chimamanda ngozi adichie

Dia Internacional da Mulher: Sejamos todos feministas

“Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.”

O discurso de Chimamanda Ngozi Adichie feito em uma das edições do TEDxEuston espalhou a mensagem de que todos nós devemos ser feministas. Com mais de 2 milhões de visualizações no YouTube e trechos usados em uma das músicas mais famosas de Beyoncé, as palavras de Chimamanda continuam a se espalhar de várias formas, inclusive nos livros.

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, que acontece no 8 de março, convidamos os colaboradores da Companhia das Letras a lerem trechos de “Sejamos todos feministas”.
Conheça mais sobre o livro: http://bit.ly/1Diu7TJ
Baixe o e-book grátis: http://bit.ly/1DUdHmV

Agradecemos a todos da Companhia das Letras que colaboraram com o vídeo:
Adriane Piscitelli
Aida Stockler
Ana Macedo
Ana Marques
Antonio Castro
Aurora Guimarães
Bruna Brito
Camila Berto
Claudia Carvalho
Diana Passy
Fabiana Roncoroni
Fabio Uehara
Fernanda Belo
Fernanda Dias
Gabriela Tonelli
Julia Barreto
Julia Bussius
Juiliana Rodrigues
Ligia Ulian
Lilia Schwarcz
Lilia Zambon
Luisa Tieppo
Luiz Schwarcz
Marina Castro
Marina Pastore
Max Santos
Paula Souza
Quezia Cleto
Patricia Kanno
Sabrina Coutinho
Silvia Polazzetto
Taize Odelli
Tamires Cordeiro

Semana duzentos e trinta e nove

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As descobertas — O grande avanço da ciência no século XX, de Alan Lightman (Tradução de George Schlesinger)
Neste livro cativante e lúcido, o cientista e escritor Alan Lightman nos apresenta 24 grandes descobertas científicas do século XX — da teoria da relatividade ao mapeamento da estrutura do DNA — que mudaram radicalmente nossa percepção do mundo e o lugar que ocupamos nele.
Fazem parte da lista nomes como Albert Einstein, Alexander Fleming, Hans Krebs, James Watson, Max Planck, Ernest Rutherford, Niels Bohr, Henrietta Leavitt e Linus Pauling. Com uma perspicácia notável, Lightman mapeia a paisagem intelectual e emocional de cada época, retrata o drama humano da descoberta e explica o significado e o impacto de cada trabalho.

Roth Libertado — O escritor e seus livros, de Claudia Roth Pierpont (Tradução de Carlos Afonso Malferrari)
Philip Roth dispensa apresentações. Desde o início da carreira, Roth produziu parte da melhor literatura do século XX e começo do século XXI. Mesmo assim, não há até o momento produção crítica substantiva sobre seu trabalho. Não havia. Claudia Roth Pierpont traz um relato envolvente, capaz de mergulhar na complexidade do trabalho de Roth e na controvérsia que ele suscitou. O livro não é uma biografia — embora contenha muitos detalhes biográficos —, mas algo mais desafiador: uma tentativa de entender um grande escritor por meio de sua arte. Pierpont, que conhece Roth há muitos anos, recupera histórias e anedotas conhecidas de poucos: fala da vida familiar do escritor, de suas inspirações, dos críticos, percorre o leque completo de sua ficção e ainda se aprofunda em suas amizades com Saul Bellow e John Updike. 

Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie (Tradução de Christina Baum)
Neste ensaio preciso e revelador, Adichie parte de sua experiência pessoal de mulher e nigeriana para mostrar que muito ainda precisa ser feito até que alcancemos a igualdade de gênero. Segundo ela, tal igualdade diz respeito a todos, homens e mulheres, pois será libertadora para todos: meninas poderão assumir sua identidade, ignorando a expectativa alheia, mas também os meninos poderão crescer livres, sem ter que se enquadrar em estereótipos de masculinidade. Sejamos todos feministas é uma adaptação do discurso feito pela autora no TEDxEuston, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações.

