cynthia ozick

Semana cento e quarenta e quatro

Os lançamentos desta semana são:

Corpos estranhos, de Cynthia Ozick (Trad. Sonia Moreira)
Beatrice Nightingale é uma professora escolar de meia-idade que leva a vida estagnada há anos, desde que seu breve casamento acabou. Mas quando o irmão com quem mantinha pouquíssimo contato lhe pede que viaje de Nova York para Paris com a missão de resgatar um sobrinho rebelde, Bea acaba por se envolver completamente com as pessoas da família que durante muito tempo lhe foi alheia. Essa é a primeira de algumas viagens que a levam a repensar suas escolhas e possibilitam escapar das amarras de seu passado. Nas pegadas do romance Os embaixadores, do mestre Henry James, Cynthia Ozick nos conta a história desse resgate que se transforma, aos poucos, na história de uma desilusão. Ela transpõe com maestria a trama de James para os anos 1950, em que seus heróis terão de enfrentar um mundo complexo e brutal, recém destroçado por duas guerras mundiais.

Beira-mar, de Pedro Nava
“Vinte anos nos anos 1920”. Essa sentença mágica poderia servir de lema à brilhante geração intelectual integrada por Pedro Nava na Belo Horizonte da última década da República Velha. Carlos Dummond de Andrade, Aníbal Machado, Abgar Renault, Juscelino Kubitschek, Milton Campos e Gustavo Capanema, entre outros escritores, intelectuais e políticos seminais do século XX brasileiro, compõem o notável elenco de seus amigos da rua da Bahia, do Diário de Minas Gerais e da Faculdade de Medicina. Neste quarto volume de suas memórias, unanimemente consideradas o mais importante momento do gênero na literatura brasileira, Nava confere à Amizade – com alegórica inicial maiúscula – um papel de destacada protagonista. Contra o pano de fundo de calorosa cumplicidade entre seus jovens companheiros de vida e literatura, Nava rememora os penosos esforços da formação médica e as metamorfoses sofridas por uma cidade, um estado e um país prestes a serem tragados pelo torvelinho inexorável da modernidade.

A conquista social da Terra, de Edward O. Wilson (Trad. Ivo Korytovski)
De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? Essas perguntas fundamentais são o ponto de partida deste livro. Em busca das respostas, o autor se concentra na complexa vida social atingida por insetos como formigas, abelhas e cupins, e por pouquíssimos mamíferos – entre eles os seres humanos. Em comum, esses organismos têm um pré-requisito essencial à formação de sociedades avançadas: a necessidade de se fixar em um ninho e defendê-lo de inimigos. No caso dos seres humanos, esses ninhos são acampamentos, aldeias, cidades. O que nos permitiu chegar a uma organização social ainda mais complexa é um corpo avantajado com um cérebro grande e desenvolvido, características que possibilitaram ao homem pré-histórico dominar o fogo e se embrenhar por caminhos tecnológicos. A grande preocupação do pai da sociobiologia neste livro é elucidar os mecanismos evolutivos por trás do surgimento das gigantescas sociedades de formigas e da cultura de nossa espécie. Está aí, para ele, o cerne da natureza humana.

O jantar errado, de Ismail Kadaré (Trad. Bernardo Joffily)
Em sua primeira noite sob ocupação do Exército nazista, em 1943, Girokastra assiste a um jantar que intriga os moradores da pequena cidade no sul da Albânia, onde as lendas milenares competem com as últimas fofocas. O dono da casa é o doutor Gurameto Grande, uma instituição local; o convidado, o coronel Fritz von Schwabe, comandante da tropa invasora. Ao som do gramofone, em meio a valsas e brindes com champanhe, o médico convence o alemão a libertar oitenta reféns em vez de fuzilá-los. Mas desde o início os moradores quebram a cabeça em busca de explicações para os intrigantes detalhes daquela noite. Dez anos depois, a história terá seu desfecho, que se mistura ao “Complô das Batatas Brancas” e à ação dos serviços secretos no campo comunista.

O humano mais humano, de Brian Christian (Trad. Laura Teixeira Motta)
Todo ano, cientistas e entusiastas da inteligência artificial se reúnem em um evento onde é aplicado o famoso teste de Turing, no qual programas sofisticados enfrentam humanos para determinar se computadores podem pensar. A máquina que se sai melhor é consagrada como o Computador Mais Humano. Resta ao membro mais convincente da nossa espécie a distinção de Humano Mais Humano. É esse prêmio que o filósofo e poeta Brian Christian vai buscar. Usando um relato da competição como ponto de partida para uma investigação abrangente e fascinante, Christian repensa: o que significa ser humano?

Um encontro, de Milan Kundera (Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca)
Por meio de uma singular seleção de artistas – de Beethoven a Fellini, de Francis Bacon a Gabriel García Márquez -, Milan Kundera revisita em Um encontro, seus vários interesses estéticos: música, cinema, literatura e artes visuiais. Os bastidores da criação literária intercalam-se com reflexões sobre o ofício de outros autores, entre contemporâneos como Philip Roth e antecessores consagrados como Dostoiévski. Neste mosaico de impressões, lembranças e textos críticos, a sensibilidade humanista tão característica do autor de A insustentável leveza do ser transparece, sobretudo nas agudas observações acerca da República Tcheca, seu país natal. Ao longo destes encontros com obras, mulheres e homens notáveis, Kundera procura apreender o que neles há de mais essencial, isto é, “aquilo que o próprio artista, só ele, pode dizer”.

Editora Seguinte

O cavaleiro fantasma, de Cornelia Funke (Trad. Laura Rivas Gagliardi)
Jon Whitcroft não estava nada feliz naquele internato. Tinha saudade de casa e não via a hora de provocar algum acidente envolvendo o Barba, o novo – e insuportável – namorado de sua mãe. Até que, na sexta noite em Salisbury, Jon encontra um motivo ainda maior para sair correndo dali: ele passa a ser perseguido por um bando de fantasmas, que desejavam nada mais, nada menos que a sua morte! Mas, em vez de pedir ajuda para a mãe, ele recorre a outro protetor: Sir William Longspee, um cavaleiro fantasma que, depois de ser assassinado, jurou zelar pelos fracos e inocentes. Air William cumpre sua promessa e, ao lado de Jon, percorre cemitérios, duela contra zumbis e vai em busca de seu próprio destino – revelando aos poucos sua história repleta de mistérios.

Editora Paralela

Adeus, por enquanto, de Laurie Frankel (Trad. Maria Alice Stock)
E se o amor continuasse além da vida? Laurie Frankel, a talentosa autora de O atlas do amor, inova em seu segundo romance, no qual conta a história do jovem casal que estendeu seu amor para além dos limites da vida. Não é milagre e nem magia, é pura ciência da computação! Graças ao software que Sam Elling, um divertido programador do MIT, desenvolve, torna-se possível conversar com projeções perfeitas de pessoas queridas que morreram. Assim, ele ajuda sua namorada a superar a perda recente da avó, mas não esperava que um dia fosse precisar se tornar usuário de seu próprio programa… Esta é uma história de amor do século XXI, encantadora e original, que nos faz pensar na vida (real e virtual) e na morte, nas paixões e nas perdas. Se de fato nada dura para sempre, talvez o amor desafie a ordem natural, e dizer adeus pode ser apenas um começo.

Compromisso?

Por Mariana Mendes

Foi minha a ideia de lermos O xale, de Cynthia Ozick, no segundo encontro do Clube de Leitura aqui da editora. São encontros mensais que acontecem durante o horário de trabalho, mais conhecido como expediente, nos quais conversamos livremente sobre determinado livro. O clube é uma experiência nova da editora, algo que faz muito sucesso, principalmente nos Estados Unidos, e estamos começando a implementar em algumas capitais brasileiras.

O bom do clube é que não há regra nem autoridade, cada um fala o que quer, desde as impressões mais subjetivas até a opinião sobre a capa do livro. Existe, no máximo, um mediador pra pôr ordem e não deixar que sempre os mesmos falem o tempo todo, mas sua função é ser discreto e interferir apenas se necessário. A ideia do clube soou estranha (pra mim) no início — afinal, é comum querermos resultado, aprendizado, mas em tese o clube não existe para ensinar nada. A ideia é compartilhar, dividir a experiência da leitura. Se isso parece pouco, basta pensar no quanto você lê e no quanto para e comenta (tranquilamente) sobre algo que leu por puro prazer. Culpa da falta de tempo?

No clube compartilhamos nossos pontos de vista. Tudo bem que opinião está fora de moda, principalmente se você não é um formador de. Valorizado hoje em dia é o embasamento, o argumento e a justificativa. Sim, entendo a importância de fundamentarmos o que dizemos, não jogar palavras ao léu, mas não sou contra existirem momentos em que seja permitido falar sem pensar, por intuição, sem medir consequências. O clube não é um espaço sério, que delícia!

E se até agora só falei da experiência agradável que foi a nossa reunião, falta dizer o quanto a escolha desse livro, particularmente, foi feliz. Entre os integrantes do nosso grupo, poucos tinham ouvido falar de Cynthia Ozick. Eu mesma, autora da brilhante ideia, não tinha uma atração especial pela escritora, mas me lembrava de ter ouvido elogios ao livro, ao menos internamente. Essa intuição, algo que nos leva muitas vezes a um livro qualquer e que depois se abre de sentidos pessoais, juntou-se à vontade de ler uma mulher contista, algo não tão frequente em nosso catálogo — e ainda pesou muito o fato de o livro ser curto. Viva a brevidade, tão importante na conciliação das agendas!

Editado pela Companhia em 2006, este livro esbelto, de capa azul, com meras 88 páginas, é um soco na boca do estômago do leitor. São dois contos independentes, “O xale” e “Rosa”, interligados por uma personagem lacônica que vive uma perda irreparável durante o holocausto. Trinta anos depois, na segunda história, acompanhamos essa mulher vagando por Miami em busca da vida que lhe foi arrancada. Publicados separadamente na revista The New Yorker, na década de 80, juntos formam uma peça monumental, pela força com que lançam o leitor para dentro dessa consciência hipnótica e perturbadora.

A sensação de descoberta por termos lido algo raro, um livro acomodado em nosso catálogo sobre o qual pouco se falou, valorizou ainda mais nossa experiência. E assim o clube nos obriga, agradavelmente, a criarmos em nossas agendas mais um compromisso de leitura. Nessa sexta, 19 de novembro, vamos de Infância, do Coetzee.

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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.