charles chaplin

Chaplin escritor

Por Julia Bussius


Cena de
Luzes da ribalta

Para quem está do lado de fora, o ofício de editar livros pode parecer algo que não envolve nada além de prazer literário. Quantas vezes nós, editores, não escutamos: “Que maravilha, então você passa o dia lendo histórias?”. É sempre um pouco triste desapontar esse simpático e esperançoso interlocutor e responder que o trabalho envolve, na verdade, muitas coisas além disso, ainda que haja, sim, muitos momentos de deleite com a leitura. Para mim, porém, devo confessar que a maior satisfação mesmo é quando recebo o primeiro exemplar de um livro, recém-chegado da gráfica. A alegria de ver aquele objeto pronto, de tê-lo em mãos depois de tantas idas e vindas no longo (e por vezes árduo) processo da edição, é difícil de ser explicada. Uma sensação de contentamento quase infantil, de modo que preciso me controlar para não importunar (muito) os que estão por perto para mostrar o tempo todo o livro incrível que acabou de chegar.

Mas quando Luzes da ribalta ficou pronto, não teve jeito: precisei importunar os colegas. Precisei inclusive ir até o outro andar da editora para interromper outros colegas e exibir o livro fabuloso do Chaplin que tinha ficado pronto. Tive que fotografar e compartilhar e mandar para todo mundo. Mas o fato é que a edição, com capa da Elisa von Randow, é algo fora de série. Mais de uma centena de imagens ilustram os bastidores da filmagem do longa-metragem e a atmosfera londrina que inspirou a novela (até então, inédita) escrita pelo gênio do cinema, e que depois viraria o filme. Um livro de encher os olhos — mas não só.

Charles Chaplin, que mal frequentou a escola, mostra uma impressionante veia literária nesta novela nostálgica e um tanto sombria, mas absurdamente sensível. Segundo seu biógrafo, David Robinson (organizador do livro), a intenção do autor nunca foi publicar o texto. O manuscrito teria sido uma espécie de exercício, um rascunho que depois se desenvolveu no roteiro do filme Luzes da ribalta (1952). O protagonista, Calvero, é um comediante decadente e alcoólatra, que se vê distante dos seus dias gloriosos de palco. Ele por acaso salva do suicídio a bailarina Terry, interpretada no cinema pela divina Claire Bloom, uma jovem desesperançada que não vê outra alternativa além da morte. O encontro desses dois personagens gauches é a base de uma história notável. E, para homenagear Carlitos, nada mais apropriado que citar outro Carlos, também gauche, autor do belíssimo poema “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, publicado no livro A rosa do povo. Eis um trecho:

Era preciso que um poeta brasileiro,

não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,

girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver

como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,

de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior

onde nem sempre se usa gravata mas todos são extremamente polidos

e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,

preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso, dispersos no tempo,

viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse

para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

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Julia Bussius é editora da Companhia das Letras.