Companhia de Bolso

Complô contra a América, de Philip Roth (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Philip é um menino como tantos outros, apaixonado por sua coleção de selos. O pai é corretor de seguros, a mãe é dona de casa e o irmão mais velho tem dotes precoces de desenhista. Como toda a população do bairro em que vive, a família Roth é judia, e em 1940 parece não haver melhor lugar no mundo para ser judeu do que os Estados Unidos. Porém, Franklin D. Roosevelt, ao tentar reeleger-se para um terceiro mandato, é derrotado pelo candidato republicano Charles Lindbergh. O famoso aviador, que se tornou herói nacional ao empreender o primeiro voo solitário da América à Europa, é um ardoroso defensor da Alemanha nazista, um homem para quem os Estados Unidos deveriam se defender da “diluição nas raças estrangeiras”. A vida da família Roth — e, potencialmente, o mundo — nunca mais será como antes.

Companhia das Letrinhas

O caixão rastejante e outras assombrações de família, de Angela Lago
Fantasmas que pegam táxi, almas que vão à missa aos domingos, namoradas defuntas… Essas são algumas das personagens que aparecem nos causos de família reunidos neste novo livro de Angela Lago. Narradas com aquele sotaque particular da autora mineira e ilustradas de maneira surpreendente, as histórias de assombração e terror vão, além de assustar os leitores, causar boas risadas — afinal, as almas penadas se metem em cada uma!

Penguin-Companhia

A mulher de trinta anos, de Honoré de Balzac (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
Antes de Emma Bovary, antes de Anna Kariênina, existiu Julie. Contrariando os conselhos do pai, ela julga-se apaixonada e decide se casar ainda muito jovem com um coronel do exército napoleônico. Em pouquíssimo tempo, descobre-se infeliz no casamento e na maternidade, presa a obrigações que não pretende abandonar. A isso se seguem as paixões por outros homens, e anuncia-se o destino trágico da protagonista. Mas A mulher de trinta anos não é a história particular de Julie, e sim a de alguém em quem convergem as contradições do que representava ser mulher no século XIX e, por extensão, as contradições da própria sociedade moderna.

Paralela

Aprendiz por acaso, de Vikas Swarup (Tradução de Flávia de Yacubian)
Ao sair da loja em seu horário de almoço, Sapna é abordada por Vinay Mohan Acharya, CEO do Grupo ABC, um verdadeiro império de negócios que vale 10 bilhões de dólares. Mal imagina ela que sua vida está a prestes a mudar para sempre. Acharya está procurando um herdeiro para a sua empresa gigantesca, e decidiu que Sapna — essa jovem com olhar determinado — é uma forte candidata para assumir esta posição. Há apenas uma exigência: ela deve passar por sete testes, pensados para medir sua valentia e seu caráter. Mas será que os sete testes são reais ou estaria Acharya apenas jogando um jogo perverso com Sapna?

Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Por Ifemelu

Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

6. Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos.

Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

7.
Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada,meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo, esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja— eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei um vestido de um brechó no eBay que é da década de sessenta. Ele estava em perfeito estado e eu o uso bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez a dona original fosse uma daquelas mulheres que se vê nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo “mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

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Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.

Para outros Negros Não Americanos: Nos Estados Unidos você é negro, baby

Por Ifemelu


Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana

3. Para outros Negros Não Americanos: Nos Estados Unidos você é negro, baby

Querido Negro Não Americano, quando você escolhe vir para os Estados Unidos, vira negro. Pare de argumentar. Pare de dizer que é jamaicano ou ganense. A América não liga. E daí se você não era negro no seu país? Está nos Estados Unidos agora. Nós todos temos nosso momento de iniciação na Sociedade dos Ex-Crioulos. O meu foi numa aula da faculdade, quando me pediram para dar a visão negra de algo, só que eu não tinha ideia do que aquilo significava. Então, simplesmente inventei. Além do mais, admita: você diz “Eu não sou negro” só porque sabe que os negros são o último degrau da escada de raças americana. E você não quer estar ali. Não negue. E se ser negro trouxesse todos os privilégios de ser branco? Você ainda diria “Não me chame de negro, eu sou de Trinidad?”. É, eu sabia que não. Você é negro, baby. E essa é a questão de se tornar negro: você tem de se mostrar ofendido quando palavras como “farofeiro” e “tiziu” são usadas de brincadeira, mesmo que não tenha a menor ideia do que está sendo dito — e, como você é um Negro Não Americano, é provável que não saiba o que elas significam. (Na faculdade, um colega branco me perguntou se eu gostava de melancia, eu disse que sim e outra colega disse: “Meu Deus, que coisa racista”. Fiquei confusa e disse: “Espere, por quê?”.) Quando outro negro te cumprimenta com a cabeça num bairro de maioria branca, você tem de retribuir. Eles chamam isso de cumprimento negro. É uma maneira que os negros têm de dizer: “Você não está sozinho, eu estou aqui também”. Ao descrever as mulheres negras que você admira, sempre use a palavra forte, porque, nos Estados Unidos, é isso que as mulheres negras devem ser. Se você for mulher, por favor, não fale o que pensa como está acostumada a fazer em seu país. Porque, nos Estados Unidos, mulheres negras de personalidade forte dão medo. E, se você for homem, seja supertranquilo, nunca se irrite demais, ou alguém vai achar que está prestes a sacar uma arma.

