ciça caropreso

O quartinho de empregada da dona Dirce

Por Ciça Caropreso

Bookshelf

Hoje, rolando pelas páginas do blog da Companhia, meus olhos vidraram na expressão a companhia dos livros, parte do título do post de 14 de junho do Luiz. Essas quatro palavrinhas caíram com tudo em mim e descongestionaram algumas lembranças. Imediatamente, sem nem ainda ler o post do Luiz (com o qual depois acabei me encantando e me identificando), a preparação do texto de um Orwell se interrompeu sozinha e o download disto começou a baixar em mim:

Imagine uma criança, uma menina no início dos anos 1960 que, no seu segundo ano de alfabetização, já devora livros de Walt Disney, de Louisa May Alcott e que chora e ri com as aventuras do cachorrinho Samba inventadas pela Senhora Leandro Dupré. Imagine uma menina atraída por contos de fada e por todos os livros infantis que possam cair às suas mãos, tudo sob o olhar compreensivo de uma mãe também devoradora de livros em sua própria infância e que nesses anos 60 vemos como uma muito bem-sucedida secretária executiva de uma poderosa indústria vidreira.

E que sorte a dessa menina ter, além de uma mãe aficionada em livros, vizinhos de parede como dona Dirce e o marido dela. Tudo que a menina sabe do marido da dona Dirce é que é ele quem faz crescer o tesouro que há no quartinho de empregada do casal: uma estante estourando de lombadas e mais lombadas coloridas de livros da Melhoramentos que o marido da dona Dirce recebe de graça porque trabalha nesta editora. E tudo que a menina sabe da dona Dirce basta para que ela nunca mais esqueça seu nome, seu corpinho magro e sua voz delicada falando à menina que todo aquele tesouro do quartinho de empregada estava à sua disposição.

A menina pode levar dessa verdadeira Biblioteca de Alexandria o livro que quiser. E a menina não se cansa de fazer isso mesmo. Leva um, leva outro, não vê a hora de levar outro mais, suga tudo que há neles, sua vida ganha a cor que não tem, a felicidade, a diversão, a companhia, a aventura, e depois que a última página vai embora a menina os devolve inteirinhos, parece até que intocados. Dá gosto emprestar livros pra essa menina, a menina ouve dona Dirce pensar.

E depois disso, em todos os anos seguintes da sua vida, a menina cresce nessa companhia dos livros. A menina se transforma em uma jovem e não mora mais do outro lado da parede da dona Dirce e do marido dela. Agora a menina conhece outros lugares onde conseguir livros, e muitos vêm da estante de sua mãe. Seu primeiro adulto é Servidão humana, de Somerset Maugham, recomendação da mãe, depois o irmão avançadinho a apresenta aos Hermans Hesse, aos Pauls Sartre e às Simones de Beauvoir da vida.

Quando com 19 anos ela não aguenta mais e grita pra todo mundo em casa ouvir: “Parem o mundo que eu quero descer!”, frase que um dia ela viu reproduzida na parede do quarto do irmão, sua vida entra em suspensão por uns quatro, cinco anos, e é na companhia dos livros que ela mergulha de novo. Eles literalmente a rodeiam. Dorme cercada por livros, enquanto eles, todos convencidos de sua importância, repousam em uma longa estante baixa sob a janela, ao lado da cama da jovem. A jovem passa seus dias escuros no quarto, lendo, lendo. Lê quatro, cinco, seis livros todos os meses. Chega a ser compulsivo. Boa literatura, má literatura de temas que a interessam, quadrinhos adultos das aventuras de Tintim e das não tão inocentes aventuras traçadas por Guido Crepax. Best-sellers da vez também, pois, embora a jovem pareça a muitos um ser de outro mundo, pelo corpo dela correm veias absolutamente normais, medíocres e sofisticadas. O que mais há de bom nessa outra altura da vida dela senão livros? Quando se sente mais forte, a jovem decide voltar ao ponto, faz sinal para o mundo, ele para lotado e ela volta a subir nele. Como ela continua tendo a certeza de que sua vida só tem sentido na companhia das letras, resolve estudar jornalismo, onde ela ouviu dizer que há uma imensidão delas.

A jovem, agora uma mulher, passa alguns anos escrevendo o que a mandam escrever sobre o mercado publicitário, elogiando o que querem que ela elogie, pichando o que querem que ela piche. Como ela acaba chegando à conclusão que com as letras não se brinca desse jeito, não demora muito inventa outro trabalho. Ela agora lê com tooooda a atenção, l-e-t-r-i-n-h-a por l-e-t-r-i-n-h-a, as reportagens produzidas pelos jornalistas de uma grande editora de revistas, corrigindo os erros de português que eles sem querer ou sem saber cometem. Faz isso com tamanha dedicação que anos depois é chamada para trabalhar diretamente com os jornalistas, para ajudá-los a escrever textos ainda melhores e mais corretos. A mulher passa pouco mais de uma década nisso, auxiliando essas pessoas a porem cada letrinha e cada palavra nos seus devidos lugares — ou pelo menos nos lugares que a mulher, depois de tanta intimidade com as letras, entende que elas devam estar.

Mas a mulher, agora já quase uma senhora (ela porém pede que continuemos a tratá-la por “mulher”), se põe a pensar se já não seria hora de deixar de lado as revistas e voltar a estar perto dos seus velhos companheiros livros de um outro jeito. Trabalhando para eles. A mulher pensa em ler livros no momento em que eles estão praticamente saindo do forno, para ajudá-los a se tornar livros melhores. Pensa que não seria nada mau poder pôr um pouco da sua mão mágica e amorosa naquela massa crua para deixá-la no ponto, para que adquira a consistência certa e se torne ainda mais saborosa. Ela sabe que pode ajudar as palavras a se acomodarem mais confortavelmente nas páginas dos livros, a se organizarem direitinho umas com as outras sem briga, a ganharem mais sentido, mais vida. A mulher sabe como as palavras agradecem quando as pomos para exercer sua verdadeira função. E assim fez a mulher, indo oferecer seus preparados de textos para a editora de livros mais admirada do país.

Então, treze anos depois (essa mulher é meio lenta mesmo), é numa tarde de outono que ela se dá conta, ao ver a expressão “companhia dos livros” no blog da editora de livros mais admirada do país, onde ela ainda oferece seus serviços, de como muito da sua habilidade de tratar com livros vem do quartinho de empregada da dona Dirce.

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Ciça Caropreso, jornalista, passou 13 anos na editora Abril, onde foi revisora, depois coordenadora do departamento de revisão de textos e  depois editora responsável pelo programa de qualidade em língua portuguesa, montando cursos de português para jornalistas e leitura crítica de revistas. Nos últimos 13 anos, sempre com água na boca, prepara livros de ficção para a Companhia das Letras. Nasceu num nem tão longínquo assim 13 de junho.