david foster wallace

Semana duzentos e trinta e um

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Meus tempos de ansiedade, de Scott Stossel (Tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra)
A partir de sua própria vivência da ansiedade, o editor da revista Atlantic investiga essa doença que, se não existia como categoria diagnóstica 35 anos atrás, hoje é o mais comum distúrbio mental oficialmente classificado. Embora seja generalizado, o mal permanece uma incógnita, muitas vezes mal compreendido. Trata-se, afinal, de um estado espiritual, um distúrbio neuroquímico, um trauma psicológico? Entre o relato íntimo e a exposição de argumentos de autoridade, o autor nos oferece uma história de todas essas perspectivas, da médica à filosófica, das mais remotas às contemporâneas. Stossel revela ainda as várias formas de tratar a ansiedade e administrar seus efeitos incapacitantes. Eliminá-la, como mostra o autor, seria impossível, e talvez até prejudicial: afinal, o que seria do homem sem inquietações?

Sobre a ira/Sobre a tranquilidade da alma, de Sêneca (Tradução de José Eduardo S. Lohner)
Escritos na metade do século I d.C., em formato epistolar, os dois diálogos contidos neste volume foram provavelmente as únicas obras latinas dedicadas a expor uma terapêutica para a superação da ira e para o alcance de um estado de perene serenidade. Ambos exemplificam a concepção que Sêneca — preceptor de Nero e um dos maiores filósofos da Antiguidade romana — tinha da filosofia: uma disciplina prática, destinada não só a elevar a qualidade ética da vida humana, mas sobretudo a promover um processo de ascese espiritual, conforme a perspectiva afirmada pela doutrina estoica.

Graça infinitade David Foster Wallace (Tradução de Caetano Galindo)
Os Estados Unidos e o Canadá já não existem: eles foram substituídos pela poderosa Onan, a Organização de Nações Norte-Americanas. Uma enorme porção do continente se tornou um depósito de lixo tóxico. Separatistas quebequenses praticam atos terroristas e a contagem dos anos foi vendida às grandes corporações. Em Graça infinita seguimos os passos dos irmãos Incandenza — membros da família mais disfuncional da literatura contemporânea —, conforme tentam dar conta do legado do patriarca James Incandenza, um cientista de óptica que se tornou cineasta e cometeu suicídio depois de produzir um misterioso filme que, pela alta voltagem de entretenimento, levava seus espectadores à morte. Enquanto organizações governamentais e terroristas querem usar o filme como arma de guerra, os Incandenza vão se embrenhar numa cômica e filosófica busca pelo sentido da vida. Graça infinita dobra todas as regras da ficção sem jamais sacrificar seu próprio valor de entretenimento. É uma exuberante e original investigação do que nos torna humanos — e um desses raros livros que renovam a ideia do que um romance pode ser.

Luís Carlos Prestes — Um revolucionário entre dois mundosde Daniel Aarão Reis
Neste livro, que já nasce como a principal referência biográfica sobre Prestes, Aarão Reis acompanha os passos do líder comunista com ênfase em sua incansável atuação política, marcada pela ferrenha coerência ideológica e numerosos sacrifícios pessoais. De modesto oficial de um batalhão do Exército no interior gaúcho a chefe da mais extensa marcha guerrilheira da história mundial, de cabeça da rebelião comunista de 1935 a preso político, militante clandestino e exilado na União Soviética, de presidente histórico do PCB a líder condenado ao ostracismo por um partido que tentava se adaptar ao jogo político da democracia representativa, Reis traça um perfil biográfico de fôlego que é ao mesmo tempo uma história do marxismo e das lutas sociais no Brasil do século XX. O autor assinala como a história do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão, frequentemente se confunde com a biografia de Prestes, propondo um novo olhar sobre o homem-lenda que ainda hoje, mais de vinte anos depois de sua morte, continua inspirando paixões e ressentimentos.

Monções e Capítulos de expansão paulistade Sérgio Buarque de Holanda
Monções, volume publicado originalmente em 1945, trata das expedições portuguesas ao interior da Colônia por rios do Sudeste e do Centro-Oeste. Aqui, com grande talento narrativo e habilidade ímpar de compreensão histórica, o autor reconstitui o processo de adaptação dos portugueses ao território americano de forma original, a partir de descrições palpáveis da áspera empreitada colonial. Em sua quarta edição, o livro é publicado ao lado de coletânea de organização inédita,Capítulos de expansão paulista — cujo título (inspirado em Capistrano de Abreu) dá continuidade à série dos escritos inacabados do historiador paulista, tais como Capítulos de literatura colonial e Capítulos de história do Império. Esta reúne “fragmentos” do projeto idealizado por Buarque de Holanda de reescrever e ampliar Monções com novas informações que recolhera ao longo de pesquisas feitas em Cuiabá e Lisboa, e portanto lhe serve de complemento perfeito.

