clube de leitura

Pretérito imperfeito: o tempo verbal da saudade

Por Vanessa Ferrari


Imagem do filme Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, com Camila Pitanga no papel de Lavínia

Na aula sobre Drummond na Penitenciária Feminina de Sant’Ana, Noemi Jaffe lembrou de modo muito assertivo a relação entre o pretérito imperfeito e a nostalgia. “É o tempo verbal da saudade.” Ela se referia ao poema “Infância”, que diz o seguinte:

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala — e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
— Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Lembrei imediatamente de Ana*, uma das professoras** do Clube de Leitura, que há dois meses não está mais no grupo. Desde o primeiro encontro ela foi muito desenvolta, opinava sobre tudo, não gostou de nenhum livro em especial (“Eu gosto de histórias de amor”, dizia), até apaixonar-se pelo romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino. E, depois, pelo próprio autor, quando ele aceitou nosso convite para conversar com as meninas.

No encontro, Marçal falou sobre a importância da verossimilhança na história, sobre a criação dos personagens, e de seu interesse especial por conversas alheias; fascínio, aliás, que em seus livros ele transforma em excelentes diálogos. A conversa foi muito boa, outros temas surgiram, mas o centro da discussão foi, sem dúvida, a protagonista do livro. Para quem não sabe, o romance narra a história de uma ex-prostituta que, casada com um pastor, começa um caso tórrido com um fotógrafo. Lavínia é linda, sexy e volúvel, e o forasteiro, claro, se apaixona perdidamente por ela.

A personalidade ao mesmo tempo lasciva (com o amante) e quase santa (com o marido) da personagem apimentou a conversa. Quase no final, Ana quis saber em quem ele tinha se inspirado para criar a protagonista. Marçal respondeu que Lavínia fora concebida a partir de sua experiência de vida e não era, como ela supunha, a reprodução de uma única mulher. Mas Ana não ficou satisfeita e disparou: “Então me diz, quantas Lavínias você já teve?”. Ao ouvir essa pergunta o grupo caiu na risada. Sem nenhuma cerimônia, ela jogou um charme pra cima dele. Eu já gostava dela, nessa hora gostei ainda mais. Ela foi ousada, bem-humorada, mostrou que estava no jogo.

Depois desse dia, outros livros vieram e ela continuou reclamando, “Eu gosto de histórias de amor”. Ainda assim, participava ativamente da conversa, uma falastrona.

Pouco antes do encontro de fevereiro, recebi um telefonema da Rosana, da equipe de coordenação pedagógica da Unidade. Disse que tinha uma notícia triste para dar: Ana sofrera um enfarto dias antes, não resistiu e morreu.

O livro daquele mês era Cine privê, de Antonio Carlos Viana. Mesmo chateados com a notícia, fomos ao encontro com o espírito de sempre. Ninguém comentou sobre a morte de Ana, até que a dona Elaine, uma mulher muito sensível, funcionária da Funap (fundação ligada à Secretaria do Estado, que ajuda na inclusão do preso na sociedade) e que nos acompanha em todos os encontros, disse que o Cine privê tinha lhe caído muito mal, ela não gostara do que lera, e preferia silenciar sobre os contos. Em vez disso, lembrou que Ana e ela se conheciam havia muito tempo e que ao longo dos anos estabeleceram uma relação de amizade e confiança mútua. “A morte da Ana é uma notícia muito triste pra mim.”

Eu não disse nada, ninguém disse nada, mas eu também senti falta da nossa leitora mais falante. Gostaria que ela estivesse lá, que tivesse espinafrado o livro, que ralhasse comigo por ter escolhido mais uma história com muito sofrimento e sem nenhum romance.

Naquele momento pensei quantas vezes, desde aquele dia da conversa com o Marçal, a Ana teria fantasiado um encontro com ele. Teria sido aquele o seu último flerte? Quantas vezes ela tinha sido a Lavínia de alguém? “Eu gosto de histórias de amor, histórias de amor, Vanessa.”

Pois, então, aqui vai. Ainda que não seja carnal (Deus me livre competir com o Marçal, o Apolo da nossa leitora), fica essa homenagem à moda do pretérito imperfeito, como o Infância” do Drummond, como a lembrança do outro que a gente gosta e assiste em câmera lenta ganhar uma esquina qualquer.

