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20 leituras sobre amor (com finais felizes ou não)

O Dia dos Namorados está chegando, e nós aqui da Companhia das Letras achamos que um livro é um ótimo presente para celebrar, ou enfrentar, o amor. Eles contam histórias de grandes paixões e não importa se no final os relacionamentos dão certo ou errado: cada livro apresenta uma forma diferente de amar ou de encarar o amor. Pensando nisso, selecionamos vinte leituras inspiradas no Dia dos Namorados, seja para quem quer se emocionar com o final feliz de um romance ou para quem prefere histórias em que, apesar do amor, nada dá certo. Na alegria ou na tristeza, o amor é sempre belo. Confira!

1. Declaração de amor, de Carlos Drummond de Andrade

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Quem está apaixonado ou buscando inspiração não pode deixar de ler os poemas mais românticos de Carlos Drummond de Andrade. Este volume, organizado pelos seus netos Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, reúne os poemas mais amorosos, românticos e deliciosamente apaixonados do grande poeta mineiro. E ainda conta com ilustrações de Nik Neves para deixar os versos de Drummond ainda mais belos.

2. Afterde Anna Todd

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Para jovens leitores e adultos, Anna Todd conta nesta série a romântica e inconstante história de amor entre Tessa e Hardin. Ela acaba de completar 18 anos e ir para a faculdade, uma garota certinha e estudiosa. Ele é um garoto rude, que implica logo de cara com o jeito de Tessa. Mas a atração que um sente pelo outro é irresistível, e depois de Hardin, Tessa nunca mais será a mesma. A série nasceu como uma fanfic da banda One Direction e teve mais de 1 bilhão de leituras na plataforma Wattpad. No Brasil, serão publicados cinco livros pela Editora Paralela, e o terceiro chega às livrarias nesta semana. Uma leitura para quem gosta de rir, chorar, amar, odiar, enfim, para quem quer sentir tudo pelas personagens.

3. Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, de Benjamin Alire Sáenz

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Dante sabe nadar. Ari não. Dante é articulado e confiante. Ari tem dificuldade com as palavras e duvida de si mesmo. Dante é apaixonado por poesia e arte. Ari se perde em pensamentos sobre seu irmão mais velho, que está na prisão. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de ver o mundo, deveria ser a última pessoa capaz de romper as barreiras que Ari construiu em volta de si. Mas quando os dois se conhecem, logo surge uma forte ligação. Em Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo, Benjamin Alire Sáenz conta uma história belíssima em que Ari e Dante descobrem que o amor e a amizade talvez sejam a chave para desvendar os segredos do Universo.

4. A arte de ouvir o coração, de Jan-Philipp Sendker

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Um bem-sucedido advogado de Nova York desaparece de repente sem deixar vestígios e sem que sua família tenha qualquer ideia de onde ele possa estar. Até o dia em que Julia, sua filha, encontra uma carta de amor que ele escreveu há muitos anos para uma mulher birmanesa da qual nunca tinham ouvido falar. Com a intenção de resolver o mistério e descobrir enfim o passado de seu pai, Julia decide viajar para a aldeia onde a mulher morava, onde descobre histórias de um sofrimento inimaginável, a resistência e a paixão que irão reafirmar a crença no poder que o amor tem de mover montanhas.

5. A imortalidade, de Milan Kundera

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A partir do gesto que uma mulher faz a seu professor de natação quando sai da piscina, a personagem Agnes surge na mente de um autor chamado Kundera. Como a Emma de Flaubert ou a Anna de Tolstoi, a Agnes de Kundera se torna objeto de fascínio e de uma busca insondável. Ao imaginar o cotidiano dessa personagem, o narrador-autor dá corpo a um romance em sete partes, que intercala as histórias de Agnes, seu marido Paul e sua irmã Laura com uma narrativa retirada da história da literatura: a relação de Goethe e Bettina von Arnim. Com seus personagens reais e inventados, Kundera reflete sobre a vida moderna, a sociedade e a cultura ocidentais, o culto da sentimentalidade, a diferença entre essência individual e imagem pública individual, os conflitos entre realidade e aparência, as variedades de amor e de desejo sexual, a importância da fama e da celebridade, e a típica busca humana pela imortalidade.

