david grossman

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Por Luiz Schwarcz

Conheci David Grossman na Flip de 2005. Sua mesa com Michael Ondaatje foi um dos momentos mais memoráveis da Festa de Paraty, desde a sua criação. Sua mulher, Michal, chegou ao Brasil alguns dias depois dele. Ficou em Israel para assistir à cerimônia na qual o filho Uri seria promovido a tanquista do exército israelense. David e eu logo nos tornamos amigos, e ele comentou como era difícil para os dois, militantes pacifistas, aceitar que o filho desejasse esse tipo de posição no exército. No entanto, reconhecendo a importância do evento para o filho, Michal atrasara sua chegada ao Brasil.

Em Paraty, Grossman me disse que, para escrever seu novo romance, estava andando a pé por quase todo Israel. Na ocasião, não me contou mais nada sobre a trama do livro. Tratava-se de A mulher foge. Nele, a personagem principal, Orah, caminha por Israel inteiro, só para não estar presente quando os emissários do exército viessem bater à sua porta anunciando a morte de seu filho, um soldado lutando na guerra.

Um ano e um mês depois da visita de David ao Brasil, no dia 16 de agosto de 2006, nos últimos dias do conflito no Líbano, ele e sua mulher foram avisados da morte de Uri, que teve o tanque atingido por um míssil.

Meu pai faleceu no mesmo ano, em outubro, assim como a irmã dele, que vivia em Israel. No início de 2007 fui a Tel Aviv para a cerimônia de inauguração do túmulo da minha tia, onde pedi que constasse também o nome de meu pai. De lá tomei um táxi até Jerusalém, para encontrar com David. Almoçamos num restaurante simples, próximo ao luxuoso King David. Falamos um pouco sobre a morte de seu filho e de meu pai, e o silêncio, pouco comum em nossos encontros, acabou sendo quase um conforto para os dois; a única forma de compartilharmos nossas tristezas.

Depois disso, em 2009, Grossman veio ao Brasil para lançar seu livro, no qual eu depositava enorme expectativa. É um romance excepcional, dos que mais me orgulho de haver publicado na minha vida de editor. Havia custado caro para a editora, já que a agente literária do autor acreditava também que a força do livro se refletiria num resultado comercial elevado. Aqui no Brasil o livro teve boa acolhida, foi publicado com garra por nós, mas não teve o sucesso comercial atingido nos Estados Unidos e na Alemanha; países nos quais A mulher foge (o título americano é diverso do nosso — Until the end of the land) tem sido saudado como uma obra-prima da literatura contemporânea mundial.

Durante a turnê de lançamento do livro no Brasil ficamos muito juntos, David e eu, e nossa amizade se solidificou. Ao nos despedirmos, eu já sabia que o livro dificilmente se transformaria num sucesso comercial por aqui. David intuía o mesmo, mas nenhum dos dois comentou o assunto. Sentíamos saudades antecipadas de um convívio que, sabíamos, não teríamos novamente; ao menos tão cedo. Ouvi de David algumas das frases mais importantes que jamais escutei de um autor. Gostaria de contar uma delas, com alegria. Depois do último abraço, tomando um suco no seu hotel em São Paulo, David me disse:

— Luiz, o que mais lamento é você não viver em Israel. Queria tê-lo por perto.

Desde então, passei muito tempo sem conviver com David, mas acompanhei com uma mistura de orgulho e vergonha o sucesso do livro no exterior.

Por isso foi tão importante para mim correr em Frankfurt e encontrá-lo; sentar-me com ele na mesa do famoso jantar da Hanser Verlag. E assim foi. Esbaforido, cheguei com a festa começada e o tradicional discurso do editor alemão — em pé sobre uma cadeira e sem sapatos — já em andamento. Encontrei David afastado dos convidados, ao lado de sua editora holandesa, e me aproximei. Esperamos o discurso acabar, contendo a vontade do abraço. Depois de nos abraçarmos longamente, sentamos frente a frente, aguardamos Michal, cujo avião acabara de pousar em Frankfurt, e, logo que ela chegou, relembramos  em detalhes a última visita de David ao Brasil, na qual sua esposa não estivera presente, aproveitando este pretexto para reviver uma semana especial para os dois.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Freedom

Por Luiz Schwarcz

Cerulean warbler, o pássaro estampado na capa de Freedom.