Quadrinhos na Cia.

O estrangeiro — Baseado na obra de Albert Camusde Jacques Ferrandez (Tradução de Carol Bensimon)
Conterrâneo de Camus, Ferrandez é considerado um especialista incontestável na Argélia colonial, tendo vivido por muitos anos na mesma rua que o autor. No dia em que sua mãe morre, Meursault acaba adormecendo no ônibus que o transporta de Argel ao asilo onde ela vivia. Mais tarde, durante o funeral, ele bebe o café oferecido pelo zelador do asilo, tem vontade de fumar e fica perturbado com a luz violenta das lâmpadas elétricas. É sob a influência aguda do sol argelino que o cega e queima que esse trabalhador calmo e reservado cometerá um ato irreparável. Camus apresenta um homem inapreensível, sem ambições ou desejos, que é levado a cometer um crime e que assiste, indiferente, a seu próprio julgamento. A história de Meursault fascinou milhões de leitores pelo mundo ao oferecer uma reflexão contundente sobre o absurdo da condição humana e questionar a máquina impiedosa da justiça social. Passados mais de setenta anos de sua publicação, O estrangeiro está mais atual do que nunca.

Companhia das Letrinhas

Noel Rosa — Uma grande conversa entre Noel e São Pedro num botequim lá do céude Luciana Sandroni e Maria Clara Barbosa, ilustrações de Gustavo Duarte
Noel Rosa está entre os maiores nomes da música brasileira. Conhecido como o “Poeta da Vila”, nasceu no Rio de Janeiro bem no momento em que o samba despontava e passava a agradar às mais diversas classes sociais. Nesta biografia ficcionalizada, ele está no céu e, a partir de uma sugestão do amigo são Pedro, resolve contar a incrível história da sua vida com suas próprias palavras. Ao final do texto, além de um glossário que aprofunda tópicos importantes sobre a música da época, estão disponíveis as partituras de doze canções de Noel, com sugestões de arranjo para três vozes.

Seguinte

A ascensão das trevasde Morgan Rhodes (Tradução de Flávia Souto Maior)
No terceiro volume da série A Queda dos Reinos, todos acreditam estar perto de encontrar a Tétrade, quatro cristais mágicos perdidos, capazes de conferir poderes indescritíveis a quem os reunir. Gaius acredita que está no caminho certo e que Lucia, sua filha adotiva, será a chave para localizar e despertar os cristais. Mas o destino é instável quando a magia está em jogo… Um período de trevas se abate sobre Mítica, e nesses tempos sombrios Jonas, Cleo, Magnus e Lucia precisam descobrir o quanto antes em quem podem confiar.

13 incidentes suspeitos, de Lemony Snicket (Tradução de André Czarnobai)
A peculiar cidade de Manchado-pelo-Mar é palco de muitos eventos estranhos e é lá que o jovem Lemony Snicket — famoso solucionador de mistérios — tenta resolver seu primeiro grande caso, relatado em detalhes na série Só Perguntas Erradas. Mas os mistérios se sucedem, e o detetive mirim agora terá de descobrir por que quadros caem sozinhos das paredes, quem roubaria um tritão amarantino, como é possível que um fantasma passeie pelo cais à meia-noite e quem faz parte da famigerada Gangue do Tijolão, entre vários outros enigmas. Lemony Snicket precisará juntar pistas e interrogar testemunhas para desvendar cada caso. Os leitores se tornam membros da organização secreta de Snicket e também participam da investigação: o desafio será resolver os casos antes de ler as soluções, reveladas no final do livro.