6. O irresistível café de cupcakes, de Mary Simses

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Ellen é uma advogada de Manhattan e seu noivo está prestes a se tornar um importante político. Tudo em sua vida parece estar perfeito e no caminho certo. Até que ela decide realizar o último desejo de sua avó e entregar em mãos uma carta. Para isso, ela precisa ir para Beacon, uma charmosa cidadezinha do interior. Entre cupcakes de blueberry e deliciosas rosquinhas, Ellen desvenda os mistérios da vida de sua avó. Aos poucos, ela descobre os simples prazeres da vida e que “perfeito” nem sempre é o que parece.

7. Ligue os pontos, de Gregorio Duvivier

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Os “poemas de amor e big bang” de Gregorio Duvivier têm foco na importância descomunal dos momentos insignificantes do cotidiano. Ligue os pontos mostra que, para além da prosa humorística do autor, um dos responsáveis pelo sucesso do Porta dos Fundos, o tratamento lúdico das palavras pode render poesia de qualidade, falando da adolescência, do mistério da criação, das palavras e suas relações inusitadas, da experiência do amor vivido enfim como gente grande e da transitoriedade de tudo.

8. Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago

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Como nasce e de que se alimenta o afeto entre dois adolescentes do mesmo sexo? Da solidão em família, do repúdio à rotina estudantil, das caminhadas pela metrópole? Como esse afeto se frustra e se transforma em amizade duradoura? No ano de 1952, dois rapazes se encontram em Belo Horizonte à espera do mesmo bonde. O acaso os transforma em amigos íntimos. Passam-se sessenta anos. Numa tarde de 2010, Zeca, então produtor cultural de renome, agoniza no leito do hospital. Ao observá-lo, o professor aposentado de História do Brasil entende que não perde apenas o companheiro de vida, mas seu possível biógrafo. Compete-lhe inverter os papéis e escrever a trajetória do amigo inseparável.

9. Amor ao pé da letra, de Melissa Pimentel

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Quando se mudou para Londres, Lauren pensou que seria fácil sair com os belos ingleses. Mas a animação inicial foi logo frustrada: por mais que fosse linda, independente e não procurasse por um relacionamento sério, os homens pareciam fugir dela. Até que teve uma ideia meio maluca: a cada mês, seguir ao pé da letra os conselhos dos mais famosos guias de relacionamento, e contando em seu blog os resultados dessa experiência.

10. O amor natural, de Carlos Drummond de Andrade

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Se em Declaração de amor Drummond mostra a sua faceta mais romântica, em O amor natural a coisa é um pouco diferente. Publicado originalmente em 1992, cinco anos depois da morte do poeta, O amor natural foi saudado, com justiça, como um grande acontecimento cultural: a lírica erótica (e por vezes pornográfica) de um dos maiores poetas da literatura brasileira finalmente vindo a lume. Compostos no decurso da longa carreira literária do autor, os textos reafirmam a enorme vitalidade — pessoal e literária — do autor.

11. Nunca vai embora, de Chico Mattoso

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Renato Polidoro conheceu Camila no consultório odontológico — não em consulta, mas durante uma filmagem. Ocorreu então um pequeno milagre: a esperta aluna de cinema se apaixonou pelo dentista em eterna crise de autocomiseração. Quando a garota termina a faculdade, decide arrastar o namorado para a viagem tão sonhada: Havana. Na capital cubana, ela pretende fazer um documentário que dê vazão a suas elevadas (e um tanto quanto idealizadas) ambições estéticas. Mas logo o que prometia ser uma temporada caliente resulta em uma sucessão de desencontros — e em um desaparecimento misterioso.