Bem, para os que querem saber como me virei com os encontros simultâneos em Frankfurt, sobre os quais comentei no meu último post, a resposta é simples. Um luxo total: aluguei um carro com motorista, tive que pagar por uma taxa mínima de duas horas, e utilizei o transporte por 15 minutos. Saí correndo do encontro com a minha amiga (e agente da William Morris) Raffa, em que falamos mais sobre a filhinha dela do que de qualquer livro novo. O que mais me interessava nessa agência era uma grande reportagem sobre o oceano Atlântico, escrita por Simon Winchester, que já havíamos comprado nas vésperas da Feira. Terminado o encontro, lá fui eu, acompanhado pela Ana Paula*, devidamente choferados, para o coquetel em homenagem a Jonathan Franzen.

Por conta do sucesso de Freedom nos Estados Unidos, e por causa do folclore do lançamento na Inglaterra — onde milhares de erros tipográficos, motivados pela utilização de um arquivo errado, fizeram com que a edição fosse praticamente tirada do mercado, e ainda mais pelo fato do autor ter tido seus óculos arrancados do rosto em plena noite de autógrafos em Londres por dois gaiatos que deixaram um pedido de resgate (dos óculos!) de 100.000 dólares, tendo sido perseguidos por helicópteros da polícia e presos —, Franzen era das grandes estrelas da festa.

No carro, super ocupado com meus afazeres relativos à orquestra sinfônica de São Paulo, esqueci de avisar a Ana Paula que, na noite anterior, num jantar da editora de Franzen, ouvi de seu editor americano, Jonathan Galassi, o seguinte: “Luiz, ainda não convide Franzen para ir ao Brasil. Ele está super requisitado aqui em Frankfurt e vai negar. Em dezembro, quando você estiver em Nova York, faço um jantar para vocês e aí o convidamos. Eu até, quem sabe, gostaria de ir junto”.

Ao chegar no bar, levemente atrasados, eu ainda tinha o celular colado à orelha, quando vi a Ana dirigir-se ao autor e, sem mais delongas, dizer: “Nice to meet you, mister Franzen, we are your brazilian publishers and we want to invite you, once more, to come to Brazil, for the launching of Freedom”.

Ela não poderia ter sido mais direta. Só tive tempo de desligar o telefone, colocar uma mão na cabeça e replicar: “But only if you want to, don’t worry, we can speak about it later…bla bla bla”.

Franzen não se importou com a abordagem direta da Ana, e, sorrindo, comentou que mais duas pessoas da editora já o haviam convidado: a editora Maria Emília, que chegara antes de nós, e que também não fora alertada por mim, e a Joana Fernandes, responsável pelo marketing, e que em Nova York, duas semanas antes, havia se postado numa fila de autógrafos só para poder dizer: “Mister Franzen, I work at your Brazilian publishing house, please come to Brazil!”. Deu certo, elas conseguiram convencer o jovem e badalado autor, e quem sabe Liberdade será lançado por aqui em grande estilo. Espero…

Fiquei apenas dez minutos na festa de lançamento de Freedom. Como escrevi na semana passada, tinha que chegar ao jantar da editora Hanser cedo, para sentar-me com David Grossman. Antes disso, fiquei outros 5 minutos no coquetel da editora Shangai 99; tempo suficiente para pedir desculpas, marcar outro encontro e seguir para a sala ao lado, a fim de grudar no meu querido amigo israelense. O Frankfurter Hof possui um pavilhão só com salas para recepções, que comporta todos esses eventos simultâneos.

O jantar foi o que de mais bacana me aconteceu em Frankfurt neste ano. Além dele, algumas contratações importantes e a leitura confidencial das primeiras cem páginas das memórias de Salman Rushdie sobre o período da Fatwa tomaram o resto dos meus dias. Sobre o novo livro de Rushdie, o jantar e minha amizade com Grossman, pretendo escrever mais, logo mais.

*Ana Paula Hisayama trabalha na Companhia das Letras e é responsável por negociar os direitos de obras publicadas no exterior.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Uma noite em Frankfurt


Corredor do pavilhão de editoras internacionais (Foto por: Frankfurter Buchmesse/ Alexander Heimann)

Divido com vocês como será minha noite de hoje, quinta–feira, 7 de outubro de 2010, em Frankfurt:

19h00: Coquetel com Rafaella de Angelis, agente da William Morris, de quem compramos os direitos de autores como Alice Munro, Simon Winchester, Bill Clegg e Suketu Mehta, entre outros.
Rafaella é uma velha amiga, adora o Brasil. Vou encontrá-la no Hessischer Hof, hotel que fica em frente ao Pavilhão da Feira.