Quente e frio

Por Leandro Sarmatz

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Ainda não tive a sorte de ler Graça infinita, o enorme catatau (todavia assombrosamente divertido, dizem) que influenciou uma penca de escritores contemporâneos. De Foster Wallace li apenas os contos e alguns ensaios, portanto a visão que tenho de seu trabalho é penosamente parcial, uma vez que ainda não mergulhei no seu grande romance. Admiro tanto sua ficção curta quanto a produção ficcional, inteligente, divertida, irônica e formalmente brilhante. Todavia, chamar DFW de escritor engenhoso é baratear demais a expressão, pois a primeira impressão que o virtuosismo causa (seja na literatura, seja no cabeludo solando quinze minutos em sua guitarra) é de que onde há “técnica” demais falta “alma”. Salpique as duas palavras com todas as aspas disponíveis em seu teclado. Terror, né?

Claro que há escritores (e guitarristas e pintores e cineastas e dançarinos) que se movem justamente no terreno da técnica extrema. Mas estes, em sua grande maioria, costumam provocar bocejos na maioria e entusiasmar apenas alguns acólitos. Porque a técnica, por mais difícil que seja dominá-la, é apenas isso: uma forma, uma gramática, um procedimento. Há qualquer coisa de impostura quando nos deparamos com um artista que é só técnica. Sem incorrer (novamente) na chorumela da “alma”, falta ao mero virtuose um não sei o quê de próximo de nós, seus irmãos humanos, de mais cálido. Sim: trata-se de temperatura. Parece haver uma frieza inerente em qualquer demonstração extrema de perícia. Escritores “quentes” costumam ser menos atentos à técnica, escritores “frios” são os calculistas da página em branco. Esse é mais ou menos um tópico recorrente, comum, clássico.

Será? Em muitos casos, sim, porque a técnica serve para talvez escamotear alguns traços indesejáveis ou driblar até mesmo algum tipo de dificuldade. Mas é possível ter a técnica e ser quente, e para isso há uma longa fila de autores nos esperando, como Joyce (até Ulysses; depois ele torrou o coco), Beckett, Bellow e Bernhard que dominam perfeitamente os instrumentos de sua arte (o ritmo e os silêncios, a construção de vozes e a música interior da página em prosa, respectivamente) e mesmo assim continuam carne, sangue e (perdão) fezes. Atingiram o máximo com sua arte, mas estão do nosso lado, ainda que fazendo fricassê das nossas boas intenções, visão de mundo etc.

Tenho a impressão que David Foster Wallace fazia parte dessa linhagem.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Em tradução

Por Caetano Galindo


(Foto por Arvin-Rahimzadeh)

Dia desses um aluno veio me perguntar se era eu que escolhia as imagens que ilustram esses posts. Ele estava encantado com elas…

Isso vive me acontecendo. Neguinho me elogiar por coisas que eu não faço. Tipo a escolha de ‘A Balada do Cristo Ridentor’ pra traduzir ‘The Ballad of the Joking Jesus’, no Ulysses.

Porque a ideia foi do Britto! Eu queria ‘A Balada do Jesus Jacu’!

Ehehe

Então… porque não sou eu quem escolhe as imagens não… é a grande Dianushka Passýnskaia, responsável por tudo que há de bom na Companhia das Redes Sociais das Letras. Eu sou só grande fã.

Até que tem umas semanas ela me mandou uma imagem que tinha achado, e disse que estava esperando a ocasião certa pra usar. E era uma imagem tão infinitejesticamente perfeita (Não. A gente ainda não fechou o título. Tá?) que eu botei a cacholinha pra funcionar…

E acaba que na verdade ela (essa que vocês estão vendo aí em cima) se encaixava perfeitamente com umas coisas que eu estou pensando e anotando no papel de parede do computador (que é onde eu anoto o que não quero perder de vista…).

Que é que eu meio que tenho um fascínio pela coisa da obra inacabada. E que existem infinitos jeitos de se deixar algo incompleto. (Se um dia eu escrever mesmo esse livro que eu sonho, ele vai se chamar formas de inacabar ou, melhor ainda, contra a perfeição.)

Infinite Jest, apesar de ter sido entregue, editado e publicado com aprovação do autor (ao contrário do Pale King, que ele deixou sem terminar) é uma das obras que me interessam. Porque o livro encontrou uma curiosa forma de se estruturar de uma maneira que o mantivesse perenemente aberto…

Como é que é?

É isso mesmo.

Ao invés de uma estrutura simétrica e linear, como a da maioria dos livros, ele optou, segundo declarações que ele mesmo deu, por uma estrutura inspirada num triângulo de Sierpinski. Um fractal.

E que é que isso tem de interessante?

Bom. Descrevamos.