* Ana é um nome fictício.

** O grupo é composto de detentas professoras multidisciplinares e bibliotecárias, que trabalham sob o regime de remissão de pena, ou seja, para cada três dias de trabalho, desconta-se um da sentença.

* * * * *

Vanessa Ferrari é editora assistente da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana.

(Veja aqui a lista completa de clubes de leitura organizados pela Companhia das Letras)

Cadeia de poeta

Por Noemi Jaffe

“Noemi, sabe qual é a gíria que se usa aqui no presídio para sentenças pequenas, de dois, três anos? É ‘cadeia de poeta’. Isso porque se a pessoa pega uma pena longa, decente, de uns vinte anos, ela consegue juntar economias aqui dentro para ter um futuro quando sair. Com dois, três anos, ela não consegue juntar quase nada e quando sai daqui não tem futuro nenhum esperando por ela lá fora. É como um poeta.”

Essa foi só uma das coisas que as dezesseis detentas do Clube de Leitura da Penitenciária Feminina de Sant’Ana me ensinaram na sexta-feira, dia 09 de março, quando fui até lá para conversar com elas sobre dois poemas de Drummond: “Infância, do livro Alguma poesia, e “Ausência”, escrito em homenagem a Ana Cristina César, e que está no livro Corpo.

Posso dizer, sem exagero, que minha leitura interpretativa dos dois poemas foi, em grande parte, conduzida pelas questões surpreendentes que elas iam fazendo. Muito do que falei não tinha sido planejado, mas foi sendo construído ali mesmo, à medida que elas mostravam novas possibilidades de leitura. Assim, a Clarice, por exemplo, disse que tinha pensado, a partir do poema “Ausência, que a diferença entre as ideias de “falta” e de “ausência” é que “falta é o que não se tem” e “ausência é o que se tem”. Ao final da interpretação, a Laura disse, espantada e me espantando, que lá no presídio, então, elas “têm tudo”, já que para elas “tudo é ausência.”

Pensar a saudade não somente como algo que entristece e reitera a precariedade da vida, mas também como a presença da ausência e, dessa maneira, dar à saudade o conteúdo de algo que se possui e que determina a individualidade, foi uma grande libertação para todas nós.

E assim foi também com o menino que não sabia que sua história “era mais bonita que a de Robinson Crusoé” e o reconhecimento de que isso só pode acontecer porque sua história é real e própria e a de Robinson Crusoé é ficcional e alheia; que coisas como um pai que campeia, uma mãe que coze e um irmão que dorme podem ser mais importantes e literariamente legítimas do que aventuras, naufrágios e grandes conquistas.

Suas descobertas eram semelhantes às que nós do grupo também fazíamos, vendo-as se encantar com o fato de que “poesia não precisa só falar de amor” e “que não precisa ser romântica”. Enquanto elas falavam, nós, do lado de cá, também descobríamos que o lado de lá é cheio de nuances e de complexidade. A Soraia, por exemplo, foi aos poucos mudando a expressão séria para um sorriso discreto que a acompanhou até o final da aula. Ela não tinha um rosto único. Ninguém tem.

Éramos somente mulheres ali sentadas: as mulheres do grupo de leitura, as funcionárias da coordenação pedagógica do presídio, além de Vanessa, Janine, Sofia, da Companhia das Letras, e eu. Algum tipo de aliança se estabeleceu para que elas pudessem se sentir donas dessa saudade que, essa sim, ninguém tira delas, e nós, aprendizes de uma saudade que, provavelmente, nunca vamos sentir: essa ausência de tudo. Mas, por sermos todas mulheres e leitoras de poesia (ao menos naquelas duas horas), alguma coisa entre nós se igualou.

Na nossa saída do presídio, uma detenta estava sendo solta. Ela corria de um lado para o outro da rua, gritando: “Estou vendo o sol, vou ver a lua!”. De repente, um estrondo: o asfalto cedeu e provocou um buraco enorme na rua justamente quando o carro que veio nos buscar dava  a ré para manobrar.. Tivemos que tirá-lo de lá, enquanto a mulher ainda rodava pela calçada.

Naqueles poucos minutos, a realidade daqui de fora parecia continuar o espaço de sonho que tinha sido criado lá dentro.