12. Os enamoramentos, de Javier Marías

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María Dolz, uma solitária editora de livros, admira à distância, todas as manhãs, aquele que lhe parece ser o “casal perfeito”: o empresário Miguel Desvern e sua bela esposa Luisa. Esse ritual cotidiano lhe permite acreditar na existência do amor e enfrentar seu dia de trabalho. Mas um dia Desvern é morto por um flanelinha mentalmente perturbado e María se aproxima da viúva para conhecer melhor a história. Passa então de espectadora a personagem, vendo-se cada vez mais envolvida numa trama em que nada é o que parecia ser, e em que cada afeto pode se converter em seu contrário: o amor em ódio, a amizade em traição, a compaixão em egoísmo.

13. Diga o nome dela, de Francisco Goldman

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Em 2005, o escritor e professor norte-americano Francisco Goldman se casou com Aura Estrada, uma jovem e promissora estudante de literatura. Pouco antes de o casamento completar dois anos, durante as férias numa praia do México, Aura quebrou o pescoço após ser tragada por uma onda. Responsabilizado pela morte de Aura e mortificado pela culpa, Francisco entregou-se ao desespero. Passava os dias sem rumo, bebendo e flertando com a catatonia, a depressão, o suicídio. Para vencer a crise, escreveu Diga o nome dela, um romance sobre o amor e a dor da perda. Diga o nome dela é uma história sobre o luto — uma mostra pungente de que só com a organização da memória é possível driblar a falta de sentido e reafirmar o desejo de seguir adiante.

14. Cartas extraordinárias, de Shaun Usher

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Nem todas as cartas reunidas neste livro por Shaun Usher são de amor, mas tem ato mais romântico do que escrever ou receber cartas? Cartas extraordinárias é uma celebração do poder da correspondência escrita, que captura o humor, a seriedade e o brilhantismo que fazem parte da vida de todos nós. A coletânea reúne mais de 125 cartas, com sua transcrição e uma breve contextualização, além de ser ricamente ilustrado com fotografias e documentos. A engenhosa organização de Shaun Usher cria uma experiência de leitura que proporciona muitas descobertas, e cada nova página traz uma bela surpresa para o leitor. Não apenas um deleite literário, mas também um livro-presente inesquecível.

15. O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca

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Este romance de J. P. Cuenca se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio e é centrado na figura de Shunsuke Okuda, um jovem funcionário de uma multinacional. Conquistador inveterado, ele cria uma identidade para cada namorada que conhece nos bares do distrito de Kabukicho. Mas sua rotina é abalada pelo aparecimento de Iulana, uma garçonete por quem fica obcecado. Iulana é apaixonada por uma dançarina e mal fala japonês, mas nada disso impede que os dois mergulhem numa relação conturbada. O maior problema, contudo, é que estão sendo observados. O pai de Shunsuke, sr. Okuda, paira sobre o livro como uma figura onipresente e maligna que parece querer destruir qualquer chance de felicidade do filho.

16. Uma teoria provisória do amor, de Scott Hutchins

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Uma modesta empresa de informática de San Francisco, a Amiante Systems, fundada e comandada pelo genial pioneiro Henry Livorno — hoje velho e decadente —, aposta todas as suas fichas na tentativa de criar o primeiro computador verdadeiramente inteligente do mundo. Para isso, contrata o ex-redator de publicidade Neill Bassett Jr. O motivo é simples: a memória do computador é alimentada pelos diários secretos escritos pelo pai de Neill, o dr. Basset, um médico do Arkansas que se suicidou quando o filho tinha dezenove anos. Dilacerado pelos dilemas morais envolvidos na operação de fazer reviver, ainda que virtualmente, o próprio pai, Neill ainda tem que lidar com a nova namorada desmiolada de vinte anos e com os encontros perturbadores com a ex-mulher.

