cyril pedrosa

As viagens de Cyril Pedrosa

Até onde consigo me lembrar, eu sempre quis fazer histórias em quadrinhos.

Entre as boas e más razões que me fizeram desistir de ser presidente da república, rockstar ou cirurgião-dentista, o poder mágico do desenho assume o topo da lista, sem hesitação. A descoberta, a partir da infância, do prazer que há, com um lápis e um papel, em mergulharmos no interior de nós mesmos, até desaparecermos lentamente, marcou minha vida para sempre.

Desenhamos, e abracadabra, desaparecemos.

É exatamente disso que se trata.

Aquele que desenha não pensa mais. Ele esquece de si mesmo e se incorpora, corpo e espírito, na ponta de seu lápis, ao contato do papel.

Seu cérebro, a mão que desenha, o braço que se move, a cadeira sobre a qual ele fica sentado oito horas por dia, a casa que o cerca, o mundo inteiro, os medos, as dúvidas, as alegrias, tudo isso desaparece para renascer por encantamento, e sob uma outra forma, nos traços que surgem na folha de papel. Assim, que tenha 6, 39 ou 84 anos, o desenhista viaja. Ele entra primeiro no interior de si mesmo, para então sair novamente, projetando-se por inteiro na imagem que produz.

Muitos anos mais tarde, certamente ainda não satisfeito com essas viagens mágicas de desenhista, fui para um pouco mais longe, para o lado da minha imaginação, dos meus desejos, dos meus sentimentos. No início, eu seguia com prudência os caminhos familiares e, depois, pouco a pouco, tentei me afastar deles a fim de encontrar alguma outra coisa, que valesse a pena compartilhar com os outros. Esses objetos, preciosos ou banais, acabaram se juntando e se transformando em “histórias”, depois em livros. Os “outros”, abracadabra, viraram leitores, e eu, abracadabra, “autor de histórias em quadrinhos”.

Outros anos se passaram. Continuo com minhas viagens interiores, mas, como em um passe de mágica, alguns de meus livros acabaram por me carregar com eles. Tive a sorte incrível de que Três sombras atravessasse fronteiras, sendo traduzido e lido em vários países, me abrindo as portas para belos encontros e inesperadas aventuras… Pela primeira vez na minha vida, graças a esse livro, eu vou sobrevoar o Atlântico essa noite e chegar amanhã de manhã em São Paulo. Não consigo acreditar que os livros tenham um poder assim, de mobilizar os homens, de provocar encontros, de mudar vidas. Parece, no entanto, que é isso.

— Cyril Pedrosa
Sábado, 5 de novembro de 2011
[Tradução de Carol Bensimon]

* * * * *

Cyril Pedrosa participará de eventos em 3 cidades:

Belo Horizonte: Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ)
– Bate-papo “Conversa em Quadrinhos”, com Cyril Pedrosa e Olivier Martin: quinta-feira, 10 de novembro, às 16h
– Sessões de autógrafos: dias 10 e 12 (quinta e sábado), das 17h30 às 19h30
Serraria Souza Pinto – Avenida Assis Chateaubriand, 809 – Centro

Olinda: Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto)
Mesa com Cyril Pedrosa, Walther Moreira Santos e Frederico Barbosa: “Imagem, palavra, impacto: poesia, prosa de ficção e HQ”
Terça-feira, 15 de novembro, às 11h30
Praça do Carmo – Tenda Principal – Sítio de Seus Reis

Rio de Janeiro:
Bate-papo com Cyril Pedrosa e Tiago Lacerda
Quarta-feira, 16 de novembro, às 18h30
Mediateca da Maison de France – Avenida Presidente Antônio Carlos, 58 / 11° andar

Semana quarenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Alex no país dos números, de Alex Bellos (Tradução de Claudio Carina e Berilo Vargas)
Os números têm fascinado a humanidade desde sua descoberta. Representados de diferentes modos pelas civilizações ao longo dos séculos, esses signos e suas relações se tornaram o fundamento do raciocínio abstrato, bem como de todas as atividades humanas em que é necessário contar. Os traços e marcas que permitiam aos primeiros pastores e agricultores o controle sobre a produção de seus rebanhos e plantações se transformaram na base conceitual da atual revolução tecnológica. Nas páginas desta surpreendente viagem pelo país da matemática, tal como a Alice de Lewis Carroll, Alex Bellos conduz o leitor por entre uma multidão de seres inusitados. Em meio a números com poderes maravilhosos, números que se atraem e se repelem, números que representam a plenitude da divindade e números repetidos que desafiam o acaso dos dados, o autor demonstra que a matemática é uma ciência tão importante quanto divertida. Alex Bellos, que fala português, vem ao Brasil para o lançamento do livro. Haverá bate-papo em São Paulo e Rio de Janeiro, com oficina de cubo mágico.

Três sombras, de Cyril Pedrosa (Tradução de Carol Bensimon)
Joachim e seus pais — Louis e Lise — vivem distantes do resto do mundo. A vida é tranquila e cheia de pequenos prazes na casinha rodeada por colinas. Mas um dia três sombras surgem no horizonte, montadas em cavalos, com capas negras e os rostos cobertos por capuzes. Sua presença silenciosa aos poucos se torna onipresente, aterrorizando a família e levando Louis à terrível conclusão de que as três entidades estão ali para buscar Joachim. Então Louis recusa-se a aceitar as engrenagens do Destino, e parte com o filho em uma viagem febril e desesperada. Nessa jornada quase alegórica, retratada com o traço preciso de Cyril Pedrosa — que ora revela a inocência de um olhar, ora ameaça à espreita —, pai e filho atravessarão lugares inóspitos povoados por seres trapaceiros e imorais, enquanto tentam, de todas as maneiras possíveis, escapar do encontro com a morte.

O jantar fatal e outros mistérios médicos, de Jonathan Edlow (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
No ritmo das séries televisivas de grande sucesso ER e House, e inspirado nos contos de sir Arthur Conan Doyle protagonizados por Sherlock Holmes, o professor de medicina em Harvard e renomado especialista em emergências neurológicas Jonathan Edlow conta quinze histórias de mistérios médicos que — por sua complexidade ou rara ocorrência — desafiam os melhores “detetives”. Entre doenças esquecidas nos antigos compêndios de medicina que subitamente se manifestam no coração dos Estados Unidos e supostos chás medicinais que na verdade são tóxicos, o dr. Edlow ainda nos apresenta, em linguagem clara e acessível, a história das moléstias diagnosticadas, e as aventuras da descoberta dos mais diversos males e patógenos.

Oriente, Ocidente, de Salman Rushdie (Tradução de Melina R. de Moura)
Salman Rushdie é um equilibrista habituado à corda bamba entre dois mundos que parecem mais distantes entre si no tempo que no espaço — o Oriente e o Ocidente. Tem, portanto, um olhar privilegiado sobre cada um deles, o que lhe permite enxergar detalhes que escapariam a um observador convencional. Nos nove contos deste livros, o escritor indiano observa essas duas culturas com olhos afiados e irônicos, montando um caleidoscópio de situações que atravessam séculos e continentes. De Hamlet a Isabel de Castela, de Colombo ao dr. Spock, passando por assaltantes anônimos, espiões e proletários, indivíduos invariavelmente fora do lugar dão a estas páginas colorido e vitalidade raros na literatura — e são a prova definitiva de que não há fronteiras para a fabulação de Rushdie.

Mosca Espanhola, de Will Ferguson (Tradução de Celso Mauro Paciornik)
Jack McGreary é um jovem que vive na minúscula, pobre e pacata cidade de Paradise Flats. Quando dois novos golpistas chegam ao local e começam a agir, Jack é o único que reconhece o truque, mas, em vez de entregá-los, termina por ajudá-los. Encantado com a promessa de uma vida de aventuras com os profissionais do engodo Virgil Ray e srta. Rose, espécie de Bonnie e Clyde sem armas, Jack decide deixar sua antiga vida para trás e partir com eles. Juntos, os três aplicam golpes por todo o país, dos mais simples aos mais sofisticados, com um único lema: não é crime se dão o dinheiro para você. Jack é rapidamente absorvido por essa vida de dinheiro, bebida e jazz, e, usando seu talento nato, planeja o maior golpe de todos: a Mosca Espanhola.

Pompeia, de Richard Platt (Ilustrações de Manuela Cappon; Tradução de Érico Assis)
Era uma vez um modesto casebre no sul da Itália. Por volta de 750 a.C., ele se transforma em uma fazenda que, com o passar do tempo, vai sendo engolida por uma cidade vibrante que cresce ao seu redor — Pompeia. Aos poucos, surgem cada vez mais sinais de que o modo de vida romano tornou-se dominante por lá. Até as forças da natureza rebelam-se: o abalo de um terremoto é apenas o prenúncio de algo ainda mais devastador… Essa é a emocionante história narrada neste livro. Ao acompanhar o dia a dia de uma casa em Pompeia, de séc. VIII a.C. aos dias de hoje, você conhece não só uma parte da história do antigo Império Romano, como também as pessoas que lá viveram e trabalharam, e entende suas crenças e hábitos. Acompanhe em detalhes o crescimento dessa fascinante cidade por meio de desenhos detalhados e textos explicativos.

O livro dos monstros!, de Fran Parnell (Ilustrações de Sophie Fatus; Tradução de Heloisa Jahn)
O que você faria se de repente encontrasse um monstro? Tentaria se esconder? Fugiria? Ou será que diria “oi” na maior calma? Pois nestas histórias você vai ficar frente a frente com vários deles: um abominável homem das neves, um ogro emplumado, um monstro aquático faminto e outros seres de dar medo. E vai acabar descobrindo que eles são cheios de truques e também que nem todos são tão terríveis assim — alguns só precisam de um pouco de compreensão. Inspirado em histórias populares do mundo inteiro, das montanhas do Nepal às planícies da América do Norte, este livro vai fazê-lo passar pela emoção de encontrar algumas criaturas pavorosas — e gostar da experiência!

O rato me contou…, de Marie Sellier (Ilustrações de Catherine Louis; Carimbos e caligrafia chinesa de Wang Fei; Tradução de Eduardo Brandão)
Um dia, no início do mundo, o Grande Imperador do Céu convidou todos os animais a visitá-lo no topo da montanha de Jade. Doze animais compareceram — e acabaram se tornando os doze signos do horóscopo chinês. O que realmente aconteceu naquele dia? O rato, que estava presente, é que vai contar essa história. Ao final do volume, tabelas trazem os anos correspondentes a cada um dos signos chineses.