daniel defoe

Semana cem

Os lançamentos da semana são:

A primeira pessoa, de Ali Smith (Tradução de Caetano W. Galindo)
Cada conto é uma deliciosa surpresa em A primeira pessoa. Em “A criança”, uma pessoa se vê às voltas com um bebê que surge do nada em seu carrinho de supermercado e que não é seu, embora todos pareçam acreditar que sim. O mesmo estranhamento se dá mais adiante, no conto “N’água”, em que uma mulher é beijada por uma completa desconhecida, na rua, e ao voltar para casa encontra-se com a menina que era há três décadas, o seu “eu de catorze anos”, para uma conversa pungente e improvável. É a partir de situações como estas que Ali Smith discute temas centrais como a identidade, o amor e o fazer literário. Acertando em cheio e aparentemente sem esforço nosso intelecto, nosso coração e nosso senso de humor, a autora explora, por meio de jogos sofisticados, os possíveis caminhos e as questões centrais da arte de narrar.

Sunset Park, de Paul Auster (Tradução de Rubens Figueiredo)
Sunset Park é um bairro de imigrantes no Brooklyn, onde quatro jovens beirando os trinta anos decidem encarar a aventura de ocupar ilegalmente um imóvel vazio. Os quatro, embora sem condições de pagar nem mesmo os baixos aluguéis da região, têm um background de classe média, são instruídos e nutrem veleidades artísticas e intelectuais. Entre eles está Miles Heller, que encontra no amor pela adolescente Pilar o primeiro impulso para pôr um ponto final nos anos de isolamento que se seguiram a um trágico acidente pelo qual, desde a adolescência, se sente culpado. Mas enquanto Miles quer juntar os pedaços e reabrir os olhos para o futuro, tudo à sua volta está coberto pela melancolia e o abandono; a crise americana de 2008 — quando o crédito imobiliário entra em colapso — é um dos pontos centrais desse romance, que fala sobre casas esvaziadas e ocupadas, desfeitas e refeitas. Ainda assim, se as coisas obsoletas falam de morte, em Sunset Park uma multiplicação erótica de corpos humanos embebe tudo das potências de vida.

O compadre de Ogum, de Jorge Amado
O compadre de Ogum foi publicado originalmente como um dos relatos de Os pastores da noite. A narrativa começa com a prostituta Benedita, que, depois de longa ausência, aparece com um bebê nos braços e, antes de desaparecer de novo, entrega-o ao negro Massu, que ela alega ser o pai da criança. Massu, que vive de fretes, precisa batizar o menino antes que complete um ano. Escolhida a igreja e a madrinha, resta o problema maior: eleger o padrinho da criança. Para não melindrar nenhum amigo, Massu consulta os orixás, e o próprio Ogum decide ser o padrinho. A situação põe em polvorosa a comunidade boêmia de Salvador. Mães e filhas de santo, prostitutas, jogadores, todos se mobilizam para o grande acontecimento, embora nem sempre os planos ocorram da maneira planejada.

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe (Tradução de Sergio Flaksman)
Empreendedor individualista, asceta puritano, antropólogo: as leituras do mito Robinson Crusoé são inesgotáveis. Defoe narra em primeira pessoa as peripécias do engenhoso náufrago inglês ao longo de quase trinta anos de isolamento numa ilha deserta. Desobedecendo aos conselhos paternos, o jovem Crusoé se lança ao mar e inicia uma carreira repleta de infortúnios, que incluem uma decisiva passagem pelo Brasil antes da solidão da “Ilha do Desespero”. Esta edição traz uma introdução e notas de John Richetti, professor emérito de inglês na Universidade da Pensilvânia.