Quando estiver vendo televisão e ouvir um “insulto racial” sendo usado, fique ofendido na mesma hora. Apesar de estar pensando: “Mas por que eles não me explicam exatamente o que foi dito?”. Apesar de querer decidir sozinho quão ofendido ficar, ou mesmo se está ofendido, ainda assim você precisa ficar muito ofendido. Quando um crime for noticiado, reze para que não tenha sido cometido por um negro e, se por acaso tiver sido, fique bem longe da área do crime durante semanas, ou vai acabar sendo parado pela polícia por se encaixar no perfil dos suspeitos. Se uma caixa negra não for eficiente com a pessoa não negra que está na fila à sua frente, elogie os sapatos ou alguma outra coisa dessa pessoa para compensar a ineficiência, pois você é tão culpado do crime da caixa quanto ela. Se estudar numa faculdade de prestígio e um jovem membro do Partido Republicano te disser que você só conseguiu entrar lá por causa da ação afirmativa, não mostre seu boletim do ensino médio cheio de notas dez. Em vez isso, comente gentilmente que os maiores beneficiários da ação afirmativa são as mulheres brancas. Se for comer num restaurante, por favor, dê gorjetas generosas. Se não fizer isso, a próxima pessoa negra que chegar vai ser muito mal servida, porque os garçons gemem quando veem uma mesa cheia de negros. Entenda, os negros têm um gene que faz com que não deem gorjetas, então, por favor, lute contra esse gene. Se estiver falando com uma pessoa que não for negra de alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles. Isso se aplica apenas a liberais brancos, aliás. Nem se incomode em falar de alguma coisa racista que aconteceu com você para um conservador branco. Porque esse conservador vai dizer que você é o verdadeiro racista e sua boca vai ficar aberta de espanto.

4.

Sabe qual é a solução mais simples para o problema da raça nos Estados Unidos? O amor romântico. Não a amizade. Não o tipo de amor tranquilo e superficial cujo objetivo é manter as duas pessoas confortáveis. Mas o amor romântico profundo e real, do tipo que retorce e estica você e faz com que respire através das narinas da pessoa que ama. E como esse tipo de amor romântico profundo e real é tão raro e como a sociedade americana é feita de modo a torná-lo ainda mais raro entre um negro americano e um branco americano, o problema da raça nos Estados Unidos nunca vai ser resolvido.

5.

Bom, como ainda estou um pouco triste por causa do término com O Ex-Namorado Branco e Gostoso e não gosto de ir a bares, acabei entrando num site de namoro. E vi vários perfis. Mas sabe a hora em que você escolhe em qual etnia está interessado? Os homens brancos escolhem mulheres brancas e os mais corajosos escolhem asiáticas e hispânicas. Os homens hispânicos escolhem brancas e hispânicas. Os homens negros são os únicos que provavelmente vão escolher “todas”, mas alguns nem escolhem as mulheres negras. Escolhem brancas, asiáticas e hispânicas. Não fez com que eu me sentisse muito amada. Mas o que o amor tem a ver com essas escolhas? Você pode entrar no supermercado, encontrar alguém por acaso e se apaixonar, e essa pessoa não ser um membro da raça que você escolheria on-line. Por isso, após ver os perfis, cancelei minha conta, que, ainda bem, estava nos primeiros dias, obtive um reembolso e de agora em diante vou andar às cegas pelo supermercado.

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Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.

Entendendo a América para o Negro Não Americano: O que os WASPS querem?

Por Ifemelu (Tradução de Julia Romeu)


Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra Não Americana

1. Entendendo a América para o Negro Não Americano: O que os WASPS querem?

O Professor Gato recebeu uma visita de outro professor, um judeu com um sotaque forte do tipo de país europeu onde a maioria das pessoas bebe um copo de antissemitismo no café. O Professor Gato estava falando sobre direitos civis e o judeu disse: “Os negros não sofreram como os judeus”. O Professor Gato respondeu: “O que é isso, a olimpíada da opressão?”.