Fazer um triângulo de Sierpisnki é bico. Você desenha um triângulo equilátero com um vértice apontando pra cima. Aí inscreve nesse triângulo um outro, com o vértice apontando pra baixo. Pronto. Você acabou de criar mais três triângulos onde pode repetir o processo, sempre criando mais três, onde pode repetir o processo etc…

O princípio do fractal é esse, né? Uma estutura em que cada pequena parte é reprodução estrutural do todo. Uma estrutura que se repete em ponto cada vez menor.

Mas o divertido desse fractal em questão é que:

1. Ele cresce para dentro, e não para frente.

2. Ele cresce sempre com um grande buraco no meio.

3. Ele (decorrência de “1”) descreve um espaço e não um tempo.

4. Ele é potencialmente inacabável, porque cada etapa sempre cria as condições para uma próxima iteração da regra… Ele vai ter que ser interrompido ao invés de terminado.

E todas essas coisas (acredite em mim) são extremamente relevantes para como se dá a condução da narrativa em Infinite Jest.

Um livro que não segue em linha reta, que se perde em meandros de meandros, que vive repetindo temas e histórias, uns dentro dos outros, que cresce em torno de uma ausência (os eventos que acontecem entre a última página e a primeira)…

É uma coisa que as pessoas tendem a considerar meramente folclórica. Mas esse modelo de estruturar o caos de uma nova maneira pode muito bem ter sido uma das maiores contribuições de Wallace à ficção recente…

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução deInfinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo


(Páginas?)

Então…

Esses textos são escritos às vezes com certa antecedência. Pra facilitar o trabalho de organização da Diana, me digo eu. Mas na verdade pra caber na agenda e pra colmatar buracos de dias como este (13/05/13, 16h23), em que a boa e velha burrice dígito-encefálica, fria, oleosa e invencível, parece ter me derrubado desde cedo…

Por que dizer isso agora. Porque você vai ler este texto aqui dia 30 de maio. Nesse dia, se tudo tiver dado certo, eu devo ter terminado ou estar terminando a tradução. Depende, claro, de coisas que eu nem imagino, e de várias que eu já antevejo e tal… mas, se não estiver pronta, nas condições normais de temperatura e pressão deve estar pra estar. Pronta.

Então acabou, Caetano! Yay!

Nada.

Eis o que agora se assucede.

* * * * *

No que é uma explicação meio que de processo editorial (imagino que quem venha aqui curta essas coisas) e meio que dos meus métodos (que no entanto não destoam muito dos métodos dos colegas com quem já conversei e tal).

Essa tradução, que chegou até a página 981, na minha cabeça é meio que uma primeira etapa, trabalhosa, lenta e dolorosamente necessária. Uma etapa cujo objetivo é produzir um texto completo em português, que me permita agora trabalhar de verdade, naquilo que a gente convenciona chamar de revisão.

Essa revisão, pra mim, é feita idealmente sem maiores contatos com o original. (A primeira versão me possibilita justamente largar mão do original.) É nela que eu vou realmente me concentrar em empetecar o texto, afinar detalhes finos finais, acertar aquelas correspondências diagonais (termos repetidos, leitmotive, chaves espalhadas pelo texto [já falei disso aqui?]) que são às vezes centrais para os romances mais amarradinhos, uniformizar certas decisões (desde Mr. fulano vs. Sr. Fulano até tipo o nome de uma organização importante que eu posso ter traduzido de duas [três!] maneiras diferentes) e tal.

Quanto mais eu fui rigoroso na primeira passada, sem deixar grandes coisas em aberto (eu não costumo deixar de propor soluções na primeira versão), sem inventar distâncias demasiadas, mais eu posso, na segunda, me sentir à vontade para finalmente trabalhar sobre o texto como o texto final, em português, que eu quero entregar ao leitor (ao preparador/revisores/editor, na verdade).

É impossível ter a visão geral do livro na primeira passada, mesmo no caso de um livro que eu já li e reli, como esse. Traduzir é definitivamente a leitura mais funda de um livro e, na melhor das hipóteses, você só traduz um livro deste tamanho uma vez! Logo, aquela primeira passada de certa forma foi também uma primeira leitura.

Você traduz no fio dessa leitura. Acompanhando essa velocidade.

Eu, ainda, traduzo no ritmo das frestas da vida universitária. Passo uma semana sem mexer no trabalho etc. Ainda, neste caso, teve luto, e um período de quase três meses (!) de distância da tradução.

Agora não.

Agora seremos eu e o texto.