17. Meu coração de pedra-pomes, de Juliana Frank

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Lawanda trabalha num hospital, mas não está ali para lidar com os pacientes — não oficialmente, pelo menos. Ela é uma das encarregadas da limpeza e vive sob a fiscalização da insuportável Lucrécia, que insiste em controlar seus horários e reclamar de seus atrasos. Mas, como os serviços de faxina são muito mal pagos, Lawanda precisa de outros meios para conseguir comprar os besouros que coleciona (ainda que sua mãe preferisse que ela poupasse para adquirir um apartamento). Assim, presta pequenos serviços escusos aos internos do hospital.
Ela também é colecionadora de borboletas, que costura com esmero em suas calcinhas, sempre usando a linha da mesma cor das asas. Faz esta e outras macumbas para que seu amado José Júnior largue a mulher de uma vez e fique só com ela. Na cama, Lawanda sabe que é imbatível, mas a pressão das tias velhas é grande e o rapaz tem dificuldades de se libertar.

18. Manual do mimimi, de Lia Bock

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Lia Bock se considera uma ativista sentimental que ama amar as coisas. Depois de criar o blog mais acessado da revista TPMManual do mimimi marca a estreia de Lia no mundo dos livros. Em textos irônicos, ácidos, mas também sentimentais, além de profundamente sinceros, Lia (uma verdadeira expert nos assuntos do coração) — com charme e estilo inconfundíveis — falar com todas as mulheres: solteiras, casadas, recém-separadas e à procura.

19. As horas nuas, de Lygia Fagundes Telles

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Rosa Ambrósio, uma atriz de teatro decadente, passa em revista, entre generosas doses de uísque, os amores de sua vida. O primo Miguel, sua paixão adolescente, morreu de overdose por volta dos vinte anos. Gregório, seu marido, virou um homem taciturno depois que foi torturado pela ditadura militar. Diogo, seu amante e último companheiro, trocou-a por moças mais jovens. Neste livro, Lygia Fagundes Telles põe em cena grandes temas de nosso tempo — o movimento feminista, a cultura de massa, a aids, as drogas —, mediados pelos destinos individuais de um punhado de criaturas.

20. Flores azuis, de Carola Saavedra

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No apartamento para onde se mudou depois de se separar da mulher e da filhinha de três anos, um homem recebe uma carta destinada ao antigo morador e não resiste ao impulso de abri-la. É uma carta de amor, escrita por uma mulher e assinada simplesmente com a inicial “A”. Também separada, a autora da carta repassa, inconformada, as últimas horas de seu relacionamento amoroso com o destinatário. Novas cartas chegam diariamente, sempre revisitando o dia da separação e acrescentando detalhes cada vez mais perversos aos acontecimentos. O homem que as recebe não apenas sucumbe ao desejo de lê-las como passa a viver em função disso, o que acaba por desestabilizar a sua relação com o trabalho, com a ex-mulher, com a filha e com a atual namorada, todas elas mulheres que ele não compreende e pelas quais se sente acuado.

A batalha pelo foco

Por Chico Mattoso

A figura do escritor engajado é conhecida de todos nós. Muitos dos grandes nomes da literatura combinaram o trabalho criativo às frentes de combate, fossem elas concretas ou simbólicas, estéticas ou políticas, legítimas ou furadas. Ok, ultimamente as coisas ficaram mais complexas — as utopias morreram, o cinismo virou modo de vida, tem sido difícil encontrar autores dispostos a lutar em prol do que quer que seja. Mas ainda há uma última trincheira a nos unir, uma guerra sangrenta e silenciosa que, dia após dia, testa os limites do profissional da escrita, infligindo cicatrizes a sua alma delicada: a batalha pelo foco.

Parte da questão — a das distrações da internet — já foi explorada com bastante talento neste blog pela Carol Bensimon. Mas eu gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência de combatente nessa refrega cotidiana, talvez na esperança de que a confissão tenha algum efeito terapêutico ou educativo.

Há alguns anos, comecei a perceber que meu trabalho estava perdendo rendimento. Eu demorava a me concentrar, e quando conseguia era apenas por algumas dezenas de minutos, invariavelmente seguidos por horas de vagabundagem online, telefonemas vazios e perambulações sem sentido. Várias vezes me vi parado diante da geladeira aberta, perguntando-me o que diabos estava fazendo ali — logo eu, que não costumo ter fome entre as refeições. O dia girava em falso, e na ânsia por fazê-lo render eu me entregava a horas extras tão inúteis quanto exaustivas. Só ia dormir no meio da madrugada, as costas latejando, a consciência abarrotada de culpa e frustração.

