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Uma coletânea extraordinária

Por Julia Bussius

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Carta-padrão, China, 856 d.C.

“Ontem, tendo bebido demais, fiquei tão embriagado que passei dos limites; porém nenhuma das palavras rudes e obscenas que pronunciei foi dita por mim em sã consciência. Na manhã seguinte, ao ouvir comentários sobre o assunto, dei-me conta do que havia acontecido e quase morri de vergonha, só queria achar um buraco para me esconder. Tudo ocorreu porque minha pequena tolerância não me permite encher o copo até a borda. Humildemente espero que em vossa sábia benevolência não me condeneis por minha transgressão. Logo vou desculpar-me pessoalmente, mas, entrementes, envio-vos esta mensagem para vossa bondosa avaliação. Deixando muito por dizer, subscrevo-me, respeitosamente.”

Usher: Não deixa de ser um consolo saber que há mais de mil anos, como hoje, algumas pessoas bebiam demais, faziam um papel ridículo num jantar e acordavam no dia seguinte profundamente arrependidas. E isso acontecia com tanta frequência que em determinada região da China o chamado Departamento de Etiqueta de Dunhuang criou uma carta-padrão — um pedido de desculpa pelo mau comportamento da véspera — que o beberrão só precisava assinar e, cabisbaixo, entregar ao desapontado anfitrião. Essa versão data de 856 d.C.

Esta carta chinesa do século IX – que poderia ser usada como modelo por qualquer um de nós — é uma amostra da fascinante correspondência incluída no livro Cartas extraordinárias, que já está nas livrarias. Organizado por Shaun Usher, um aficionado por missivas e responsável pelo blog Letters of Note, este é um volume a ser saboreado aos poucos. Figuras como Leonardo da Vinci, Elvis Presley, Virgina Woolf, Gandhi e a rainha Elisabeth II, apenas para citar alguns, estão entre os remetentes desta coletânea de 125 cartas.

E oferecemos mais uma degustação: a carta de Charles M. Schulz, genial criador do Snoopy, para a leitora Elizabeth Swaim.

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5 de janeiro de 1955

“Querida srta. Swaim,

Aceitei sua sugestão referente a Charlotte Braun e vou descartá-la. Se ela ainda aparecer, será em tiras que estavam prontas antes de eu receber sua carta ou porque outras pessoas me escreveram para dizer que gostam dela. Lembre-se, porém, de que você e seus amigos carregarão na consciência a morte de uma criança inocente. Está disposta a assumir tal responsabilidade?

Obrigado por me escrever e espero que goste das futuras tiras.

Cordialmente,

Charles M. Schulz”

Usher: Em 30 de novembro de 1954, uma personagem chamada Charlotte Braun estreou na popular série de quadrinhos Peanuts, então com quatro anos de existência, e não agradou. Falastrona, descarada e dogmática, a “boa-praça Charlotte Braun” logo irritou os leitores fiéis de Peanuts e em 1o de fevereiro de 1955 despediu-se da série, após dez participações. Quarenta e cinco anos depois, após a morte de Charles M. Schulz, o criador de Peanuts, uma senhora chamada Elizabeth Swaim doou à Biblioteca do Congresso esta carta fascinante, que Schulz havia lhe enviado um mês antes do desaparecimento de Braun em resposta a sua reclamação contra essa personagem. Schulz concorda em matá-la, lembra Swaim de que ela será responsável por essa morte e acrescenta um desenho de Braun com um machado na cabeça.

* * * * *

Julia Bussius é editora da Companhia das Letras.

Schulz desde sempre

Por Gustavo Duarte

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Para comemorar o lançamento da coleção de livros infantis de Snoopy e sua turma pela Companhia das Letrinhas, convidamos autores e colaboradores da editora para contarem suas histórias com a obra de Charles Schulz. Hoje, o texto fica por conta de Gustavo Duarte, autor de Monstros! Có & Birds, que chega nas livrarias no final de novembro.

Leia também o post anterior escrito por Mell Brittes, editora da Companhia das Letrinhas.

* * *

Puxando pela memória, não lembro a primeira vez que ouvi falar do Charles Schulz.

Deve ser porque ele, juntamente com Snoopy, Charlie Brown e companhia, sempre estiveram presentes na minha vida.

Foi facilmente a minha primeira referência de quadrinhos e de alguém que produz quadrinhos.

Por isso, quando a Companhia me pediu para escrever sobre ele, achei fácil por um lado e difícil por outro, já que nos meus 37 anos de vida não me faltam ocasiões para lembrar desse que é certamente um dos meus maiores ídolos e uma das grandes influências na minha carreira.

Como estou escrevendo aqui justamente por ter virado um cartunista/quadrinista, acho que vale lembrar que foi ele que me fez querer ser um desenhista pra valer.

Era um sábado no começo de 84 ou final de 83. Eu tinha seis anos de idade.

Estávamos mudando de apartamento e minha única preocupação era que naquela tarde a Rede Manchete passaria um documentário sobre a vida de Charles Schulz. E, óbvio, eu queria muito assistir.

Todo mundo sabe como uma mudança é caótica. Até para uma criança de 6 anos.

Porém, na sexta, a minha mãe tinha me prometido: como o programa passaria no fim da tarde, até lá, por mais que tudo ainda estivesse bagunçado, já teríamos tudo dentro do apartamento e poderíamos ligar uma TV, mesmo que improvisada, e assistir.

