosas, dos espaçosos salões de baile e das orquestras em formação completa — que estimulavam uma noite ruidosa —, as boates, com seus pianos e candelabros, favoreciam a penumbra e a conversa a dois.
Isso não quer dizer que tenham deixado de ser o centro da vida social. Ao contrário, não havia lugar melhor para saber, em primeira mão, da queda de um ministro, de um choque na cotação do café ou de um escândalo financeiro do que nas principais boates, como o mítico Vogue, frequentado por exuberantes luminares da República e por grã-finos discretos e atentos. Mas a noite era outra: assim como a ambiance, a música baixou de tom. Os instrumentistas e cantores voltaram aos palcos em formações menores, andamento médio e volume baixo, quase um sussurro. Tomava corpo um novo gênero, um samba suavizado pela canção, que encontrou nas boates o lugar ideal para se desenvolver plenamente. Essa nova música, com seus compositores, letristas e cantores; as boates, com seus criadores, funcionários e frequentadores, e o excitante contexto social e histórico que fez tudo isso possível são o tema do novo livro de Ruy Castro, que mais uma vez nos delicia com sua prosa arrebatadora.

Mulheres de cinzas, Mia Couto
Primeiro livro da trilogia As Areias do Imperador, Mulheres de cinzas é um romance histórico sobre a época em que o sul de Moçambique era governado por Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses), o último dos líderes do Estado de Gaza – segundo maior império no continente comandado por um africano. Em fins do século XIX, o sargento português Germano de Melo foi enviado ao vilarejo de Nkokolani para a batalha contra o imperador que ameaçava o domínio colonial. Ali o militar encontra Imani, uma garota de quinze anos que aprendeu a língua dos europeus e será sua intérprete. Ela pertence à tribo dos VaChopi, uma das poucas que ousou se opor à invasão de Ngungunyane. Mas, enquanto um de seus irmãos lutava pela Coroa de Portugal, o outro se unia ao exército dos guerreiros do imperador africano. O envolvimento entre Germano e Imani passa a ser cada vez maior, malgrado todas as diferenças entre seus mundos. Porém, ela sabe que num país assombrado pela guerra dos homens, a única saída para uma mulher é passar despercebida, como se fosse feita de sombras ou de cinzas.
Ao unir sua prosa lírica característica a uma extensa pesquisa histórica, Mia Couto construiu um romance belo e vívido, narrado alternadamente entre a voz da jovem africana e as cartas escritas pelo sargento português.

Confissões de um homem livre, Luiz Alberto Mendes
Quando tinha doze anos, Luiz Alberto Mendes fugiu de casa pela primeira vez. Filho de pai alcoólatra e de dona Eida, vivia num ambiente de brigas intermináveis e de opressão. Aos dezenove foi preso, acusado de assalto e homicídio. Primeiro passou pela Febem, atual Fundação Casa, depois, já adulto, cumpriu pena em várias casas de detenção. Em 1984, fugiu e foi recapturado. Quase dez anos depois, vivendo em regime semiaberto, com um pé na liberdade e outro no sistema prisional, foi detido em flagrante por roubo. Em um dos pontos altos deste livro, o autor narra a fuga repleta de tensão, imprevistos e erros, que culminaram no cerco da polícia.
Faltando pouco para alcançar a liberdade definitiva, teria que amargar mais alguns anos na cadeia. Mas dessa vez o anti-herói deste relato autobiográfico tinha um bom motivo para viver à margem das confusões e dos grupos radicais: agora era pai de Renato, fruto do casamento com Irismar. Enquanto esteve preso, trabalhou no setor jurídico, em um grupo espírita, nos Correios, foi professor e até produziu bichinhos de pelúcia. Passou por muitas celas, foi transferido para diferentes presídios, e cada mudança representava um recomeço: impor-se diante dos colegas, conhecer as regras, conquistar privilégios e arrumar um emprego para sustentar a família.
Confissões de um homem livre encerra a trilogia que começou com Memórias de um sobrevivente e foi seguida de Às cegas. Assim como nos outros livros, o seu relato do mundo do crime é um dos poucos que não doura a pílula. O discurso é seco, nervoso e direto. Sua honestidade, desconcertante. E são essas qualidades que aparecem de modo mais contundente nesta história sobre os anos que antecederam a sua liberdade.

Flores, votos e balas, Angela Alonso
É vasta a bibliografia sobre a abolição. Já foram discutidas suas causas econômicas, as resistências judiciais e cotidianas de que foi alvo, as revoltas e as fugas de escravos. Ainda não foi plenamente reconhecida, contudo, a relevância do movimento abolicionista .Joaquim Nabuco, um de seus líderes, atribuiu a libertação dos escravos à magnanimidade da casa imperial. No centenário da Lei Áurea, em 1988, estudiosos e ativistas do movimento negro contestaram essa versão e ressaltaram a resistência dos cativos, operando apenas uma inversão de sinal: em vez da liderança da dinastia, o protagonismo dos escravos; em vez da princesa Isabel, Zumbi. Esse deslocamento deixou à sombra um fenômeno que não foi nem obra de escravos, nem graça da princesa: o movimento pela abolição da escravidão. Este livro conta sua história. Reconstrói a trajetória da rede de ativistas, associações e manifestações públicas antiescravistas que, a exemplo de outros países, conformou um movimento social nacional – o primeiro no Brasil do gênero. O movimento elegeu retóricas, estratégias e arenas, operando sucessivamente com flores (no espaço público), votos (na esfera político-institucional) e balas (na clandestinidade), num jogo que se estendeu por duas décadas, de 1868 a 1888. Tudo isso é narrado por meio da trajetória de ativistas nacionais decisivos para o desfecho da empreitada: André Rebouças, Abílio Borges, Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco – três deles negros. A abolição não se faria por si, pelo desenvolvimento da economia ou por decisão solitária do sistema político, como não se fez por canetada da princesa. É a relevância do movimento abolicionista para o fim da escravidão que este livro mostra de forma brilhante. A luta pela libertação dos escravos dividiu águas na história do país – investigar sua natureza é também compreender um processo que ainda reverbera nas formas contemporâneas da desigualdade no Brasil.

Receita de Ano-Novo, Carlos Drummond de Andrade (Ilustrações de Andrés Sandoval)
Natal, Ano-Novo, tempo de balanço pessoal, de renovação. Sentimentos um tanto ambíguos se alternam, quando a eletricidade pelo encerramento de mais um ciclo vem acompanhada de inefável melancolia. Esse é o espírito evocado pelos poemas de Carlos Drummond de Andrade, selecionados por Luis Mauricio Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, neste Receita de Ano-Novo. Com projeto gráfico exclusivo e ilustrações de Andrés Sandoval, colaborador de publicações como piauí e The New Yorker e autor de Socorram-me em Marrocos (Companhia das Letrinhas), Receita de Ano-Novo é um brinde — muito drummondiano, pois — ao final do ano. Boas festas!

Fontanar

Uma luz entre nós, Laura Lynne Jackson (Tradução de Luiz A. de Araújo e Afonso Celso da Cunha Serra)
Uma luz entre nós lista algumas dicas para termos uma vida rica e plena. Através de sua maravilhosa visão de mundo, Laura Lynne Jackson nos lembra de que nosso relacionamento com aqueles que amamos é duradouro; que estamos todos conectados e participamos das vidas uns dos outros; que estamos aqui para amar e sermos amados. Sua história oferece um novo entendimento sobre as nossas consciências e a experiência humana.

Companhia das Letrinhas

Você tem talento, Charlie Brown!, Charles M. Schulz (Tradução de André Conti)
Charlie Brown vai fazer de tudo para impressionar a Garotinha Ruiva! Participar do concurso de talentos da escola com um número de mágica, tentar alguns passos de dança bem originais em uma competição e muito mais. Será que ele finalmente vai provar que tem um grande talento? Ou mais uma vez vai fazer um papelão daqueles?

Manolo, 100 anos – Parte I

manoloimagem

Imagem: Pedro Augusto G. Drummond

Hoje é o centenário do nascimento de Manuel Graña Etcheverry (1915-2015), autor do tão inesperado quando irônico Antologia Hede. O cordobês Manolo foi uma dessas figuras poliédricas que só poderiam ter sido geradas pela cultura argentina do século XX: advogado, poeta, bibliófilo, tradutor, deputado do Congresso Nacional aos trinta anos, amante do xadrez, genro de Carlos Drummond de Andrade, irresistível contador de causos. Uma figura como poucas.

Os textos a seguir testemunham a multiplicidade da experiência de Manolo durante sua longa e fervilhante trajetória. O primeiro deles é a carta em que Carlos Drummond de Andrade responde ao então jovem advogado sobre seu pedido de casamento com Maria Julieta, única filha do poeta mineiro. O casal teria três filhos: Carlos Manuel, Luis Mauricio e Pedro Augusto. Na segunda parte, uma bela evocação de Luis Mauricio sobre uma partida de xadrez com o pai. E, por fim, um poema de autoria do próprio Manolo.

* * *

Rio, 3 outubro 1949

A Manuel Graña Etcheverry.

Meu amigo — não estranhe que o chame assim, dado o vínculo afetivo que se estabeleceu entre nós, sem sequer nos conhecermos —, aqui tenho sua carta de 24 de setembro, que minha mulher e eu lemos com o mais justificado interesse. Embora não disse nada de substancialmente novo sobre o acontecimento que a determinou e que já conhecíamos através de Maria Julieta, teve para nós o mérito de um cordial primeiro contato, feito de uma maneira tão pouco convencional, tão espontâneo, que nos causou uma grata impressão.

Vejo que avaliou bem o sentido de nossa atitude, ao aprovarmos logo a escolha de Maria Julieta, que implicava na perspectiva de uma separação bastante dura num casal que já não é rigorosamente jovem e não tem outros filhos com que se distrair. Realmente, abrimos mão da convivência com Maria Julieta e não temos nada para substituí-la, pois somos bastante misantropos. Mas nem eu nem minha mulher desejaríamos retê-la junto a nós em tal circunstância, movidos por um amor que seria afinal puro egoísmo de nossa parte.

O que nos diz a seu respeito aumenta as minhas esperanças de que este casamento constitua um belo e duradouro entendimento entre duas pessoas preparadas para isto. Maria Julieta é quase uma criança, mas, como terá visto, bastante amadurecida intelectualmente. Alguma das concepções que ela tem sobre o mundo e das coisas serão fruto desse avanço da experiência intelectual sobre a experiência propriamente humana. Caberá a seu marido ajustar no mesmo plano sensibilidade e razão. Ela não somente o ama como o admira tanto, que não tenho dúvida sobre a boa influência que poderá exercer sobre o destino de minha filha. Oriente-a e guie-a sempre no sentido mais elevado, de modo a que ela se realize plenamente e seja uma boa companheira sua para tudo — no bom como no mau tempo — e nós lhe seremos infinitamente reconhecidos por isso.

Desde já, o que lhe posso dizer é que nos sentimos ligados a V. pelo bem que quer a Maria Julieta e pela confiança que igualmente depositou nela.

Aqui o esperamos dentro de alguns dias e ficamos confiados no seu propósito de nos podermos ver a todos, no futuro, com a desejada frequência.

Cordial abraço de

Carlos Drummond de Andrade.

* * *

Leia a segunda parte da homenagem a Manolo pelo seu centenário.