Demorei alguns meses pra perceber qual era o problema. Eu não conseguia mais trabalhar dentro de casa. Em algum lugar da minha mente, a promiscuidade entre espaço profissional e pessoal passou a ter um efeito bloqueador. Não dava. Não ia. Meus dias haviam se transformado numa massa gosmenta, que me envolvia pela manhã e só me abandonava quando, extenuado, meu cérebro já não conseguia juntar lé com cré. Em casa, cada vez mais, eu sentia que me esforçava o dobro e produzia a metade — e foi assim que decidi procurar outro lugar pra trabalhar.

Aluguei uma vaga num escritório a algumas quadras de casa. Um lugar amplo e agradável, onde, por uma quantia mensal bastante honesta, eu teria direito a mesa, cadeira, café e conexão com a internet, além da companhia de arquitetos, editores, designers, ilustradores e produtores de teatro, entre outros profissionais de destaque do meio artístico-intelectual. As perspectivas eram excelentes. Eu estava trocando a minha caverna de improdutividade por uma espécie de think tank particular, que serviria para impulsionar-me ao trabalho e incendiar minha imaginação.

Começou muito bem. Eu acordava cedo, tomava banho e café, caminhava cerca de quinze minutos até o escritório e, depois de uma checada rápida nos emails, dava início à lida do dia. A presença de outras pessoas trabalhando à minha volta funcionava como estímulo, e a vigilância alheia desencorajava os ímpetos de errância internética. Para completar, descobri a instituição do almoço em grupo. Sair para comer já não se resumia a uma expedição melancólica ao boteco da esquina; dia após dia, eu tinha a oportunidade de conhecer gente, ouvir histórias, arejar a cabeça das agruras da funilaria ficcional.

Não demorou, porém, para que um novo problema começasse a me atormentar. É agradável trabalhar cercado por trinta pessoas, mas quando você tem que resolver o tom de um narrador ou editar um diálogo encrencado, passar a tarde ouvindo pitis de arquitetos (“Não vem com desculpa, Pedrão, preciso dessas esquadrias instaladas até amanhã!”) ou inquietações cromático-existenciais (“Cê não acha que eu tô sempre carregando no magenta?”) torna-se algo bastante difícil de lidar.

Encarei o novo obstáculo com pragmatismo. Não adiantava lutar contra os fatos: as pessoas estavam fazendo o trabalho delas, eu teria que me adaptar. Depois de uma experiência desagradável com tampões de espuma, resolvi apelar para os fones de ouvido. Eu nunca gostei de escrever ouvindo música, mas achei que era o caso de fazer um esforço adicional. Dei início a uma pesquisa extensa, procurando por obras que se adaptassem à minha necessidade de concentração. Acabei fazendo uma triagem, toda ela circunscrita ao universo da música erudita.

Beethoven, por exemplo, estava descartado. Mozart e Bach até serviam, mas dependia da peça. Chopin era sempre bom. Depois de acumular um repertório básico, dei início ao trabalho, com sucesso considerável. Mas a alegria durou pouco. Com o tempo, o conhecimento adquirido pelas audições sucessivas começou a voltar-se contra mim. Era envaidecedor saber diferenciar um noturno de uma sonata, ou poder enumerar quais as minhas fugas prediletas do Cravo bem-temperado, mas no que dizia respeito à busca por foco, isso não era exatamente uma vantagem. Ao reconhecer as músicas, eu começava a cantarolá-las mentalmente, antecipando movimentos, temas e refrãos — e a concentração ia pro espaço. Eu estava derrotado mais uma vez, e dessa vez a coisa parecia definitiva.

Se eu tivesse o mínimo de amor-próprio, terminava o relato por aqui. O capítulo final dessa escaramuça, embora vitorioso, tem algo de constrangedor, e se decidi revelá-lo é porque minha fidelidade à causa é maior que qualquer vaidade. Vai que meus tropeços não são úteis para alguém?