E foi assim. Final da tarde, meu quarto era só um monte de caixas e uma TV sintonizada na Rede Manchete.

Lá fiquei assistindo feliz da vida o documentário que mostrava o meu ídolo e seus personagens.

Minha mãe se sentou ao meu lado e assistiu um pouco comigo.

Vendo ele desenhando no estúdio dele lá em Santa Rosa, Califórnia, pela primeira vez soube o que eu queria fazer da vida.

Virei para minha mãe e disse: “Mãe, é isso que eu quero fazer quando crescer.”

Venho tentando desde então. :)

Nesses mais de 30 anos, pra mim pouco mudou.

Continuo tão ou mais fã do que eu era naquele sábado.

Talvez isso seja uma das características mais marcantes no trabalho dele.

Poucos cartunistas conseguiram conversar tão bem com todas as idades como Charles Schulz.

E é incrível como ainda conversa.

Seja nas milhares de tiras e desenhos que produziu durante os 50 anos de Peanuts, nas centenas de jornais que ainda o republicam diariamente, nos livros novos e antigos que continuam sendo editados ou num novo filme 3D que estreia no ano que vem.

Charles Schulz é pra sempre.

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Gustavo Duarte nasceu em São Paulo, em 1977, e mudou-se para Bauru em 1985. Formado em design gráfico pela Unesp, começou sua carreira de cartunista e ilustrador no Diário de Bauru, produzindo trabalhos de 1997 a 1999. Foi designer gráfico na editora Abril, além de colaborar com as principais revistas e jornais do país. Foi vencedor de oito prêmios HQMix. Pela Quadrinhos na Companhia, publicou Monstros! (2012) e Có & Birds (2014).

Por que amar o Snoopy

Por Mell Brites


Nunca fui fã do Snoopy. Não tinha o costume de ler as tirinhas do Charles Schulz ou assistir os episódios na tevê e nunca fiz loucuras para ter uma camiseta do Charlie Brown, um estojo da Lucy ou um fichário do Woodstock. Quando a Júlia Schwarcz me passou os livros da turma para decidirmos juntas se gostaríamos de publicá-los aqui no Letrinhas, confesso que comecei a avaliação com alguns pés atrás. Por que publicar histórias que, em geral, todo mundo já conhece, de personagens que estão estampados em materiais escolares, roupas, alimentos etc.? Isso me parecia no mínimo estranho — e talvez uma aposta errada.

Bom, não é difícil imaginar que a minha opinião mudou rapidamente. E posso explicar por quê. Parte considerável dos originais que temos recebido, e muitos livros para crianças que têm saído no Brasil e fora, discutem temas relacionados ao próprio ato de ler, à relação entre texto e imagem, à questão do livro objeto, entre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, têm essa feição experimental e metalinguística. Isso, me parece, reflete o momento atual da literatura infantil; muito do que vem sendo publicado expressa essa vontade de brincar com o suporte, pensar o ato da escrita, refletir sobre, afinal, o que é a literatura para crianças. Acho a discussão muito válida, legítima e enriquecedora, e sou apaixonada por vários títulos com essa característica publicados aqui e em outras editoras no Brasil e mundo afora.

Mas ler um texto formulado há mais de sessenta anos me trouxe uma sensação que há tempos não encontrava nas histórias infantis, como se ali houvesse certa ingenuidade que os livros atuais não tivessem mais. Quando terminei a leitura de It’s time for school, Charlie Brown (ou, em português, É hora da escola, Charlie Brown, um dos quatro títulos que publicaremos em novembro), imediatamente pensei que a palavra de ordem naquela narrativa era simplicidade. Senti até uma espécie de euforia, um gosto de liberdade, quando me caiu a ficha de que “aquela era uma história”. Isto é: um enredo habitual (um garoto que sempre se dá mal na vida e está apavorado porque as férias estão acabando e o seu martírio vai recomeçar) somado a uma boa dose de sensibilidade com a palavra é suficiente para entreter, fazer pensar, abrir portas diferentes para cada leitor.

É a essa ingenuidade que me refiro, pois histórias como as de Schulz me fazem lembrar que nem sempre é preciso um “algo a mais”, uma crítica concreta, uma mensagem, um tema a ser tratado com a criança. E foi assim que me tornei fã convicta do beagle mais famoso do mundo e de seu criador.

Daí pra frente foi só alegria: trabalhar no processo de edição de texto, adequar as ilustrações ao formato que escolhemos para a nossa coleção, tentar reproduzir, nos releases e textos de quarta capa, um pouco dessa “singela magia” que encontrei nas narrativas do Schulz, pensar nas ações de divulgação e marketing e ver o entusiasmo de todos os departamentos da editora com esse cão que, pelo jeito, só eu não amava.

Estamos nas etapas finais da produção e tocando as ações de divulgação — acompanhem o Snoopy nas nossas redes sociais! Agora o que importa é que os livros cheguem lindos e alcancem o maior número possível de leitores. Torço para que muitos possam sentir esse prazer que senti e que só a verdadeira diversão traz, ou para que possam, no mínimo, se surpreender com essa turma capaz de muito, muito mais do que imaginamos.

Com este texto, abro no blog a nossa série de depoimentos sobre Snoopy e sua turma, que serão dados por autores da casa.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas.