drauzio varella

Semana cinquenta e oito

Os lançamentos da semana são:

Idade Média, idade dos homens, de Georges Duby (Tradução de Jônatas Batista Neto)
O livro reúne diversos textos do grande historiador francês Georges Duby, tratando em sua maior parte da questão do amor na Idade Média. Permitindo uma visão de conjunto de seu pensamento, este trabalho é quase um “caderno de anotações”, no qual Duby se permitiu, de forma menos rígida e mais ensaística, interrogar-se sobre aspectos fundamentais da chamada “sociedade feudal”. Grande parte dos textos tem, como tema, o amor e o casamento, e é por isso que se fala de uma “Idade dos Homens”. Além de estudar o casamento monogâmico a partir do século XII, Duby examina as estruturas familiares, a vida da aristocracia, o amor cortês e a questão do sofrimento físico na Idade Média.

Orgulho e preconceito, de Jane Austen (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Na Inglaterra do final do século XVIII, as possibilidades de ascensão social eram limitadas para uma mulher sem dote. Elizabeth Bennet, de vinte anos, uma das cinco filhas de um espirituoso mas imprudente senhor, no entanto, é um novo tipo de heroína, que não precisará de estereótipos femininos para conquistar o nobre Fitzwilliam Darcy e defender suas posições com perfeita lucidez de uma filósofa liberal da província. Lizzy é uma espécie de Cinderela esclarecida, iluminista, protofeminista. Neste livro, Jane Austen faz também uma crítica à futilidade das mulheres na voz dessa admirável heroína — recompensada, ao final, com uma felicidade que não lhe parecia possível na classe em que nasceu. A edição conta com prefácio e notas de Vivien Jones, e introdução de Tony Tanner.

Primeiros socorros, de Drauzio Varella e Carlos Jardim (Ilustrações de Caeto)
Quando alguém se acidente ao seu lado, você: a) fica desesperado; b) faz um pouco de tudo o que passa pela sua cabeça; c) procura atendimento médico; d) nenhuma das anteriores. Em geral, pensamos que prestar os primeiros socorros é coisa de médico, mas isso só é verdade quando desconhecemos o que fazer em casa situação. Mas, como você verá neste manual, essas providências não passam de um conjunto de medidas práticas e bastante simples, ditadas pelo bom senso. São procedimentos que podem e devem ser aprendidos por mulheres, homens e crianças, pois acidentes ocorrem de forma imprevista, esteja quem estiver por perto. Conhecendo os primeiros socorros, sentimos menos medo ao enfrentar a adversidade, e nos tornamos muito mais capazes de cuidar dos outros e de nós mesmos.

Água sim, de Eucanaã Ferraz (Ilustrações de Andrés Sandoval)
Eucanaã Ferraz é um grande poeta, atualmente apaixonado pelos livros para crianças. Depois de Palhaço, macaco, passarinho, com a parceria de Jaguar, escreveu um poema sobre a água, com ilustrações de Andrés Sandoval. A partir de frases extremamente simples, com pequenas mudanças a cada página, Eucanaã serpenteia com a água em todos os seus estados físicos, pelas pedras, árvores, nuvens, passando pelo gelo, pelo sol, pelo rio. As ilustrações de Andrés partiram de um desafio gráfico — o trabalho com a monotipia, uma técnica de impressão explorada a fundo neste livro — e alcançaram uma linguagem totalmente nova e específica. Recheados de texturas que remetem à água, os desenhos acompanham o jogo de experimentação de sensações que existe no texto. Uma verdadeira viagem poética.

Aos pés do Cristo Redentor

Por Luiz Schwarcz

Acompanhar autores estrangeiros em visita ao Brasil já foi assunto aqui várias vezes. Duas semanas atrás tive o prazer de mostrar um pouco do Rio de Janeiro para Ingrid Betancourt. Sou conhecido como um editor paulista, ou paulistano. Meu sotaque não permite confusão. E em vários momentos polêmicos, o local onde nasci — São Paulo e não Rio de Janeiro — contou bastante, para muitos.

No entanto, a verdade é que adoro o Rio de Janeiro, onde tenho grandes amigos, e os eventuais tours que faço com autores em nada me incomodam.

É curioso ver como alguns deles preferem a beleza do Rio de Janeiro à nossa sisudez paulista, e outros não. Susan Sontag, com quem falei durante vários dias sobre o Rio, pedindo desculpas pelo ambiente cinza de São Paulo — onde realizávamos a maior parte dos eventos de promoção dos seus livros —, não achou nenhuma graça em Copacabana, Ipanema, e em tantas paisagens lindas. Ameaçou, como já contei em outro post, mudar-se de mala e cuia, para… São Paulo.

Já para Ingrid eu nem precisei perguntar. Notei em sua expressão o impacto da beleza carioca. Imagino que nada pode ser mais diferente do que os anos de cativeiro na selva e as praias do Rio, ou a vista do Corcovado.

Na rápida convivência que tivemos, ela se mostrou delicada e sensível. Adorou conhecer e conversar com o Presidente Fernando Henrique Cardoso e com escritores como Drauzio Varella e Milton Hatoum. Foi apresentada a Pilar Del Río em minha casa. Eu imaginava, e havia dito às duas, que elas teriam muito em comum. Aconteceu mais do que isto, ficaram amigas íntimas em cinco minutos, e trocaram emails por horas, logo que a festa acabou: a Pilar do quarto das minhas netas, e Ingrid em seu hotel.

Ao chegar no Rio perguntei a ela se gostaria de ir ao Corcovado. A resposta foi imediata, e em poucos minutos estávamos no carro, subindo na direção do Cristo.

Lá Ingrid foi reconhecida por duas meninas colombianas, que pediram para tirar fotos a seu lado. O fotógrafo fui eu, para infortúnio das duas garotas. Mal consigo enquadrar uma foto (como você pode ver na imagem acima), e muitas vezes minha leve dislexia se apresenta logo: na dificuldade de acertar o botão da máquina.

Entre uma foto e outra, tomamos um suco no bar aos pés do Cristo. Lá Ingrid me perguntou se eu acreditava em Deus. Falei a verdade. Ela não se importou.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana dez

Os lançamentos desta semana foram:

Atravessar o fogo, de Lou Reed (Tradução de Christian Schwartz e Caetano W. Galindo)
Por meio das mais de trezentas letras disponíveis nessa edição bilíngue, é possível contemplar o gênio de Lou Reed em suas múltiplas facetas: o cronista do submundo nova-iorquino, o narrador de inegável talento para capturar as vozes das ruas, o fetichista depressivo com tendências suicidas e masoquistas, o amante da literatura e das artes de vanguarda. Um retrato completo da obra de uma das figuras mais polêmicas e influentes da música contemporânea.

Fogo amigo, de A.B. Yehoshua (Tradução de Davy Bogomoletz)
Fogo amigo acompanha sete dias decisivos na vida de um casal israelense de meia-idade. Durante a semana do Hanukah, Daniela parte para uma viagem de cinco dias à Tanzânia, para onde o cunhado, decidido a cortar todos os vínculos com Israel, se mudou após o único filho ter sido morto por fogo amigo. Enquanto isso, o engenheiro Yaári permanece em sua casa, em Tel-Aviv, onde tenta descobrir a origem dos uivos lancinantes emitidos pelo poço de elevadores de um edifício ultramoderno projetado por ele.

O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca
Destaque da nova geração de escritores brasileiros, J.P. Cuenca narra a tórrida e acidentada relação de um jovem executivo de Tóquio com uma garçonete do Leste Europeu. O casal é ameaçado pelo perverso pai do rapaz, um velho poeta que vive com uma boneca erótica e mantém uma rede de voyeurismo. Leia aqui o começo do livro, que faz parte da coleção Amores Expressos.

A casa do Rio Vermelho, de Zélia Gattai
Zélia Gattai e Jorge Amado viveram longos anos num belo casarão no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Casa festiva e cheia de amigos, distante da clausura dos gabinetes e das academias literárias, é ela o centro deste livro. Em A casa do Rio Vermelho, Zélia continua a narrar a saga de sua vida — que se mistura não só com a do marido Jorge Amado, mas com a aventura de toda uma geração de artistas. Sua grande proeza é fazer da literatura não só registro de emoções e de acontecimentos, mas uma maneira de se apropriar do mundo.

A teoria das janelas quebradas, de Drauzio Varella
Seleção de crônicas publicadas na Folha de S.Paulo ao longo de dez anos, A teoria das janelas quebradas traz a voz ponderada, a graça narrativa e a sabedoria sem artifícios de Drauzio Varella. O cardápio é variado, incluindo desde histórias engraçadas de adultério, reflexões sobre o crime, temas atuais de ciência e medicina, até questões sociais, sempre abordadas pelo autor com seu olhar atento para os dramas humanos. Clique aqui para ler uma das crônicas.

Haroun e o mar de histórias, de Salman Rushdie (Tradução de Isa Mara Lando)
Rashid, um contador de histórias profissional, é o próprio “mar de ideias”. Um dia, porém, ele perde o dom da palavra, e com isso perde também seu ganha-pão e toda a alegria de viver. É então que seu filho Haroun descobre que toda história vem de um grande mar de histórias, o que o faz entregar-se à fantástica aventura de ir em busca das palavras. Escapando de muitos perigos, Haroun conseguirá vencer as tenebrosas forças da escuridão e do silêncio.

O beijo de Lamourette, de Robert Darnton (Tradução de Denise Bottmann)
Em quinze ensaios que tratam da história em geral e da história dos meios de comunicação, o historiador norte-americano Robert Darnton mostra como o passado atua no presente e propõe a criação de uma disciplina particular: a história do livro.

A teoria das janelas quebradas

Na próxima semana a Companhia lança o novo livro de Drauzio Varella: A teoria das janelas quebradas, uma seleção de suas crônicas publicadas ao longo de dez anos no jornal Folha de S. Paulo.

A coletânea traz desde histórias engraçadas de adultério, reflexões sobre o crime, temas atuais de ciência e medicina, até questões sociais, sempre abordadas pelo autor com seu olhar atento para os dramas humanos. Abaixo você lê uma das crônicas, publicada em dezembro de 2003.