A salvação veio sob a forma de um conjunto de gravações intitulado Sounds of the earth.  É um desses apanhados de sons da natureza, muito em voga entre massagistas, fisioterapeutas, iogues e meditabundos em geral. O nome é autoexplicativo: ao longo de doze horas de gravação, escutamos uma série de gorjeios, zunidos, bramidos, trinados, pipilos, ganidos, coaxos, gorgolejos e marulhos, entre outras manifestações do mundo natural, todas gravadas ao vivo e em alta qualidade.

O efeito desses sons sobre mim não foi particularmente relaxante. Ao contrário: no início, fui tomado por uma sensação de ridículo, e meu primeiro impulso foi deixar a ideia pra lá. Aos poucos, porém, percebi que estava funcionando, que aquelas gravações estavam me ajudando a retomar o controle da minha mente. Por serem inarticulados, mas reconhecíveis, aqueles sons não me distraíam nem chamavam minha atenção — e pela primeira vez senti que era capaz de me concentrar quando bem entendesse. Às vezes interrompia o trabalho e dava uma olhada em volta, e aquelas pessoas conversando, rindo ou berrando ao telefone pareciam pertencer a um universo paralelo. Eu estava salvo. Meus dias de desagregação faziam parte do passado, e não havia mais nada que pudesse me separar de mim mesmo.

É claro que nada substitui o prazer do silêncio. Há algumas semanas me mudei para os Estados Unidos, onde devo morar por algum tempo. Estou animado com a perspectiva de passar meus dias lendo e escrevendo numa dessas formidáveis bibliotecas norte-americanas, rodeado por janelas anti-ruído e estudantes ensimesmados. Na dúvida, porém, trouxe comigo minha coleção de Sounds of the earth. A luta continua, afinal, e a gente nunca sabe quando pode precisar do grugulejo de um peru ou do pissitar de um estorninho.

* * * * *

Chico Mattoso é escritor. Formado em letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Seu livro mais recente, Nunca vai embora (2011), faz parte da coleção Amores Expressos. Também trabalha como roteirista.

Semana cinquenta

Os lançamentos da semana são:

Eva Braun — A vida com Hitler, de Heike B. Görtemaker (Tradução de Luiz A. de Araújo)
Mundana e vaidosa, amante dos esportes, do cinema, da música e da dança, fumante e adepta do nudismo, Eva Braun incorporava pouco o ideal de mulher nacional-socialista. Talvez por causa dessa pecha de futilidade e inconsequência que sempre roundou a figura da namorada do Führer, as historiografia tenha ressaltado persistentemente a insignificância de Eva, sua posição à margem das decisões que levaram aos piores crimes do século XX. Tentando mudar esse estado de coisas — e, por meio da vida íntima, ajudar na compreensão histórica do Terceiro Reich —, a historiadora Heike B. Görtemaker fez extensa pesquisa, da qual emergem não só os anos de formação da biografada, sua família e meio social, como uma inédita história social da bizarra corte nacional-socialista, em especial no refúgio alpino do ditador, o Berghof, no qual Eva reinava como clara soberana entre as poucas figuras medíocres a quem era permitido o convívio com Hitler. Aliando rigor acadêmico e fluência literária, Eva Braun oferece um panorama vívido desse mundo assustador em que a normalidade cotidiana convivia com um ideário genocida.

