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A revolução dos bichos: 70 anos

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Há 70 anos, o mundo conhecia uma das maiores obras de George Orwell: A revolução dos bichos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 17 de agosto de 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Para marcar a data, selecionamos para o blog trechos de A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens, livro em que se dedica à desconstrução das mitologias montadas em torno da vida e da obra de Orwell. Leia a seguir.

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A revolução dos bichos foi, nas palavras de Orwell, “o primeiro livro em que tentei, com plena consciência do que estava fazendo, fundir intenção política e intenção artística em um todo”. O duradouro sucesso dessa empreitada reside em sua primorosa simplicidade e brevidade, mas também em uma incomum leveza. Um gracejo aparece logo no começo da revolução dos animais, quando “alguns presuntos, pendurados na cozinha”, são levados para fora e sepultados. Como o quadro inicial não é invariavelmente soturno, o gradual aparecimento de uma tragédia assume a devida proporção. As analogias são cativantes; cada animal é bem escolhido para seu papel, e ainda por cima todos são batizados com nomes excelentes.

[…]

Assim, o esquema de A revolução dos bichos deve sua profundidade e também sua simplicidade ao fato de que os animais não são todos iguais. Em um mundo de alegoria antropomórfica (no qual todos os homens são brutos), os animais podem ser diferenciados. Por exemplo, os porcos — que Orwell desprezava — pelo menos recebem notas altas pela inteligência, enquanto os cães — a quem ele muito admirava — são explorados e, por sua célebre lealdade, são aproveitados como impositores das regras. Orwell foi desde pequeno influenciado pela obra de Jonathan Swift, e seu fascínio pelas metáforas envolvendo criaturas não humanas (sem falar em sua obsessiva repugnância e sua incapacidade de afastar pensamentos ligados à sordidez) deve muito a esse autor. O limpo e honesto mundo dos Houyhnhnms em Viagens de Gulliver é parcialmente recriado em A revolução dos bichos; a morte do ferrenho e obtuso cavalo Sansão comove até mais — por causa da colossal inocência e mansidão do animal — do que a estrepitosa agonia final do elefante birmanês que Orwell matou na vida real.

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Leia mais sobre A vitória de Orwell A revolução dos bichos.

London Calling

Por Tony Bellotto


Christopher Hitchens e Salman Rushdie com busto de Voltaire.

Confesso que nunca tinha lido nada do Salman Rushdie até o final do ano passado, quando li Joseph Anton: memórias, que narra a experiência do escritor durante os anos em que viveu escondido e sob proteção policial, depois de sua condenação à morte pelo abominável aiatolá Khomeini.

Joseph Anton — o codinome escolhido por Salman para enfrentar a forçada clandestinidade, inspirado por dois de seus ídolos literários, Joseph Conrad e Anton Tchekhov — é um livro delicioso, da estirpe dos que não se consegue largar, uma reflexão preciosa sobre a liberdade (e a falta dela) num mundo confuso em que barbárie e obscurantismo desfilam como um casal charmoso de monarcas up to date.

Em Joseph Anton, Salman afirma que o apoio dos amigos foi fundamental para que sobrevivesse à angústia do desterro surreal. Entre eles encontram-se três figuras destacadas da literatura e do jornalismo britânicos: Martin Amis, Ian McEwan e Christopher Hitchens.

Nas trevas, os bons companheiros se aproximam de Salman com as potentes lanternas da razão e da solidariedade, acendem a fogueirinha (nunca usando livros como lenha), cantam velhas canções dos Rolling Stones e bebem algumas garrafas de uísque antes que o sol nasça de novo (devem ter cantado também “Here Comes The Sun”, dos Beatles).

Gosto de deixar que livros que me impressionam orientem minhas próximas leituras. Portanto, para mim o ano começa com um sabor de London Calling (apesar das temperaturas saarianas do verão carioca).

