ciência política

Semana cinquenta e um

Os lançamentos da semana são:

Ilustrado, de Miguel Syjuco (Tradução de Fernanda Abreu)
Crispin Salvador, escritor filipino de fama internacional, porém ignorado pela crítica de seu próprio país, aparece morto em Nova York sob circunstâncias obscuras. Com ele some o manuscrito do livro que iria incomodar muita gente e mudar de vez sua reputação. Seu jovem discípulo, um escritor filipino mais jovem e também no exílio, resolve investigar o caso e juntar as peças da biografia de Salvador, cuja trajetória tem inúmeros pontos em comum com a sua. Ilustrado é um romance inteligente, engraçado e habilmente construído, que transita com desenvoltura por vários tipos de registro para explorar as verdades ocultas que assombram qualquer família, e compor uma sátira vívida e multifacetada da cultura e da sociedade filipinas das últimas décadas. Vencedor do Man Asian Literary Prize, foi comparado Roberto Bolaño, Haruki Murakami e David Mitchell.

Tudo o que tenho levo comigo, de Herta Müller (Tradução de Carola Saavedra)
Romênia. Fim da Segunda Guerra Mundial. Leo Auberg, de origem alemã, tem dezessete anos, mora com os pais e os avós, estuda, e nas horas vagas vivencia seus primeiros e fortuitos encontros com outros homens, num país em que o homossexualismo é crime. Inesperadamente, porém, Leo é obrigado a pagar por outro crime. Stálin decreta a deportação das minorias étnicas alemãs para campos de trabalhos forçados, sob a acusação de terem colaborado com Hitler. Do dia para a noite, Leo é retirado de sua vida e encerrado num mundo de horror, desumanidade, torturas, fome e morte. Resta a ele apegar-se às palavras. Às palavras que dão sentido ao que não tem sentido algum. E que servem como âncora, profecia, salvação. Leo se apega, entre outras coisas, às palavras da avó, que ao vê-lo fazer a mala e se despedir, diz: “Eu sei que você vai voltar”. É preciso esperar o retorno. E que, finalmente, a guerra acabe.

A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris
Numa trama que une passado e presente em cidades como Nova York, São Paulo e Paris, Carlo Antonini se vê às voltas com duas mulheres misteriosas e fascinantes. Aparências enganosas, pistas deixadas para confundir, verdades construídas pelos mecanismos frágeis e subjetivos da memória, tudo se soma para tornar ainda mais complexa uma investigação que une elementos da psicanálise à ação dos melhores thrillers. Colunista da Folha de S. Paulo e autor de O conto do amor, Contardo Calligaris fará uma turnê de lançamento que começa amanhã, em São Paulo.

Ponto ômega, de Don DeLillo (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Jim Finley é autor de uma única obra, um documentário que pouca gente viu. Seu novo projeto é um filme sobre a guerra. Entretanto, em vez de registrar cenas de combate, ele pretende fazer apenas uma entrevista. Para isso, procura Richard Elster, acadêmico e ex-funcionário do governo americano, que passou dois anos trabalhando no Pentágono, durante a Guerra do Iraque. A princípio, ele resiste a falar sobre a experiência. Mas depois convida Jim a passar uma temporada em uma casa no deserto. Na paisagem árida do Oeste americano, o jovem cineasta e o intelectual da guerra experimentam a lentidão da passagem do tempo. Ali, estão próximos do ponto ômega, em que a consciência caminha para um estágio essencial. Neste romance sobre as ambivalências da representação e os limites do humano, um evento indecifrável, porém, vem abalar a paz desse refúgio espiritual e desafiar as próprias convicções sobre arte e realidade, controle e acaso, guerra e paz.

Hamlet, de Andrew Mattews (Tradução de Érico Assis; Ilustrações de Tony Ross)
“Ser ou não ser? Eis a questão”: quem não conhece essa frase, uma das mais célebres de todos os tempos? Pois foi justamente desta tragédia que ela foi retirada. Aqui é Hamlet quem conta a sua história. Quando ouve o fantasma do pai dizer que foi assassinado pelo próprio irmão, Hamlet passa a ser atormentado pela dúvida: o fantasma do velho rei diz a verdade ou seria um demônio tentando fazê-lo cometer uma loucura? O jovem príncipe vai buscar desesperadamente a verdade. Nesta edição de, além de ter um primeiro contato agradável com o universo dos clássicos universais, as crianças poderão ler um prefácio de Flavio de Souza sobre os atrativos desta tragédia e dois posfácios: um sobre o tema da vingança na peça e outro sobre Richard Burbage, o ator mais famoso e requisitado no teatro de Londres nos tempos da rainha Elizabeth. Da mesma coleção, a Companhia das Letrinhas publicou Romeu e Julieta e Muito barulho por nada.

Do contrato social, de Jean-Jacques Rousseau (Tradução de Eduardo Brandão)
“O homem nasceu livre, e em toda parte vive acorrentado. O que se crê amo dos outros não deixa de ser mais escravo que eles. Como essa mudança se deu? Não sei. O que a pôde tornar legítima?” Este é o famoso enunciado que abre Do contrato social, tratado político escrito pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau e publicado pela primeira vez em 1762. Polêmico e controverso, o livro suscitou um debate que dura até os dias de hoje e que atravessa muitos campos do conhecimento humano. Rejeitando a ideia de que qualquer um tem o direito natural de exercer autoridade sobre o outro, Rousseau defende um pacto, o “contrato social”, que deveria vigorar entre todos os cidadãos de um Estado e que serviria de fonte para o poder soberano. Aos olhos de Rousseau, é a sociedade que degenera o homem, ele próprio um animal com pendor para o bem. Esta edição inclui prefácio do cientista político Maurice Cranston, em que ele examina as ideias políticas e históricas que influenciaram Rousseau.

Jean-Jacques Rousseau: a transparência e o obstáculo, de Jean Starobinski (Tradução de Maria Lucia Machado)
Neste livro já clássico, Jean Starobinski — a exemplo dos grandes humanistas — esquadrinha com o olhar do filósofo, do ensaísta, do médico, do músico e do crítico literário a obra de Jean-Jacques Rousseau. Delicadamente, dedica a mesma atenção à evidência e às sombras do espírito, interroga o sentido dos gestos começados e interrompidos, investiga a amarga reflexão de Rousseau ao ter de afrontar a perda de um mundo regido pela transparência e ser condenado a viver em um mundo mediado pela propriedade e pelas instituições. Apoiando suas análises na sensibilidade do artista e na razão do filósofo e cientista, Starobinski segue um duplo movimento, que alguns críticos chamam de “dialética das aparências”: interroga o mundo visível, denunciando as aparências enganosas, mas ao mesmo tempo dá a essas aparências um sentido novo.