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Vida de ladrão

Por Drauzio Varella

Vida de ladrão é vida de cão, reconhecem eles mesmos. Infelizmente, não é essa a impressão que os meios de comunicação transmitem ao tornar públicos assaltos audaciosos, tiroteios com a polícia, rebeliões em presídios, sequestros cinematográficos e outras ações mirabolantes.

Embora relatar tais fatos seja fundamental para tomarmos consciência de que a violência urbana é doença epidêmica, a demonização dos bandidos e a divulgação de suas proezas em tom dramático têm o dom paradoxal de exercer fascínio sobre os mais jovens. Na imaginação juvenil, o bandido que atira na polícia, escapa da perseguição e ganha espaço no rádio e nos programas de tv, está mais próximo do herói suburbano que do criminoso desprezível.

Acrescentem-se a essa idealização ingênua as desigualdades sociais e o prestígio que os marginais desfrutam nas comunidades pobres, com seus jeans de grife, tênis importados, correntes de ouro, motos do ano e o harém de namoradas que neles buscam a proteção jamais alcançada em companhia de rapazes estudiosos e trabalhadores, e teremos o caldo de cultura no qual germinará a criminalidade de amanhã.

Nos dias de hoje, negar que o relato detalhado de atos violentos e a publicidade concedida a bandidos sanguinários colaboram para gerar comportamentos semelhantes nas crianças e adolescentes que vivem em situação de risco é fazer vistas grossas a um corpo tão sólido de evidências científicas que apenas os ignorantes e os mal-intencionados ousam contestar.

A descrição do grande assalto, da fuga espetacular e das façanhas do poderoso traficante nunca vem associada às consequências que essas ações provocam na vida de seus protagonistas. A prisão e a morte de marginais na mais tenra idade nunca recebem a ênfase teatral dedicada aos crimes perpetrados por eles.

Tais questões me vieram à mente por causa da última fuga através de um túnel aberto na Penitenciária do Estado, onde realizo um trabalho médico. Nessa tarefa contei com a cooperação de dois detentos no papel de enfermeiros: Zeca, moreno, capaz de impor disciplina na fila de atendimento com ordens curtas e secas emitidas em voz baixa, conheci na própria Penitenciária. O outro, Maurício, portador de aids, quatro filhos, um dos sobreviventes do pavilhão Nove, a maior parte da vida passada na prisão, menos impositivo e mais negociador, conheci há mais de dez anos na Casa de Detenção.

Na primeira segunda-feira após a fuga, quando cheguei à Penitenciária, havia dois novos enfermeiros no lugar deles. Não fiz perguntas até o final da tarde, depois que o último paciente saiu e a porta foi fechada. Então soube que Zeca conseguira escapar e permanecia em liberdade; Maurício, porém, não tivera sorte igual: ao rastejar até a metade do túnel, as paredes desmoronaram à sua frente. Espremido, fez o que pôde para recuar naquela escuridão, tentando convencer aos gritos os companheiros que vinham atrás a fazerem o mesmo. Na confusão claustrofóbica que se estabeleceu, ele e mais oito detentos morreram asfixiados.

O noticiário do dia seguinte ressaltou reiteradamente o feito de Zeca e dos outros que lograram escapar; os que morreram sem ar mal foram mencionados. Não tenho a intenção de julgar se Maurício merecia ou não o fim que lhe foi dado viver, presidiários experientes como ele avaliam com cautela o risco de morte antes de aventurar-se pela boca de um túnel. O que seria didático destacar nesse episódio é que a vida no crime tem grande probabilidade de terminar de maneira trágica. Muito antes de perdê-la precocemente, ladrões, estelionatários, assassinos e traficantes abrem mão do bem mais sagrado da condição humana: a liberdade.

Perdem a liberdade mesmo antes de serem enjaulados nas cadeias, porque a possível chegada da polícia não lhes permite momentos de descontração. Se estão sem dinheiro, arriscam morrer em assaltos; quando conseguem obtê-lo, correm perigo de ser delatados, assassinados por companheiros gananciosos, achacados por policiais que desonram suas corporações, ou de passar vários anos na prisão.

“O que mais sinto saudade é do tempo em que podia entrar num bar, pedir uma cerveja e sentar de costas para a porta”, queixou-se uma vez um bicheiro recentemente metralhado num posto de gasolina da Zona Norte.

Na cadeia é que a vida do ladrão conhece seus momentos mais dramáticos. James Joyce, no livro O retrato do artista quando jovem, fala do professor jesuíta que, ao descrever o Inferno para seus alunos, insiste que lá, muito pior do que o calor do fogo, do que as torturas e a eternidade da condenação é a companhia dos demais habitantes. Na prisão acontece o mesmo: piores do que a restrição de espaço, a falta do que fazer, a sucessão dos dias idênticos, a nostalgia nos fins de tarde são as perversidades que os próprios presos cometem uns contra os outros.

Tão grande é o perigo, que o maior anseio do homem preso não é a liberdade, como poderíamos imaginar, mas permanecer vivo na cadeia.

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