Mas logo passou. Agora, de novo, estamos aqui e elas estão lá. Não sei quem elas são, nem elas sabem de mim. Mesmo assim, pelo menos aqui comigo, eu tenho uma ausência a mais.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

* Os nomes das participantes do Clube de Leitura são fictícios.

* * * * *

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Todas as coisas pequenas (Hedra), Quando nada está acontecendo (Martins Fontes) e, em setembro, publicará A verdadeira história do alfabeto pela Companhia das Letras.
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A leitura de cada um

Por Vanessa Ferrari

É muito comum a associação entre literatura e prazer. E é igualmente comum a crença de que os livros podem transformar a vida de uma pessoa. Não é difícil entender por quê. Para muitos, o livro é uma fonte inesgotável de prazer. A forma, o tema, os personagens, os achados estilísticos do autor, a sua visão do mundo, tudo é tão encantador que se tem a impressão de um milagre iminente. Mas se, por um lado, essas declarações apaixonadas e hiperbólicas dão o tom de muitas conversas sobre literatura, por outro, há uma sensação menos comentada, e igualmente importante, que também diz respeito à leitura. Ao mesmo tempo que a literatura dá a nós leitores o melhor dos mundos, ela também pede muita dedicação de quem lê; não poucas vezes, exige um esforço tremendo. Para o leitor em formação certamente esse esforço é maior porque tudo é novo e estranho.

Veja, por exemplo, o Clube de Leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Em seis meses, as participantes tiveram de lidar com a história angustiante de uma família disfuncional em Dois irmãos, com uma mescla de relato jornalístico e autobiográfico em Sociedade da neve, com a prosa ágil de Marçal Aquino e seus diálogos bem construídos em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Depois conheceram a nostalgia do bengalês Buddhadeva Bose em Meu tipo de garota, e tiveram uma amostra da literatura chinesa contemporânea com Viver, de Yu Hua. Por último, em fevereiro, estreamos nos contos lendo o excelente Cine Privê, de Antonio Carlos Viana.

Não tenho dúvida de que nossos encontros literários têm sido uma fonte de prazer para o grupo, mas sei também que muitas vezes navegamos pelas águas turvas da literatura. Em pouco tempo passamos por narrativas muito diferentes uma da outra, e os comentários recorrentes falam de um estranhamento estilístico, da supremacia dos personagens angustiados e sem rumo, das situações inconclusivas, das perguntas sem respostas, da descontinuidade temporal das narrativas. Sobre os contos do Viana, uma leitora disse: “São histórias que parecem não ter começo nem fim”. Sem nenhum conhecimento teórico, essas leitoras pontuam o tempo todo características da narrativa moderna. É uma percepção sensível, sem dúvida, mas é também o reconhecimento de um estranhamento, estranhamento esse que muitas vezes faz o leitor desistir dos livros. Felizmente não é o que está acontecendo com esse grupo. Na verdade, estou sendo um pouco contida. A cada encontro as discussões estão cada vez mais acaloradas e sofisticadas. (Como eu queria que os meus amigos, os leitores do blog, o pessoal da editora, todas as pessoas que têm simpatia pelo projeto estivessem nesse último encontro, quando a Noemi Jaffe deu uma aula sobre poesia e sobre o Drummond).

Por essas e outras (outras que começarei a escrever a partir de agora neste blog), o que está acontecendo nesse Clube de Leitura é algo muito especial, porque o espírito que nós tentamos construir não é de condescendência, tampouco de um romantismo ingênuo, milagreiro, tantas vezes associado aos livros. Estamos, todos, trabalhando muito e os resultados começam a aparecer. Ainda que vivam um misto de prazer e angústia com a literatura, a cada visita elas nos recebem de braços abertos e felizes com o reencontro. E o mais importante, cada vez mais ansiosas para comentar o último livro. E esse é o melhor resultado que um mediador pode querer.

A propósito: a Noemi está escrevendo um post sobre a sua experiência na Penitenciária. Não vou falar nada sobre esse dia para não estragar a surpresa. Mas eu não deixaria de ler esse texto por nada.

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Vanessa Ferrari é editora assistente da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana.