19h30: Coquetel da Shangai 99, uma das editoras literárias mais importantes da China. O editor é um extraordinário mecenas das artes, e é cego. Tenho um encontro com ele, em nosso estande, no dia seguinte. Coisa para não esquecer por toda a vida. O coquetel será no hotel Frankfurter Hof, onde acontece o maior agito social da Feira. Antigamente eu me hospedava neste hotel, mas decidi trocar pelo Hessischer Hof, um pouco menor, mas com menos hype social. Nos saguões destes dois hotéis, os editores se encontram antes da Feira começar, em reuniões disputadíssimas. A ideia é saber antes dos outros o que há para comprar. Caí fora dessa disputa maluca e este ano chego a Frankfurt um dia depois do evento começar. A terça-feira nos saguões desses dois hotéis é o que há de mais deprimente na semana. Editores se amontoando nas salas e se degladiando por mesas. Cheiro de cigarro, muito barulho. É comum esbarrar com alguma estrela literária hospedada nos melhores endereços da cidade.

Nunca me esquecerei de quando dividi o elevador do Frankfurter Hof, onde cabem no máximo cinco pessoas, com Umberto Eco e Tom Wolfe. O primeiro com sua barba e barriga inconfundíveis, e o segundo de terno bege, chapéu… Os dois conseguiram se ignorar. Eu não sabia bem para onde olhava, se olhava. Mirava o chão e torcia o olhar para os lados, alternadamente, disfarçando.

Em outra ocasião segui meu falecido amigo, o escritor e editor Severo Sarduy, para um coquetel em homenagem a Patricia Highsmith nesse mesmo hotel. Ao chegar no enorme salão, vi nossa autora favorita andando sozinha de um lado para o outro, sem ninguém por perto. Aproximei-me e me apresentei como seu editor brasileiro. Levei um chega pra lá enfático, com direito a braços no ar, resmungos e xingamentos. Não foi difícil entender por que tanta solidão cercava a grande autora de romances policiais.

19h30: Nesse mesmo horário tenho que estar no restaurante Orfeo’s Erben para um coquetel em homenagem a Jonathan Franzen, que acaba de publicar Freedom, o romance de maior repercussão nos EUA nas últimas décadas. Estou lendo o livro e adorando. Quero convidar Franzen mais uma vez para vir ao Brasil, até agora ele sempre recusou. Coquetel obrigatório.

19h30: Coquetel da editora Seuil, uma das mais prestigiosas da França. A festa sempre ocorre na suíte do publisher da editora. Não poderei comparecer, mas a Lili (editora) e a Ana (responsável pelo departamento de direitos estrangeiros da Companhia) estarão lá.

20h00: Jantar oferecido por Andrew Wylie, em homenagem a Alaa Al Aswany, autor egípcio de quem publicamos O edifício Yacubian e vamos publicar Friendly fire. Andrew é um dos agentes literários mais importantes da atualidade, e que representa vários de nossos autores. Avisei que darei um pulo. Local: hotel Hessischer Hof. Talvez não consiga.

20h00: Jantar da Hanser Verlag em homenagem a seus autores presentes na Feira. Este é o evento social mais disputado da feira. Para o jantar, tradicionalíssimo, são convidados poucos ou apenas um editor de cada país. O seating era sempre delicado para mim. Bastante tímido nesses momentos, apesar de conhecer a todos e ser amigo próximo de vários editores presentes, sempre me torturo pensando “com quem vou sentar, será que vão me convidar?”. Fiquei mais tranquilo quando há alguns anos formamos um grupo fechado que passou a sentar-se sempre junto, com Carol Janeway da Knopf, Roberto Calasso da Adelphi, e Ravi Mirchandani da Atlantic UK. Ano passado, no entanto, o Calasso, que era editado por Carol nos Estados Unidos, mudou de editora. E, claro, mudou de mesa no tal jantar. Fiquei dividido: seguia com Roberto, ou ficava com Carol e Ravi? Fiquei. Este ano o problema já está resolvido: um dos homenageados da noite será David Grossman, o autor israelense que também receberá na Feira o importante prêmio da Paz, concedido todo ano pelos livreiros alemães. Como não teremos outra oportunidade de botar a conversa em dia, combinamos que sentaríamos na mesma mesa.

22h00: Encontro com Patrizia da Shangai 99 após os respectivos jantares. Não havia horário comum em nossas agendas para falarmos de livros a não ser este. Terei que enfrentar o maldito saguão do Frankfurter Hof, antes de ir para o meu hotel. Lá terei comigo planos de livros e trechos de romances, que os agentes esperarão que eu leia para discutir no dia seguinte — o que é pouco provável que farei.

Essa será a minha noite. Que passe logo.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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