O judeu não sabia, mas “olimpíada da opressão” é o que os liberais americanos inteligentes dizem para fazer você se sentir burro e calar a boca. Existe mesmo uma olimpíada da opressão acontecendo. As minorias raciais americanas — negros, hispânicos, asiáticos e judeus — todas sofrem merda na mão dos brancos, merdas diferentes, mas merda mesmo assim. Cada uma secretamente acredita que sua merda é a pior. Então, não, não existe uma Liga Unida dos Oprimidos. No entanto, todos os outros acham que são melhores do que os negros porque, bem, eles não são negros. Um exemplo é Lili, uma mulher de pele café, cabelos negros e língua espanhola que limpava a casa da minha tia numa cidade da Nova Inglaterra. Ela era muito altiva. Era desrespeitosa, trabalhava mal, fazia exigências. Minha tia acreditava que Lili não gostava de trabalhar para negros. Antes de finalmente demiti-la, minha tia disse: “Que mulher idiota, ela pensa que é branca”. Ou seja, a brancura é algo a que se aspira. Nem todo mundo é assim, claro (por favor, não precisam afirmar o óbvio nos comentários), mas muitas minorias têm um anseio conflituoso pela brancura dos wasps ou, para ser mais exata, pelos privilégios da brancura dos wasps. Eles não devem gostar de pele branca, mas certamente gostam de entrar numa loja sem que um segurança os acompanhe. Fazer uma omelete sem quebrar os góis, como disse o grande Philip Roth. Então, se todos nos Estados Unidos querem ser wasps, o que os wasps querem? Alguém sabe?

2. Por que as mulheres negras de pele escura — tanto americanas quanto não americanas — amam Barack Obama

Muitos negros americanos se orgulham de dizer que têm antepassados índios. O que significa Graças a Deus, Não Somos Totalmente Negros. O que significa que não têm a pele muito escura. (Só para esclarecer, quando os brancos falam em pele escura eles querem dizer gregos ou italianos, mas quando os negros falam isso eles estão se referindo a Grace Jones.) Os homens negros americanos gostam que suas mulheres tenham uma parcela de exotismo, que sejam meio chinesas ou tenham um ancestral cheroqui. Gostam que as mulheres tenham a pele clara. Mas tome cuidado com o que os negros americanos consideram “pele clara”. Algumas dessas pessoas de “pele clara”, nos países dos negros não americanos, seriam simplesmente chamadas de brancas. (Ah, e os negros americanos de pele escura se ressentem dos negros de pele clara, pois acham que é fácil demais para eles atrair as mulheres.)

Mas, meus colegas negros não americanos, não fiquem se achando. Porque essa merda também acontece nos nossos países caribenhos e africanos. Não é tão ruim quanto com os negros americanos, você acha mesmo? Talvez. Mas ainda assim acontece. Aliás, que história é essa de os etíopes acharem que não são tão negros? E por que os caribenhos se apressam tanto em dizer que têm ancestrais de várias raças? Enfim, chega de divagações. O fato é que a pele clara é valorizada na comunidade dos negros americanos. Mas todo mundo finge que não é mais assim. Eles dizem que o dia do teste do saco de papel já passou (façam uma pesquisa sobre isso) e que devemos seguir em frente. Mas, hoje, os negros americanos que são figuras públicas e fazem entretenimento de sucesso têm, em sua maioria, a pele clara. Principalmente as mulheres. Muitos homens negros americanos têm esposa branca. Os que se dignam a ter esposa negra se casam com negras de pele clara (também conhecidas como amarelo-escuras). E é por isso que as mulheres de pele escura amam Barack Obama. Ele quebrou o padrão! Casou-se com uma delas. Ele sabe o que o mundo parece não saber: negras de pele escura são o máximo. Elas querem que Obama ganhe porque talvez, finalmente, alguém contrate uma mulher linda cor de chocolate para ser a estrela de uma comédia romântica de orçamento alto que vai estrear em cinemas no país inteiro, não apenas em três cineminhas de arte de Nova York. Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis. (Outro grupo que é tão invisível quanto é o de homens asiáticos. Mas, pelo menos, eles são considerados superinteligentes.) Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar um apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. Então, as mulheres de pele escura esperam que Obama mude isso. Ah, e elas também são a favor de tirar essa gente podre de Washington, de sair do Iraque e de todo o resto.

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Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.

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