Numa leitura bem mais veloz (já está tudo digitado, afinal!), bem mais cursiva, bem mais abrangente, bem, mas BEM mais divertida e gostosa e, por que não, autoral.

Até aqui eu estava traduzindo Infinite Jest.

Agora é que eu vou começar a escrever Infinda Graça.

Como diria a Fabienne: l’aventure commence….

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para o 2° semestre de 2013. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

(767 páginas)

Trechinho?

Um pedaço da saga de Don G., editado (desculpa pelos palavrões), e sempre com aquela ressalva de que se trata de versão beta, que ainda deve mudar bastante antes de aparecer entre-capas. Vai lá.

* * * * *

“Ele disse para Gately imaginar só por um segundo que estava segurando uma caixa de Mistura para Bolos Betty Crocker, que representava a AA de Boston. A caixa vinha com instruções na lateral que qualquer criancinha de oito anos conseguia ler. Gene M. disse que Gately só precisava era se dar uma porra de uma folga uma vez na vida e descansar e relaxar e calar a merda dessa boca e só seguir as instruções na lateral da bosta da caixa. E não fazia um pentelhésimo de diferença se Gately acreditava que um bolo surgiria dali, ou se entendia tipo a merda da química de como é que ia surgir um bolo dali: se ele só seguisse o caralho da porra das instruções, e tivesse o bom senso de pedir ajuda a uns confeiteiros um pouquinho mais experientes para não foder com as instruções caso ele desse algum jeito de se confundir, mas basicamente a questão era que se ele só seguisse as instruções infantiloides, ia surgir um bolo dali. Ele ia ficar com o bolo. A única coisa que Gately sabia de bolos era que a cobertura era a melhor parte, e pessoalmente ele achava que Eugenio Martines era um filho de uma puta, se-achão e metido — fora que ele sempre desconfiou tanto de orientais quanto de cucarachos, e Gene M. dava um jeito de parecer as duas coisas — mas ele não zarpou da Casa e nem fez alguma coisa que pudesse dar numa Expulsão, e foi às reuniões toda noite e disse mais ou menos a verdade, e aceitou a sugestão de entrar num Grupo. Ele não tinha nada no que se referia a um conceito-de-Deus, e naquele momento talvez até menos que nada em termos de interesse por aquilo tudo; ele tratava a oração como a regulagem da temperatura de um forno segundo as instruções da caixa. Pensar naquilo como conversar com o teto era de alguma maneira melhor que imaginar falar com Nada. E ele achava constrangedor se ajoelhar de cueca, e como os outros caras do quarto ele sempre fingia que os tênis estavam lá bem embaixão da cama e que ele tinha que ficar ali um tempo para achar, quando rezava, mas rezava, e implorava ao teto e agradecia ao teto, e depois de talvez cinco meses Gately assim do meio do nada percebeu que vários dias tinham passado desde a última vez em que ele pensou em Demerol ou Talwin ou até em maconha. Ele não tinha meramente atravessado esses últimos dias — as Substâncias nem lhe ocorreram. I.e. o Desejo e a Compulsão tinham sido Removidos. Mais semanas passaram e ele ainda não sentia nada como a velha necessidade de se chapar. Ele estava, de certa maneira, Livre. Era a primeira vez em que ele se via fora desse tipo de jaula mental desde que tinha sei lá dez anos. Ele não conseguia acreditar. Ele não tinha a mais remota sombra de uma porra de uma ideia de como é que essa coisa funcionava, essa coisa que estava funcionando. Isso deixava ele doido. Com coisa de sete meses, na reuniãozinha de Iniciantes de domingo, ele chegou a ponto de rachar um dos tampos de mesa de imitação de madeira com a cabeça.

“Isso foi meses atrás. Gately normalmente não dá mais muita bola para entender ou não. Ele faz a coisa de joelho-e-teto duas vezes por dia, e diz a verdade aos residentes da Ennet House, e tenta ajudar alguns deles se eles vêm até ele querendo ajuda. E quando Francis Furibundo G. e os Bandeiras Brancas lhe ofereceram, no domingo de setembro que marcava o seu primeiro ano de sobriedade, um bolo impecavelmente assado e pesadamente coberturado, com uma velinha em cima, Don Gately chorou na frente de não-parentes pela primeira vez na vida. Ele hoje nega que tenha chegado mesmo a chorar, dizendo alguma coisa sobre a fumaça da vela nos olhos e tal. Mas chorou.”

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

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