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II. Dois mistérios

Por Cristian Clemente

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O post de hoje é complemento do texto de ontem escrito por Caetano Galindo.

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No dia 17 de abril de 2012, eu fui surpreendido. Nesse dia, recebi o meu primeiro livro de ficção para traduzir: A Seleção, que saiu em setembro daquele ano para se tornar um dos maiores sucessos da então recém-criada Seguinte, o selo jovem da Companhia. Eu já tinha traduzido um bocado de coisas — eu fiz as contas com o Caetano outro dia, oito livros, entre religião, psicologia e artes marciais (sim) —, mas nada de ficção. Zero.

Como os editores foram escolher um sujeito que jamais tinha traduzido ficção na vida para assinar um dos carros-chefes do novo selo? Eis aí um mistério que, como todo mistério, só posso aceitar. Feliz.

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Depois de A Seleção, vieram os outros títulos da série. Parece que os livros saíram bem (por favor, diga que sim, Nathália). Mas eu sempre ficava com uma porção de dúvidas. Queria saber como os outros tradutores trabalhavam, se faziam as mesmas escolhas do que eu e se tudo bem fazer essas escolhas. É que eu nunca tinha sido formado para traduzir literatura. Fui sempre fazendo as coisas segundo o ditado espanhol: A Dios rogando y con el mazo dando.

Então, no dia 16 de janeiro deste ano fui surpreendido novamente. Escolheram-me para participar do programa de mentoria do British Council. E o meu mentor seria o Caetano Galindo (!). Pouco tempo antes, eu tinha lido a entrevista dele no The Millions sobre o Graça Infinita. Também tinha ganhado de presente um exemplar do Ulysses que ele traduziu. O homem é um monstro. Por que eu fui escolhido para o programa? Eis outro mistério que aceitei feliz.

Foram seis meses de mentoria, seis meses de trabalhos e esforços, em que tive um retorno personalizado sobre o meu desempenho, para fazer andar o projeto com que me inscrevi: uma tradução do romance Helena, do Evelyn Waugh (inédito em português). E como aprendi nesse período.

A primeira coisa que aprendi foi a ter calma. Aliás, foi a mais fundamental. Digo calma por falta de um termo melhor. O que o Caetano me ensinou é trabalhar sem ficar pensando nas bobagens com que eu perdia tempo. Muitas vezes, eu me punha questões que nem o autor quis levantar ou resolver. O melhor é deixar o leitor decidir. E isso dá uma paz de espírito na hora de traduzir. Sério.

Essa calma é também uma espécie de humildade, que marca o trabalho do tradutor que respeita o autor e o leitor. No caso do Caetano, é também uma marca da personalidade dele. Vejam: o homem tem uma cabeça privilegiada, prêmios, cargo de professor numa universidade federal (e uma cachorra fofíssima). Ainda assim, foi a pessoa mais acessível do mundo para mim durante a mentoria, teve uma paciência inesgotável com as minhas neuras e demoras e não negou resposta a qualquer das minhas perguntas (até sobre criação de filhos). Thanks, dude!

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O historiador da arte Edgar Wind tem uma interpretação conhecida do quadro Primavera, de Botticelli, no seu livro Pagan Mysteries in the Renaissance (também inédito). Em bem poucas palavras — que correm o risco de deturpar uma coisa aqui e ali, pelo que me desculpo de antemão — o quadro representa um ciclo de fertilidade. Vênus, no centro, abençoa a alma juvenil e inexperiente, flechada pelo amor. Esta, guiada por Hermes (o intermediário entre os deuses, ou seja, quase um tradutor), vai atrás dos mistérios do alto, do conhecimento acima das nuvens. Mas esse conhecimento não pode ficar estéril. Deve retornar à terra como o vento fecundo que traz a primavera.

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A minha experiência de mentoria foi mais ou menos assim. Só que mais para menos, em certo sentido. Fui escolhido, aprendi muito e agora estou de volta, a fim de produzir. A diferença é que em vez de conhecer mistérios, desmistifiquei bastante coisa graças ao meu mentor. Thank goodness!

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Cristian Clemente tem 31 anos e vive de livros desde os 18. É graduado em Letras (Português/Inglês) pela USP e tem pós-graduação em Edição pela Universidade Complutense de Madri. Traduziu os títulos da série A Seleção (Seguinte) e mais umas coisas por aí.

I. Em tradução (tradutores)

 

 

Amanhã postaremos o texto de Cristian Clemente sobre o programa de mentoria de tradução mencionado por Caetano Galindo no texto abaixo.

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Já falei aqui da minha atração pelo modelo da guilda, do aprendiz, de um profissional mais velho que põe um mais novo embaixo da asa até o cabra aprender como se faz.

Na ocasião, até mencionei que quem me fez pensar nisso foi o economista/cético/frasista Nassim Nicholas Taleb.

Mais recentemente, o Taleb deu de falar de possíveis campos “uberizáveis”. Ou seja, campos onde a prestação de serviços entre particulares pode ser mais interessante que a mediação de empresas. E a educação, de novo, era um deles.

Durante esse ano, eu tive o grande prazer (grande mesmo) de participar de um programa de mentoria de tradução, organizado pelo British Council e pelo British Centre for Literary Translation. E foi um mega caso de uma uberização patrocinada por uma instituição.

Por meses a fio eu trabalhei com o Cristian Clemente, um tradutor mais jovem que eu, dando palpites no trabalho que ele apresentou como projeto (uma tradução supimpíssima do romance Helena do grande Evelyn Waugh: editoras, fiquem de olho!). Mais do que isso, encontrei com ele em São Paulo, participamos de um evento juntos, levei ele para conhecer o editorial da Companhia das Letras, e ele veio a Curitiba, onde assistiu aulas aqui na UFPR e sentou de novo pra discutir tradutices comigo.

Pela gentileza do Cristian parece que o programa foi de algum proveito pra ele.

Pra mim (e só me cabe falar de mim) foi uma experiência bem de mudar opiniões e vidas mesmo.

Os critérios do pessoal do programa definiam que era eu o mentor, mas o Cristian é muito mais experiente que eu em trocentas áreas do mundo editorial. A hierarquia dizia que era eu quem o “ajudaria” com dicas e palpites, mas quem for ler a minha tradução de Cidade em Chamas no ano que vem vai se beneficiar de pelo menos um momento em que o Cristian, numa conversa informal, me fez ver uma bobagem que a minha falta de cultura pop ia me fazendo cometer.

E teve isso… teve as conversas informais.

Numa pizzaria em SP depois do evento na Casa Guilherme de Almeida.

Andando pelo centro de Curitiba, à toa, e aprendendo horrores sobre história, igrejas, ritos e anedotas do cristianismo, sobre o Sul dos Estados Unidos e o interior de São Paulo.

Eu tenho um amigo que diz que a gente não tem que ficar com vergonha quando constata que a parte mais importante, digamos, de um evento universitário, foi a do cafezinho entre as palestras. Diz ele que é pra ser assim. Que é esse contato que ensina. Que é aí que a gente aprende. E cresce.

Uberização ou não, patrocinada ou não, a experiência de conviver com um colega, que enfrenta as mesmas cismas, me parece uma solução genial pra quem quer aprender a (se) traduzir.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

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