Design

As entrelinhas merecem respeito

Por Luiz Schwarcz

A Typographic Anatomy Lesson

A editora Civilização Brasileira foi em grande parte a responsável por criar uma linguagem gráfica editorial de alto nível no Brasil. Eugênio Hirsch, diretor de arte e autor de capas maravilhosas dessa editora, em geral tipográficas, é hoje referência para qualquer história do design gráfico do nosso país. Mas no início dos anos 80, quando comecei a trabalhar como editor na Brasiliense, o trabalho visual da Civilização Brasileira não tinha o devido reconhecimento. Talvez o papel e o acabamento utilizados nas capas não favorecessem um envelhecimento adequado para os livros, e acabavam prejudicando a avaliação do design em si. Com exceção da Nova Fronteira e outras poucas editoras, naquela época o aspecto gráfico dos livros era negligenciado entre nós. Na Brasiliense começamos também a cuidar disso, convidando artistas jovens e designers que despontavam para criar um aspecto visual arejado, condizente com a linha editorial da casa.

É por isso que não posso concordar quando se comenta sobre o pioneirismo da Companhia das Letras no design dos livros no Brasil. Acho que apenas em uns poucos detalhes trouxemos algo de novo, quase original.

Lembro muito bem que quando passei a comandar a produção editorial na Brasiliense havia um mandamento a seguir: “Nos títulos dos livros deve-se utilizar sempre letras grandes e tipologia bold”. Um livro com título em corpo menor que trinta e seis era impublicável; fracasso certeiro. No começo da Companhia buscamos fugir desse tipo de paradigma. Toda a série de livros de não ficção, a partir de Rumo à estação Finlândia, apresentava uma tipologia discreta, inserida numa etiqueta que dava o devido destaque e legibilidade ao título. Esse era um pequeno detalhe, através do qual buscávamos diferenciar a jovem editora e marcar, com delicadeza, a nova proposta editorial que então surgia.

Além disto, eu havia aprendido com o Caio Graco, e observando a produção estrangeira, que o melhor papel para a leitura não era o mais branco; ao contrário, um contraste menos acentuado entre as letras e o papel favorece a atenção do leitor e cansa menos a vista. Mas o papel disponível no Brasil era o mais alvo possível, e a crença de que “quanto mais branco melhor” era ainda muito comum entre nós.

Passei a insistir com a Companhia Suzano de Papel e Celulose para que produzissem um papel com as características adequadas. Curiosamente, a ligação da minha família com a família Feffer, proprietária do grupo Suzano, é bem antiga. Remonta à chegada de meu avô ao Brasil, quando conheceu Leon Feffer, o fundador da Suzano, e ao começo da Cromocart Artes Gráficas: a empresa familiar que eu deveria ter herdado.

Giuseppe Weiss era o nome do meu avô, e em homenagem a ele Leon Feffer quis batizar um papel superalvo — criado a pedido do super dinâmico Giuseppe, para a confecção de cartões de visita e outros produtos da Cromocart — de Super Weiss. Meu avô “supermodesto” não aceitou. O papel foi lançado com o nome de Super White.

Anos depois, a mesma Suzano desenvolveria o papel Capatexto (que depois seria batizado de Pólen) , menos branco, em grande parte por incentivo nosso. Meu avô ainda estava vivo naquela época, e a Companhia das Letras ficava sediada nos fundos da sua gráfica. O papel foi testado no primeiro volume das memórias de Elias Canetti, A língua absolvida publicado em 1987, e oficialmente lançado um mês depois em Os sentidos da paixão. Tratava-se da nossa primeira publicação baseada nas concorridas séries de conferências organizadas por Adauto Novaes para a Funarte. A capa do livro, feita por Moema Cavalcanti, trazia um corte na superfície branca e uma orelha enorme pintada de vermelho. O corte refletia na capa a exuberância cromática aplicada na orelha. Combinava perfeitamente com o papel mais amarelado que vinha por dentro.

Tipologia discreta nas capas, papel amarelado no interior do livro e um cuidado com os espaços em branco, esses foram os detalhes que fizeram uma grande diferença no visual da editora, e no conforto do leitor.

Existe um documentário bem interessante sobre o assunto — Helvetica, de Gary Hustwit — que mostra como o que caracteriza uma tipologia é exatamente o espaço branco que ela cria entre as letras. Pensando no desenho interno de um livro, eu diria que o mais importante é o espaço onde não há nada escrito. O segredo para a experiência prazerosa da leitura está na entrelinha e nas margens em branco, como se esse fosse o espaço para a imaginação, que estaria em constante diálogo com o texto.