(Veja aqui a lista completa de clubes de leitura organizados pela Companhia das Letras)

Cada um com a sua cordilheira

Por Janine Durand

Chegada do helicóptero de resgate depois de 72 dias na montanha. (Arquivo de imagens do jornal El Pais)
Chegada do helicóptero de resgate depois de 72 dias na montanha. (Arquivo de imagens do jornal El Pais)

Trabalho com os clubes de leitura desde setembro de 2010. Há dois meses estou de licença-maternidade, cuidando do pequeno Henrique, e aproveitando também para ficar mais tempo com a minha filha Gabi, hoje com sete anos.

Há quinze dias, a Vanessa Ferrari me pediu para ir com ela ao clube de leitura na Penitenciária Feminina de Santana. Aceitei na mesma hora e li Sociedade da neve em três dias, o que me possibilitou viver uma experiência tripla, que gostaria de compartilhar com vocês. A primeira foi deixar o Henrique durante a tarde inteira, organizar a questão do leite e exercitar meu desapego. A segunda foi a de ler um livro incrível de que não esquecerei tão cedo e que pretendo reler um dia, o livro está até agora reverberando em mim. E a terceira, tão importante quanto as outras duas, foi a ida à penitenciária, o contato com as detentas, a sensação de estar colaborando com o processo de leitura e reflexão de pessoas que estão tendo a oportunidade única de parar uma hora por mês para falar de literatura, compartilhar impressões e saírem transformadas ao final do clube — em menor ou maior grau (o que nos inclui, é claro!).

O clube, que ainda está se constituindo enquanto grupo, teve momentos marcantes. Algumas frases ainda ecoam em mim, e me arrepiam ou emocionam. Com as coisas simples que os sobreviventes passaram a lembrar e valorizar, as mulheres tiveram grande identificação. Uma delas disse: “Aqui é a mesma coisa, às vezes lembro como seria bom, num dia desses de calor, dar um gole numa Coca gelada”; a outra emendou: “Aqui valorizamos um pedaço de papelão, uma embalagem de cigarro vazia…”. Quando falávamos da reinserção dos sobreviventes na sociedade, mais um comentário emocionante: “Me identifiquei quando eles falavam que não pertenciam nem à sociedade dos mortos nem à da dos vivos, também tenho receio de como será quando eu sair daqui, sinto vergonha, fico pensando na volta para casa…”, e não conclui, se perde em seus pensamentos.

Um ponto bastante comentado foi a solidariedade entre os sobreviventes na situação limite, o que também gerou bastante identificação e uma outra integrante do clube informou: “Aqui é igual, quando alguém fica doente na cela, todo mundo cuida dessa pessoa”. Fazendo um paralelo entre o livro e a realidade delas, mais uma frase que demonstra bastante autocrítica: “A diferença entre nós e eles é que nós escolhemos estar aqui, eles não tiveram escolha”. Num dos momentos em que todas falavam, quase ao mesmo tempo, escutei várias vezes “nós vamos conseguir escalar a nossa cordilheira”… e quando lembro fico sem fôlego, de fato cada um tem a sua, não é?! Em um dos momentos que para mim foi bastante emocionante, uma das detentas nos contou que no dia anterior tinha sofrido a sua própria avalanche, e que ainda estava debaixo da neve, pois após viajar sete horas num camburão em que os detentos ficam num espaço minúsculo e escuro, soube que provavelmente não sairá em dezembro, como previa, e que deve sofrer mais uma condenação. E neste momento ela chora… e as outras dizem: “Você vai conseguir, vai escalar…”. Esta mesma mulher ao final do clube se dirige a mim para agradecer a oportunidade de participar do clube, e quando digo para ela ter força, ela desaba nos meus braços.

Saio de lá grata pela oportunidade de troca, grata por fazer parte deste projeto com tantas pessoas comprometidas e interessantes (dentro e fora da editora), tantas apostas pessoais e institucionais. Saio também pensando que todo mundo precisa de novas chances, que a maioria das pessoas está sedenta por viver novas experiências, e o clube, a literatura é um caminho possível. Parabéns para a Van que é uma mediadora incrível, e que venham outras mediadoras e mediadores. Vida longa aos clubes de leitura!

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Janine Durand é coordenadora dos Clubes de Leitura Penguin-Companhia.

Leituras no cárcere

Por Vanessa Ferrari


Foto de um dos clubes de leitura internos da editora.