Além de Os versos satânicos (que pretendo ler em breve ), termino de ler Hitch-22, uma autobiografia impiedosa e divertida de Christopher Hitchens — nos picos de seu estilo verborrágico, irônico e digressivo —, e já acabei de ler Grana, de Martin Amis, um romance de 1984 (alguém pensou em George Orwell?) que transborda cinismo com a acuidade de uma prosa que pode ser definida como Vladimir Nabokov viajando de ácido.

Do Ian McEwan o último que li acho que foi Solar, mas Serena já está taxiando no tapete.

London calling to the faraway towns
Now war is declared and battle come down
London calling to the underworld
Come out of the cupboard, you boys and girls!

Pressinto um ano de muitos combates e altas temperaturas.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Links da semana

Acima você vê o teaser animado feito pelo Estúdio Birdo para a graphic novel Cachalote, de Rafael Coutinho e Daniel Galera. A curiosidade é que quem está tocando piano é ninguém menos que Laerte.

Christopher Hitchens escreveu na Vanity Fair mais um capítulo de sua batalha contra o câncer, e Ricardo Piglia falou ao El País sobre seu novo romance, Blanco nocturno.

O Gabriel, da revista Bula, resenhou 2666, de Roberto Bolaño. Se você gosta de Bolaño, compareça na disputa entre ele e Philip Roth na Livraria da Vila, dia 16.

Surgiram na internet as primeiras imagens de Rooney Mara como Lisbeth Salander, da trilogia Millennium. A escritora Carola Saavedra foi entrevistada para o Cultura News, e o André, do Lendo.org, indica 22 bibliotecas com conteúdo online.

Duas pessoas resenharam O Palácio de Inverno, de John Boyne: a Taize, do Meia Palavra, e a Fanny, do O restaurante do fim do universo.

Os colaboradores do Meia Palavra também deram suas opiniões sobre 1984, de George Orwell. No mesmo site, o Felipe escreveu sobre Paraíso perdido, de Cees Nooteboom, a Dinddi falou de O colecionador de mundos, de Ilija Trojanow, e o Luciano leu Mãos de cavalo, de Daniel Galera.

A NASA criou um Flickr com várias fotos históricas ligadas à agência de exploração espacial, e um grupo de designers tenta imaginar um mundo sem Photoshop.

O Eduardo, do blog Arte faz parte, resenhou Afluentes do rio silencioso, de John Wray. O Jorge, do I’m learning to fly, leu Infância, de J.M. Coetzee, e o Tuca resenhou em seu blog O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de João Paulo Cuenca.

A Kelly, no blog da Livraria Cultura, escreveu sobre a dor que emprestar um livro pode trazer. A Livia, do Beco das palavras, falou sobre Retalhos, de Craig Thompson, e o blog da Raquel Cozer, que trabalha no caderno Sabático do Estadão, mudou de endereço.

Para terminar: um vídeo mostra que o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke acertou algumas de suas previsões sobre o futuro, e três garotas criaram o Lady’s Comics, um site sobre mulheres nos quadrinhos — seja como personagens, autoras ou desenhistas.

Links da semana

Acima você vê, em primeira mão, uma foto do boneco de Xu, personagem de Cachalote, que está sendo produzido pelo estúdio Factotum para a exposição de originais da graphic novel que ocorrerá em setembro em São Paulo. A Aline, do blog Godot não virá, resenhou a hq de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O Rafael, do blog O Espanador, resenhou O castelo nos Pirineus, de Jostein Gaarder. Ele também falou sobre o encontro que aconteceu segunda-feira entre Mia Couto e Agualusa na Livraria da Vila.

Apesar das constantes manchetes sobre a morte do livro, a Veja on-line fala sobre as tecnologias que estão ajudando a melhorar o livro impresso.

O José Maurício, do blog Kínesis, leu Nove noites, de Bernardo Carvalho. No blog O Café, a Amanda fala de Bordados, de Marjane Satrapi, enquanto Jonas resenhou Uma solidão ruidosa, de Bohumil Hrabal, para o Scream & Yell.