Brooklyn, de Colm Tóibín (Tradução de Rubens Figueiredo)
No início dos anos 1950, a Irlanda não oferece futuro para jovens como Eilis Lacey. Sem encontrar emprego, ela vive na pequena Enniscorthy com a mãe viúva e a irmã Rose. Mas eis que o padre Flood lhe faz uma oferta de trabalho e moradia no Brooklyn, Estados Unidos. De início apavorada com a ideia de sair do ninho familiar, ela acaba partindo rumo à América. Triste e solitária em seu novo mundo, a tímida Eilis acaba por estabelecer uma rotina de trabalho diurno e estudo noturno na faculdade de contabilidade. No baile semanal da paróquia, conhece um jovem de origem italiana que aos poucos entra em sua vida. Mas quando começa a se sentir mais livre e segura, Eilis é obrigada a voltar, por algumas semanas, para Enniscorthy. E ali ela se vê, mais uma vez, diante de uma escolha muito difícil.
Sem nunca fazer de Eilis uma heroína clássica, Colm Tóibín trama uma delicada teia de sentimentos ocultos, de aceitação do destino e de sonhos abandonados que deixará o leitor preso à história muito tempo depois de terminar o livro.

Nunca vai embora, de Chico Mattoso
Renato Polidoro conheceu Camila no consultório odontológico — não em consulta, mas durante uma filmagem. Ocorreu então um pequeno milagre: a esperta aluna de cinema se apaixonou pelo dentista em eterna crise de autocomiseração. Para Renato, o romance com Camila foi providencial, pois varreu para debaixo do tapete boa parte de suas agruras emocionais. Quando a garota termina a faculdade, decide arrastar o namorado para a viagem tão sonhada: Havana. Na capital cubana, ela pretende fazer um documentário que dê vazão a suas elevadas (e um tanto quanto idealizadas) ambições estéticas. Mas logo o que prometia ser uma temporada caliente resulta em uma sucessão de desencontros — e em um desaparecimento misterioso.
Em ritmo vertiginoso, Nunca vai embora é o relato de uma paixão obsessiva, que encontra eco nas idiossincrasias de um país que também parece viver à deriva, flutuando em algum lugar entre a nostalgia e a esperança. Combinando humor e melancolia, este é um livro sobre a busca de um jovem por amor, sexo e, talvez principalmente, algum sentido para um mundo que não admite se deixar controlar.
[Haverá sessão de autógrafos em São Paulo dia 3 de maio.]

Borges — Uma vida, de Edwin Williamson (Tradução de Pedro Maia Soares)
Esta é a primeira biografia que abrange toda a vida e a obra de um dos maiores escritores de todos os tempos. Com base em fontes anteriormente desconhecidas ou fora do alcance dos pesquisadores, revela o lado humano de Jorge Luis Borges: suas relações com uma família complexa e com os muitos amigos (e inimigos), as dificuldades de relacionamento com as mulheres e as profundas raízes argentinas desse escritor cosmopolita. Professor de literatura espanholoa em Oxford, Edwin Williamson traça com maestria a evolução das ideias políticas de Borges, desde as inclinações esquerdistas da juventude, a defesa do nacionalismo cultural e a postura claramento antifacista que o levou a se posicionar contra Perón, até o controvertido apoio às ditaduras militares da década de 1970 e o pacifismo de seus últimos anos. Williamson estabelece também correlações inéditas e surpreendentes entre a vida e a obra de Borges, numa tentativa ousada de compreender a vida através da obra e de dar uma explicação psicológica para os enigmáticos textos do maior escritor argentino do século XX.

A viúva grávida, de Martin Amis (Tradução de Rubens Figueiredo)
Três estudantes da Universidade de Londres passam férias de verão num castelo da tórrida Campania italiana. O ano é 1970. Lily namora Keith Nearing, estudante de literatura inglesa e aspirante a poeta. Às vésperas de completar 21 anos, entretanto, Keith só tem olhos para a bela Scheherazade, para suas medidas exuberantes e seus inocentes banhos de sol à beira da piscina. À maneira de uma divertida e apimentada comédia de costumes, o novo romance de Amis nos situa, de início, entre uma galeria variada de personagens que tateiam por um mundo em transformação radical. Mas trinta longos anos são necessários até que o verão de 1970 alcance um Keith Nearing já cinquentenário. E sobre cada um deles paira uma sombra trágica: Violet. Ousado e controvertido, A viúva grávida é um acerto de contas com a revolução sexual e com o mundo que ela gestou, mas é também um tributo pungente à irmã de Amis, Sally, morta em 1999 aos 46 anos de idade.