No último dia 14, o Pedro Schwarcz e eu fomos à Penitenciária Feminina de Santana. Durante duas horas, fizemos a mediação do primeiro Clube de Leitura Penguin-Companhia no local, com dezesseis internas e três funcionárias ligadas ao núcleo educacional da prisão. Quem acompanha este blog e as notícias da editora pelo Twitter e pelo Facebook sabe que desde o ano passado, sob a coordenação da Janine Durand, do Matinas e do Pedro, promovemos clubes de leitura em parceria com algumas livrarias. Uma iniciativa que começou com um pequeno grupo na Livraria Cultura, em São Paulo, e se expandiu para outros estados e outras lojas como a Saraiva, a Travessa no Rio de Janeiro, a Haikai no bairro paulistano de Higienópolis. Ao mesmo tempo, também queríamos desenvolver algum projeto social ligado aos clubes. Tivemos várias ideias e a penitenciária foi uma delas.

Sabíamos que nos Estados Unidos os clubes nos presídios são comuns, mas aqui teríamos de traçar um caminho praticamente do zero. Qual das penitenciárias escolher, com quem falar, como defender a proposta de modo convincente? Havia um palpite de que não seria muito fácil agendar uma conversa e, mesmo se conseguíssemos, nada garantia que a ideia seria bem recebida. Tivemos, então, a ajuda da Maria Emilia, editora do Drauzio Varella na Companhia, que perguntou a ele sobre um possível Clube de Leitura na Penitenciária Feminina de Santana, onde ele é médico voluntário. Para quem não se lembra, o Drauzio fez por muitos anos o mesmo trabalho no Carandiru. Ele foi simpático à proposta e sugeriu que antes de mais nada conversássemos com a direção do presídio.

Reunião marcada, apresentamos a ideia: uma vez por mês, promoveríamos um bate-papo literário com um grupo de internas. Mandaríamos os livros e depois de trinta dias chegaríamos com os mediadores. Soubemos que havia dezesseis detentas que trabalhavam como monitoras, ou seja, professoras multidisciplinares que ensinavam outras internas com escolaridade incompleta. Acordamos que esse seria o primeiro grupo. A questão agora era a escolha do livro.

Mas como fazer isso sem conhecer o grupo? Pedi sugestões a vários colegas, fiz anotações, li trechos de livros. Pensei em vários títulos mas não conseguia me decidir. A gente não podia errar. A certa altura, o Thyago Nogueira, nosso colega editor, mencionou alguns autores da casa, entre eles, o Milton Hatoum. Quando ouvi o nome do Milton tive um estalo. Claro, poderíamos começar com o Dois irmãos.

Naquele instante, por vários motivos, achei que daria certo. Uma história de família com personagens bem construídos, um romance sofisticado mas com uma linguagem clara, a figura de uma mãe apaixonada e possessiva, um filho problemático. Fechamos nesse livro. Embora eu pressentisse fortemente que poderia dar certo, não havia como ter certeza — o primeiro livro nos clubes de leitura é sempre um tiro no escuro.

O resultado, porém, não poderia ter sido melhor. O grupo é formado por mulheres inteligentes e de muita opinião, e a discussão enveredou por vários caminhos — os personagens, a temporalidade do romance, as dificuldades na leitura, a angústia que o livro provocou. Uma delas lamentou que não houvesse um final feliz, outras rebateram o argumento. Alguém estranhou os nomes dos personagens (Rânia, Yaqub, Zana), outras ficaram intrigadas com a identidade secreta do narrador. E nessa toada seguimos até o fim. Saímos do encontro felizes e animados. Acho que elas também. A estreia tinha sido muito boa.

O próximo clube acontecerá em outubro, e dessa vez mudamos radicalmente a proposta. A essa altura elas já começaram a ler A sociedade da neve, de Pablo Vierci. O livro é baseado no acidente de um avião nos Andes em 1972. Dos 45 tripulantes, apenas dezesseis pessoas, sem roupa apropriada nem comida, depois de 72 dias, a trinta graus abaixo de zero, conseguiram se salvar. Esse livro é a versão de cada um dos sobreviventes para o acidente, 33 anos depois. É uma história inacreditável e muito bonita. Veremos como elas, ou melhor, como nós nos sairemos nesse segundo encontro.

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Vanessa Ferrari é editora assistente da Companhia das Letras.