Duas pessoas resenharam A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens: o Thiago, do blog Os que cheiraram Cocteau, e a Anica, do Meia Palavra.

Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, ganhou adaptação para o cinema com participação de Keira Knightley e Carey Mulligan, e um novo pôster do filme foi divulgado.

jornal argentino Página 12 fala sobre Blanco noturno, primeiro romance de Ricardo Piglia em treze anos, e o site Geekologie mostra o que aconteceria se eventos históricos fossem usuários do Facebook.

No Meia Palavra, a Taize resenhou O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca. O lançamento em São Paulo do livro foi marcado para 2 de setembro.

Em entrevista a Mario Gioia, o crítico Lorenzo Mammì analisa os ensaios de Giulio Carlo Argan reunidos no livro A Arte Moderna na Europa.

No portal InfoEscola, a Ana Lucia resenha Invisível, de Paul Auster. A Marina resenhou em seu blog o clássico infantil Píppi Meialonga, de Astrig Lindgren, e Wellington fala sobre a obra de José Saramago no Digestivo Cultural.

Para terminar, o Alessandro, do blog Livros e afins, dá doze dicas para facilitar o hábito de leitura, e o Portal Exame mostra os detalhes de catorze leitores de e-books, para que você possa compará-los.

Semana nove

Os lançamentos desta semana foram:

Histórias de reis e rainhas, de vários autores (Tradução de Eduardo Brandão)
Coletadas de diversas culturas e ilustradas por inúmeros artistas, essas histórias vêm de tempos e lugares distantes, mas todas tratam desses homens poderosos. Uns poucos têm bom coração, os outros estão sempre cometendo injustiças contra seu povo, exigindo dele os maiores absurdos. Ainda bem que o peso da coroa não vale mais que a inteligência, a esperteza e a persistência desses outros personagens — a gente do povo —, que conseguem levar a melhor sobre os abusos dos seus soberanos.

A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens (Tradução de Laura Teixeira Motta)
Anarquista, conservador, misógino, visionário? Qual das contraditórias facetas do mito George Orwell mais se aproxima da realidade dos fatos biográficos? Christopher Hitchens se dedica à desconstrução das mitologias montadas em torno da vida e da obra de Orwell. Visões à esquerda e à direita, bem como interpretações psicanalíticas e sociológicas, são implacavelmente confrontadas com documentação biográfica. Os numerosos textos publicados ao longo da sua carreira de pensador engajado e literato militante são revisitados em cotejo com as cartas e diários do autor, estabelecendo um roteiro crítico indispensável para a compreensão do pensamento orwelliano.

A câmara de inverno, de Anne Michaels (Tradução de José Rubens Siqueira)
A história de amor da botânica Jean e do engenheiro Avery se desenvolve contra o pano de fundo de grandes obras: a construção do canal de São Lourenço, entre os Grandes Lagos norte-americanos e o oceano Atlântico; o monumental trabalho de transferência do templo de Abu Simbel, para salvá-lo das águas da represa de Assuã, afogando para sempre cinco mil anos de história; e a destruição e reconstrução de Varsóvia na Segunda Guerra Mundial, narrada por Lucjan, um artista plástico judeu polonês que emigrou para o Canadá e com quem Jean tem um breve e intenso relacionamento amoroso. À beira de mundos que desaparecem, Jean e Avery se reencontram diante da câmara de inverno (local em que os mortos são mantidos enquanto o chão está congelado e duro demais para que sejam enterrados) para sepultar o passado e dar início a um novo mundo.

Um general na biblioteca, de Italo Calvino (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Selecionadas por Esther Calvino, viúva do escritor, estas 32 narrativas foram escritas ao longo de quarenta anos ― entre 1943, quando Calvino tinha vinte anos, e 1984, um ano antes de sua morte. Com estilos e linguagens diferentes, elas são como um roteiro da vasta obra do escritor, desde o neorrealismo até as experiências de vanguarda. Em todas elas Calvino exerce seu talento para fazer literatura com ironia e leveza.

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