Lembro que no período que antecedeu a inauguração da Companhia das Letras, discutimos, num grupo de amigos artistas, o desenho das capas propostas por Ettore Bottini, enviadas bem antes do primeiro livro ser publicado. Estavam presentes João Baptista da Costa Aguiar, Moema Cavalcanti, Takashi Fukushima, Newton Mesquita e Carlos Matuck. A diagramação interna dos títulos foi desenhada por Silvia Massaro e revista várias vezes através dos anos, primeiro por Helio de Almeida, que também contribuiu muito para a identidade visual da editora, e posteriormente por Raul Loureiro e Claudia Warrak. Revisar constantemente nossos padrões é o que temos feito.

E sempre que resolvemos rever o visual dos nossos livros sinto o peso do tempo pousando em meus ombros, e tenho a sensação de que a mudança é mais do que necessária. Acabo sempre querendo mais branco, mais vazio.

O trabalho dos capistas citados neste post, e de tantos outros que contribuíram ao longo desses 25 anos de Companhia das Letras, impulsionou o nível de qualidade do design brasileiro. O conjunto da obra de cada um deles é importantíssimo. Não concordo, porém, quando atribuem pioneirismo ao trabalho da editora. Acho que a contribuição dos capistas por nós escolhidos é  que merece todos os elogios, mantendo-se também o devido reconhecimento às editoras que vieram antes de nós. Fico feliz apenas com o crédito ao uso de um tamanho diminuto dos títulos, ao novo amarelo das páginas e ao respeito às entrelinhas.

O bom, talvez, é que continuamos dispostos a mudar. Imagino que logo mais olharemos para os nossos padrões gráficos atuais com o mesmo sentimento crítico, querendo melhorar. O tempo passa, e com ele a exigência aumenta, os critérios ficam mais claros.

É sobre isso que pretendo conversar com meus jovens ouvintes em Barcelona, para onde vou em vinte dias. Pedirei que prestem atenção nas entrelinhas e no espaço branco das páginas. Vou sugerir que, como editores, favoreçam as nuances e que sejam generosos com os espaços vazios. Que deixem o contraste brotar na mente, e não vibrar no olhar do leitor.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

60,8 sextilhões de capas

Por Elisa Braga

O lançamento de livro mais bonito que já vi foi em 1988 na Livraria Cultura, no mesmo espaço onde hoje funciona a loja Companhia das Letras por Livraria Cultura. Na ocasião, ao invés do autor, a capa, ou melhor, as capas foram as estrelas da festa. O livro era Os escritores – As históricas entrevistas da Paris Review vol. 1, e cada um dos 3 mil exemplares da primeira edição foi pintado à mão pelos artistas plásticos Marco Mariutti e Clovis França, sobre projeto gráfico de João Baptista da Costa Aguiar. Foram quinze dias de produção, e no final, com o prazo ficando apertado, lembro de o Luiz e eu irmos ajudar os artistas a colocar as capas para secar em estantes de arame na gráfica do avô do Luiz. A Júlia Schwarcz, cronista deste blog, na época tinha 7 anos e também pintou uma capa, que depois foi comprada no lançamento, na frente dela, que ficou vigiando.

O Luiz pediu ao Pedro Herz, da Livraria Cultura, para forrar todas as prateleiras da loja com os livros pintados artesanalmente. Para todos os lados que olhássemos só se encontrava o mesmo título, e assim ficou “menos difícil” de os leitores escolherem o seu exemplar.

Este projeto realça o caráter de unicidade do livro, a ideia de que o livro é formado pela leitura, que é singular a cada leitor.

No ano passado, quando soube que iríamos fazer uma nova edição das entrevistas da Paris Review,  pensei em reeditar a ideia de capas únicas, mas agora utilizando as novas tecnologias gráficas que não param de aparecer. Chamamos a artista gráfica Flavia Castanheira e a gráfica R. R. Donnelley para juntos pensarmos na possibilidade de usar a impressão digital com dados variáveis (método que utiliza impressão digital e um software especial, permitindo personalizar cada parte de um projeto — é a tecnologia utilizada para imprimir o nome e o endereço do destinatário em correspondências, por exemplo). Deu certo: graças ao software que faz as diversas combinações, podemos ter 60,8 sextilhões de capas com variações nas cores das tarjas, na posição dos nomes dos entrevistados e no logo da editora.

Começamos com 3 mil!

[Veja mais fotos da nova edição e da edição original]

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Elisa Braga é diretora de produção e trabalha na Companhia das Letras desde 1987.